Universo da obra
Universo da obra
Ω A agreste choça de grossos, escabrosos muros de maceria, levantados, pedra a pedra, peas suas mãos debeis, colmada pela densa e florida ramagem de roseiras bravas e madresilas, vivia, em constante e acerba penitencia, a pobre dama Lucilia, viuva de Fabio Lentulo que, por amizade e favor de Tiberio, enriquecera no governo de uma farta provincia . Depois da morte do esposo, muito moça, quasi menina, com um filho nos braços, encerrouse a viuva no seu palacio, um dos mais sumptuosos da Via Sagrada, e a sua liteira, que precursores negros annunciavam aos brados e uma guarda liburnia acompanhava, nunca mais
appareceu na cidade que se agitava curiosa da belleza e do fausto da deslumbrante patricia. Só depois de dezoito annos de silencio abrram-se, de par em par, as portas do palacio á passagem airosa de Lucio Lentulo, o filho tão amado , que o morto deixára infante ao collo da linda esposa . Desde que o mancebo appareceu espalhanco , a mãos prodigas, as riquezas que a mãe, com economia avára, conseguira multiplicar, certaram-no os parasitas elegantes e as mais fornosas concubinas disputaram-no, attrahindo-o ios seus jardins onde o recebiam, languidamente reclinadas sob vélarios de purpura, entre escravas núas que, ao som de frautas, bailavam , desfolhando rosas . O mancebo, que era fragil, pouco temporesistio á libertinagem e, uma noite, ao emborar um crátere em que espumava o vinho alegre da Campania, empallideceu, tombou nos braços dos amigos , golfando sangue e a orgia serenou em presença da morte . Lucilia chorou longamente a sua desventura até que, a conselho de um dos nazarenos que
andavam a pregar a nova religião, distribuindo em largas esmolas a sua immensa e inutil fortuna, uma noite, descalça e miseravelmente vestida, partio da cidade sem deixar vestigio do seu transito . No eremiterio do monte vivia vida miserrima : as roupas cahiram-lhe apodrecidas, cresceram -lhe mais bastos os cabellos louros e a sua virtude era tão pura que, quando subia á fonte, com a bilha, fechava os olhos para não ver a sua imagem no espelho das aguas, receiando incorrer em vaidade . As aves amenisavam a sua solidão e as corças, noite alta, entravam docemente na choça e deitavam-se junto da solitaria lambendo-lhe as mãos meigas, sempre sollicitas em pensar as feridas que os espinhos abriam no corpo dos animaes de Deus . Uma tarde, estando Lucilia em oração - havia dois dias que não levava á bóca alimento -algum- appareceu-lhe um anjo offertando-lhe manjares que pareciam feitos de flores, tão bem cheiravam embalsamando a floresta . Lucilia acceitou o presente do enviado do
Senhor e, de joelhos, devotamente, como se recebesse a hostia, fartou-se d'aquella celestial delicia, sentindo-se logo refeita e tão robusta como se nunca houvesse soffrido miseria . Foi nessa tarde, tão cheia do favor divino , que ella soffreu o seu tormento maior . Dizendolhe o anjo que o Senhor recebia com prazer todas as mortificações, disse a solitaria : Ainda é pouco o que faço para a ventura que me está reservada . Espero a morte com ancia porque só ella me levará á companhia do meu saudoso filho que, ha tanto tempo, me chama do Paraiso . Deves conhecel-o, disse Lucilia ao anjo . E o anjo , baixando os olhos, murmurou : -Não o conheço . - Não estará elle no Paraiso ? Lucio Lentulo , meu filho ? -Não está . - Tão meigo, tão dócil, tão affectuoso ... Terá, por acaso, parado no Purgatorio ? Eo anjo, sem levantar os olhos, fez um gesto negativo . Onde então ? - Teu filho morreu em peccado e os que
assim morrem ficam, para todo o sempre, privados da graça de Deus . -No inferno ! Lucio Lentulo, o meu реquenino Lucio ! Meu filho ! bradou a misera . E eu ? sua mãe ? Como hei de vel-o ? Como lhe poderei mitigar o soffrimento ? Se eu fundir o coração em lagrimas, se redobrar as penitencias passando todas as noites que me restam em claro, jejuando emquanto o corpo permittir, abstendo-me do sol, arrastando-me, de joelhos , pelas pedras agudas dos caminhos, apertando , ainda mais, os nós do cilicio, pastando como os animaes , expondo-me á neve, inventando supplicios nunca experimentados, não merecerei o perdão de Deus para meu filho ? O anjo baixou os olhos e o silencio pesou entre os dois . Por fim a penitente interrogou : E qual é o caminho que conduz ao inferno? - O mal : o vicio e o crime . Fitaram-se longamente . Depois o anjo despedio -se desapparecendo nas nuvens altas . Recolhendo á choça e atirando-se ao chão , de bruços, a solitaria passou a noite a pensar, sem lagrimas . De quando em quando repetia surdamente as palavras do anjo :
O mal : o vicio e o crime . E no caminho da Bemaventurança, por onde sigo, nunca o encontrarei . Ai ! de mim . Ao amanhecer, levantando- se das pedras em que dormia, na choça, descobrio, a um canto, sobre folhas seccas, uma corça que amamentava o filho . Arremetteu d'um salto e, arrancando o animalsinho á ternura materna, estrangulou-o com furor . Sahio ao bosque e, trepando ás arvores, destruia os ninhos, escorchava os troncos, arrancava os arbustos, amaldiçoava o sol e chapinhava nos regos para toldar as aguas . Correu á fonte e, afastando os cabellos que toda a vestiam, mirou-se com deslumbramento , palpando a carne que a miseria não conseguira deformar e teve um riso de triumpho . Em torno d'ella esvoaçavam os passaros piando, a corça balava ao longe lambendo o cadaver do filho , as arvores sangravam e os arbustos, desarraigados, enlangueciam . Esteve um momento a contemplar a sua destruição ; subito, arrojou-se
da montanha, núa, com os longos cabellos soltos, voando ao vento, a prenderem-se nos ramos, em fios d'ouro que rutilavam ao sol . -Agora o vicio ! exclamou. Na planicie estava acampada a decima legião de Avitus, constituida de soldados amollecidos e depravados na volupia da Asia. Lucilia parou no alto de uma penha, a um tiro de flecha do acampamento e, com voz atroadora, bradou : Lucio, meu pequenino e sempre amado filho, parto a abrandar com as minhas lagrimas a dôr immensa das tuas feridas eternas . E, como os rudes soldados, attrahidos pela voz tragica, corressem a cercar a penha, a miseranda, abrindo largamente os braços, afastou os longos cabellos louros e, em pleno sol, soberba sobre o pedestal agreste, expoz o seu corpo esbelto, nú como o de Venus na vaga , maravilhosamente branco, maravilhosamente bello .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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