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Capítulo 22 · Miragem

Terceira parte IV

22 de 24 ≈ 17 min de leitura

Era ella!

Ao defrontar com a casa tropeçou e teria cahido se Thadeu não corresse prompto a ampara-la.

A mísera debaiteu-se-lh!e nos braços, aos arrancos, regougando e, em repellão mais vivo, safou-se, ca'hindo sentada na borda do caminho.

Lentamente passou, repassou a mão esquelética pela boca limpando a baba e quedou cabisbaixa, a tossir, cuspinhando lerda. Poz-se a coçar a cabeça ás gadanhadas, com o rosto engelhado em rictus de enfesamento e, agarrando-se ás hervas, levantou-se oscillante. Só então atinou com o homem que se conservava diante d'ella, de braços estendidos, acompanhando-lhe os movimentos.

E elle notava-lhe a devastação do rosto envéIhecido, suioado de rugas, mascarrado de manchas como ecchymos.es. Òs i>eTÍgalhos do pescoço badalhocavam em badanas, as faces eram muxibas flácidas, a boca, em chanfra, esmoía visguenta, os olhos fec'havam-se-lhe entorpeicidbs. Thadeu falava-lhe baixinho, com piedosa meiguice, commiserado d'aqueila decadência e penúria, Pobresinha !

A desgraçada estropeava os passos, aos arrancos, descahindo-lhe pesadamente nos braços, sempre a resmungar frenética, bufando, por vezes, por entre as gengivas roxas, espetadas dé arnellas negras, golfos de riso idiota. Chegando ao hmiar da casa deixou-se tombar amollecida, com a calieça enterrada no peito amarello e ossudo, mal coberto de frangalhos, por entre os quaies appareciam restos esfiapados do crivo da camisa.

A cabeça ia e vinha, em ry thmO' de pendtilo e a b aba, escorrendo-lhe dos cantos da boca, estirava-se-lhe em íio pendendo do queixo agudo. Tihadeu contemplava-a commovido. Não se atrevia a dizer-lhe quem era, e para que? se a desgraçada mal abria os olhos.

Agachou-se e. tomando-lhe as mãos, poz-se a chamal-a, e, para despertar-lhe o coração, murmurou, por f im : M amai !

Ella engrolou enjoadamente, cuspiu, alhciada a tudo, gesticulando a esmo.

— Então a senhora não me conhece, mamai?

Thadeu... 10 A vdha repelHti^o amuada e, fincando os cotovellos nos joelhos, encravou o queixo nas mãos, parando o olhar em fixidez idiota. Mas um dos braços resvalou subitamente e, desequilibrada, a mísera pendeu sobre o filho, que a susteve:

— Espere, mamai... Ella encarou-o aboqiiiIhando os beiços, mediu-o d'alto, com desprezo e cuspiu, investindo com elle, desaforada:

— Mãi! mãi de quem, seu diabo? Sabe pr'a fora. Mãe... E arrepanhando os molambos para compor o collo : E u não gosto de lambanças commigfo, sabe? Você pensa qu'eu bebi, não é? Pensa?

Mãi... Vai perguntar á outra. Que é d'ella? está lá no seu bem bom, comendo, bebendo e botando barriga. Eu é que sei de mim ! N ão faltava mais nada... Mãi! Riu escarninho, cuspilhando, O outro foi-se embora. Quem sabe d'elle? morreu...

Mãi de quem? E em frenesi que a fez tremer, que a sacudiu em vibração de raiva: Mãi de quem?! Vocês todos são bons. Porcaria! Vá s' embora, homem ; v á seu caminho. Não bula com quem está quieto. Ora... muito bôa...!

Tentou levantar-se e abateu de novo, sentada.

— Bebida... É só o que vocês dizem. E se eu bebesse, que é que você tem com isso? Ê com o seu dinheiro? Vá-se embora. Elle estendeu-lhé os braços.

