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Capítulo 15 · Miragem

Segunda parte V

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Verde e ouro. Os montes, de sadio frescor, respirando névoas por entre o arvoredo azulado e sol em tudo. Várzeas extensas de milharaes apendoados; cafesaes a eito vergando á carga, laranjeiras floridas. Brilho d'aguas regadias serpeando fugitivamente pelos mattos e voando, revoando pássaros e abeliias.

É Deus que lhe recompensa o esforço dando-lhe rega de chuvas, rociadas benéficas e sol, e fazendo com que a terra, em todos os seus tratos: campos, almargens, grotas e collinas, devolva as sementeiras centenas xle vezes multiplicadas .

Lá vai elle em mangas de camisa, chapéu de palha acabanado, enxada ao hombro pela trilha do pomar e sente o bom cheiro da terra que açori6o miraghm da e exhala o seu hálito puro, que é o aroma das hervas novas e das flores: Lá vai!

Long-e, por entre ramos, muito branca, aceada, com as ^^aiolas á varanda e as abelhas em volta do telhado, a casa da familia, a sua casa, cingida pelo jardim todo aberto em rosas.

Lá está o velho curral de taboas, onde a vacca relambe o novilho; no pasto os dois bois, muito juntos, com herva até as ancas roliças rumina^n vagarosamente, d'olhos fechados ; os anuns poemIhes cerco, pousam-lhes no lombo catando^hes os carrapatos ou equilibram-se em ramos finos que os balançam de leve.

Senta-se. Que doce sombra! Formigas crazam-se encarreiradas, insectos luzem em revoejo e, de instante a instante, um ruido balofo chamaIhe a attenção: são frutos que cahem esborrachando-se dé maduros.

É a fortuna que chega. Até que emfim! Na varanda, com o balainho ao collo, a mãi distrahese serzindo roupa. O gato ronda-a resbunandb, cor CO veado e um ramo de jasmineiro em flor brinca-lhe com os cabellos brancos.

E Luiza? É ella, sim, sempre trefega, que lá anda por baixo^ das laranjeiras húmidas, recolhendo lençóes de flores cabidas durante a noite. É ella! E como está contente! Como ri...

Com quem brinca? Um cão investe, recua, aos pulos, agachase sobre as patas dianteiras sacudindo a c auda, late. Súbito, dá volta; arremette MIRAGEM l6l ao matto, desapparece; torna d'arrancada a ladrar para rojar-se de lombo ao cliáo, rebolcandose, a rosnar festivamente á dona.

E lá em baixo, á beira do córrego, num cimo todo coberto de herva de S. Caetano, um homem alto, possante, em mangas de camisa, com a mão em pala aos olhos, contra o sol, alonga a vista pela estrada. É Nazario, o ferreiro, que procura alguém, talvez o filho...

Colheita. Todos os frutos amadurecem.

Bemdito sol! E colhem. Que alegria! Camaradas, gente de casa e de fora, um mundo! Todos cercam as arvores, enchem cestos e os carros acogúlam-se.

Cruzam-se bandos de jornaleiros. Estalam as espigas quebradas, empilham-se as cannas, peneiras e peneiras de café despejam-se ém côfos. E o que ali vai de laranjas e de tangerinas, de cachos de b ananas, de abacaxis, de figos e de pecegos... ! E a horta!?

E já a moenda range, crepita o moinho esfarinhando o fubá, o monjolo bate no campo. Está ganha a campanha! Nem mais um espinheiro: tudo é lavoura rica. E esse que vem vindo devagar por entre os laranjaes, tão parecido com o morto? a mesma estatura, a mesma robustez, o mesmo rosto corado e aberto, o mesmo sorriso bom, o mesmo olhar sereno.

É elle mesmo, o pai. É elle que vem visitar a terra, a casa, a sua gente. E a morte? E^ q 6 l62 MIRAGEM tumulo? Não! não morreu, porque os mortos não tornam. Abre-lhe os braços, apertam-se peito a peito, falam-se.

E no largo, em festa, diante da igreja, essa multidão acompanhando uma virgem, linda como N. Senhora? É Luiza que vai vestida de noiva, sorrindo. Eo noivo...?

Cantam. Ha um constante sussurro como do vento nas folhas. Mas para onde vai todo esse povaréu que apparece e desapparece? E o cemitério... Porque?

Onde os campos? onde os montes? Agora é uma tenda escura com a forja lampejando ao fundo. E c ontinuam a cantar, e continua o sussurro.

De repente, uma voz conhecida exclama : «Ai ! meu Deus!» Cantam ainda. Um choque. Vê-se num carro de bois, agarradO' aos fueiros, equilibrando-se com os solavancos pelos caldeirões da estrada recomida das chuvas. Um bolcu mais forte quasi o derruba; agarra-se. Os bois precipitam-se desapoderadamente, ladeira abaixo. Tenta o carreiro detê-los. Debalde afala, amear;a, díca-os de frente com o ferrão. É o desastre. Que horror !

— Que é isso, rapaz ! V ocê 'stá doido? Acorda.

— Hein ? ! T hadeu sentou-se na rede sarapantado, olhando em volta, airadamente. É você, Fabrício ?

— Eu, sim. Olha que você p'ra sonhar... Quc; berreiro...! Nossa Senhora!...

— É... Passou a mão pelos olhos. Você estava ahi?

— Pois então? Lá fora cahe agua que é um Deus nos atúda!

— Está chovendo ?

— Que Deus manda !

— Era você que estava cantando, Fabrício?

— Era. Porque ?

— Nada. Eu estava ouvindo em sonho.

— Ferrado com'ocê estava? duvido.

— Palavra! Um sonho exquisito... No fim, se você não me acordasse... nem sei! Crispação de relume e logo tronou o estrépito de um raio.

Oue é isso? perguntou Thadeu assustado. Temporal ?

— E feio ! E olha só como joga esta caçamba...

