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Capítulo 17 · Fabulário

Alpheu

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rio Alpheu, principe das aguas do Peloponeso , atravessando a Arcadia arvense e a Elida divina, lança-se no mar Jonio . Por vezes some da superficie do solo correndo em alveo subterraneo , mas adeante reflue escachoando , recava o leito e prosegue no curso murmuroso, ao sol, retratando o arvoredo que sobre elle pende e desalterando os rebanhos soltos nas pasturas ribeirinhas . Por tão pouco não o teriam celebrado em carmes, que são eternos, os poetas da antiguidade, mas a razão do seu renome é das que merecem altisonos louvores, ao som conjuncto das lyras e das frautas .

Alpheu vivia sem cuidado, entretido com o suave governo das suas aguas obedientes . Era um nume apposto, de feição graciosa e porte esbelto . Os cabellos , em cachos, eram d'ouro ; os olhos, de azul celeste; a tez, mais branca do que os alvos pórphyros . Quando, no estuar do verão, as cigarras buscavam o arvoredo nascido á beira das suas aguas e, entre a folhagem, desferiam o canto, Alpheu acompanhava-as com a lyra e não só os egypans dos bosques, ligeiros nos seus pés caprinos , como as nymphas mimosas e ainda pastores 'e zagalas corriam a ouvil-o e em quêda attitude, escondidos nas moutas, ficavam deliciados gozando o concerto airoso . Naiades desciam as ribanceiras e núas, formosissimas , entregavam-se-lhe lascivas. Elle tinha-as nos braços, recebia-lhes os beijos, sorria-lhes ás lagrimas de ciume, tanto, porém, que uma ave preludiava, de improviso, travando do instrumento, punha-se a tangel-o acompanhando o passaro melodioso .

Tinham-no as deusas por indifferente e muitas apartaram -se despeitadas dos sitios que as aguas de Alpheu molhavam . Um dia, porém andava Flora a desperArethusa, da Achaia, tar as sementeiras nympha de deslumbrante formosura, trilhando as devezas da floresta, á caça, perdeu o carreiro conhecido e abalsou-se no mais denso da espessura . Era estio ; o sol ardia em fogo . As folhas das arvores luziam crepitando e a terra queimava como o rescaldo das fogueiras . Ia a nympha apartando arbustos languidos , a arquejar de fadiga e de calor quando ouvio o murmurejo d'agua . Amiudou os passos leves por sobre a alfombra agradavel e, contente, achou-se á margem do rio crystallino, tão limpido que se lhe viam os seixos no fundo das areias brancas e os peixes nadando tão serenos, uns doirados, outros em espadanas de prata, que os olhos acompanhavam-nos nas evoluções ariscas , nos arremessos, nos saltos lampejantes ; viam-nos um a um espalmando as barbatanas ou em cardumes, miúdos, fervilhando á volta

das finas raizes ondulantes das algas e dos nenuphares . Arethusa desceu ao rio , mirou-se vaidosa nagua que se aquietara em remanso, tão liso como um espelho polido, sentio-lhe o frescor, primeiro com o pequenino pé, logo fugido, e rindo, despio-se pendurando as vestes nos ramos floridos; depois, cruzando os braços ao collo, escondendo os mimosos seios, ficou indecisa sentindo um voluptuoso arrepio como de beijos que lhe corressem ligeiramente o corpo . Resoluta estendeu rijamente os braços, juntando as mãos á maneira de prôa e arrojou-se d'alto , mergulhando . Sentio Alpheu o perfume da carne virgem e logo, sobresaltado, emergio do seu palacio de crystal radioso e, emquanto a nympha vogava sob as ondas, galgou precipite o barranco e , escondendo -se entre os juncos, ficou á espreita . O corpo da donzella subio a frol do rio, bran- • co, como feito de espuma, com os cabellos espalhados sobre o collo e sobre o ventre como se o sol a houvesse acompanhado . Ora nadava ás braçadas, perdendo-se entre

as açucenas, ora afundava e os peixinhos aligeiravam-se fugindo : ou, trepando a uma pedra, balançando-se um momento, meneando com os braços e, soltando um grito, precipitava-se e lá ia, partindo as aguas, tomar pé em uma ilhóta ou rodopiava, trebelhava, deixando-se levar ao som da corrente . Alpheu, que não tirava os olhos de Arethusa, inflammou-se em paixão . Um ardor novo , nunca dantes sentido, impellio-o para a nympha . Lançou-se á agua e, rapido, alcançou a hospede formosa . Enlaçou-a, prendeu-a nos braços, ia beijal-a, mas a donzella escapou-se-lhe ligeira, em gritos assustados . Lésta, chegou á margem, foi-se ribanceira acima e, sem pensar na nudez em que se achava , deitou a correr fugindo ao rausor ousado . Corria e Zephiro mal the acompanhava os passos e, seguindo-a, com ancia, lá ia o namorado e, pós elle, em cachões convulsos e atropelladas ondas espumantes, o rio, alagando campos e convalles, circumvagando cerros, encharcando pacigos, assolando pomares .

Entrou a nympha em uma caverna cujo labyrintho descia pela terra a dentro ; seguio-a Alpheu e, com elle, sepultaram-se as aguas fragorosas . Adeante reappareceram á luz . Arethusa chegára á praia, ante o mar immenso, sem uma vela, apenas com as alcyones voltivagas . Voltou-se a nympha e vio ao longe Alpheu . Então , intrepidamente, metteu-se ao mar . Deu-lhe a vaga no ventre, chegou-lhe ao seio, subio-lhe á garganta. Estirou-se, poz-se a nadar e, graças á Dictynna, a casta irmã de Apollo , abordou á ilha de Ortygia, perto de Syracusa , e alli Diana, para defendel-a, tocou-a de leve . Petrificou-se-lhe o corpo, mudaram-se-lhe os cabellos em cannas sussurrantes, os olhos tornaram-se em lyrios roxos, os dentes em seixos claros e de todo o seu corpo, como de uma rocha marmorea, a agua jorrou em fonte . Alpheu chegou á beira do mar Jonio . Ia a nympha tão longe ! Deixal-a ir, perdel-a... não era de apaixonado . Que importava a furia do mar roleiro ? O empollar das vagas não era mais violento do que o seu desejo .

Não se ateve ao receio e arrojado, rompendo a levadía, abrio, no salso campo, caminho ás ondas fluviaes do seu cortejo . E lá foi o rio , mar fóra, atrás da nympha fugitiva . Debalde o marouço atropellava o temerario . Se eram abysmos, por elles afundava; se eram muralhas , indomito escalava-as e lá ia e com elle as aguas cursando o mar que as não domava . E chegaram á Ortygia, deus e vassallas humidas, e logo a ilha socegada atroou a voz appellativa : «Arethusa ! Arethusa ! » O bosque ecôou em som retumbante e no bosque chorava a fonte nova . Achou-a Alpheu e, reconhecendo na pedra o corpo da sua amada e no murmurio a sua voz, cercou a fonte com as suas aguas e alli ficaram os namorados confundindo os queixumes á sombra do arvoredo em flor . Arethusa ! Arethusa ! E foi assim que o rio Alpheu abrio caminho atravéz do mar Jonio , levando as suas ondas doces por entre os vagalhões amargos e tumultuosos . :

Sorris . Historias do paganismo, dizes. Maior victoria que a de Alpheu póde contar quem conseguio vencer a indifferença . Vencer o mar, que é isso comparado á empreza audaciosa de affrontar um coração de gelo ? Se os poetas cantaram Alpheu com tanto estro , maior som tirariam dos seus versos se soubessem a historia de um coração ... que tu conheces .

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Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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