Universo da obra
Universo da obra
i Я caverna da Morte ficava no fundo da floresta lugubre , entre arvores cujo tronco , d'um amarello tábido, tressuava ichor infeccionando o ar com o fétido nauseante . Pantanos succediam-se coalhados de balseiros sobre os quaes enxameavam lucidas moscas . Pelas raizes , que se retorciam acima do lôdo , emergindo do extenso nateiro , colleavam vermes repugnantes deixando um rastro viscido que alumiava . De galho a galho esvoaçavam tontas, batendo surdamente as azas negras, aves trágicas e eram trissos , crocitos, chirrios respondendo aos coaxos soturnos que subiam das aguas estagnadas .
A luz do sol não conseguia atravessar a fronde compacta do arvoredo que, ás lufadas do vento frio, produzia um soído merencoreo entristecendo ainda mais o espantoso degredo . Sombras iam e vinham, qual mais sinistra e, por onde passavam, infundiam terror : os proprios arbustos enfezados vergavam estarrecidos e se alguma roçava por elles logo se lhes mirrava a folhagem e morriam . Só as moscas e os átomos lethaes seguiam-nas em legiões e, das altas franças , as aves agoureiras saudavam com as suas vozes presagas as serviçaes lemuricas . A Morte fazia o seu repasto no fundo da caverna . Deante d'ella empilhava-se um acervo de cadaveres nos quaes se ia cevando o monstro, quando soaram pancadas rijas á entrada, junto á lura em que jazia o Somno, porteiro da triste residencia . Deitado sobre papoulas dormia pesadamente e, certo, não se teria levantado se o visitante não o houvesse sacudido com violencia . Eh ! amigo, é assim que fazes o teu serviço ? Poz-se o Somno de pé estremunhado, esfregando os olhos mal abertos e, encarando o importuno, perguntou com enfado : - Que queres ? -Venho a negocio e com pressa. Vai lá dizer á tua rainha . Avia-te . Quem és ? Quem sou ? Fita os olhos em mim e logo saberás o que perguntas . Um diabo . -E's mais esperto do que um esquilo, amiguinho . Isso mesmo : um diabo, embaixador de Satan . Vai e não te demores . Foi-se o Somno de vagar, bocejando . Parava com preguiça, encostava-se ás paredes, a cochilar, coçando a cabeça, arrepellando a grenha, aborrecido . Sentou-se o diabo em um tronco de mancenilha e ficou entretido com as troças que faziam os pequeninos sonhos a um pesadello casmurro que resmungava a um canto. Mal o Somno tornou, logo deitando-se no seu leito de papoulas, levantou-se o diabo : Então ? - Póde entrar, disse o porteiro , accommo
dando -se . Foi-se o diabo , não sem resmungar contra a falta de asseio e a desordem que ia notando na caverna atulhada de ossos , encharcada em sanie e tresandando de atordoar . Dando com a Morte, que se adeantara para recebel-o, saudou-a em nome do Principe das Trevas . Bemvindo sejas ao meu antro , disse o trasgo offerecendo-lhe um escabello feito de ossos, e logo subio ao seu throno que era uma pyramide de craneos . Estou ás tuas ordens . Fala . - Pois é verdade , disse o diabo relanceando a vista pela caverna . Venho aqui propor-te um negocio . E ' elle o seguinte : Resolveu meu amo e senhor corrigir a obra de Deus compondo uma Humanidade como convém ao mundo . A morte sorrio mostrando os dentes amarellos . -Sorris ? guarda a tua ironia para mais tarde e ouve . O corpo humano é barro, qualquer oleiro caprichoso póde fazer uma obra prima no genero e lá no mundo ha estatuarios mais peritos do que o Creador do Homem .
Has de concordar que Eva não valía a Venus de Milo e Adão, posto ao lado do Apollo, faria tristissima figura . Corpos fará meu amo e senhor quantos quizer, bellos ou hediondos ; o que elle nunca poderá fazer é ... a alma . E' justamente por tal motivo que aqui venho com uma proposta . Deves ter nesta furna muitas almas ? Tenho . Vende-m'as . Vendel-as ! Sim, impõe o teu preço . Quanto me dás por ellas ? Quanto pedires . Peço-te Desespero e Medo . Desespero e Medo !? Sim ... O Desespero e o Medo fazem tanto (senão mais) como os males que andam a meu serviço . Recebo aqui diariamente grande quantidade de mortos que não trazem o sello da minha legião : vêm uns do suicidio , outros do terror. Eis porque proponho dar-te as almas que quizeres a troco do Desespero e do Medo . - Pois seja . Terás o que pedes . Vamos lá agora ver as almas .