— Pois eu estava sonhando. Dá cá um phosphoro. Accendeu o cigarro. O ceu negro inflarrimava-se com os successivos relâmpagos e viamse-lhe as empollas das nuvens e, de espaço a espaço, como em desmoronamento, ribombavam trovões profundos e prolongados.

Vinha do escuro um cicio de reza. Crianças choravam. E o navio rangia, estalava, subindo, descendo nas vagas como se fosse sossobrar. Cruzavam-se exclamações de horror : «Nossa Senhora! Misericórdia! Valei-nos, Santa Mãi!» E golfões d"agua acachoeiravam-se estrondosamente pelo convés. 104 . MIRAGEM Correram insípidos sete longos dias de viagem, rio acima, ao longo da costa devastada e safara, desde Humaytá, passando por Assumpção, até essa triste e inhospita Corumbá, vigiada pelo forte Coimbra, onde havia um destacamento .

O desembarque effectuou-se tristemente, em silenciO'. Officiaes e soldados, olhando essa terra selvagem e estéril, rasa, coberta de cabanas como uma aringa, sentiam a alma confrangida como se para ali fossem degradados.

Em terra, bandos de mulheres, araviando em guarany, embrulhadas em grandes chalés brancos, espiavam a passagem da tropa, contendo, a custo, crianças que choravam esperneando. Cabras espavoridas deitavam a correr, berrando.

Raro em raro uma casa coberta de telha.

Eram renques de choças, á porta das quaes paraguayas ateiavam fogo ou, sentadas no chão, com grandes almofadas aO' collo, jogavam bilros fazendo crivo; outras, novas, púberes, os cabellos soltos, descalças, balançavam redes onde dormiam crianças. Pairava um silencio tórrido de sesta.

As tropas atravessavam as ruas caladas, por entre mulheres, que eram raros os homens que appareciam, e assim seguiram sempre até o quartel onde deviam repousar, á espera desse imaginário inimigo que ameaçava a fronteira.

O ódio, que animava os soldados contra O' governo desde o dia atabalhoado da partida do Rio, ag-gravando-se com as torturas da travessia, explodiu em franca hostilidade logo á chegada a Corumbá.

O atrazo da cidade, em grrande parte palhiça, o calor asphyxiante, o desconforto dos alojamentos no quartel em ruinas, o rancho aguado, os mosquitos que os não deixavam dormir, tudo concorria para acirrar os homens, que rosnavam ameaças, protestando, ás escancaras, contra as vexações de q ue eram victimas O cadete Fernandes, sempre irritado, dizia nos grupos :

— Isto é a nossa Sibéria, meus amigos, e peior do que a outra, porque é de fogo.

A disciplina era relaxada e os próprios officiaes davam o exemplo da insubordinação atacando o governo e os homens mais eminentes:

— Tantas elles hão de fazer que, um dia, a bomba estoura. E não falta muito.

Os dias succediam-se monótonos, em lazeira.

Os soldados, semi-nús, estendidos nas barras, dormitavam ou, espalhando-se pelos rincões escusos da c idade, em convívio com o mulherio reles, embriagavam-se provocando rixas nos garitos onde se juntavam michelas e calaceiros de má fama.

O mulato, azevieiro cynico e dado á pinga, conhecia todas as bibocas de jogo, todas as palhoças devassas e, uma noite, mettendo-se com l66 MIRAGEM certo valentão do Ladario, cahiu cosido a facadas.

Eram tão frequentes os conflictos que o cominando superior resolveu espalhar patrulhas nocturnas para o policiamento das viellas mal frequentadas. Ea cidade tornou-se como presa de conquistadores que se aboletavam onde lhes parecia pilhando e affrontando os habitantes á mão armada.

Thadeu amasiara-se com uma chinóca, rapariga séria que vivia, muito retrahida, num ranchincho de sapé, num alto, a cavalleiro do rio, em companhia da mãi, velha india, lavadeira e curandeira de fama. Quando não estava nas alpondras batendo roupa, com o pito nos beiços, andava pelos mattos catando hervas e raizes para mesinhas ou por aquelles recantos de pobreza benzendo crianças quebrantadas, bicheira de gado, «maldita» ou estupor, curando mordedura de cobras ou fazendo partos. Não faltava a velório e para tirar reza não havia outra.

Nhá Chica era tudo, assim nos palhaes como nas casas ricas, sempre com o seu rosário, mais virtuoso em curas do que todos os remédios de botica.

A filha, Maria Barbara, era rendeira, o seu nhanduty valia ouro e antes que lhe sahisse das mãos já estava vendido.

Viu-a Thadeu na igreja. Olharam-se durante todo o sermão e á porta, no momento da sabida, sorriram-se. Uma tarde encontraram-se e, como o soldado lhe estendesse a mão, ella parou, como magnetisada, olhando-o a fito, séria, a principio, depois risonha e, correspondendo ao gesto que lhe elle fazia, caminharam a par, vagarosamente, detendo-se diante das lojas e, quando deram por si era quasi noite. Elle, então, offereceu-se para acompanhal-a á casa. Foram.

A velha andava em peregrinação de cura e os dois ficaram no terreiro onde os encontrou a lua e ali estiveram até tarde, ouvindo os ruidos mansos da noite e falando baixinho, de mãos dadas.

Sabendo do que acontecera á filha a india esbravejou, furiosa e, traçando o chalé, dispunhase a ir ao quartel dar queixa ao commandante quando Maria Barbara se lhe atirou nos braços soluçando, pedindo-lhe que não fizesse mal ao coitado, porque naquillo tanta culpa tinha um como outro. Elle não a forçara, isso não...

A india cedeu, ainda que augurando mau fim, o fim detodas ; e citou nomes, recordou casos, lembrou desgraças e vergonhas: tanta moça 'perdida! tantos pobresinhos sem pai! Emfim... sua alma, sua palma.

