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Capítulo 18 · Miragem

Segunda parte VIII

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Dois mezes de hospital e com a sentença de morte a atroar-lhe os ouvidos, porque o medico que o examinou á entrada, um velho acaboclado, de óculos, depois de o interrogar, com aspereza, sobre os antecedentes : «Se já havia tido hemoptyses? Se tinha thysicos na família?» auscultou-o vagamente, declarando a um moço que o acompanhava attento: «Ê um caso liquidado.»

A um gesto do velho o outro adiantou-se e, depois de a pplicar o ouvido ao peito e ás costas de Thadeu, percutir-lhe os hombros, as costellas, concordou com o diagnostico. E o velho concluiu esncarado no enfermo:

— Podes dizer adeus á farda. Estás livre, A^ora é cuidar d'isso, entendes? pôr ahi uns remendos, porque essa coisa, lá por dientro, está a pedir reboco. De onde é você ?

— De Vassouras.

— Bôa terra, bom clima... Pois é tornar para lá quanto antes e viver quieto. Bôa carne, bom leite e nada de extravagencias, se é que não te desagrada isto por cá, porque o que tens ahi dentro não dá para muito. Isso, estou a vêr, é mattogrossada; pagodeira velha. Mulher ali é matto, e matto venenoso. Pois é. Eu não illúdo. Digo o que é. Vá, deite-se, agasalhe-se e fume pouco. O remédio virá ter aqui. Fez uma caramunha de desanimo, a que o outro correspondeu com um .^orriso. E foram-se.

Dois niezes de hospital! Vida triste, enfadonb.a, na vasta galeria de sof frimento.

Sempre aquelle cheiro acido, enjoativo, as mesmas conVersas melancólicas, a mesma dieta dissaborida e o pouc(5 caso dos enfermeiros. Ás vezes era um que acabava, arfando devagarinho, a boca aberta, os olhos estagnados, vitreos. O visinho de leito dava o alarma sinistro da morte.

Acudiam enfermeiros, os doentes agita vam^se, unia lufada de terror sacudia-os e ficavam transidos como o gado quando fareja o sangue de um companheiro abatido.

Eram sussurros aqui, ali; perguntas tímidas.

Alguns rezavam baixinho. E o morto ficava estendido, coberto até o queixo, como se dormisse, com as moscas voejando-lhe em volta.

Mas a vida retomava a sua marcha indifferente, passando atravez d'aquella immobilidade com leve frémito de emoção, como um rio trambolha em rochedo espumejando férvido, para logo defluir serenamente, Hmpido. *Dois mezes!

Durante o dia nada mais do que a visão fixa d'aquella sala melancólica com as idas e vindas dos enfermeiros, a visita displicente dos médicos, o \ ozeio surdo das conversas. De quando em quando um ai ! muito longo, arranque de tosse, ou o sobresalto de uma syncope.

Á noi.t'", no bruxoleio da luz escassa, sombras estranhas tisnavam as paredes, bracejando ou como que abrindo azas trágicas: Eram enfermos que se levantavam angustiados, recahiam arquejando ou bradavam assustadoramente, como a pedir soocorro, no pungir de uma dôr ou em delírio de febre. • E o enfermeiro suigia assonorentado, resmungando, intimava grosseiramente o enfermo a aquietar-se, deitava-o á força, ameaçando-o.

Refazia-se o silencio lúgubre, cortado pelo resoninar de uns, pelo sarrido de outros, por um escarro, uma tosse, um lamento, um suspiro. Dois mezes !

Quando lhe consentiram levantar-se andou pela enfermaria em passos arrastados, muito fraco, sentindo as pernas frouxas, molles, como desossadas. Sahiu ao jardim, cammhou um momento, bambo, tremulo; sentou-se, por fim, á sombra de uma arvore, olhando o ceu azul, gozando o suave calor do sol, acompanhando enternecidamente o v ôo dos passarinhos.

Á medida que melhorava sentia que se ia tornando incommodo áquella gente do hospital, médicos e e nfermeiros, que o olhavam de má cara, como se elle ali se mantivesse por abuso, usurpando o l ugar a outro, comendo, bebendo e dormindo á tripa forra, conio parasita. Desconfiava de todos, tomando a si quantas phrases ouvia. Uma vez quasi chorou de vergonha ao dar com um mulato enfermeiro, sujeito mal encarado, muito de pirraças, sempre ás turras com os doentes, que dizia a um criado: «Que quer você? Isto é o paraíso dos malandros. Ha aqui typos de tanta ronlia que chegam a enganar os médicos. Alguns até, nem sei como, fazem suibir o thermometro.

Dizem que é com o cigarro, que escondem debaixo do lençol. Não sei. A verdade é que, depois da visita, ficam ahi lampeiros que nem parecem os mesmos. Você quicr vêr essa sucia é na hora da bóia...»