Seguiram por uma galeria calçada a ossos, alumiada por fogos fatuos, e foi o diabo explicando : - O Principe das Trevas, meu amo e senhor, pretende dar ao mundo uma Humanidade activa, sem preconceitos futeis, independente e audaz . O sentimento é um entrave embaraçoso, a honra é uma preoccupação banal . Ousadia, violencia, aventura ... eis a vida . E' preciso espremer toda a ternura do coração, substituil-a pelo egoismo . A Morte parou e, mostrando as paredęs lividas onde luziam numeros marcando divisões , disse: -E' aqui o meu deposito . Temos, em primeiro logar, almas de creanças . O diabo fez uma careta . Almas de adolescentes , almas de virgens immaculadas . Poz-se o diabo a assobiar. Parece que não te agradam ? -Queres franqueza ? Essas coisas são magnificas para poetas lyricos . Não tens outra secção ? - Tenho varias . Sem irmos muito longe, aqui mesmo ao lado está a das almas dos martyres .
Pulhas ! rosnou, com desprezo, o comprador. São velharias sem cotação . Meu Principe não é collecionador de antigualhas . Adeante é a das almas dos justos . Hum ! almas de justos ... Imagino o que nellas vai de bolôr. Conheço-as ! São como essas mulheres que, por não acharem noivos, dedicam-se a animaes : gatos, periquitos, cães ... ou á maledicencia. Vamos adeante . Quero almas energicas . Perversas, queres dizer... ? Por Belzebuth! é isso ! Perversas, crueis, activas em summa . A cueldade é uma força, como a paciencia é uma covardia . Mais vale o bote traiçoeiro do tigre do que o rebaixamento do cão . Pois seja como queres . Acompanha-me . Metteram-se por uma galeria tenebrosa onde zoava o vôo dos morcegos . Chegando a um pateo sordido vio o diabo um monte lobrego de escorias que fervilhavam como vermina. Deteve-se intrigado e, depois de olhar, perguntou : - Isto, que é ? - Lixo , immundicie .
Immundicie ! Sim; almas de hypocritas e de aduladores . Deu o diabo um salto : Hein ? Como dizes ? Almas de hypocritas ` de aduladores ? Sim . Mas atraz disso ando eu, minha amiga. Fico com todo o monte e peço-te que me reserves quantas d'essas almas apparecerem por cá. Almas de hypocritas e de aduladores ... Mas não quer o meu Principe outra coisa. O hypocrita é de cêra amolda-se a tudo ; o adulador é de aço - flexivel, mas resistente : dobra-se, mas quando se apruma traz o golpe no gume . O hypocrita é como o punhal: uma lamina assassina engastada em uma cruz . O adulador é o arco que, quanto mais se curva, mais força imprime á flecha que despede, enfeitada de vistosas e macias pennas de lisonja. Que achado ! Almas de hypocritas e de aduladores ! Com ellas vai o meu Principe crear a legião formidavel que ha de senhorear o mundo . Aqui tens o teu preço : o Desespero e o Medo . Assim dizendo , deu o diabo á Morte um cha
velho doirado ; e explicou : N'este escrinio encontrarás duas ampullas de crystal, abre-as e o seu conteúdo , espalhando-se no mundo, irá infiltrando nas almas os males que desejas . E agora , amiga, entrega-me o teu lixo, a tua immundicie preciosa, o teu monte de esterco . E rinchavelhou afagando a pera fulgurante, que era uma chamma de cirio invertida. Que achado ! Como vai rejubilar o Principe das Trévas . Como vão trabalhar com interesse os oleiros do Abysmo ! Hypocrisia e adulação ... que mais é preciso para vencer na vida ? Adeus , amiga . Reserva-me quantas dessas almas receberes . E, batendo com o pé, que era de bóde, abriose o solo e por elle sumiu-se triumphante, trepado no monte d'almas que a Morte considerava mais vis que as dos assassinos, dos falsarios e dos ladrões .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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