Um dia -Thadeu foi jantar no rancho, a convite de Maria Barbara, e, tanto fez que, depois do café, no terreiro, como a noite esfriasse, a velha convidou-o a entrar. E foi ella que accendeu o lampião de kerozene para a «bisca». JogaÍ68 MIRAGEM ram até tarde e quando o soldado levantou-se procurando ok épi a Índia encarou-o:

— Ond'é quocè qué i co'€ssa noite ? Tá chuvendo... Thadeu garabulhou razões, mas a velha decidiu: — Ah! dêxa di luxo... E riram. E foi assim que elle se tornou o homem da casa.

Quando sahia do quartel, comprando sempre alguma coisa em caminho, era logo para o rancho, levando, ás vezes, Fabricio e lá ficavam horas e horas, de prosa com as mulheres.

O maranhense, esperto na viola, tangia toadas lahguidas e a chinóca ficava a ouvil-o encantada com as modinhas sertanejas, cantigas de amor ou bravatas campesinas nas quaes ferravam em luta vaqueiros e barbatÕes.

A Índia acompanhava o divertimento cachimbando quietamente a um canto.

Thadeu puzera ordem e aceio na cabana rebocando-lhe os muros, caleando-lhe a sala, sacudindo todo o picuman que lhe denegria os caibros, colgando-os de sanefas, barreando-lhe o forno, entaipando o chiqueiro. Comprara, em segunda mão, uma «marquez^,)) de vinhatico, três cadeiras e uma commoda; atamancara, elle próprio, um banco e um oratório para o Santo António de g esso e, aproveitando as folgas, corrigira o terreiro plantando-llie flores em volta.

Com caixas de sabão fizera um pombal e um cortiço e era ameno ficar, á tarde, ali fora, vendo chegar o enxame e os pombos, ouvindo-lhes O zumbido e o arrulho que se misturavam com o csLiIllo dos grillus. c !_► cicio constante e appellativo das cigarras.

A vida corria feliz, com a casa sempre alegre e f arta, porque as duas mulheres trabalhavam valentemente e Thadeu sempre concorria com alguma coisa, quando, uma tarde, a india annunciou-lhe mysteriosamente a gravidez de Maria Barbara.

O soldado empallideceu, estarrecido e, mudo, encarado na velha, mordicando os lábios, sentia que os olhos se lhe aguavam. E, atravez das lagrimas, z'iii o quadro triste que se lhe projectou instantaneamente da imaginação: Maria Barbara chorando, com uma criança muito intanp;i!Ída ao collo, envolta em molambos, sugando-lhe, com avidez, o peito murcho.

— Isso divia acuntecê, disse a india chamando-o á realidade, divia acuntecê mais hoje, mais amenlian. Sês não têm juizo... Elle poz-se a caminhar pelo terreiro, de cabeça baixa, roendo nervosamente as unhas. De repente, voltando-se e cruzando os braços, cabeça a prumo, perguntou, em voz estrangnlada :

— E agora ? !

— Uai! agora... Agora é ansim memo. Qu'é qu'ocê qué...

— ■ M as é que nós vamo-nos embora. Já veiu ordem. Estamos-nos preparando para segnir.

— Sês ! ? exclamou a velha corcoveando-se, com as mãos nos joelhos, os olhos duramente fitos no soldado. Sês vai-s'imhnra?! Modi quê?

— É ordem. -Orde?! Orde di quem? Desse qui tá hi?

Deodoro ?

— Não. 'É ordem do imperador, do governo.

— D'imperadô! Di guverno...! Ficou-se a olhar perdidamente, airada, repetindo baixinho, como para penetrar-lhe o sentido : D'imperadò ! ? di guverno ! ? Sulfito irrompeu : — Antonce imperado... Quá! E riu, riso de ameaça, sinistro como o brilho d'uma navalha. — Antonce imperado manda ocês só niódi fazê má ás pobres, num é? i quandu má tá feito, vórta! vórta tudo. É ansim ? Líuito bom ! I ocê vai ? Thadeu encarou-a em silencio. Tá bom... Deus Nossinhô cumpanh'ocê.

Foi até a porta apoiando-se a um dos alisares, sem animo de entrar. Esteve pensando, a menear com a cabeça, aos resmungos e risinhos.

Levantou os olhos e, de mãos postas , l ançou uma exclamação aos céus. Voltou-se de golpe : — Óia. rapaz, pódi sê; mas... Deu d'hombros balançando com a cabeça desanimadamente, murmurando como ao próprio coração : «Não dura, não. Ansim cum'ansim, terra tá hi. Sês passa, faz u qui bem qué i vai-s'imbora.

É cumu a esses qui atira ponta di cigarro accesa nu mattoi. Fogo pega, lastra, leva tudo e elles vão longe, cantando, sem oiá p'ra traz. Num fá má não, meu fio. Munrlu é ansim memo. Deus te abençoe.

— Mas que culpa tenho eu?

— Ocê? ocê num tem curpa,- não Curpa é da sorte di cada um. Imperado manda? Antonce?

Oui mais?!... Quem fica qui s'arranje. É ansim memo. Sê pensa qu'eu não contava co'isso ? O ra !. . .

A desgraça dos outro é como a sombra de nós, mas quem é que, no sol, óia a sombra? Quem? É ansim memo. Não tá lii tanta moça perdida ? Pruquê ? Agora memo, sê pensa ? não é ella só, quantas!...

Sentou-se na soleira da porta alisando os braços magros, tisnados e vermiculados das soalheiras no rio.

Thadeu sentia a garganta presa, o coração crescido, túmido, como prestes a rebentar. Adiantou-se e, prostrando-se diante da índia, a retorcer as mãos, disse commovido :

— Ninguém esperava, velha. Essa gente resolve tudo assim duma hora para outra. Foi de repente. Eu, se pudesse, ficava... A velha firmouse olhando-o direita:

— Sê!? Sè ficava?...

— Ficava.

— I cumu num fica ?

— Aqui? Só se eu desertasse, mas isso...

