Universo da obra
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Terceira parte
Vassouras! annuiiciou o chefe de trem, mal o comboio moveu-se, deixando a estação da Barra.
Thadeu debruçou-se á janella, com anciã de rever os campos tajntas vezes percorridos, os montes e o magestoso Parahyba, d'aguas barrentas, todo semeado de ilhas e de rochas, orlado pela vegetação exuberante, onde as capivaras, ao nascer da lua, grunhem.
Conhecia aquillo tudo a palmo. O rio, quantas e quantas vezes o atravessara a nado ou em ligeiras pirogas de pescadores. Ali, a casa de tuna fazenda ; m ais em baixo, uma palhoça. De vez em quando, baixando a cabeça, dolhos fechados, concentrava-se evocando scenas de out'ora, sitios familiares, ranchinhos, trilhas que percorrera, arroios em que se banhara.
Faltava alguma coisa naquellcs campos...
Abria os olhos, punha-os a fito na paisagem, via-a fugir, perder-se. E o comboio avançava colleante.
Terreiro murado de fazenda, a casa ao fundo ; a capella. Adiante o pasto coalhado de bois e, pequenino, devastado, em matto, o cemitério com um mausoléu de mármore denegrido.
Quando a locomotiva apitava o coração batiaIhe precípHe e uma ânsia opprimia-o como se se lhe suotasse o fôlego.
Á beira da estrada uma casinha de turma.
Ipyrajnga !
Não tardava Vassouras, era a primeira estação. E o comboio dimintiia a marcha. Boi na linha, de certo. Inciinava-se para olhar, mas a poeira era muita.
Numa volta viu a locomotiva — ia rápida, com o puxavante aos impulsos céleres. Passageiros levantavam-se reunindo a bagagem de mão, sacudindo a roupa. Por vezes, á margeni da linha, atroava alegre vozerio. Thadeu olhava e via ainda mulheres e crianças que acenavam adeuses, logo desapparecendo na volta do caminho.
Outro cemitério, em ruinas como o primeiro.
Esse, entnetanto, quando elle partira, era florido e liaido, ajardinado. Os túmulos, quasi todos de escravos, eram como canteiros. Outro silvo. Seria Vassouras? Ainda não. E espanta va-se das mudanças que i a encontrando: aqui, ruinas; além construcçÕes, lavouras novas.
Grande telheiro quasi á margem da estrada: ao fundo, a casa ; g íente a aceiíar. As Cruzes, fazenda antiga e riquíssima. Estava perto... d'ali á estação era meia hora a cavallo, em caminhos revessos. Pela estrada era um instante. Pomar. A casa entre os laranjaes; no monte, além, os cafezaes a eito. Novo silvo. Agora sim : era Vassouras.
E o comboio foi diminuindo a marcha. Gente sahia para a píatafórma dos carros, mulheres gárrulas despediam-se, homens arrastavam latas, apressando-se, sacudindo-se. Finalmente a estação. Thadeu tinha os olhos húmidos e o coração ia-se-lhe apertando, confrangido e medroso, como se presagiasse maguas. E o comboio ralentava.
Crianças corriam para os vagons of ferecendo frutas, pedindo as malas; estendiam os braços, seguiam a marcha lenta dos carros agarradas ás janellas. Uma mulata velha, sentada no banco da estação ao lado de uma bandeja de café, olhava os passagiros com dscorçoada tristeza. Thadeu, reconhecendo-a, poz-se a chamal-a:
— Sá Emerenciana !. . . Sá Emerenciana !
A mulata mirou-o muito e voltou o rosto.
Elle, porém, logo que desceu á plataforma, como o comboio começasse a caminhar, dirigiu-se á velha tomando uma das cíhicaras na bandeja:
— Então, já não me conhece?
— Quem é o senhor ? indagou a mulata mirando-o muito.
— Ah! não me conhece mais!... Thadeu, filho de Manuel Fogaça, do Madruga.
— Seu Manuul ! ? Ajli [ exclamou a velha de i-epente, pousando' a bandeja no banco. Seu Manuel. Év erdade ! O que morreu debaixo do carro ?
Mas o seohor... É você mesmo... ? C omo é? Como é seu nome . . . ?
— Thadeu.
— Isso mesmo ! e xclamou espalmando as mãos nos quadris. Mas como você mudon, homem de Deus ! e , sem transição : V ocê não era, soldado ?
— Era.
E de repente : C omo vai mamai ?
— Sua mãi? Nhá Maria Augusta? Anda lá...
— E minha irnian...?
— Que é que tem ?
— Onde está ? Como vai ?
— Está em Vassouras, mas fora da cidade.
— Não está com mamai ?
A velha mirou-o muito tempo e, ingénua, sem notar a angustia que se reflectia nos olhos de Thadeu, sorriu :
— ■ E ntão não sabe. . . ?
— Não, não sei.
Encararam-se. Nesse instante, porém, a pequena locomotiva da Vassourense solavancou e Thadeu teve apenas tempo de precipitar-se no vagon, mas agarrado ao balaustre ainda inquiria, interrogava ansioso :
— Mas que é? que é? Diga...
— Não, você vai para lá. Não sei, não...
Adeus !
O trem seguia aos trancos, bufando. Thadeu, encolhido, nem sequer voltava os olhos para vêr as casas conhecidas da estação. Ia preoccupado com as palavras da velha: «Então não sabe...?» e o seumalicioso sorriso, e os escrúpulos em dizer a verdade. Luiza, longe da mãi... a expressão «anda lá!» com que se referia á Maria Augtista...
Que teria acontecido?
Ao pagar a passagem olhou o conductor, a vêr se era o antigo, o Gomes. Não, era um rapazola moreno, vesgo. Não conhecia um só dos passageiros, tudo gente estranha, como de outra terra.
Comcentrou-se indifferente á paisagem, com o pensamento num turbilhão em que se misturavam venturas e desgraças imaginarias.
Que teria acontecido? Como explicar o apartamento de M aria Augusta e Luiza? Porque? Talvez a i rman se houvesse casado, tinha tantos pretendentes, tantos que a namoravam... e a mãi, com aquelle g^enio exquisito... Mas então porque não lh'o dissera a velha, refolhando-se em tantas reservas ?
Uma curva, o apito da locomotiva annunciando a chegada, muros de quintaes, a torre da matriz, o c asario. . . E m fim . . . !
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