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Capítulo 23 · Fabulário

Gemeos

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vento gemia com angustia humana e o arvoredo , muito mal tratado do inverno , debatia-se em convulsões de desespero, despedindo as ultimas, amarellecidas folhas dos galhos que se retorciam . Cães uivavam lamentos e, a espaços, golfadas d'agua batiam nos vidros com o estrondo das despejadas cachoeiras precipitando-se arrojadamente dos altos, escarpados fraguedos . Não passava sombra d'homem na estrada e o estalajadeiro, achegado ao lume, esfregava as mãos grossas arrancando do peito suspiros cavernosos . Quem se atreveria a afrontar os caminhos com tal noite? Tão assoladas haviam ficado as

estradas que a diligencia estava em atrazo de tres dias, naturalmente porque não pudera vencer os andurriaes e ficára, talvez, atolada em algum lameiro . Por vezes o vento, investindo com a porta fazia-a tremer nos gonzos como abalada por pulso robusto de viador ancioso . O homem voltava a cabeça, esperava um momento que se repetisse o appello , mas o vento já por longe andava e eram as arvores que lhe soffriam os embates . O estalajadeiro , inteiriçado de frio , deixava-se ficar encorujado como se uma esperança o prendesse áquella esfarripada cadeira em que, desde o sobrio jantar, jazia amodorrado e combalido de tristeza, com pensamentos que lhe punham o coração em sobresalto . Não fizesse elle para o fisco e os serviçaes impiedosos da justiça d'El-Rei, patrono do povo, entrariam cancello a dentro e, desde a vinha que no viço do outono, colmava a varanda alegre com a sua folhagem, por entre a qual pendiam os roxos cachos pyramidaes, até as figueiras do fundo do pomar e a casa, e os moveis, os pombos

que arrulhavam nos pombaes, as abelhas que enxameavam os corticos, os gordos cevados que se alapardavam no lodo da possilga tudo, ai ! d'elle , the seria violentamente sequestrado para que o Rei, senhor das gentes, não ficasse sem as duas moedas que lhe eram devidas . O pobré suspirava e, de cada vez que o vento levantava lá fóra a sua grande voz de soffrimento ou as bátegas da chuva resoavam nos vidros o desespero fazia-o clamar com blasphemia contra o bom Deus que o abandonara aos esbirros , o bom Deus que, podendo amainar aquelle vento e seccar aquelle ceu, enchendo-o de lumes d'astros , mais soltava a tormenta.. Assim pensava o bom homem quando ouviu pancadas á porta e vozes bradando : «Abri! Abri! » Levantou-se de repellão e, d'um salto , achou-se junto ao postigo . Descerrou-o e logo os seus olhos descobriram, ao livor d'um relampago, um vulto que se atabafava, retranzido , em grande caара . Tirou ligeiramente a tranca e, com uma lufada que fez crescer a chamma no fogão e levou da parede velha, encardida gravura heroi

ca, na qual estava figurada desigual batalha entre anjos aereos e demonios terrestres, o vulto arrojou-se na sala lugubre e logo, atirando a capa, mostraram-se dois jovens, lindos ambos : um muito alvo e louro , d'olhos azues, risonhos , os cabellos em anneis graciosos rolando-lhe pelos hombros de talhe feminino ; outro moreno, severo , d'olhos negros e faiscantes como brazas . Eram tão semelhantes no todo, de proporções tão eguaes que, á primeira vista, logo os davam por irmãos . O estalajadeiro ficou um momento immovel, maravilhado com a belleza e o donaire dos mancebos que vinham de noite tão agreste com o ar tranquillo de quem chegasse, contente, d'um tepido luar de estio . Dá-nos vinho quente adoçado a mel e serve-nos algo que trazemos fome velha . E avia-te! Queremos deitar-nos cedo porque antes da madrugada, faça o tempo que fizer, havemos de estar em marcha para a cidade . O estalajadeiro não se fez repetir a recommendação . Lésto , alegre, rebuscando no velho armario, achou um quarto de anho, salpicão ,

queijo, nozes, qvos frescos e uma loura borða de milho cosida n'aquelle dia . Ceia maravilhosa ! O vinho era excellente e duas vezes o bom homem levou o cantaro ao torno e duas vezes os hospedes louvaram a cêpa que estillara tão saboroso nectar . Fartaram-se e, regelados, abeirando-se do fogo, alli ficaram juntos, aconchegados, as finas mãos estendidas para o lume que o estalajadeiro avivara com dois toros de lenha secca . Boa fortuna n'estes páramos? indagou o mancebo louro . -Ai ! de mim... bòa fortuna... Estou em vesperas de perder o que tenho dos meus avós o lar em que nasci, que é este, cercado d'arvores generosas, plantadas pelos bons velhinhos que Deus tem na sua graça. Com este inverno quem se atreve a metter-se a caminho por estes sitios fragueiros e de tão más noticias? Só pastores por aqui apparecem, comem um naco de carne, tomam um gole de vinho a troco de uma moeda de cobre e partem. Que é isso para quem ha de entrar com duas moedas de ouro para a bolsa dos cobradores que an

dam em visita aos casaes e estalagens? Ai! de mim... Não te queixes, homem, que não ha razão para lamentos . Gemidos bastam os do vento . Somos a tua fortuna, bemdize a tormenta que aqui nos trouxe . Por nós virão ao teu casebre principes e has de ver-te tão atormentado com hospedes nocturnos, que os amaldiçoarás do teu leito quando, noite alta, ouvires bater á tua porta e vozes bradarem freneticas contra a lentidão de teus passos . Não te lamentes mais . Dá-nos vinho e prepara-nos um leito em que havemos de repousar até a madrugada . Voltou-se o estalajadeiro intrigado com a recommendação . Um leito, dissestes? ... Pois um só quereis , sendo dois? Um só . Nunca nos separamos . Nascemos juntos e juntos sempre andamos, porque um sem outro seria tão impossivel como haver vida em corpo privado d'alma . Bem, bem . Seja como ordenais . Sendo assim ireis dormir no quarto melhor da casa , que é o que dá sobre os campos . Lindo quarto!

Alli nasci eu . Antes, porém, como o regedor exige que tenhamos um livro de registro para que n'elle tomemos os nomes dos viandantes , peço-vos que vos assigneis emquanto vou dar uma vista d'olhos no quarto, lindo quarto! onde dormireis como no Paraiso . Na primavera é um gozo- respira-se o arôma dos fenos e os rouxinóes cantam no beiral da janella até o nascer do sol . E' um gozo! E foi-se escada acima . Prompto que foi o aposento, chegando ao patamar o estalajadeiro falou aos mancebos : -Vinde! O leito espera-vos . Accendi um bom lume e o quarto está tepido como um scio . E os mancebos subiram abraçados, um cantando, o outro sempre taciturno . Desceu o bom homem e encontrando sobre a mesa duas moedas de ouro, pasmou da generosidade e radiante: -São principes, de certo, exclamou . Talvez - ha tanto d'isso! - namorados . O d'olhos azues tem um ar de donzella... Que importa ! Bem lhes saiba o somno . E, guardando as moedas no bolso , disse : O cobrador é que vai ficar

aturdido quando eu lhe responder á arrogancia com estas lindas moedas de ouro . Só então a curiosidade de saber quem eram os dois jovens, tão lindos! que lá estavam no lindo quarto, juntos no mesmo leito, fél-o recorrer ao livro em que elles haviam deixado as assignaturas, e então, leu estes dois nomes : Amor . Ciume .

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Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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