— Isso, que? Mundu é grande... vive, a gente vive em toda a parte. Quem barreou um rancho, barrêa outro. Caco, molambo... isso nãú vaJe 172 MIRAGDM nada. Sâ qiié fica, fica i eu juro qui ninguém bota mão n'ocê. Eu não sou d'aqui, sou di lon^^i, cunheço esses matto qui nem onça i, g anhando caminho, p'ra dá cummigo só Nossinhô. Sê querendo... É s ó querê...

Elle deu volta, arrependido do que dissera e poz-se a pensar na vida errante que lhe propunha a Í ndia — a fuga atravez de florestas cerradas, arriscando-se a encontrar Índios, a ser assaltado por feras, a perecer de febre ou á mingua e ainda a possibilidade de ser preso como desertor, posto a ferros numa fortaleza.

A Índia seguia-o com o olhar e quando o viu acenar de cabeça negativamente, em resposta ao próprio coração, não se perturbou como se contasse com aquillo, riu apenas, um risinho secco, acido e, firmando as mãos nos joelhos, poz-se de pé :

— É memo. P'ra que a desgraça di dois? Vai, meu fio. Disse e entrou.

Só no terreiro, olhando o ceu, que entristecia, o soldado sentiu como uma onda de saudade bater-lhe no coração. Sentou-se num toco de pau olhando tudo em volta, lentamente, como para gravar na memoria aquelle cantinho amoravel com as arvores, as flores e o rancho alegre onde gozara dias venturosos.

O pombal turturínava e um pombo andava em cima tufado, saracoteando com arrulho orgulhoso. O c ortiço refervia e ainda chegavam abelhas apinhando-se nos aivados, em cachos.

Pelos mattos, que recendiam a calidez do sol, iam surdindo finas vozes de insectos em ziziamentos, cicios e guisalhadas e, de espaço a espaço, lúgubre uma rola gemia.

Em baixo, nos aguaçaes cobertos de açucenas, os sapos começavam o coaxo monótono. Cigarras chiavam longe. Escurecia.

Que fazer? Entrar? Falar a Maria Barbara?

Não tinha coragem. Tão bôa, coitada! e tanto que lhe queria... E na tristeza d'aquelles pensamentos passavam, como coriscos em papel queimado, lembranças de amor — era o corpo roliço e cheiroso da chinóca, era a pressão dos seus braços nús, era o fervor dos seus beijos longos, era a ternura dos seus tartareios voluptuosos, toda ella, toda! com os cabellos, como elle os queria ver sempre : soltos, espalhados desordenadamente pelo travesseiro. Pobre Maria Barbara!

Accendeu um cigarro. O rancho illuminouse. Esteve a olhar a luz tão intima, tão hospitaleira, no fundo da salinha branca que elle tanto conhecia, palmo a palmo. Uma sombra desenhouse na parede, um vulto assomou á janella, inclinou-se a um e outro lado, como á espreita e elle reconheceu a chinóca.

Era ella que o procurava afflictamente nà sombra do terreiro e chamou-o: — Thadeu! e a voz tremia-lhe muito meiga, repassada em lágrim.as. Era ixm o canto da sereia que o attrahia... E elle foi indo, passo a passo e, quando a chinóca o descobriu mais se lhe enterneceu o encanto: — Huê! Você ahi fora? Porque não entra? Pensa que estou zangada? Deixa d'isso.

Vemi Foi. E, quando se acharam frente a frente, olharam-se mudos, trémulos e foi ella que se lhe atirou nos braços soluçando e apertaram-se, muito infelizes, beijando-se, dizendo-se blandícias em voz sumida para que os não ouvisse a velha que servia a mesa.

O' assumpto da conversa ao jantar foi a «maldade» do g overno, e Nhá Chica insistiu com Thadeu para que abandonasse a farda, seguindo com ellas para o interior... «Quantos conhecia ella que haviam desertado e andavam ali muito á vontade — e citou o Raymundo, que fugira no tempo da guerra e que se arranjara, ninguém sabia como (diziam alguns que com moeda falsa) e estava podre de rico, com os filhos todos arranjados e mandando na politica.)) Mas JMaria Barbara contrariou a velha:

— Não, mamai ; d eixe elle ir. Não quero que soffra por minha causa. Soldado é soldado. Se elle lembrar-se de mim e quizer voltar, muito bem, senão... Outra que o estime tanto como eu elle poderá encontrar, que lhe queira mais, duvido. Quanto ao mais Deus ha de me dar forças para crial-o. O pouco que eu tiver ha de chegar para elle. Conceição não está ahi tão feliz com MIRAGIÍM 175 a filha? E eu? Conheci pai? e não estou aqui?

Deus é grande ! Fui feliz, não me posso queixar da sorte: tive os meus dias alegres... agora... Paciência!

A velha resmungava. A resignação da filha irritava-a. Amassando vagarosamente o pirão, apollegava-o e repellia-o para responder amuada.

— S^ é ansim, é essa moliesa di sempre... dipois chora. Vórta... Vai isperando. Não vê memo qu'elle, s'apanhando lá, vai pensa n'oc«!.

Pois sim ! exclamou espichando os beiços, desdenhosa. Vai te fiando !

— Paciência, minha mãi.

Thadeu não dizia palavra, olhando ora uma, ora outra. A velha deixou-os allegando fadiga. . .

Sós, deram-se as mãos meigamente e, apesar da escuridão da noite, picada apenas de vagalumes, sahiram para o terreiro sentando-se no banco, muito juntos, aconchegados, como transidos de frio.

As harmonias do silencio, esses soídos do quirírí, que passam como espectros dos calados rumores do d ia na mais recolhida quietação nocturna, acompanharam o idyllio triste dos amantes.

— Então é assim, nãO' é? Se eu advinhasse... !

Não é pelo que houve entre nós, isso não me importa, é pelo que fica no meu coração. A gente começa á tôa, vai indo, vai-se prendendo, querendo bem, e um dia, sem saber como, parece que vive mais de outro do que de si mesmo. Eu estou jyÔ MIRAGEM assim. Quando você está perto de , m im, como agora, tudo me agrada; quando você está longe... nem sei. Isto sim, isto é que vai me custar. .

