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Capítulo 10 · Fabulário

O relógio e o vegete

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O relogio e o vegete S ABIA certo philosopho da vaidade de um seu amigo que, sendo septuagenario, procurava, a todo o transe, fazer-se passar por moço . Pintava-se e , só para este artificio, tinha uma enorme bateria de frascos . Os cosmeticos eram ás duzias e, no toucador, os bastões rolavam ás pilhas e eram potes de pomadas, caixas de polvilhos , ferros, escovas, limas e tesouras . Todos os dentes postiços lembravam as imagens funeraes com que, sobre os tumulos , se recordam os finados e o busto, que corcovava, era mantido a prumo pelas laminas de aço de um collete .

Certa manhã, procurando-o o philosopho, achou -o atarefado em remoçar-se . Afundou na primeira poltrona com um livro e, emquanto o velho reparava os estragos da velhice, fingio-se interessado na leitura . Um momento sahio o pachola e logo o sabio, pé ante pé, foi ao grande relogio, cujos ponteiros marcavam o meio-dia, e parou-o . Reappareceu o velho sarapintado e ageitado em quarentão, teso e liso, os cabellos e a barba de azeviche, mas os olhos ... ai ! delles, já vasquejavam no fundo escavado das orbitas . Sahiram para o almoço . A' mesa a palestra foi longa : o velho falou de amores, referindo galantes aventuras ; o philosopho sorria, gabando-lhe a fortuna . Subia o calor - não só do sol como dos vinhos e licores, que foram varios e copiosos. Passaram ao terraço e, tão doce era o ar em tal recreio , tão commodo era o recosto molle das poltronas, tão capitoso era o perfume do jardim, que alli se ficaram os dois discreteando suavemente, com cabeceios de somno que os faziam mesurar de quando em quando .

Lenta vinha vindo a tarde e o velho, que não descurava os fingimentos, tornou á camara a refazer, com unguentos e cosmeticos, o que o suor compromettera . Ao entrar, porém, consultando o relogio, pasmou de o ver parado . sopho . Parado o relogio ! Parei-o eu, disse serenamente o philoTu ! Com que fim ?! Desejando tornar mais longo o nosso convivio, não quiz que os ponteiros sahissem do meio-dia . Dobrou-se o velho a rir do que lhe parecia grande necedade . - Temos um novo Josué ! Julgas, então , que, parando o relogio, detens a marcha das horas ? Não rias, porque, foi comtigo que aprendi tal lição . - Commigo ! Sim, comtigo . Infelizmente, porém, estou convencido do meu erro e praza a Deus que o mesmo te aconteça . Parando o relogio

ao meio dia nem por isso consegui evitar que as sombras da noite viessem sobre nós . Ellas ahi estão , e pesadas , apesar do estratagema . Mira-te agora ao espelho, tu . Não fazes em ti o mesmo que fiz ao relogio ? Olhando os ponteiros dá-se logo pela inercia da machina, porque ninguem se engana com o tempo . Assim, quem te vir, ainda que te besuntes com todos os oleos da terra e tinjas os cabellos com todos os preparados chimicos, não se illudirá com a fraude . Queres fixar a mocidade como eu quiz reter o tempo, parando o relogio, que lá está immovel no zenith sem que, por isso, refuja ao negror da noite que já o vai cercando . O Tempo é como o sol, meu amigo : ninguem o esconde, não ha rebuços que o encubram . E' meio-dia no relogio e já por ahi andam a trissar morcegos . Assim tu - fazes-te moço, escondes a verdade e ella resalta flagrante em todo o teu corpo . Vamos lá, meu amigo, não nos queiramos illudir oppondo tropeços ao que não pára. Pódes enterrar um raio de sol ? foi este um sonho

que Averrhóes tentou inutilmente . Deixa-te de artificios lava-te e apparece como és emquanto eu vou acertar o relogio, pondo-lhe os ponteiros sobre as horas que são .

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Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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