Universo da obra
Universo da obra
E M escusa e sordida viella, que era um tremedal nauseante entre arruinados casebres , na baiúca mais acaçapada e tão velha que os muros fendidos abriram-se em largas brechas por onde, ao cahir da noite, sahiam, aos trissos , révoas de morcegos, em companhia d'uma escaveirada bruxa, vivia um velho mouro, tido por feiticeiro por ser mui sabido em curas e profundamente versado na sciencia dos augurios . Os seus philtros operavam como se fossem o proprio elixir da vida, cuja formula os alchimistas procuravam . Enfermo á cuja cabeceira o mouro se sentasse , ainda que houvesse sido desenganado por todos os physicos da cidade logo readquiria o
espirito e sarava . Horoscopo que elle tirasse consultando os astros cumpria-se com a precisão com que o sol faz o seu curso no ceu . Era tão celebrado o poder do homem magico que os christãos, sempre acirrados contra os marranos da sua laia, gente aleivosa e má, aparceirada com o demonio, indigna do ar e da luz, temiam-no e respeitavam-no e os fidalgos de maior entono, depois do toque de correr, quando as ruas escuras ficavam a discrição dos volteiros temidos, cuidadosamente embuçados, renteando os muros erriçados de hervas, onde piavam corujas lugubres, iam pela viella em passos ligeiros e, com o punho da espada, batiam rijamente á porta do mouro desapparecendo de repellão nas trevas do corredor . Uns , dados a amores, iam buscar amavíos ; outros , achacados, iam a remedios . Ainda os havia crentes que confiavam nos grandes livros cabalisticos nos quaes o mouro decifrava presagios sempre venturosos : annuncios de riquezas e honrarias, victorias em expedições, sorte em amores, tal fosse o consultante : namorado , ambicioso ou cavalleiro .
Um dia correu a cidade a noticia de uma grande e maravilhosa descoberta do mouro que elle conseguira compor, com o prestigio de um signo , um talisman de ventura . Quem o possuisse teria o que desejasse . Senhor de terras véria a sua lavoura medrar com abundancia, multiplicar-se o armentio, reenxamearem -se as colmeias abandonadas, reviçarem os vageiros . Fontes, desde muito estancadas, borbotoariam aos golfões, arvores sem seiva brotariam 'de novo . Pastores descobririam minas, mesteiraes achariam thesouros, guerreiros teriam os melhores despojos, enfermos ficariam sãos e só com uma volta de canto e um tremulo nos alaúdes os namorados veriam apparecer na adufa o rosto amado, logo ouviriam ranger de quicios e um braço branco, estendendo-se na sombra, recebel-os-ia á porta guiando-os atravéz de corredores silentes á camara tão ardentemente desejada . Com tal noticia foi immenso o alvoroço entre os homens e todos affluiram á baiúca do mouro e as escarcellas de velludo , as bolsas de couro
despejavam moedas na banca do descobridor do talisman da ventura . A viella, dantes socegada e deserta, mais silenciosa que um almocovar maldito, onde nem aves cantam, encheu-se de gente: fidalgos e villões , burguezes e camponios, todos aldrabando á porta do mouro , desapparecendo , com pressa anciosa, na sombra fria do corredor . A todos o homem magico, em cujos labios pairava um sorriso ironico, entregando o talisman da ventura, repetia as mesmas palavras . - Tendes na mão a chave de toda a fortuna e tudo obtereis, dentro em um anno, se não cederdes á curiosidade. No breve que vos enIrego encerrei um segredo mysterioso . Tive a sua revelação em uma noite de Agosto, á hora em que nos valles e nos desfiladeiros os espiritos bailam á luz funerea do luar . Para que se realise o prodigio é necessario que conserveis o breve tal como vol-o entrego , sem vos preoccupardes com o que nelle existe . Se tal cumprirdes vereis mudar-se a vossa sorte . Tereis as riquezas maiores , todos os amores ; não haverá bravura que prevaleça contra vós
e ainda que as pestes assolem a terra, dizimando os seus habitantes, passareis refractarios a todo o mal, sem que o proprio Anjo sinistro possa alcançar-vos com o seu flagello . Onde os outros virem areia e arro descobrireis ouro e gemmas . A sorte está em vossas mãos ; se abrirdes, porém, o breve, o talisman immediatamente perderá toda a virtude . Assim , é preciso que observeis a condição do mysterio . Se tal fizerdes voltai dentro de um anno á casa do vosso servo, que muito se alegrará em vervos, ouvindo da vossa boca a confirmação do que lhe foi dito pelo genio quando lhe communicou os sete arcanos do talisman que levais . Foram-se os varios homens contentes, jurando que nunca procurariam ver o que havia nas suas nominas, tanto, porém, que deixaram a viella, logo, em todos, começou a curiosidade a prevêr : «Que será ? Sete arcanos ! » E apal-. pavam, cheiravam, viravam, reviravam entre os dedos o breve de couro . « Que haveria alli dentro ?» Alguns affirmavam haver sentido estranho , deliciosissimo perfume ; outros garantiam ter percebido movimentos, como de um animal .
«E' uma pedra, talvez da lua» ; dizia este . «E' uma esquirola de osso » ; asseverava aquelle . Um : - «E ' frio , mais frio que a neve » . Outro : «Abraza que nem fogo vivo » . E discutindo , com as mais desencontradas opiniões, lá iam . Sós, na baiúca : o mouro e a bruxa, puzeram- se a contar as moedas . Ao fim , disse a mulher, que conhecia o segredo do talisman : - Que pensas fazer agora ? E' prudente que, quanto antes, passemos a lugar seguro porque os homens, ao fim do tempo, vendo que nada obtêm do talisman, darão pelo embuste e ... ai ! de nós . Mas o mouro , que era atilado, ajuntando , uma a uma, as moedas luzentes , retorquio com serenidade : E esperas que voltem ? Bem mostras que não conheces a alma humana . Nem um só aqui tornará, porque a condição que impuz será a minha garantia. Dei o prazo de um anno e estou em affirmar que, antes da noite, todos os breves estarão abertos, expondo os seixos que encerram . Satisfeita a curiosidade ficarão os homens arrependidos, mas será tarde e cumprirse-á o que eu disse : o talisman perderá a sua
virtude . Descança - nem um só tornará . O homem, por curiosidade, desceria ao fundo do inferno, se lhe descobrisse o caminho, ainda que todo elle fosse assoalhado de pez ardente . Não te de cuidado o amanhã . Effectivamente o prazo escoou sem que um só dos possuidores do talisman apparecesse . Teriam enriquecido? Ai! d'elles ...
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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