Thadeu tomou-lhe a cabeça, inclinou-a ao peito e, curvando-se sobre ella, poz-se a beijal-a devagarinho nos cabellos, na fronte, nos olhos, na boca e Maria Barbara, assim acariciada, ia falando docemente, como em sonho, parando, de vez em vez, para cerrar os lábios afim de que um beijo nelles penetrasse como abelha em botão de rosa.

— E elle, chinóca ? Vooê não imagina a pena que eu tenho de não estar aqui para vêr elle nascer.

Se fôr menino...

— Thadeu, disse ella languidamente. Bile oppoz-se :

— ' N ão, não quero. É um nome muito infeliz. Vamos escolher outro, mais bonito.

— Carlos, disse ella. E elle :

— Roberto.

— Você gosta? E se fôr menina?

— Maria, nome de Nossa Senhora, teu e de minha mãi. Se eu puder vir, como espero, muito bem ; senão você me mandará o retrato logo depois d'elle nascido, sim? e o teu também: quero os dois: o da minha chinóca e o de meu filho.

A pobre não respondeu: chorava.

Thadeu fel-a levantar-se e, para distrahil-a, passou-lhe o braço pela cinta, levando-a vagarosamente por entre as arvores, rumo á barranca, onde costumavam ficar á tarde, entre as bananeiras, olhando o rio.

Calados, seguiam devag^arinho, passo a passo.

Rumores d'azas frulhavam nos mattos, eram bacuraus em vôo baixo e curto, pousando e abalando mal os sentiam perto.

De repente, sahindo no limpo, o soldado estacou surpreso e a chinóca, contida por elle, levantou a cabeça assustada.

— Que é aquillo?

— O que ?

— Olha lá... É um incêndio!

— É. É fogo na matta. É do sol. O dia foi muito quente e ha mais de mez que não chove.

Está tudoi secco. Ás vezes é assim. O capim arde, o fogo rebenta, lavra num instante e leva dias e dias queimando.

O ceu estava de còr brônzea, laivado a rubro.

Densa nuvem de fumo rolava na altura com fulgurações instantâneas, como de relâmpagos.

Os dois quedaram contemplativos.

— Faz pena! exclamou o soldado.

— Isto aqui é sempre assim nO' calor.

Crepitações longínquas annunciavam a devastação das fortes arvores, a queima de velhos troncos. O vento trazia um cheiro morno de seiva e, longe em longe, estrépitos mais rispidos atroavam, a c laridade accendia-se mais intensa, em lumareu radioso. E o ceu, abrumado, carminavase em arremedo trágico de aurora.

O rio, em baixo, rolava somnoleiito, com brillio escuro, de aço. Ruídos chofravam como de merguliio. Além, na margem opposta, onde faiscava uma luzinha tremula, cantavam em festa.

Um sino soou, grave e, logo em seguida, triste, respondeu um toque de curneta. Mana Barbara vibrou em estremecimento, apoiaiido-se, com mais força, ao braço de Ihadeu.

— Que é ?

— Nada. É tarde. A porta hcou aberta. Vamos.

— Vamos. Regressaram em silencio. Thadeu ainda se voltou para o céu fulvo. O vento sacudia os ramos e fazia girar no terreiro as folhas seocas.

— Vai chover, disse Maria Barbara. E entraram.

A cidade alvoroçou-se com a noticia ^improvisa da retirada das forças. Foi geral o clamor: o commercio, allegando prejuízos consideráveis, porque fizera grandes encommendas que iam apodrecer nos depósitos; as famílias, porque fundavam esperanças nos officiaes, que as haviam freqíientado com assiduidade, muito sollicitos com as meninas. A gandaia, essa sentia e protestava pela soldadesca que toda vivia amancebada, mantendo o contuberniu, sempre disposta á pagodeira em serenatas, bródios, cururiís e jogatina.

O mercado esfervilhava agitado, bezoante de commentarios irritados e lastimas chorosas. Nos alpendres dos negócios, nos ranchos e até nas igrejas ontro não era o assumpto das conversas e recriminações dos homens, queixas das mais de familias, suspiros de meninas, vozerio das reiunas e arruadeiras que não continham a lingua, desandando-a em palavrões e cuspilhando d'esguelha, por entre dentes, com petulância affrontosa, desnalgando-se ás rabanadas e reboleios canalhas, com ar de desafio, quando descobriam algum officíal.

Certa mulherada pimpona, muito bebeJa e desordeira, impando a gravidez, batia no ventre, dizendo, em tom de ameaça : «Pensa que vou cria isto? P'ra cá, mais p'ra cá! e cruzava O' busto com a mão aberta, de hombro a hombro. Não fartava mais nada! A genti não é roça p'ra gafanlioto cahi in cima, istragá tudo i voá. Não vê!»

Tropeiros, no meio das recuas; carreiros, encostados aos carros, provocavam as zabaneiras, rindo, ás cachinadas, dos seus dicterios torpes.

De janella a janella eram diálogos entre matronas despeitadas e os transeuntes detinham-se nas ruas comm>entando o procedimento do governo.

A cidade sentia-se como se a houvessem saqueado levando-lhe o melhor das riquezas. E, como se um luto a envolvesse, cessaram as festas, desfizeram-se «partidas» e, no jardim, á l8o MIRAGEM tarde, eram raras as moças, essas mesmas tristes, em grupos fúnebres, conversando baixinho sobre O' sonho que se lhes desfazia.

No quartel era um atabalhoado aforçuramento. Martellava-se, serrava-se, acepilhava-se. Arrastavam-se caixas. Medas de palha davam ao pateo o aspecto de eira vasta em tempo de ceifa.

Enfardellavam-se arreios e armas, empilhavamse cunhetes e era constante o cruzar de homens em mangas de camisa, suando, em barafunda atropellada de carretos.

