Universo da obra
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Q UERENDO o principe offerecer ao templo uma imagem de Apollo digna do edificio grandioso que mandara construir para honrar a divindade esplendida e levar, pelos seculos vindouros, a fama da sua grandeza, convocou os mais celebres estatuarios do reino para uma conferencia em palacio . Apresentaram-se tres artistas, qual d'elles de maior nomeada . Disse-lhes o principe o que pretendia ajuntando, com largueza, que não fazia questão de preço e que pedissem tudo quanto julgassem necessario á bôa execução da obra d'arte, que devia ser bella e solidamente feita para que deslumbrasse e resistisse aos seculos .
Senhor, disse o primeiro estatuario , daime ouro e eu vos trarei uma estatua tão bella que, no dia em que fôr installada no templo , os homens da terra terão a illusão de estar contemplando o proprio conductor do carro do sol . E o principe ordenou que se cumprisse a vontade do artista . Senhor, disse o segundo estatuario - farei de prata o corpo, farei de ouro as vestes e cobril-as-ei de pedras preciosas . Será tão formosa a imagem que os deuses baixarão do Olympo para contemplal-a e, de pé, no altar do templo , dispensará a luz do sol e a claridade das lampadas porque os raios que despedir illuminarão gloriosamente o recinto . E o principe ordenou que fosse satisfeito o desejo do artista . Foi a vez do terceiro estatuario . Era um velho, de barbas brancas, tão longas que lhe chegavam á cinta. Caminhava lentamente e, curvando-se ante o principe, falou com respeito e modestia : - Senhor, dai-me um bloco de marmore puro e tempo para que eu nelle trabalhe e pro
curarei fazer o maximo que a um homem é dado fazer . Foram-se os tres esculptores com o que haviam pedido e, em todo o reino não se falou, durante mezes, em outro assumpto senão no concurso chamado « divino » . Ainda ia em meio o primeiro anno quando o artista que pedira ouro appareceu orgulhosamente na côrte com o seu Apollo . Foi um acontecimento e não faltou quem louvasse a grande actividade do modelador. Descoberta a figura foi um deslumbramento : a imagem irradiava como o proprio sol . Mas um perito , adeantando-se á turba, poz-se a mostrar defeitos que muito compromettiam o trabalho e outras vozes criticaram, uma a expressão , outra a attitude; esta notava a falta de magestade, aquella as desproporções . , Vale porque é de ouro disse por fim o perito . E o principe, desgostoso , mandou fundir em moedas a estatua que fôra destinada á adoração dos crentes .
Pouco tempo depois annunciou-se o segundo estatuario . Ainda que o seu trabalho revelasse maior esmero não o acharam, todavia, digno de occupar o solio em que devia ser erigida a imagem olympica . -E' bella e é rica, refulge, mas falta-lhe magestade . E ' uma linda figura humana e nós queremos um deus . E a estatua de prata e ouro, com recamos de pedrarias, ficou ornando uma das salas do palacio. Do terceiro estatuario não havia noticia e já corriam murmurações ironicas, boquejos de menoscabo : «Desistio da empreza . Era velho de mais para trabalho que exige inspiração viçosa . Anda, sem duvida, a fazer figurinhas, como as de Tanagra, para vendel-as aos forasteiros .>>> Uma manhã, porém, com sorpreza de todos, appareceu o velho em palacio com o seu «deus » envolto em pannos de linho . Ainda que ninguem confiasse no seu trabalho, juntaram-se todos os cortezãos em palacio,
só por subserviencia ao principe e os serviçaes descobriram a imagem . Houve um movimento de espanto . Maravilhados, embevecidos quedaram todos contemplando a figura olympica, Apollo, o magnifico que, de pé sobre nuvens, a cabeça aureolada de raios, o olhar sublime, parecia dominar serenamente os homens . Este sim ! Este é Apollo augusto ! bradaram . Este é o deus solar, dominador da altura . Descendo do throno o principe felicitou o artista e, depois de o haver engrandecido com palavras de louvor, perguntou : A que deus pediste a graça de tão formosa inspiração ? Ao Tempo , senhor . Outros exigiram metaes e pedras preciosas, a mim bastou o marmore puro . Para enriquecel-o eu çontava com o Tempo . Se para uma curta viagem são necessarias muitas horas como havemos de affrontar os seculos de afogadilho ? A inspiração é a flôr do genio, mas não exijamos que ella dê fructo saboroso logo que desabroche . E' preciso deixar que o Tempo faça
o seu officio . Se um deus me patrocinou foi a Paciencia ; se um demonio comprometteu a obra dos que me precederam, foi a Pressa . Senhor, os seculos são longos e quem se destina a atravessal-os deve ir de vagar . Quereis saber como se consegue a Eternidade ? com o Tempo .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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