Universo da obra
Universo da obra
Thadeu, que desconfiara das palavras da velha, vag^as, mysteriosas, como que dissimulando verda/des tristes, quiz logo verifical-as e, ainda que se sentisse fatigado, poz-se a camiinho, dirigindo-se pela indicação direito á rua Bonita, áquella hora deserta, ardendo ao sol. Ao alto rinchava morosamente um carro de bois empilhado de lenha e dois homens, conversando muiito juntos, á s ombra rala d'uma arvore, davam vida áquelle ermo de casas fechadas, qué aUvéjavam ao soalheiro, quietas.
Uma voz apregoava ao longe em lamento e a espaços, como em rythmo, tiniam pancadas em ferro como gritos metallicos de araponga.
Passando diante da botica lançou pars^ den- 270 mtragbm tro o olhar ctiríosd. Quantas vezes, no tempo do Serafim, entrara ali com receitas oti para comfrar assucar-candi !
Um velho escarrapachaido, braços descahid'os. a cabeça pendida sobre o peito, cochilava no banco, com um jornal sobre as coxas gfordas, a ponta do cigarro pendurada dos beiços e, de costas á grade, voltada para a rua, uma mulher pallida, de grandes olKos tristes, com uma criança rachitica nos braços, esperava pacieíite.
OlHou-a bem e teve um sobresalto. O coração bateu-lfie forte, sôfrego. Passou. A alguns passos, porém, deteve-se em duvida, pensando. Tinoui um cigarro do boíso. accendeu-o, com o ollíar no ceu, que reverberava, cálido.
Teve um gesto vivo de resolução e voltou atraz parando diante do mostrador accumulado de fra.scos, caixas, bo'Caes sortidos, appárelhos de hygiene, rolos de tubos de borracha. Olhava sem v^, preoccupado com a mulher. 'Adiantou-se até á porta.
Ella lá estava, immovel. â espera.
De moreno pallidò, magra, com os ossos estalando a p elle, os olhos cavados, agasalhada num cihale de ramagens, que mais lhe definhava o 'busto, apezar da devastação precoce, conservava restos de belleza e viço de mocidade. E como lembrava Luiza! Olhava-a a fito, examinando-a. 'K mulher attendia á criança que esperneava frenética agatanhando4he o collo. Be repente, levantou a cabeça e deu com os olihos no homem que a contemplava. Franziu a fronte contrariada e, vivamente, em rabanada de amuo, deu-lhe as costas. Thadeu, para experimentar, disse-lhe baixinho o n ome : «Luiza !»
A mulher voltou-se de sopetao, encarou^o a fito, e, caminhando até a porta, d'olhos muito abertos, com o rosto em sorriso, exclamou expansiva :
— Gente! É você...! Elle sorriu, olhando-a em exame piedoso, desde a cabeça, mal penteada, até os pés calçados em botinas rotas, cambadas e cobertas de pó. Não ousou palavra. A criança choramingava agitada, debatendo-se.
— Quem podia imaginar! Você... E notavaIhe a magreza livida, o acabrunhamento. Você tem estado doente? Elle af firmou de cabeça e, baixinho, para iião vexal-a, exclamou:
— Mas que é isto, Luiza? Você assim... Ella encolheu os hombros. O velho aprumou-se no banco, passou a mão pelos olhos, pigarreou atirando uma cusparada á rua e dirigiu-se a Luiza, perguntando: «Se já a haviam despachado?»
— Ainda não, seu Chico. Demora um bocado.
O velho passou a grade e ficou ao balcão remexendo receitas, sempre a pigarrear, a tossir grosso.
— Vamos sahir, segredou Luiza. E encaminharam-se para a travessa, quasi em frente, por traz da Cadeia. 2^2 MIRAGIÍM Seguiam lado a lado quando Luiza perguntou de olhbs no dião:
— Você ainda é soldado, Thadeu ?
— Não. Dei baixa por doente. Tenho passado mal.
— Você esteve fora muito tempo...
— Estive... E você, Luiza? E mamai? Baixando ainda mais a voz, apezar de não haver viv'alma na rua, insistiu na pergunta: Mas como foi isso, Luiza?
— Ora!