E quando a musica ensaiava no grande salão de telha van, em cujas vigas oscillavam morcegos, pendurados pelas azas, como peças de fumeiro, no pateo, entre cavallos á sóga, montes de palha, taboas e sarrafos os soldados -dançavam, corriam brincalhões, cantavam, assobiavam acompanhando os dobrados e chulas que atroavam. «A gente já tava ficando chucro!» E o veterano, abrindo a camisa, mostrava o peito , d izendo: «ôia aqui. Nem nu Paraguay, onde fui firido três vez, deixei tanto sangue cumu dêxo aqui co'esses damnados di musquitos. Isto é terra!?

Vote! É terra p'ra castigo...! Tomara já m'apanhá na Corte. S'isso durasse mais um mez... nem sei! acho qui ganhava u mundo.»

Thadeu limpava o seu correame, a um canto, quando Fabrício, que sahira da Arrecadação com um fardo ás costas, deu por elle e parou.

— Êh! pai... Então, hein? Sempre chegou o MIRAGEM l8l dia... O outro deu d'hombros, indifferente. Você está triste? ]Mod'ella? É? Leva, homem!

— Eu?

— Então? O tenente Aristides não vai levar a ro.r/n /í( 7. d elle? Thadeu sorriu tristemente e, encarando o camarada :

— E é só levar? Levar com que? p'ra que?

Não! Ella aqui estcá na sua terra, tem mãi... E lá? Se eu tivesse posses, muito bem, mas com o que ganho! Não...

— Bòa rapariga! commentou o maranhense...

E gosta de você mesmo, isso gosta. Fosse outra... nem você sabe. O capitão Nogueira bem que andou rondando, mas não arranjou nada.

Ha muita por ahi de alliança no dedo que não vale ella.

Thadeu levantou-se, resfolegou' largo, accendeu um cigarro e encostou-se á parede fumando pensativamente.

— Bom. Até logo. Você vai logo lá?

— Talvez.

— Então me avisa qu'eu quero me despedir delias.

A cidade amanheceu agitada, em rumoroso alvoroço como nos dias grandes de festa. Madrugada escura, ainda com os lampeÕes accesos, abrumados de garoa, já as ruas atroavam desusadamente com agudo rinchar de carros de bois, es-. l82 MIRAGEM troi>eada de ca^'?lleiros, bulício gárnilo de gente a pé, moradores das redondezas, que acudiam, uns por mera curiosidade, só para verem a formatura das tropas, outros a negocioi. trazendo mercas: frutas, doces, aves, animaes domesticados, rendas, objectos vários da industria sertaneja, desde os mais delicados nhandutys, até correames de s ellaria, artefactos de chifre e de couro, chapéus de palha grossa, redes e maquêras.

Em volta dos pousos, nos caminhos, pastavam animaes de tropas e grandes bois de canga, com argolÕes nas aspas muito abertas.

No interior afumado, onde vermelhejavam brasidos, empiihavam-se cargueiros : ceirÕes e cofos, bruacas, fardos forrados de esteiras, feixes de varas e paus roliços, jacas e capoeiras d'aves que grasinavam inquietas.

Tropeiros jaziam lerdos, uns de cocaras á beira do fogo, outros deitados nos encoscorados ligas, cavaqueando amodorradamente.

Improvisavíim-se feiras a cada canto em atra- ^^^.ncada barafunda de taboleiros, caixas, covos e gaiolas. E eram pencas de bananas, cachos de coco, cestos de laranjas, numa immundicie de cascas e de bagaços de frutas em estrumeira estivada de p allias de milho e folhas seccas. E sempre a chegar gente, como em romaria. Na indifferença do tiunulto mendigos pedinchavam em voz dolente ou cantando.

Desde que se abriu o sol as lojas encheram-se MIRAGKM 183 de soldado<í e de reiunas em azáfama de compras.

Disciitia-se em vozcirada, regateava-se com furor, aos protestos desabridos contra os preços aladroados. Entravam e sabiam magotes aos empurrões, e, como eram todos conbecidos de badernas, cbamavam-se pelos nomes, pelas alcunhas, juntavam-se em grupos palestrando.

Espocavam garrafas, volta e meia era um que vinha á porta soprar a espuma do copo de cerveja ou cuspinhar o resaibo do codorio.

O fumo toldava o ambiente que tresandava a sarro e a álcool e era incessante o bezôo de vozes, cortado de cascalhadas estridentes, ás vezes palavrões em replica atrevida. Mulheres avinhadas apinhavam-se aos balcões, muito relamborias, algumas com riso ébrio, olhos languidos, cuspilhando de esguicho e, revolvendo amostras, escolhiam quinquilharias vistosas, abrochavam pulseiras, sopesavam collares de grossas contas, adereçavam-se de pechisbeques, mirando-se garridamente ao espelho aos requebros dengosos.

Outras examinavam fazendas, comparavam padrões de chalés ou experimentavam chinellas.

Pequenotes enfenniços, còr de barro, d'olh.os assonorentados, comidos de sapiranga, choramigavam manhosos' pedindo brinquedos caros.

Os caixeiros, muito apressados, subindo e descendo escalas, desenrolavam peças de chitas e de madapolão, abriam caixas de sabonetes, mostravam vidros de essências, potes de ponaaclaG ou bugigangas de plaque e de celluloide com louvores de encarecimento.

E os balcões desappareciam sob pilhas de amostras : fazendas amarfanhadas, caixas abertas, roupas feitas, muito encardidas, chapéus, todo um mistifório de bazar em que faiscavam brilhos de missangas.

O dinheiro corria fácil por entre gargalhadas e muchôchos e os negociantes não se fatigavam, aproveitando' a balbúrdia para desentupir armários e prateleiras do rebutalho que os entulhava.

Pelas ruas, enlameadas da chuva da véspera, por entre moaites de lixo, chapinhava a turba chalrando alaridamente como' em disputa.