— Sahe d'ahi, homem ! E u não gosto de historias commigo, depois, depois... E monologando, a acenar de cabeça: Mas já viram...! Um diabo que ninguém sabe quem é querendo tomar conta da gente. Ora não me faltava mais nadai Eu já fui bater na sua porta? Já lhe pedi alguma coisa? yue é que você tem commigo? Vá-s' embora 1 E arrastou-se de gatinhas, até a soleira da porta, sempre resmungando. Sentou-se desenrokuido o pirotó para torcel-o de novo... Mãi... E com ferocidade, encarando o filho, atirou^lhe, com affronta á sua própria maternidade, uma injuria vil. .^ Thadeu recuou diante da brutalidade como se um jorro de lama lhe houvesse golfado ao rosto, logo, porém, investindo, agarrou violentamente os pulsos de Maria Augusta sacudindo-a em assomo de indignação :

— Que é isto, mamai! A senhora está doida ?1 Então isto se diz a mim, seu filho?! A senhora está doida!?

A bêbeda rebatia-se, colleava indo com a boca de uma a outra das mãos que a prendiam, tentando mordel-as. EUe deixo ii-a, com respeito religioso, arrependido da rebentina sacrílega.

Foi então uma surriada torpe de obscenidades, e c uspalhadas de affronta, e ameaças.

Ao pala vro rio desbragado com que Maria A\u gusta inxectivava o filho acudiu de dentro a cabrocha escandaiisada e, apparecendo á porta, ameaçadora, berrou, de mãos nos quadris, pinipona:

— Que é isto! Que bansé é este aqui? Você não tem vergonha, seu diaibo?! e, agarrando a bêbeda por um braço, com o que lhe esfrangalhou a manga do casaco, levou-a de rasto para dentrj, como uma trouxa, tornando á porta, atrevida, para dizer a Thadeu, que ficara estatelado, em hebetismo :

— E o senhor? Que é que quer? Pois o> senhor não está vendo o estado da mulher? Ora já se viu ! U ma agua suja assim na miniha casa... Eu não quero istO' aqui, sabe? Se o senhor quer falar volte quando' ella estiver bôa. E, com visagem de nojo, dando de ancas, murmurou: Um homem moço, atraz d'uma corumba d'e&sa& e, de mais a mais, fedendo a cachaça que não se pôde.,.! E deu-lhe com a porta na cara, Thadeu ainda ali esteve como arraigado ao solo, ouviíndo as descomposturas da cabrocha, que ameaçava Maria Augusta die a pôr na rua. «Fosise coser a mona onde quizesse. Se tinha homem, que se arranjasse. Bêbedas não as queria ali!»

Thadeu atravessou lentamente o caminho, subiu á b arranca. Lá de cima ainda voltou-se para olhar a casa ; e segiiiu. Ia indo, em atordoamento que lhe obscurecia a vista, quando ouviu falar: «Então? Não' era lá?» E deu com o mulato que lhe indicara a casa, ainda refestelado na herva, fumando. Resipondeu:

— Sim, senhor. Era lá mesmo. Obrigado.

Enveredou em trilha erma, cavada entre barrocctes entulhados de lixo, com raízes enormes esr- 293 pigando da terra. Seníou-sie num talude e, cabisbaixo, fumando, ficou a pensar.

A seus pés 'duas filas de formigas iam e vin'ham aforçuradas, carreando achegas; cigarrao, nos ramos altos, chiavam em rangido perenne como de serras finas. Um cão passou desconfiado, olhou-o e deteve-se adiante num monturo. De repente, levantando a cabeça, latiu e foi-se como espantado, desapparecendo, sempre a ladrar.

Elle sacudiu penosamente a cabeça e lagrimas rolaram-lhe dos olhos na terra secca e poenta onde brincavam sombras leves. Poz-se a arrancar hervagens: tirava-as do chão duro, sacudia-lhes a terra das raizes e atirava-as longe. «Mamai...!

É verdade !» De repeiue, cruzando im-çetuosamèntè os braços, de cabeça a prumo, pergimtou como se interpellasse as arvores: «Pois então mamai...!?)) Olhou em volta, no receio de que alguém o ouvisse, e continuou:

— Em três annos acontecer tudo isso ! Antes eu não tivesse sabido! Tão acabada! Deu d'hombros. Não i>odia comprehender tamanha catastrophe. Coitada! suspirou levantando-se. E foi-se devagarinho.