— Você está casada ? Ella não respondeu. Estás vivendo com mamai? A irman encarou-o, como se houvesse sido insultada:
— Com mamai ! ? Eu ! Deus me livre ! Pararam. Mamai... ! S e eu cheguei ao que cheguei foi por causa delia. Deus não me castigue, mas mamai . . . ! E u não quero falar. Você ha-de saber. Se me perdi, Thadeu, foi por não poder mais. Vivia num inferno. Comi brasas! Nem sei! Emfim...
Estou no meu canto. Se tenho, tenho, senão...
Vivo perto da Lagoa, com um moço.
— Conhecido?
— Não, você não conhece. Não é do teu tempo. Veiu do Paty.
— Que é elle ?
— Pintor, mas não trabalha mais porque as tintas estavam-lhe fazendo mal. É fraco, tem uma tosse de peito. Vivemos num ranchinho.
— E é bom ?
— Coitado ! faz o que pôde. Não tenho razão de queixa.
— E mamai, Luiza?
— Não sei, nem quero saber. Atirou a cabeça em gesto de desprezo: Vive por ahi, com um, com outro...
— Como ! exclamou o ex-soldado, de mãos ix)stas. Mamai ! ?
— Mamai, sim! Que é que você pensa? Foi logo que você foi-se embora, uns dias depois. Uma vergonha! O primeiro foi seu Carrilho, dqíois...
— Seu Carrilho correeiro ?
— Sim. E, naturalmente: Agora, com elle ella já andava em vida de papai. Quanta vez... !
— Quê ! E m vida de papai ! ?
— Sim, senhor. Eu sabia de muita coisa!
Quantas vezes fui achar os dois conversando...
Quantas...! Papai é porque era bom de mais.
Thadeu baixou a cabeça, esteve um momento immovel. Por fim perguntou num fio de voz:
— ■ E Nazario ?
— ^ A nda por ahi, coitado. E ajuntou friamente: Damião é que morreu!
— Damião ! ? de que ?
— Morreu em Mendes, questão de mulher.
Mataram-no. Foi castigo,, , Uma semana depois de ter fugido d'aqui levando quasi tudo que o pai possuia. Teve' uma rixa com um italiano que o coseu a facadas nas obras em que trabalhavam.
— E Nazario ? Que faz ?
— Anda por ahi, trabalha nas fazendas, hoje numa, amanhan noutra. Não é o mesmo. Está bebendo que faz pena. Traçou o chalé que lhe escorria dos hombros magros: Você já viu mamai?
— Ainda não. Vou vêl-a agora. Está no Fura-olho, não é?
— É. Mas eu duvido que ella te receba. Você não imagina o que ella está! E accrescentou baixinho e rancorosamente: Volta e meia é presa.
Bebe, e quando está assim é a boca mais suja deste mtmdo. Se eu te contasse tudo! Eu deixo, muita vez, de vir á cidade só para não me encontrar com ella. Tenho vergonha. Quando está tomada, ainda bem, passa, não me conhece, mas se está boa abre a cancella em cima de mim que é um horror!
— E você não tem pena, Luiza ?
— Pena?! Pena de que? Pena' de quem tira dos cachorros para botar em cima de mim? Pena eu tenho de mim, que ando aqui sabe Deus como !
— Que tristeza, meu Deus ! e xclamou Thadeu num suspiro. Quanta coisa! Papai... tão bom, coitado !E ncostou-se á parede, inclinando a cabeça sobre o braço, a soluçar, A criança rezingava e Luiza, deitando-a no braço, desabotoou o corpinho fazendo saltar o peito branco, redondo, apojado.
Uma praça de policia appareceu na travessa em intimidade com uma mulata. Luiza chamou o irmão :
— Thadeu ! Elle limpoti os olho®, ás pressas, e virando as costas ao casal amoroso, repetiu no tremor de um soluço:
— Tão bom! Luiza, para disfarçar, perguntou:
— Você cheg^ou hoje?
— Hoje.
— E vens de vez ou a passeio ?
— Sei lá! Ficar aqui fazendo o que? Nem casa, nem familia... e toda essa gente que nos conheceu a rir de mim . . . S ei lá ! D eu dois passos na calçada e, de repente: A tua casa é antes ou depois da Jangada?
— ■ M uito p'ra cá. 'Ê logo depois da Bstiva, uma casinha amarella, com uma mangueira no terreiro em frente.
— E eu posso ir lá ?