Ás vezes eram matulas: mulheres descalças, desalinhadas, com o casaco aberto deixando vêr o peito magrO', em aduellas, tisnado de manchas suspeitas e com cicatrizes. Algumas tinham tatuagens extravagantes e exhibiam-nas orgulhosas. Outras, com crianças taludas escarranchadas á c inta, trouxa á cabeça, rebolindo as ancas, araviavam em guarany. Rapazolas esfarrapados, corriam, pinoteavam, a rir, emipurrando-se twis aos outros sobre as poças de lama ou nas esparrimas de estravo.

Velhas esqueléticas, de gambitos seccos e luzidios, mal cobertas de farrapagem sórdida, olhinhos sumidos em talho fino, como bagas em favas seccas. grunhiam enfesadas, com a baba a escorMIRAGlSM 185 rer aos cantos da boca engelhada e como, entre o bando, iam soldados, tinha-se a impressão do desfilar de nma chusma de galés.

Thadeu andara toda a manhan pelos negócios parando diante das vitrinas, ás portas, ajustando jóias, sempre caras, perguntando o nome de certas fazendas que achava bonitas. Por fim, depois de muito pensar e escolher aqui, ali comprou para Maria Barbara um corte de vestido de cassa e um coraçãosinho de ouro, um chalé para Nhá Chica e uma peça de morim para o enxovalsinho do «pequeno».

Aquelle filho não lhe sahia do pensamento.

Já o tinha como nascido, via-o, ouvia-lhe a vozinha débil, seguia-o nas travessuras, lindo e rechonchudo como um Menino Jesus.

E tinha pena de Maria Barbara, coitada! tão só no soffrimento de amor, sem elle para animal-a. Ao menos quando vestisse o «pequeno» com as camisinhas d'aquelle morim, quando o chegasse ao peito, quando o ninasse nos braços havia de pensar nelle.

Doia-lhe no fundo d'alma a saudade da terra e, mais que tudo, a d'aquelle amor mimoso. Lembravam-lhe episódios de ternura : a troca de olhares no primeiro encontro, as primeiras palavras que se disseram, certa noite nos «cavallinhos» e aquella hora inesquecível, tão serena a principio, l86 MIRAGEM cheia de timidez, e, de repente... Aquella hora delirante de lagrimas e beijos, hora que vivia no seio da chinóca e que, em breve, soaria em riso e seria o filho, ella e elle na mesma carne, os seus corações, como os seus beijos, fundidos num só ser ; h ora eterna, sof frida e erozada na sombra verde, ao som dos murmúrios da tarde emquanto a velha, a poucos passos, cantava á beira d'aoua, batendo roupa nas pedras.

Súbito um pensamento relampejou-lhe no coração em ciúme. Outro, outro que o substituiria, assenhoreandoi-se da casa e possuindo-a, a ella, Maria Barbara, vcndo-lhe o corpo na intimidade do leito, apertando-a nos braços, sorv^endo-lhe beijos na boca, ouvindo-lhe as mesmas palavras tremulas que ella gemia chamando-o todo a si.

Quem seria elle? Pensou em tantos...! Alg-uns d'aquelles que por ali andavam, talvez o próprio caixeiro que lhe cortara a fazenda ou certo homem que, uma vez, encontrafa parado diante da casa, com a espingarda debaixo do braço e um cão.

Remordeu-se de raiva. Mas que fazer? A pobresinha não podia viver desamparada, nutrindo-se de saudade e bebendo lagrimas. Deu d'hombros, resignado.

Como marcara encontro com Fabrício em um armazém, onde costumavam beberricar jogando a bisca, lá foi ter.

O maranhense esperava-o impaciente, indo e vindo, aborrecido, entre pipas acanteiradas. Ao vêl-o entrar explodiu:

— Homem... Olha que você é molle duma vez! estou aqui ha mais duma hora, neste fedor de vinho azedo... Já bebi não sei quantas doses.

Chamou o caixeiro, pagou a despeza e, recebendo um embrulho, disse de mau humor:

— Vamos.

— Que é que você lexa. ahi ? perguntou Thadeu.

— Vinho e uma garrafa de canna. E você?

— Umas lembranças.

— Pois é. Hoje é despedida. Voltou-se e, encarado no companheiro, exclamou : — E você quer saber? Não é qite eu estou triste, com saudade d'isto!?... Assim como assim, a gente acaba acostumando-se.

- — É...

— Você então...! Eu não quiz saber de emperramento. Nada ! Levei sempre a coisa de pagode, com uma, com outra. Rabicho é o diabo !

A gente pega de galho e p'ra se arrancar é um custo. Eu estou vendo os outros. Um até já desertou, oC amillo. Dizem que aaulou p2iV2í. a Bolívia co'a pequena. Homem... É verdade que a «bichinha» está...?

— Está.

— Que massada ! É o que a gente arranja.

Eu, por mim, vou com o coração escoteiro:

Sahiram. l88 MIRAGDM Maria Barbara recebeu-os aleg^re, com o sorriso de sempre. Estava linda! De branco, chinelinhas novas, uma flor no cabello. A casa, muito aceiada, cheirava a defumação.

O maranhense entrou ruidosamente, abraçando as mulheres, e, pondo-se em mangas de camisa, foi logo pedindo a rede, armou-a entre duas arvores, no pomar e deitou-se com a viola, balouçando-s<e de leve, a cantarolar modinhas, até que, abochornado, espichou-se, cobrindo-se com as varandas para dormir uma somneca livre dos mosquitos. Nhá Chica foi para a cosinha e Maria Barbara, a pretexto de mostrar o enxovalsinho em que anda^'a trabalhando, encerrou-se no quarto com o amante. A casa ficou em silencio.

Ao cahir da tarde, com a fresca, Thadeu e a chinóca sahiram para o terreiro. Onde se teria mettido Fabrício? No banho, com certeza.

Desceram vagarosamente em direcção ao rio pelas trilhas sombrias, cheias de recordações.

Foram indo, mui de passo, abraçados e mudos.

Ás vezes, parando, esqueciam-se em beijo longo, depois, alisando-lhe carinhosamente os cabellos negros, elle íitava-lhe os olhos tristes .

