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Capítulo 31 · Fabulário

A estrella de Buddha

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E SPALHARA-SE em toda a Asia, desde as ribeiras do mar salgado até ás neves transparentes das montanhas altas a palavra inspirada de Buddha . Quem a levara ? os bodhisattvas que erram espiritualmente nos ares deixando cahir nas almas a esperança consoladora . Todos os homens, do principe mais poderoso ao . poleá mais vil, sabiam da promessa que o Edificador fizera e, com ancia, o esperavam para o cumular de presentes, fazendo jús ao premio que elle annunciára por intermedio dos genios : «Precedido por uma estrella maravilhosa, que brilhará em pleno dia, Buddha entrará nas póvoas e nas cidades sob a figura modesta de um mendigo . Baterá a todas as portas. Aquelle

que o soccorrer na sua miseria de expiação verá a sua esmola multiplicar-se por milhares de milhões e eternizar-se estampada no céu, em memoria da sua caridade e ainda gosará em vida a graça suave da misericordia dos deuses . » Principes dominadores d'homens, sacerdotes, guerreiros, ricos proprietarios, rendeiros que cultivavam geiras fertilissimas, miseraveis que habitavam cabanas de adobe, todos puzeram de parte o que possuiam de mais precioso para offerecer ao divino mendicante . Mas Buddha, que lia nos corações, quando os espiritos entravam no eremiterio e descreviam os grandes preparativos com que elle era esperado nas cidades e nos villarejos, suspirava com desconsolação . Senhor, disse-lhe, uma tarde, Ananda , seu servo : parece que vos não commove o procedimento dos homens, porque recebeis com tristeza as novas que vos trazem os genios . -Ananda, respondeu o Mestre , despe a tunica de linho, cinge os rins com um sendal de esparto, põe á cabeça um velho turbante, toma um cajado e vai ás cidades ricas e ás aldeias

humildes . Entra nos paços e pede, implora no vestibulo dos templos, chora na eira dos lavradores, soluça e geme no limiar das cabanas e verás que não é a caridade que agita os corações, mas o interesse . Para commover os homens far-te-ei um martyr: as tuas carnes abrirse-ão em feridas, a febre queimar-te-á o sangue, ficarás como um vime retorcido e a tua miseria será tamanha que os proprios animaes das brenhas virão lamber-te as feridas . Vai e conhece os homens ., Disse e, á ultima luz da tarde, abençoou e despedio o servo . Foi-se Ananda e, assim como lhe dissera o Mestre, assim se cumprio . Logo ao deixar o -eremiterio toda a robustez sadia abandonou-o . Abriram-se-lhe em todo o corpo feridas sangrentas , encheram-se-lhe os olhos de sanie, entrevaram-se-lhe os membros e paralytico , mais retorcido do que uma velha cepa, caminhou, quasi de rastos, gemendo e deixando ao longo das estradas largas manchas de sangue denegrido . A' noticia do seu apparecimento era um alvoroço tumultuoso: os principes juntavam as suas dádivas , que valiam provincias, os lavradores faziam sahir os seus carros cheios de viveres que alimentariam cidades . Subiam ás torres os annunciadores a ver se descobriam a estrella de Buddha, mas como apenas vissem os astros conhecidos, desciam desenganados : «Não é o propheta . Não é . » E os principes, os sacerdotes, os guerreiros, os proprietarios e os poleás repelliam, com asco , o desgraçado , mandavam escravos ameaçal-o , açulavam cães contra elle e lá ia o misero evitando as pedras com que o escorraçavam . E assim correu toda a immensa Asia , roendo raizes amargas, bebendo nas ribeiras, dormindo em cóvas de feras, ferindo-se nas arestas do penedio e nos espinhos das hervas venenosas.. Uma tarde, ao cahir do sol, vio Ananda um colmado, mas tão exiguo , tão raso que mais parecia um formigueiro, dos que avultam nas terras sáfaras . Um novello de fumo subia-lhe do apice, em torno cresciam cardos entre as pedras . A fome fel-o avançar gemendo e, a dois passos da pauperrima guarida, implorou agasalho . Levantou-se uma esteira que defendia fragilmente a entrada e uma mulher appareceu, curvando-se, e, ao dar com o desventurado, teve tão grande pena de o ver sangrando , que desceu a recebel-o e, quasi em braços, recolheu-o ao seu tugurio, onde mal cabiam a esteira em que dormia o seu pequenino, uma arca e o lume alegre e rescendente de folhas que alumiava e aquecia o interior . Examinando-o e vendo-o chagado tomou a boa mulher um pouco de balsamo e applicou-o delicadamente sobre as feridas dando allivio immediato ao enfermo e, como o visse tiritando , fel -o abeirar-se do lume . Mas o infeliz, que não comia desde a vespera, queixou-se de fome . Ella então suspirou : -Ai ! de mim . Não tenho migalha. O meu jantar foi uma tamara verde . Que vos hei de dar ? Relanceou o olhar em torno, chegou-se devagarinho á esteira em que dormia o filho , vio-o socegado . Então ajoelhou-se, afastou os andrajos do collo, fez saltar um dos peitos tumidos de leite e, chegando-o á boca faminta do mendigo, disse com simplicidade : E' tudo quanto vos posso offerecer. E Ananda sorveu a goles