— Ora essa! Porque não? A casa é pequena, casa de pobre, mas... você pôde ir.
— Elle não se aborrecerá?
— Aborrecer, porque, gente? Você não é meu irmão? Só então elle attentou na criança que mamava a goles lentos, d'olhos cerrados, quasi á dormir.
— Menino ou menina?
— • M enino. Anda. doentinho, sempre com febre. Nasceu forte que fazia gosto. Creio que é dos dentes. Tossiu, uma tossesinha frusta, e dissie, com sorriso pallido:
— Está vendo ? C hegou a minha vez. Á noite, tusso de rebentar. E já escarrei sangue, como você dantes. Encarou-o: E é verdade: Você ficou bom d'aquillo? Elle abotoou os beiços, em momo, E Luiza continuou: Trabalhos! Se eu não fizer pela vida não sei ! Agora é que eu sinto a falta de papai ! A quelle sim, coitado ! Calados, com os olhos no ceu, ficaram os dois no surto da mesma saudade, recordando o doce tempo em que viviam á sombra do 'homem forte e meigo que lhes aohanava o caminho por onde seguiam brincando, sem tropeçar no mais pequeno seixo.
— Bem, declarou Luiza, em súbita resolução: vou vêr o remédio e tocar por ahi que ão horas.
Adeus. E estendeu a mão' por baixo do chalé, com o braço encolhido para amparar o pequeno, que dormia.
Thadeu abraçou^a de leve.
— Então \K)'cè já sabe. E olha, recommendou, se você estiver com mamai não fale em meu nome.
Não quero historias commigo. Viva cada um ,para seu lado. Ella fala de mim : que sou isto e aquillo, que faço e aconteço. Melhor! E adeus! Encarou-o :
— E você já tem casa?
— Ainda não. Com certeza fico com mamai.
— Com quem ! ? exclamou Luiza, como escandalisada. Com mamai ! ? Deu um muchôcho, estalando um risinho de escarneo. Pois sim ! E bambaleou nos quadris: Você ha-de vêr, E, já caminhando, em andar amolkntado; Deus per>: mitta que eu me engane... Mas qual! Emíim...
Da esquina voltou-sie risonha, acenando de leve ao irmão. E desappareceu.
Immovel, d'olhar fito, Thadeu pasmava da indifferença d'aquella criatura. Era a mesma. Nem o soffrimento conseguira dobral-a: era o mesmo coração empedernido, a mesma alma insensivel, mais amarga, talvez. Notara a reserva com que o acolhera, arisca, com medo, sem duvida, de que elle se lhe fosse metter em casa, comer do seu pão, tomar um pouco do sol, pedir-lhe uma sede d'agiia.
Arfou em hausto, como a encher-se de força para resistir, e caminhou vagaroso, de cabeça baixa, olhando a sua sombra alongada nas pedras que fulguravam.
Era um dia quente, cáustico, de sol duro. Passavam cães esfalfados, correndo rente aos muros e o silencio, na claridade intensa e tórpida, impressionava como o das vigilias funéreas. Thadeu ardia em sede. Pensou em entrar em uma d'ajquiellas vendas, pedir agua ou tomar um refresco, mas o receio de ser reconhecido pelos madraços, que passavam os dias na calaçaria de conversa e pinga, sentados nas saccas. escarranchados nos caixotes ou encostados ao balcão, commentando a vida da cidade, fêl-o desistir. Seguiu.
Os seus passos soavam na calçada como martelladas. Aqui, além vulto ligeiro atravessava a nm; de longe cm longe apparèciam cabeças á js^^ nella, log"o recolhendo-se afogueadas. A Iuk vivida offuscava e acima dos tdliados o ar vibrava em faiscaçÕes de pó de vidro.
 porta de nm funileiro as amostras irradiavam fnljofores e, lá dentro, de pernas abertas num tambo, um homem, em mangas de camisa, pinta:- va a tampa de um baihú de follia, a pincdladaá molles que desabrochavam em rosas. Era o Justino, velho amigo do pai. parceiro de solo, cujas gargalhadas atroavam, aos domingos, a casa do Madruga. Deipois o barbeiro, seu Prates. Uá estava elle, repoltreado na cadeira dé rodizio. a l^r o jornal, informando-se dos caso» politicos para discutil-os com osi freguezes. IJogo adiante, a Idja de Madama Thereza, com as novidaldéá én exposição.
