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Capítulo 25 · Fabulário

O perdão

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UDAS, depois da prisão do Mestre, receiando a vingança dos apostolos, sahio apressadamente para o campo . Chegando á margem da torrente do Cedron, em ponto em que lhe pareceu mais facil a travessia, colheu a tunica é saltou á primeira pedra . Logo as aguas retiveram-se, como contidas por uma comporta e, embora sempre descessem em rebellados cachões, borbulhando, espumejando com fragor que se ouvia á distancia , nem uma gotta molhou os pés do maldito, que, tolhido de assombro , vio-as crescerem em muralha que rutilava ao luar como o cimo do Carmello no tempo agreste da neve . Tremendo, passou á outra margem, e tanto

que poz pé em terra, traz elle desabaram, com estrondo , as aguas, recontinuando a sua corrida humida pelas pedras, com o branco referver constante das espumas . Deante delle, silenciosamente, as hervas apartavam-se e, se succedia a sua tunica afflorar um arbusto, logo as folhas mirravam, como as da sensitiva, os galhos pendiam mortos . As pedras fugiam ante os seus passos ; viboras assustadas evitavam-no; os proprios escorpiões, dando por elle, rapidamente sumiam-se nas luras . Ao luzir da alvorada ia elle com sêde, por uma campina florida e, ouvindo cantar uma fonte, entre os eloendros, demandou-a com avidez . Era um recanto aprazivel. Alto, frondoso sycomoro espalhava os seus ramos largos as sombrando as aguas e, não longe, uma figueira sylvestre estava coalhada de pombos que arrulhavam contentes sentindo a madrugada . Judas inclinou-se sobre a fonte e, de joelhos na margem, tomando uma mancheia, ia-a levando á boca sedenta quando , instantaneamente ,

vio-a avermelhar-se, engrossar, tornar-se tépida como o sangue . Deixou-a cahir e, insistindo , vio, com assombro , reproduzir-se o milagre . Era a vingança da natureza : as limpidas fontes davam-lhe á sêde sangue . Sem animo de renovar a experiencia deixou-se ficar á beira d'agua e alli sahio-lhe o sol, não em luz, mas em manchas rubras - onde um raio o tocava ficava a macula como de uma ferida . Um passarinho poz-se a cantar de ramo em ramo e a sua voz tinia metallica com o som de moedas cáhindo em lages . Se o reprobo baixava os olhos á agua via , no fundo, não a propria imagem reflectida, mas o retrato de Jesus- era o Mestre que o contemplava sem odio, antes com pena. Se levantava a vista para o céu toda a scena do Horto repetia-se nas nuvens que se conformavam em homens, em arvores , reconstruindo o scenario e o episodio da negregada perfidia . E, mais que as visões, o que lhe causava horror era a voz intima que se não calava,

a voz que lhe repetia no coração todas as meigas palavras de Jesus e lembrava-lhe a sua piedade e recordava-lhe a sua doçura e a elle accusava de ignominia . Como fugir a tão insistente e inevitavel perseguição ? Ninguem se livra da sua sombra como se não liberta da consciencia . Não eram homens armados que o seguiam - cra a sua propria alma que o condemnava e eram as creações da terra que o repelliam. Levantou-se para fugir. O mundo era vasto . Iria ás praias de onde partiam para os paizes longinquos os grandes barcos; tomaria um delles, passaria além e, em cidades desconhecidas, com as moedas que levava na bolsa, faria uma vida prospera, de tranquillidade e goso e depressa esqueceria o transe d'aquella noite, no monte . Lembrou-se , então, de contar o seu thesouro . Trinta moedas com a effigiede Cesar . Trinta moedas ! Correu os cordões da bolsa, despejou-a na terra e, tomando a primeira moeda, sentio-a desfazer-se como se fosse de neve e, gotta a got

