Universo da obra
Universo da obra
Arrastaram-se taciturnos os ultimois mezes úk inverno e de saudade. Setembro entrou radioso dissipando as derradeiras névoas, enxugando as derradeiras lagrimas. A casa do «Madruga)) abriu-se de novo para receber a familia que voltava do exilio, onde fora anojar.
Thadeu partira á frente «para cuidar da vida)) dissera, mas o motivo real fora a tristeza que lhe infundia o sitio do padrinho, uma tapera merencorea, onde apenas ha\Ma o rumor do monjolo e o murmúrio das aguas, com dois bois magros, esfalfados, que passavam os dias errando pelos pastos.
No dia seguinte ao da missa do sétimo dia, Tbadeu, que sentia saudades da casa, despediuse da mãi e da irman e, apezar da insistência do padrinho para que ficasse mais uns dias, alieirando afazeres, partiu do Paty, a pé, aproveitando a f resca da manhan.
Não se sentia bem naquella casa tumultuosa, cheia de mulheres que rezingavam e crias que lhe invadiam o quarto remexendo em tudo. Desconfiava das m ulatas que cochichavam pelos corredores, especando, muohochos, olhando-o d'esguelha, com menoscabo.
Quando o chamavam para a mesa ia sempre contrafeito, acanhado, aceitando cerimoniosa^ mente os pratos que lhe serviam, comendo em silencio, de cabeça baixa e, mal terminava as refeições, sahia para a chácara ou trancava-se no quarto, deitando-se ou debruçando-se á janella, a desfiar a sonho de fortuna com que contava restaurar ol ar em esteios ainda mais fortes do que os que firmara o pai, tão fundamente abalados com a sua morte.
Caminhando, deixava-se penetrar da alegria da terra orvalhada e cheia de passarinhos, revoejada de insectos. Tudo aquillo parecia-lhe viver sadiamente e bemdizer a vida, desde a poeira que se levantava a seus pés, até as montanhas longínquas, muito azues, aqui, ali dourando-se com o sol.
Um cheiro adocicado de matto impregnava o ar fino.. E elle seguia, ora pela ohan, nas trilhas direitas, margeadas de hervas floridas, ora vencendo acclives escavados, fundos sulcos das rodas dos carros de bois Parava nas alturas espalhando a vista pela paisagem circumdante. Via-a toda verde, viçosa em milharaes e pastos. Ali, um engenho, um moinhO' além com a agua a chofrar na grande roda; carros de lavoura, gente trabalhando' nas roíças, cafesaes a eito pelas collinas encarapinhadas.
Longe, no alto, branqueando, casarões de fazendas, com o terreiro á frente, as senzalas em volta, os curraes murados.
O sol subia alumiando cáli dam ente em ouro.
Thadeu não sentia o calor, tão enlevadO' ia nanuelle devaneio feliz. Porque não havia elle de conseguir o que outros conseguiam : tirar riqueza da terra prospera? E já lhe não bastava a chácara do M adruga — queria tudo o que via, aquellas campinas, aquelles valles, aquelles montes, espalhava por elles olhar de dano, chamando-os a si, não com ambiçãO' egoistica, mas com a intenção generosa de amparar a mãi e a irman, tirando, em colheitas fartas, a abundância e a alegria para o lar, dando-lhes, a ellas, em dobro, o que as coitadas tinham por perdido, enterrado na mesma cova em que jazia o homem bom e forte.
Via-se no campo, ao sol, cavando para semear e j á as sementes brotando, a flor abrindose e o fruto amadurecendo — a paz, a prosperidade, a v ida correndo tranquilla e suave á proporção que os cabellos matemos, raros e embranquecidos, iam dando ao rosto sereno de Maria 43 Augusta a expressão virtuosa e benévola da velhice.
— Que seria delias, pensava, se lhes faltasse ia sua protecção? A mãi, viuva, desamparada e pobre, com uma casa e um palmo de terra por semear, teria inevitavelmente uma triste velhice de miséria e de amargores; e a irman, formosa e moça, que seria delia se a não defendesse o carinho sincero do seu coração contra as ciladas dos que andavam a mirar a sua puberdade, vendo-a desenvolver-se em belleza e em graça? E que outro, senão elle, faria guarda á castidade de Luiza ?
