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Capítulo 22 · Fabulário

Lavradores

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E NCONTRARAM-SE em caminho e, como o sol abrazava, acolheram-se os dois á sombra da mesma arvore, cuja ramagem frondosa formava uma verde cupula sobre a serena fonte . Velhinhos , ambos levavam ferros de lavoura e. sentando-se na alfombra, ficaram ouvindo o suave murmurio d'agua e o chilro dos passarinhos que voavam de ramo a ramo . E disse um d'elles: Bom vai o tempo para a sementeira . A terra está humida e sente-se-lhe a seiva . O arado deslisa facil e, nos sulcos que deixa, medra com vigor a semente . Vamos ter a compensação da miseria do anno passado , anno esteril de fome e de tristeza. Levo a taleiga

cheia e o que vai ao meu hombro, em fardo quasi insensivel, voltará do campo acogulando carros . Que levas para semeadura ? Linho e pão . E tu ? O outro sorrio sem responder . Que terras lavras ? Eu? terras eternas em que rebenta a flôr, quer o sol seja ardente, quer as chuvas alaguem . Nunca uma só das minhas sementes deixou de vir a flux . Sou um homem feliz, as minhas ferras são bentas . Quanto colhes no outono ? - Tenho abegão para tal serviço . Não sei quanto produzem as sementeiras que planto . Affirmo, porém, que são sempre fartas as colheitas do meu campo . A ti falta, ás vezes, o sol ; outras vezes é a chuva que não vem e ora vês o talhão esturrado, ora o encontras em alagadiço . Para os meus ha sempre luz e ha sempre réga: chammas de cirios e fios de lagrimas . Os meus canteiros são lindos e a flor que delles sobe é a mais bella que Deus creou ... nem ha d'outras no Paraiso . E dá fructo ? - Sim, dá fructo . Nesse tempo ouvio-se o

rinchar de um carro e o velho que falava da fertilidade da terra, soergueu-se dizendo : - E' o carro da minha herdade . São meus filhos que vão para a lavoura . E disse o outro : Eu semeio e não me preoccupo com o que fica na terra . A flor sobe e sobe tanto que é lá em cima, no ceu, que exhala o perfume . Deus colhe-a, extrahe-lhe a essencia e espalha-a pelo mundo . E o fructo ? O fructo é o alimento melhor dos homens . Melhor que o pão ? Melhor que o pão, porque é eterno . O trigo dá a farinha e morre, o fructo da minha sementeira não o devoram vermes, não o bicam passarinhos, as chuvas não o apodrecem, não o engelham os sóes . A flor chama-se Bondade, o fructo chama-se Exemplo . Olha em volta de tie has de vêr a flor e o fructo das minhas plantações . O velho relanceou o olhar, eni torno, mas um rumor que se approximava levou-lhe a attenção para a estrada : Era um grupo de creanças, de branco, que passava conduzindo um pequenino esquife coberto de rosas .

Um enterro . Enterro ! Sim , enterro de um anjo . Ainda bem, é a minha sementeira que passa . A sombra está deliciosa e a voz dos passarinhos mais afinada que nunca, mas a obrigação reclama-me . Eu sabia que tinha hoje uma roseira a plantar, deixei a cova prompta e lá vou ao serviço . - Uma roseira ? -E que são creanças mortas senão plantas de flor ? A roseira não dá mais que a rosa, a creança é apenas innocencia. Os fructos são proprios das arvores de vida longa, são os beneficios de que gosamos nós outros : o linho tecido em panno, a farinha amassada em pão , o forno que cose a broa, a casa que nos abriga, o carro que vai ao campo, a azenha, a nóra, o jugo, o ferro do arado , que é tudo isso ? fructos da minha lavoura . Outros vieram depois, mais perfeitos, com a enxertia das raças, com o amanho mais cuidadoso do progresso e são as sciencias que multiplicam os bens humanos. Tu és lavrador...

E tu ? Coveiro, lavrador tambem . Meu campo chama -se Eternidade, o meu outono é a Vida . Vai-te ao trigo e ao linho, eu vou ao enterro . O cemiterio é a minha leira . Uma voz desferio no bosque visinho : O amor é um bem que tortura E' o espinho d'uma flor ; Quem ama só tem ventura Quando soffre pelo amor . Olharam-se os dois velhos e o lavrador de trigo e linho perguntou: Quem cantará ? Que importa a pessoa ? é o Amor . Essa voz que nos chega penetra a terra, chega ás covas, acorda a vida no seio da morte como o calor do sol atravessa a superficie, do sólo e faz estalar a semente que espalhas, tirando della o renovo que se faz arvore de fructo . O que chamamos Amor chama-se, lá em cima, Fecundidade é o appello eterno á Vida . Como entendes de lavouras eu entendo de cemiterios e

assim como falas de colheitas fartas eu posso falar da Eternidade . E adeus, vai ao teu trigo e ao teu linho, que eu vou agasalhar na terra a roseirinha mimosa . Sementes e cadaveres... tudo germens, соveiros somos ambos . Adeus !

Fabulário

Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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