Todos os aspectO's, que a espierança fazia riso^ nhos, modificaram-se aos olhos de Thadeu : — o ceu, com o seu azul deslumbrante, tornou-se-lhe como die chumbo e severo; a terra, \^irente, pontilhada de b oninas, fez-se, de improviso, lúgubre; as arvores, até então airosas, todas lhe pareceram 294 MIRAG]SM languidas e definhadas, murchando como em morte lenta. A luz do sol era doentia, as sombras muito negras, como luctuosas. E o coração batialhe presago, adivinhando maiores desgraças. Sentia medo, como se fosse em noite erma por sitio mal assombrado.

Ao avistar vulto á janella, ainda que nem as feições lhe distinguisse, sentia-lhe o escameo em disfarçado sorriso, o commentario irrisório da degradação da s ua casa, da miséria em que decahira a sua gente, dantes bemquista na cidade, com relações até nas principaes familias, visitando^as, recebendo-as, indo-lhes ás festas.

Quantas vezes acompanhara Luiza a bailes aqui, ali, até ao Collegio' Alberto Brandão, e vira-a em grupos de moças, suas condiscipulas, do collegio Patrociráo, ou dançando com rapazes de n ome, como o Alvarim Costa, filho do deputado. E agora?!

Homens que appareciam á porta de negócios se, por acaso, o olhavam indifferentes, logo lhe parecia que o estavam ridiculisando e disfarçava vexado, baixando a cabeça, puxando o chapéu á frente, atravessando a rua.

Ás vezes só para evitar encontrar-se frente a frente com alguém, que vinha na sua direcção, dobrava esquinas. E lá ia, torturado pela ignominia.

Pairava silencio cálido de sesta: uma ou outra voz no interior das casas, choro de crianças, sons amortecidos de piano ou, ao long^e, dolente. algum pregão de negocio. De quando em quando estalos d'azas, de pombos que inflectiam em vôo atravez da claridade ardente.

De súbito uma gargalhada estrondou como affrontando-o. Levantou de golpe a cabeça e viu á porta de uma loja amostras d.e sellaria, pellegos, carneiras e meios de sóia, maletas, bolsas e, expostos em envidraçados armários de mesa, jaezes que reluziam, chicotes de punho de prata, facas, carteiras, logo reconhecendo a casa onde fora tanta vez a mandados do pai. Era a do Carrilho, que Luiza denunciara como o causador de toda a sua desventura, o primeiro que, ainda em vida do pai, introduzira a infâmia no seu lar.

E lá estava elle, nada mudado, sempre de branco, com os grandes bigodes arrebitados, a rinchavelhar, saboreando anedoctas picarescas ou a contar façanhas com arremessos dos gadanhos cab^lludos, impando o ventre boleado.

Lá estava elle, num grupo de typos aboleimados, dos taes que passam os dias em cavaqueiras salafrárias tisnando honras, cada qual mais viperino et orpe na dif famação, apostados em gabolices, denegrindo, ultrajando calumniosamente por vaidade canalha.

E a gargalhada que o surprendera, ainda que os homens, entretidos no fundo da loja, não o pudessem ter visto, logo lhe pareceu allusiva ao seu caso, á deshonra dos que arrastavam na lama o BO«ie do que li estava debaixo da terra.

Tudo, instantaneamente, esqueceu com a lembrança enternecida do morto. Pobre d'el'Ie!

Posto que o não pudesse vêr, sentia-o. Ainda era elle que o amparava, que o consolava. Toda a cidade estava cheia delle : as pedras guardavam-lhe os vestígios dos passos, havia ainda noar o cheiro do seu suor, o rumor da sua voz, por vezes a sua sombra tingia nas pedras a claridade quente.

Voltou-se parecendo-lhe ouvir lento chiar de carro e estale ja r moroso de patas die bois nas pedras.