Na vitrina um manequim vestido 9e noiva espalhava a c auda sobre quinquilherias e caixas de essência, vidros de óleos e sabonetes. Brinquedos oscillavam em cordéis Tx>r cima áo balcão accumulado de -neças de chita, mlhas de chapéus, caixas e c artões com fazendas bordadas, enna:stràdia9 ' " =■ — de fitas.
Kra ali' que o pai costumava leval-o a compras, escolhendo vestidos para a mãi e a irman, enfeites: e, uma vez por outra, brinquedos para engambelal-o. Madama Thereza, de touca e ooulo-^. t;emr>fe com presentinhos de nada: cl^rotmos de caixas de camisa, papeis de liistorias.
Pensou na Luciana, a filHa da Madama, sXts^ e fina, loura, de um Icmro fosco como palha secca, olhos muito grandes, muito azues e sérios, por vezes tão tristes que faziam pena. Lembrou-se do dia em que a viu na igreja quando, com toda a família, acompanhou Luiza á primeira communhão, com as alumnas do collegio Patrocínio.
Tantas meninas, todas de branco, como um coro de anjos. Ella era a mais linda de todas è tão alva que o veu manchava-lhe o rostO', e tão meiga que, para ella somente Nossa Senhora sorria. E q uando o vigário offereceu-lhe a hóstia os cânticos vibraram mais alto, o som do órgão encheu de todo a igreja como em glorificação. Que bonito!
E cUq viu-a surgir, pairar um instante e dissolver-se na luz... Teria morrido?! Madama sim, lá estava, sempre irrequieta, com a sua touca de linho, a abrir peças de fazendas, a remexer na caixa de bordados, trefega, borboleteando, rezingando com nm moço de bigodes louros. E ella?
Parou á porta a pretexto de vêr um chapéu de palha, mas os olhos andavam-lhe lá por dentro afuroantes, procurando a cabecinha dos lindos cabellos de ouro.
Madama falou ao moço que deu volta ao balcão e T hadeu, receioso de que elle o viesse interrogar, seguiu. Vozes grazinavam alegres. Era na escola publica. Que alarido! Ali andara elle.
Conhecia toda a casa, toda! Revia os mappas, os 28o MIRAGEM quadros que ornavam as paredes, o armário dos livros, a talha no corredor. Bom tempo!
Sahia de casa cedo, com a sacola dos livros e a merenda, ia encontrando collegas pelo caminho e brincavam. Quantas vezes, sacudido pelo Manduca, que morrera de febre, gazeara nos mattos, com a funda e pedras, atirando aos ninhos ou galgando muros de chácaras no tempo das jaboticabas !
E as correrias asustadas quando' boliam com um velho italiano, vendedor de vidros, que se arreliava com certa alcuniha, injuriando-os ou arriando o t aboleiro em alguma porta para persegLiiil-os a pedradas tendo, certa vez, deixado por morto a um delles attingido na fronte por um caco de telha . . . Bom tempo !
Uma badalada vibrou cheia e grave no silencio. Meio dia!
Quantas recordações acordaram com aquelle dobre ! T oda a sua vida de outr'ora af fluiu á tona da memoria, fluctuou um momento, remergulhando mais triste. Ficou, porém, como últimos destioços de naufrágio, a lembrarça do dia do desastre, com o doloroso alvoroço em casa, a entrada do ferido, os cuidados, a morte, a vigilia, o enterro... Eo sino dobrava a espaços, lentamente.
Aquelle, ao menos, estava em repouso, era o único que não soffria, adormecido, para o sempre, no seio da terra.
Ia passando peia venda onda servira como caixeiro. Lembrou-se do patrão, o velho Seixas, rabujento e avaro, sempre a amimar as garrafas, a mudar as caixas, a experimentar os tomos das pipas acanteiradas.
Vivia com uma negra que lhe fazia a cosiniha e lavava a roupa. Não dava esmolas e, lá pelas tantas da noite, com uma candeia e um pau, sahia pé ante pé a correr a casa, a espionar os cantos do negocio, experimenitando as gavetas, a vêr sé estavam bem fecliadas, examinando os ferrolhos das portas, bradando, ás vezes, a illusÕes : «Quem está abi!?)) Pobre velh'o! morrera dias antes da sua partida. A venda passara a outro. Quem seria?