A terra era a sua esperança, a terra abençoada e f értil, sempre compensadora; essa mesma leira detestada e temida, que, em outros tempos, lhe arrancara lagrimas de cólera quando, ainda menmo, o pai o chamava para ajudal-o na horta.
Essa mesma terra, mvsteriosa na sua germinação, alagada em Janeiro, florida em Maio, secca e abrasada em Dezembro, mas constantemente fecunda, constantemente em gestação, á luz do sol e do luar ou sob aguaceiros, produzindo se a semeavam, explodindo em fetos e espinhares se a deixavam em pousio.
Essa mesma terra, detestada outr'o.ra, acenava-lhe com os seus múltiplos ramos, como se todas as arvores, agitadas pelo vento morno, quizessem attrahil-o, em tentação seductora, chamando-0 para a iniciaçãO' nupcial de uma vida nova, de paz e de fertilidade perenne. / Demais, que seria das pobres mulheres se a terra a não soccorresse? E seus olhos commovidos alongaram-se pela várzea enamoradamente, significativamente, comO' se lhe quizesse dizer que a recebia para o noivado eterno.
Subitamente a visão desfez-se como névoa que o ventO' dilue, e o pensamento voltou-se-lhe para o pai.
Vieram-lhe á memoria as scenas recentes da morte : o cadáver inteiriçado, sobre o leito, mais tarde no caixão, mãos postas, pálpebras cerradas, frio e pallido, um lenço atado ao queixo, entre cirios, coberto de flores. Depois O' sahimento, á hora do crepúsculo. Mas recuando para os dias remotos da infância, viu-o vivO' e forte, com o seu formidável corpo de colosso, e como se, effectivamente, o ribatejano' houvesse resurgido e lhe falasse amigamente ali, em plena campina, entres colles de esmeralda, ouviu-lhe, clara e distinctamente, a voz.
Estremeceu e voltou-se.
Silencioso e abafado, o campo estendia-se deserto; longe, em verde baixada, bois soltos pastavam. Um velho negro vinha pela estrada tocando um burrico moroso.
O sol ardia intenso e, dentre o espesso arvoredo subia lenta, fluindo em bruma no ar, uma fumarada azul.
Tliadeu, exhansto, estacou, recolbendo-se á sombra, á margem da estrada. O negro passou :aiidando-o. Correspondeu e, muito tempo, emqianto seus olhos alcançaram, seguiu-o pelo extenso campo calado e morno.
O calor subia.
O céu, muito azul, resplandecia e offuscava e tcda a vasta extensão das terras, adormecidas na çju-ntura enerv^ante do meio-dia luminoso, estava deserta e calada. As barrancas sanguineas flammejivam e os milharaes de ouro vivido, ao sol, tinhmi a apparencia, fulgida de chammas que alastrassem sem crepitação e sem fumo. Tliadeu começara a s entir cançaço. e sede. E a cidade ainda tão loige, além dos morros!
Mas a anciã cubiçosa de começar a vida, de distribur as terras, de preparal-as para a semente, arro eando-as: parte para horta, outra parte para os cereaes, as barrancas virgens para o mandiocal, as collinas para o café; o corte dos aceiros, a construcção do bicame para as regas, todo a trabalho que havia de ser a salvação da famiiia e a sua gloria de homem chamava-o para «Madruga); e, com tal insistência, que, desprezando a s oalheira, sedento e suado, deixou a sombra fresca e lançou-se a caminho pela poeira íina da estrada adusta, a grandes passos, o chapéu tombado sobre os olhos, a cabeça baixa, olhando a sombra negra do seu corpo na claridade nítida da estrada.
Finalmente seus olhos descobriram, atravez da verdura, o muro branco de uma casa. Era a primeira, annunciando o povoado; dali para baixo começava a cidade.
Um cão sahiu á porta ladrando e investindo um pequeno em fraldas de camisa, pernas núasj veiu á cancella espial-o.
Abrasado de sede, com a garganta secca, ^ cabeça ardente, as têmporas late jantes, alagado em suor, esteve para pedir agua á criança quç.ky mirava curiosamente, mas, chegando á volta, én frente á casa, no alto, descobriu a cidade, no vAlle: as torres da Matriz, a Camará e, lá para lí)nge, em densa massa verde, os eucalyptus a/tissimos. / De algumas casas partiam chispas, jaíellas flammejavam e uma clarabóia incendiada re/ulgia com brilho solar, entre as telhas escuras.