Aquelle sim! Era só para a casa, para a sua gente que vivia, mourejando desde o escuro da madrugada até á noite, ao sol e á chuva, sempre alegre, querido de todos por seu génio francO' e jovial ; d etendo-se á p-oirta dos negócios, de prosa com um, com outro, beberricando aqui, contando um caso acolá, esmoler, paternal com todas as crianças, até piedoso com os animaes. E todos o acolhiam com amizade.

Otianta vez vira o Dr. Lucindo estacar a bestinha para conversar com elle; o Dr. Zamith tratal-o de igual para igual, estendendo-lhe a mão, I) atendo-lhe no ihombro ; o vigário chamal-o, entrar com elle na sacristia...

E os que o procuravam em casa, muito Íntimos, principalmente em vésperas de eleições, porque elle dispunha de grupo seu, fiel e decidido, gente que votaria á bala se -preciso fosse. Nesse tempo a casa do Madruga era feliz, havia fartura e honra, alegria e virtude. E, á noite, principalmente no i nverno, com todas as janellas fechadas, os l eitos promptos, altos de cobertores, era agradável o serão na sala de jantar, antes do café com leite e biscoutos. Toda a família reunida em volta da mesa, á luz da lâmpada belga, o Turco estirado junto do sofá, com o focinho entre as patas, a conversa sussurrada, ás vezes uma historia de principes e fadas contada pela Andnezia. E lá fora o vento a gemer nas arvores, a chuva a jorrar estrondosa ou cantos aviolados embalando docemente o silencio em noites de luar.

Esses episódios rastilhavam-lhe em relâmpagos na mente, logo, porém, a realidade reapparecia negra, acabrunhadora, trágica como a escuridão da tormenta depois do afuzilar ephemero.

Quando deu por si estava na estrada do Madruga, onde já estivera de manhan.

Como seguira até ali ? attracção da querencia : levara-o a saudade, instinctoi conservador, raiz da alma que, quanto mais o pensamento anseia pelo futuro mais se arreiga e aprofunda no passado.

Parou aturdido, ao sol; olhou em volta, orientando-se e reconheceu, á distancia, a velha mangueira da s ua casa, frondosa, dominando todas as outras arvores com a sua copa immensa, verde escura, quasi negra. E ali, aquella ruina fuliginosa, como restos de um "prédio incendiado? Era o que restava da ferraria de Nazario.

O matto crescera livremente em volta, com ímpeto de assalto, entaipando o pardieiro. Da» paredes encarvoadas, fendidas d'alto abaixo, abertas em frestas e buraqueiras, expluiam hervagens, pendiam nastros e filamentos. O telhado era mattagal. Vendo uma vered'a batida, entrou por dia indo ter ao fundo.

Tudo era ali maninho — o carrapateiro fechava em verde o terreno, a parietaria cobria densamente os muros. Trechos de teri a negra ennodoavam o agreste. Farfalhando ríspidos nas folhas lagartos esgueiravam-se ou entaliscavam-se nas paredes e, triste, lúgubre, de espaço a espaço, uma rola gemia na espessura brava.

Thadeu decidiu-se a entrar.

O sol, descendo pelas abertas do telhado, paIhetava de curo o chão lobrego. Lá estava a forja esboroada ; a bigorna no cepo parecia ensanguentada de f errugem. Uma esteira enrolada e trapos; a um canto uma lata de manteiga com restos de comida, uma garrafa com irni coto de vela e velho paletó num prego, á parede, eram indícios de habitante. Esteve a olhar. De repente como que aquillo animou-se: o fogo brilhou, o malho tiniu, mas foi illusão instantânea, ficando apenas no silencio persistente zinir, como de insecto que se debatesse preso. Encostou-se ao cepo da bigorna e a zoeira insistia, cada vez mais rispida, irritante. Olhava aquelle chão de officina, aquellas paredes ennegrecidas de fumo, esfuracadas em gretas, abertas em rombo, com os tijollos deslocados, bambos, descobrindo o embrechado das ripas quando, súbito, se lhe afigurou introvertidamente a scena torpe do Pura-olho.

Sentiu o coração inchar-lhe no peito, faltóuiIhe o ar, as artérias das têmporas latejavam-lhe entumecidas, e sempre o zinir enfezante dentro dbs seus ouvidos como canto de grillo em lura.