Viu um baixote, de bigodeira, pendurando á porta um penca de abanos. Seria aquelle o novo dono? Não o conhecia.
Seguiu, mas a alguns passos deteve-se, como apresado, e occorreram-lhe as palavras de Luiza sobre a mãi. Não! Não era possível!... Tudo aquillo era mentira, vingança. Luiza era assim: quando tinha queixa de alguém, mentia, inventava, calumniava. Quanto soffrera elle...! Não era possivel !
Chegara ao fim da rua Bonita. Tomou pela rua Formosa, a caminho do Fura-olho.
No largo, ao alto, ficava o cemitério com os seus grandes cyprestes e casuarinas. Voltou-se e esteve a contemplal-o de longe, com melancolia.
Mulheres subiam vagarosamente a rua íngreme com grandes trouxas de roupa á cabeça e um cavalleiro, desembocando do caminho do Morro da Vacca, atirava o^ animal a trote pelas pedras com garbo, teso e airoso na sella, o chapéu desabado sobre os olhos para proteg-el-os contra o sol. Thadeu pôz-se a descer cauteloso, picando os passos, na herva secca, sobre a qual os pés escorregavam como em estendal de limo e alcançou o caminho, estreito como picada em floresta, entre mattos e barrocaes, seguindo até chegar ás primeiras casas : cinco ou seis casebres a eito, esboroados, entre moitas, num vallo fundo.
Diante de um dbs mocambos, <feitado de bruU ços na relva, um mulato bexigoso fumava, die cotovellos no chão, o queixo nas mãos. Saudou-o indagando: «Se sabia onde morava uma senhora chamada Maria Augusta?»
O mulato levantou a cabeça e, adernando de flanco, disse preguiçosamente:
— É aíi. A segunda casinha contando de lá.
A que está com a porta aberta. Elle agradeceu, encaminhando-se pela indicação.
Ia apprehensivo, com o coração opprimido, respiranido a custo, em canoeira, com as palavras de Luiza martellando-lhe os ouvidos. A porta estava effectivamente aberta e, lá dentro, uma cabrocha, em mangas de camisa, alta, escanifrada, giro-girava cantando em dengoso falsete, a arranjar quinquilherias em uma mesa.
Bra, de certo, a Ludovina, a tal do Deseng^ no, oompianheira de sua mãi. Sentia-se-lhe nos modos livres, desmanchados, o traquejo dos contubemios, o habito inveterado de zangnrriana e crápula. Typo sórdido, repugnante de zabaneira surrada de vicios, pútrida, d'olhos miúdos, muito requebrados, como dois bêbedos aos cambaleios.
O peito brônzeo, ripado pelas costellas, á feição de persiana, tinha estygmas de sevícias e restos de escaras de ulceras. O carão escaveirado era largo, chato, com resaltos de prognathismo. Fronte curta, vincada, boca rasgada, de lábios finos, seccos, crestados, com um talho cicatrisado, cabello refoufinhado, 'hispido como piassava.
Tihadeu parou á porta descobrindo-se cerimonioso. A c abrocha voltou-se com ar de enfado, medindo-o d'alto, escarninha, e descahindo mollemente de ancas, sacudiu a cabeça em aceno intCi:- rogativo, cuspilhando d'esguelha:
— Que é?
— -Dona Maria Augusta...? Não é aqui?
— É aqui, sim. Mas ella não está. O senhor quer alguma coisa?
— Desejava falar com ella.
— Ella sa'hiu. Acho que foi na venda. Se o senhor quizer esperar, entre, não faça cerimonia.
E, num lance d'olhos, examinou-o da cabeça aos pés. Tem cadeira ahi, sente-se, fique á vontade, Ella não pode demorar. Mas accrescentou : É verdade que, ás vezes, quando acha prosa e gole pega de galho e fica o dia inteiro por ahi. Enirfim... Sorriu, desdentada e babosa e, desnalgando-se em bambaleios de lesma, disse revirando os olhos: Com licença... E voltou aos arranjos.
Thadeu poz-se a olhar o interior escuro do tugúrio que tresandava a arruda e mofo.