O sol inclinava-se incendido, dourando as folhas, que tremiam como azas. As gallinhas rondavam as arvores, empoleiravam-se-lhes nos galhos; nos mattos começava o guizalhar dos grillos e os sapos romperam na melopêa melancólica. O c eu, queimado por um dia tórrido, parecia peneirar cinza fina que abrumava as distancias. De quando em quando um gemido de rola.

Uma voz cchoou. Era Fabrício que os chamava para o jantar. Mas Maria Barbara insistiu em descer até a beira do rio e, diante do remanso, que era o lavadouro de nhá Chica, áquella hora liso, espelhado, enclavinhou as mãos, levantou os olhos, e, encarada no amante, murmurou tristemente :

— E agora, Thadeu ? Como ha de ser quando eu vier aqui, de tardinha? Você está vendo? e mostrou nagua as imagens de ambos: Se a agua guardasse o retrato da gente... Mas a agua é como o coração dos homens, que só se lembra das pessoas quando estão perto delle.

— Quem sabe se não é melhor assim ? p onderou Thadeu. Vêr sem sentir, sem poder peg'ar. Mexe nagua, experimenta... Nós estamos lá dentro abraçadinhos, não é? Mexe só...

— P'ra que?

— Mexendo, a agua acorda, estremece, e tudo se some. Isso é como o sonho. O melhor é a gente olhar de longe, sem tocar, hcar olhando assim, quietinhos... como estamos, sempre de longe.

— Ah! agora é que você diz isto... Se a gente tivesse feito assim... Elle pegou-lhe no queixo, soergueu-lhe o rosto e, fitando-a nos olhos, perguntou meigamente:

— Você está arrependida, não está ? F ala verdade. EUa deu d'hombros :

IÇO MIRAGEM

— Arrependida? e sorriu triste com um momo... E d e que servia agora o arrependimento? O que está feito, está feito. Ha de ser o que Deus quizer.

— Mas ficas com raiva de mim, não ficas ?

EUa respondeu em tom reprehensivo :

— Raiva?! Raiva, porque? Fico com saudade, isso sim ! Eu vivia socegada no meu canto, meltida commigo, você appareceu... p'ra que?

Se eu adivinhasse que isto havia de acabar assim...

Se a gente tem pena de arrancar da terra uma plantinha á tôa, quanto mais do coração ! lamse-lhe os olhos marejando d'agua. Repuxou um ramo e poz-se a esmigalhar uma folha entre os dedos, e as lagrimas pingavam-lhe pelos cantos da boca em duas gotteiras. Thadeu achou-a linda no soffrimento. Correu-ihe um arripio pelas carnes, o sangue ferveu-lhe em estos e desejou-a com frenesi.

— Olha para mim...! Ella obedeceu humilde.

D'impeto elle agarrou-lhe os pulsos, aítrahiu-a a si, brutalmente e, em voz surda, fak.. :•.) por entre os dentes cerrados, como se trincasse as palavras, disse-lhe em rosto, eomo a injurial-a, retorcendo-lhe devagarinho os pulsos :

— Eu sei. Pensas que não sei ? Você está bem contente até. Ella encarou-o surpresa. Elle insistiu, contrahindo o rosto em ódio: — Está, sim! porque já tem outro.

A chinóca sofíreu o insulto sem protesto, de MIRAG^tíM I9Í cabeça baixa, tremendo. De renente desatou em soluços, com um brando esforço para livrar-s€ do amante, que a torturava, rada vez mais acirrado, affrontando-a com o cinme hibrico:

— Pensas mie não sei? En nno sou tolo! Doida por isto estava você, seu diabo! Mas deixa-te estar...

— Porque é que você fala assim, Tbadeu?

— Falo porque sei . . ,

— Que é que você sabe, creatura, diz ! Oue é? Elle encarou-a, mudo. Súbito, arrependido, abraçou-a e, b eijando-a, noz-se a pedir-lhe perdão:

— Perdoa, meu bem, eu não te nuero offender. Isto tudo é ciúme. F<u penso em tanta tolice... Se e u não te quizesse bem...

— Querer bem assim para dizer desaforo...

Outro! Tomara eu poder commiçfo! Outro está aqui. e baixou o olhar ao ventre. Esse sim...

— ^ E stá bom... Não chores mais. Vem cá! vSentou-se em uma pedra, puxou-a para o collo e, anertando-a nos braços esmacfadoramente, beiiando-a nos olhos, na boca, sentia-lhe o aroma asfreste do corpo, que o excitava como um amavio.

— Se você soubesse, Babinha. Eu só penso nisso...

— Nisso, que?

— No outro. Deus me livre ! exclamou desafocfando-se e, como em ameaça san£riu*naria, af firmou : E u nunca fiz mal a ninguém, mas juro 192 MIRAGUM que se apanhasse um homem aqui com você. fosse quem fosse... Nem sei! Passou a mãO' pela fronte como para afastar uma idéa sinistra. EUa sorriu, resignada.

Escurecia. As cigarrras chiavam, sapos tiniam nos alagados. Ouvia-se o murmúrio dormente das aguas.

Um dobre de sino oahiu na serenidade. Maria Barbara persignou-se. Outro dobre soou mais claro, como se viesse de mais perto.

— ^ A manhan por esta hora... disse Thadeu com o olhar ao longe. E ella, levantando a cabeça cujos cabellos desmanchados emmaranha-- vam-se-lhe pelo rosto, encarou-o commovida.

Olharam-se, a principio graves, depois sorrindo , aconchegando-se.

De repente, em arremesso lúbrico, atirando os braços em volta do pescoço de Thadeu, a chinóca entregou-lhe a boca aberta, em ânsia sôfrega de beijos, desvairada, e rugia de amor, por entre soluços, ad ebater-se como fera em luta com a presa.

— Maria Barbara ! bradou a velha, ao longe.

A noite descia rápida e, no escuro das arvores, soava devagarinho a harmonia do silencio feita com os mil pequeninos ruidos da terra somnolenta.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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