ta, diluir-se-lhe entre os dedos . Tomou a segunda e vio-a fundir-se em sangue, ia a tomar a terceira , mas o terror conteve-o . Apressadamente, guardando as restantes, deixou que uma escapasse e cahisse em uma cova . Logo a terra fendeu-se e houve uma crepitação como de sarmento ao fogo e um espinheiro repontou, cresceu, emmaranhou-se e, com tanto viço, que o apostolo ficou enleado por elle e, para fugir, teve de entregar a tunica em farrapos aos aguilhões agudos que lhe rasgavam as carnes . Já o coração lhe batia em sobresalto e o espirito se lhe turbava de medo . Sentia-se só no mundo e a sede cada vez mais intensa . Tornou á fonte negaram-se-lhe as aguas, não mais mudando-se em sangue, mas transformando -se em lodo fétido . U'm fructo parecia chamal-o de um ramo do qual pendia maduro e tão summarento que, em torno delle, esvoaçava, zumbindo, um enxame de abelhas . Foi-se a elle, tomou-o com ancia, mordeu-o e a boca encheu-se-lhe de cinza amarga .

Desesperado, lançou-se fóra daquelle sitio e, correndo , ouvia o tinido das moedas na bolsa , lembrando-lhe a traição . Justamente passava á beira de uma furna de onde lhe pareceu que sahia um gemido . Entrou. A um raio de sol, que descia por uma brecha, vio uma mulher miseravel , que jazia num estrame podre, com um pequenito ao collo , acalentando-o . Dando pelo reprobo não teve uma palavra fitou nelle os olhos e mostrou-lhe, num gesto , o filho que arquejava, sem força, sequer, para soltar um gemido . Judas ficou de pé, olhando aquella miseria e commoveu-se . Então , arrancando da cinta a bolsa da traição , atirou-a á desgraçada que, ao som das moedas e deslumbrada quando as vio luzindo, não conteve a sua alegria . Lançou-se ao apostolo para beijar-lhe os pés , evitou-a o reprobo pedindo-lhe apenas uma sede d'agua . Foi a mulher a um canto, tomou a urna e , inclinando- a, offereceu-a ao homem que lhe salvara o filho .

Judas provou e, sentindo a frescura eo gosto d'agua, bebeu a largos sorvos, soffregamente, depois, saciado, sem que a mulher the falasse, só porque nelle tinha os olhos fitos, cheios de gratidão , poz-se a dizer, arrepellando os cabellos : - Sim, fui eu . Vendi- o aos sacerdotes do Sanhedrin . Flagellaram-no, crucificaram-no . Eu o vi no monte das caveiras . Aos pés da cruz Maria soluçava. Fui eu ! Fui eu ! Por que me olhas ? Guarda o teu filho , esconde-o , esconde-o bem . Fui eu ! Espantada e tendo-o por louco a misera retrahio-se no fundo da caverna , com o filho muito apertado ao collo magro . Judas olhava em torno, esgazeado, e vendo , a um canto, uma corda de linho, apanhou-a deitando a correr com ella como um perseguido . A' tarde , indo a mulher á fonte com a urna ao hombro e contente por haver deixado o filho farto e dormindo em esteira nova , sobre linhos alvos, vio o corpo hirto de um homem pendente de um dos galhos da grande figueira, tendo, sobre cada hombro, um negro corvo pousado .

Attentando nas feições decompostas do morto reconheceu o caridoso hospede que lhe dera a bolsa de moedas . Então ajoelhou-se e, em oração fervorosa, pedio ao Senhor pelo infeliz . Ainda não havia concluido a sua prece quando as aves sinistras levantaram vôo soltando um grito lugubre e uma voz soou docemente nos ares, dizendo : -Deus recompensa todas as misericordias . Então estalou a corda, o corpo bateu em terra e a mulher vio esvahir-se do cadaver uma forma fluida e luminosa que dois anjos acolheram nos braços e com ella foram subindo, subindo e perderam-se nos ares .

Fabulário

Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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