Sala estreita, chan, com a terra miuito batida, reluzindo como encerada, aqui, ali recavada em côncavos. O tecto, de telha van, com as vigas fuliginosas, como carbonisadas, estava colgado de floccos negros de picuman. As paredes çsborcimadas, abertas em fisgas e luras, mostravam o barro sccco e as ripas. Um feixe de hervas pendia d'um prego ao lado d'uma folhinha em chromo. A luz entrava por uma janella. Velha colcha de ramagens lufava encobrindo uma porta. Duas cadeiras de pau, caixotes e a mesa das bugigangas forrada por um panno de crochet encardido, com um despertador de nickel entre dois vasos de barro constituíam, por junto, toda a ornamentação. Um gato maltez, esgrouviado, foveiroi ia e vinha, corcoveado miando, a esfregar-se pelos moveis voluptuosamente.
A cabrocha esgaravatou na pared^e tirando uma ponta de cigarro. Accendeu-a e, baforando, pozse a andar pela casa aos reboleios, cantarolando em resmungo. Debruçou-se á janella, a olhar, falou a alguém com muchôchos e risinhos e tornou, arrastando relaxadamente as chinellas. Por fim, lançando a um canto a ponta do cigarro, deu lun sacalão á saia. repuxando-a á cinta, e disse a Thadeii :
— Ella não pode demorar. Eu vou. Fique á sua vontade. Com licença. E foi-se, direita á colcha que fazia de reposteiro á porta, levantando-a diante de si, e desappareceu, lançando uma exclamação :
— Gente ! Q ue coisa ! V ocê não tem vergonha, não, rapaz? Isto é hora de dormir?! Levanta da cama !
Uma voz estremunhada rouquejou, seguindose-lhe largo bocejo, longamente guaiado e estalejos de cama. Riso de troça casquinou, em guincho, cessando súbito e, depois de breve silencio, a cabrocha cantou no falsete dengoso :
Quando eu morrer não chores minha morte...
E a VOZ roufenha grunhiu enfesada, respondendo-lhe a cabrocha com rinchavelhada cynica.
Tiniu louça e logo estrugiu o espouco de garrafa desarrolhada.
Thadeu levantou-se vagarosamente e foi ficar á p orta, encostado ao umbral, assobiando baixinho um dobrado do batalhão. Sentia a sede mais árdega. Voltou-se para a porta do quarto com arrependimento de não haver pedido um copo d'agua. Relanceou os olhos pela sala. Riam alegremente fora: eram dois pequenos, em fraldas de camisa, brincando ás corridinhas, galgando a barranca, descendo pelas ram-pas, rolando aos trambolhões na herva engalfinhados.
Mas um vultO' appareceu na ladeira attrahindo-lhe logo o olhar. Era uma mulher magra, maltrapilha, com falripas grisalhas esfiapando-se-lhe pela testa, esvoaçando ao vento. Trazia um embrulho muito agarrado ao peito. Vinha em andar incerto, ás vezes lento, tacteando o piso, ou lançando-se d'arremes'So como empurrada. Cambaleava, estendendo instincti vãmente o braço, embrulhando na b arra da saia os pés calçados em sapatorras de homem e detinha-se arvoada, com risinho idiota, oscillando em equilíbrio para arremetter de novo.
Thadeu olhava a fito, attrahido por aquella figura esmolambada, desgrenhada que caramunhava e dançarilhava ao sol.
Os pequenos fugiram para o alto da barranca e, lá de cima, como entrincheirados, riam-se d'aquella miséria repugnante. Por fim bradaram uma injuria e correram desapparecendo no vassourai.
A bêbeda estacou resmungando, ás murraçadas ao ar ; d escahiu á -frente, em desequilibrio, e precipitou-se num declive indo d'encontro a mna arvore. Poz-se a mastigar, arrepanhando a saia rota e as pernas appareceram-lhe em gambitos amarellentos, oomo de marfim.
Thadeu espremia o olhar. Seria ella?! Arque^- java sem ar, com o coração a martelar-lhe o peito. Qiiiz sahir-lhe ao encontro, examinal-a bem de perto, rosto a rosto. Não ! E ra mais baixa que sua mãi... E aquelles cabellos brancos,..! Hesitava quando ouviu a cabrocha, que chegara á janella, dizer revoltada:
— Está ahi ella. E commentou: Vejam só como aquillo vem... Diabo da gambá! Atirou uma cusparada á rua e, colleando com asco, reentrou no quarto.
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