Aspirou largamente o ar do monte e avançou pela descida cavada em brocas pelas enxurradas, entre barreiras abruptas, e só parou no largO', em frente do portão do cemitério, demorandc-se saudoso a olhar, atravez das grades, os túmulos de mármore, claros, banhados de luz: alguns entre cercarias de ferro, outros nús, cobertas de matto, abandonados e esquecidos. ( * Ali, ao fundo, estava enterrado o pai, pensou; e os olhos foram-se-lhe humedecendo e, pelo rosto, molhado de suor, rolaram lagrimas repentinas.
O coveiro cantava no silencio do campo santo.
MIRAGBM 47 Thadeu quiz chamal-o para que lhe deixasse ir vêr a sepultura, mas a sua voz perdeu-se sem resposta. O h omem não podia ouvir, estava trabalhando em alguma cova para alguém que morrera nesse dia. Passou adiante, deu volta ao pequeno cemitério chamando, mas a coveiro continuava a c antar, tranquillo e surdo, entre as saaiambaias. Esteve algum tempo á espera. Por im partiu atravez das ruas emmudecidas.
Quando passou diante da ferraria Nazario, agarrado á pata de um cavallo, raspava-lhe o Cisco e o pequeno Damião, negrO' de tisne e avermilhado pelos reflexos da forja, insuflava o fólle caitarolando, a olhar para a estrada. Vendo Thadeu deteve-se sorrindo e «mandou que entrasse.»
Nazario levantou a cabeça:
— Quê ! É s tu ? Quando chegaste ? E ntra.
Ii deixou a pata do animal, avançando de mangas arregaçadas, com o grande avental de couro até os hombros.
Tladeu estendeu-lhe a mão, contando que deixán a família, que viera só para dispor a vida, e, d" improviso, encO'Stando-se á bigorna, declarou que nãc voltava á venda.
— E então? Já tens outra coisa?
- — Tenho essas terras que elle nos deixou ; v ou cultival-as. Sempre hão de dar mais alguma coisa do que o balcão. Depois estou no que é meu.
— Mas tu podes lá com essa vida de enxada?
Deixa-te disso, rapaz. Fica onde estás e deixa-te de maluquices.
E interrompeu-se para dizer «que mandara/ nesse dia rezar uma missa por alma do Manuel. )y Tliadeu indagou se fora muita gente.
— Eu e mais umas cinco pessoas. Ah ! iss é assim mesmo. Não, que elle agora não pód^ empanturrar os buxos. E ellas como ficaram? / Thadeu, em curtas palavras, expôz o soffijmento da mãi : «noites e noites em claro, sempfe choTando, pedindo a morte. E magra de fajer pena. Luiza, emfim, sempre era mais corajosa
— ^ S im, coitada... Elle era um homem cctno não ha muitos. E comtigo? Como vai ella/ Thadeu sorriu tristemente, encolhendc/ os hombros. /
— Sempre impertinente, hein? Tem paciência, filho'; vai aturando. Que has de fazer? trata de ser homem e deixa-a andar. Já almoçaste?
Ainda não, com certeza. Entra que aindí deve haver alguma coisa para enganar o estómago.
Thadeu, que dera alguns passos, voltcti-se de golpe :
— Quem morreu hoje, Nazario?
— Hoje ? Porque perguntas ? »
— O Julião estava a trabalhar quaniio passei pelo cemitério. (
— Mas o Julião trabalha todos os' dias, até já o encontrei uma noite ferrado á terra. É verdade que foi no tempo da epidemia. Não me consta nada. Só se foi a Leocadia, que tem passado mal da moléstia; só se foi ella. Mas não creio, porque o Pinto esteve aqui de manhan e não me disse nada. Aquella não vai taO' cedo.
— ^É barriga d'agua...?
— Sei lá ! É uma coisa. Já ouvi dizer que é coração. Sei lá que é! Quando os próprios médicos vivem a dar com a cabeça pelas paredes...
É qualquer coisa. Mas vamos almoçar. Anda que deves estar com o estômago a tinir.
Levou-o até o fundo e voltou tranquillo, vagaroso, para j ifnto do cavallo que o esperava pacientemente, preso á argola, com os olhos vendados por um pedaço de cânhamo.
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