sofregos aquelle licor de misericordia, e, saciado, abençoou-a : Que Buddha realise em ti a promessa da sua bondade . falais? Buddha ! exclamou a mulher. De quem Não sabeis ? Pois é possivel que haja na terra alguem que ignore o nome do Edificador da Verdade ! Quem é ? perguntou a mulher ingenuamente . Revoltou-se Ananda com tão criminosa ignorancia e já se levantava para deixar aquelle covil impuro quando, num halo de estrellas , o proprio Buddha The appareceu, sorrindo : -Ahi tens, Ananda . Vieste encontrar a caridade onde ainda não chegára o meu nome . Não a achaste nos paços, nos templos, nas granjas dos ricos nem nas cabanas dos que me adoram, mas no tugurio da creatura simples onde foste acolhido, agasalhado, alliviado e alimentado com o leite dos seus peitos maternos . Que esperava ella quando te recebeu ? o premio da minha promessa ? não, porque nem do meu nome tinha conhecimento . Não foi para me ser

agradavel nem com o interesse de uma recompensa que praticou o bem, mas por amor, por piedade, porque é boa d'alma. Esta é a minha preferida e nella se ha de cumprir a promessa que fiz . Detende-vos , senhor ! Não deis recompensa a quem nem sequer o vosso nome sabe . E honra-me . Vale mais a meus olhos com a sua ignorancia do que todos os crentes, porque fez mais pela minha doutrina do que fizeram os principes poderosos, os sacerdotes, os guerreiros, os proprietarios e os pobres que vivem a apregoar devoção com interesse nas minhas graças . Esta sim, esta é a Caridade desinteressada . A estrella de Buddha eras tu, Ananda, tu que representavas a pobreza e que precedias a minha recompensa . Os ambiciosos procuravam no ceu o que andava de rastos na terra, buscavam o esplendor e não viam o soffrimento . A minha estrella eras tu . Disse e sahindo a noite ennegrecia o campo e o deserto abençoou as terras tornando-as ferteis e logo houve arôma de flores, murmurios

d'agua e vozes de gados . Levantando, então, as mãos ao céu, implorou : Deuses, realisai a promessa por mim feita no eremiterio . Com leite dos seus peitos saciou a mulher a fome do meu discipulo, que as gottas do generoso alimento sejam multiplicadas por milhares de milhões para memoria da caridade, sempre grata aos espiritos elyseos . E logo , atravéz da noite, por entre as estrellas, desdobrou-se, estendeu-se no céu, com uma surdina harmoniosa, a mancha rutila e diaphana da Via- Lactea .

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Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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