O velho medico que, a principio, tinha sempre um dito alegre para elle, passava quasi indifferente, mirando-o d'esguelha, com acenos de cabeça e resmungos.

Para evitar olhares, sorrisos maliciosos e o cochicho dos enfermeiros, sempre inticantes^ sahia cedo para o jardim, punha-se a passeiar ao sol, como lhe recommendara o medico, ou sentava-se á sombra de tim tamarindeiro, onde ficava horas esquecidas, banzando.

Quando pensava na sahida do hospital tornava-S€ apprehensivo, sombrio. Para onde iria naquelle estado de fraqueza que o abatia ao menor esforço, prostramdo-o esfalfado, a suar e tontc como em vertigem?

Vendo mourejar o jardineiro', homemzarrão robusto e alegre, com a saúde a reçumar-lhe em cores do rosto largo e moreno, pensava em voltar á terra, mas dava de hombros, com um sorriso triste.

A ttrra...! Conhecia-a bem! Fora ella que o reduzira áquella miséria, que llie arrancara o priir.eiro sangue, que o vencera formidavelmente quando elle tentara domal-a, tirando-lhe a ibraveza do maninho, limpando-a das "hervas, destorroando-a, revolvendo-a. Sentia-se vencido, incapaz de qualquer esforço: molle de corpo, quebrado de animo.

Repelliam-no das armas, despiam-lhe a farda.

Aquelle sangue, arrevessado a golfadas na hora enérgica e grandiosa em que mais se pedia ao soldado força e garbo, condemnara-o para o sempre.

Se houvesse jorrado de ferida heróica aberta a ferro, na fúria do combate, o ponto do peito em que lhe houvesse ficado a cicatriz seria assignalado com uma medalha de honra, que o distinguiria entre os bravos; mas assim, sangue fraCO, de enfermo, lançado em frouxo, como de náusea peíla vida...

E ficava a pensar humilhado, com vergonha dos outros convalescentes que passeiavam em grupos, conversando alegres. Aquelles regressariam ás fileiras mais robustos, refeitos no descanço que haviam gosado. Elle...!

Levantava-se vagarosamente, ia ficar junto ás grades para olhar a rua, vendo formigar a gente activa: trabalhadores sadios, uns com ferros de lavoura, outros com instrumentos de officio e altas, acoguladas carroças de frutos e legumes quie desciam para o mercado deixando no ar um cheiro fresco e acido de horta e pomar.

Tudo aqiTiillo era a vida, era a terra fecunda, a riqueza. E elle!...

A hora das refeições sentia vexame em sentar-se á mesa. como se fosse ao pão de esmola.

Baixava a cabeça, comendo em silencio, timidamente e s empre desconfiado do olhar, do riso dos companheiros, do cochichar dos criados. Á noite custava a conciliar o somno, a pensar no destino tenebroso. Idéas de morte som,breavam-lhe o espirito.

Seria melhor. Que faria elle no mundo, como um trapo atirado á praia, que as ondas rolam e estrafegam? Lembrava-se, porém, dos venturosos dias em Corumbá, de Maria Barbara, da velha Índia; revia o rancho á beira rio.

Ella já devia ter tido o filho. Menino ou menina?! E naqtielle sonho amoroso soma desvanecido. 'As recordações d'aquelle tempo eram como oásis para a sua alma. Depois... tantos outros soffriam... ! S e fosse elle o único, mas havia tanta ofente desgraçada, tanta ! O imperador, por exemplo.

Quem diria ! S enhor de tudo, dono da terra e dos homens, não fora mettido em um navio e tocado da pátria?! Pobre velho! Revia-o, recompondo a v isão rápida da sua passasfem na berlinda, com os clarins dos batedores soando e a cavallaria a acompanhal-o de espadas desembainhadas, prompta para defendel-o á primeira ameaça. E não fora lançado do throno, abandonado de todos, exilado?!

Elle. ao menos, ainda ali estava na patría, a horas da sua terra, podendo vêl-a, fixaf-se de novo onde tinha a sua gente, na casa em que nascera e onde lhe havia morrido o pai.

Esperanças esvoaçavam-lhe em volta attrahidas pela fantasia, como mariposas chegando-se enxameadamente á luz: «Se comprasse um bilhete! Se c onseguisse um bom emprego...?» A cidade era grande, a fortuna fácil. Bem poderia elle, ao sahir d'ali, encontrar protecção, ter a sorte em um numero, arranjar-se em alguma casa commercial ou, com o favor do deputado Gomide. obter emprego numa repartição publica.

Repentinamente todos os castdios miam e é llé ■ MIRAGEM 233 achava-se, de novo, na situação de abandono, sem casa, com unia ninharia no bolso e doente.

Não tinha amigos. Não conhecia ninguém na cidade. Fabrício lá estava no quartel. Aquelle sim, caboclo duro, cheio de vida! Aquelle sim, e os outros, tudo gente forte. Emfim...! seria o que Deus quizesse.