Sabiu para a estrada fugindo áquelle silencio de assombramento, pondo-se logo a caminho em passo de fuga. Passan^a indifferente a tudo, em automatismo airado, até que parou, olhando a fito, olhar vidrado, extático, de cego, estatelado á cancella da locanda em que se hospedara, quando lhe bradaram de dentro, sem duvida por lhe haverem tomado a immobilidade attonita por hesitação de duvida :

— Ê aqui mesmo. Entre !

Estremeceu á voz que o chamava e entrou tímido e, v endo gente na sala, foi-se de cabeça baixa, direito ao quarto. Trancou-se por dentro e, ao vêr uma moringa á mesa da cabeceira, a sede, que se lhe remittira, reaccendeu-se mais viva, a estalar-lhe a garganta. Encheu o copo, bebeu-o d*am' trago, sôfrego; encheu outro, mas, ao levai-o á boca, as lagrimas rebentaram -lhe dos olhos.

Sentindo-se como estrangulado, deixou apressadamente o c opo. levando em ânsia a mão ao peito e, com os ouvidos zoando em estridulo, atirou-se de bruços sobre os travesseiros, Vencido pela fadiga assim mal descahiu na cama adormeceu pesadamente. Acordou tarde, já com o escuro e, logo que abriu os olhos, o zinido r,ecom.eçou a rumorejar-lhe aos ouvidO'^ como se houvesse trazido das ruinas que visitara o ruído das vozes crebras dos insectos. Levantou- •se guiando-se por uma claridade ennevoada que entrava pela janella.

A noite era fria, limpida, estrellada. Uma voz cantava docemente na sombra do jardim balsâmico.

Naquelle recolhimento beato da natureza a alma sentia-se mais livre, via mais claro que os nictalopes e, debruçado sobre o socego, o espirito do misero recapitulou todo o passado com a celeridade com que a luz percorre o espaço immenso.

Sentia a indifferença da vida, vendor-se ali sósinho, hospede na terra em que nascera, respirando o m esmo ar que a sua gente respirava, sob as mesmos estrellas de outr'ora, tão impassíveis na desventura como o haviam sido na fortuna.

Ouvia vozes estranhas, em lingua que naO' era a sua e risos e tartareios infantis.

Estava aíli, não' em um lar, mas em um pouso onde nem sequer o conheciam. E Nazario? Ficou a olhar o cen enternecidamente. Por fim recolheuse, accendeu a vela, lavou o rosto e, com um cigarro entre os dedos, encostou-se á cama, inerte.

Mas bateram á porta, abriu^a timidamente e viu o menino que o trouxera da estação.

— O senhor não quer jantar? Sem responder acompanhou-o á sala, sentoti-se á mesa. Como não havia outro hospede atreveu-se a conversar com o menino, que o servia, informando-se das novidades da t erra, de pessoas e o rapazelho respondia muito gárrulo, fan farreando : «Conhecia tudo desde a Barra até o Paty. Batia aquilío a pé, de olhos fechados.» Quaiiido Thadeu lhe falou em Nazario o pequeno sorriu, exclamando:

— Ahn! o Peleguêto... Quem não conliece!

Mora no Madruga, na casa velha, com os bichos.

O senhor passando por lá de noite dá com elje, ás vezes cahido na estrada. Já escapou de morrer debaixo de um carro d. bois. Está gyra, coitadb! e, ainda por cima, bebe. É cada tiorga... Mas não faz mal a ninguém. É um pobre!

— Mas está lá todas as noites ? pergnntou Thadeu mexendo lentamente o café.

— ■ P ois então ! se é ali que elle mora. De vez em quando desapparece por ahi, trabalhando, mas assim que arranja uns cobres é aquella certeza: volta e cahe na cachaça. O senhor conhece elle ?

— Conheci noutro tempo... O menino encostou-se á mesa e encarou-o perguntando^, por fim admirado :

— Conhece mesmo?

Thadeu acenou de cabeça, accendeu o cigarro, tomou o chapéu e sahiu.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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