Um dos copeiros, cabrocha magricella, com o rosto picado de bexigas, que fora tai feiro a bordo da Guanabara, lembrava-lhe a Policia. «Que se engajasse. Uai! Porque não? Elie mesmo, mais dia, menos dia estaria lá nos Barbonos.

Sempre era outra coisa. Estava farto daqueila vida de hosipital. Uma sujeira de fazer nojo e só vendo feridas, e um fedor de remédios que lhe embrulhava o estômago».

Thadeu, porém, tinha medo. E logo imaginava-se ás voltas com capoeiras de navalha em punho ou tocaiando ladrões, só, na escuridão 'da noite, em arra'ba.ki.cs desertos, um prédio aqui, outro além. E via-se cercado por maltas sanguinárias ou encurralado por quadrilhas assassinas.

Se ainda tivesse saúde, força...!

E poderia elle resistir ás noites em claro, ao tempo frio e de chuva, encafuando-se encolhidamente em vãos de portas, molhado até os ossos?

Aquelle sangue...! E sentia a fraqueza do peito.

Por vezes era um calor vivo como de chammas que, subitamente, se accendessem, queimando-o por dentro, ou então repuxamentos, arranques, dores finas como de agulhadas. Tossia rouco, gorgolejes engrolavam-se-lhe na garganta.

Estarrecido de medo pensava no sangue. Arrancava escarros grossos, pai ecendo-lhe sempre que se lhe despegavam os pulmões com o esforço e que era a própria vida que se lhe esvahia aos poucos. Examinava os gargalhos e ficava longo tempo arquejante, em languida canceira, a arfar.

Quando teve alta e, com a inspecção de sajude, foi excluído do exercito por incapaz, sentiu todo o horror da sua sorte mesquinha. Nem se atreveu a despedir-se dos camaradas. Para que?

Rir-se-iam d'elle, troçando-o. Estava magro, amarellento, encanzinado, de olhos fundos. Saliiu á aventura. Entrou, ao acaso, num botequim e, sentando-se á mesa, diante de uma chicara de café, ficou distrahido, o olhar vago. Que via? um mundo, mas todo elle inhóspito, indifferente.

Vasta, accumulada cidade e elle sem um canto para dormir; uma multidão movimentando-se nas ruas sem que nellas lhe apparecesse um rosto conhecido, a mão de um. amigo que se lhe estendesse ;t anto rumor de palavras e, nem uma só vez o seu nome. Sentia-se só, de todO' só. Pozse a andar a tôa, sem rumo, fatigando-se.

Na rua do Ouvidor distrahiu-se olhando as vitrinas ricas, parando de uma em uma, diante das lojas, voltando-se attento a todos os pregoes de quinquilheiros. E caminhava. Quando deu por si estava na rua Direita.

MIRAGlSM 235 Olhou para um e para outro lado, como a orientar-se e seguiu para a Praia do Peixe, sem destino, questão de encher tempo.

O gfrande mercado estava auasi deserto, com a sua abundância encerrada nos armazéns que tresandavam a azedkime. Uma agria, lurida como azouofue, coalhava-se nas sarcfetas. Havia pilhas de frutos podres, cascaria, hortaliças velhas á espera da carroçag"em. Na rampa uma fila de canoas, als^umas de borco, reseccavam ao sol. Homens desciam, subiam pela humidade resvalanté, e aqui, ali um caixeiro varria a dianteira da casa ou arrumava mercadorias".

Lembrou-se de ir aos bichos, ver os macacos, os cães, e a passarada chalra. Mas passando por uma casa de frutas appeteceu-lhe chupar laranjas. Entrou, sentou -se em um tamborete e poz-se a chuchurrear a fruta, ás talhadas, lembrando-se da roca. do tem^po de menino, quando, no TX>mar, fazia mamuohas, chuchando-as e iojSI^ando petecas com o ba.sfaco engelhado.

Então descobriu um jornal do dia. PalpitouIhe lêr os annuncios. Correu-os todos e achou um que lhe convinha. Dizia: «Precisa-se de um moço para caixeiro de botequin na rua de Santa Uuzia. Quer-se que durma no emprego.'»

O coração bateu-lhe de impeto. Levanton-se, pa^ou e foi-se. Era perto. Casa e comida, que melhor? O botequim — duas portas — era uma espelunca, escura e sórdida, com o soalho lustroso de lodo, quatro mesas de ferro, o balcão escalavrado e, mim armário, ao fundo, a garrafeira. Grilhões ée papel cruzavam-se no tecto sarapintado ef umarento.

O dono recebeu-o em mangas de camisa, cigarro á b oca, mirando-O' d'ako. Era um ty.po g-ordo;, ventruido, d'olhos avermelhados, com o nueixo em papeira aos refego® e belfas bambas.

Falando-lhe Thadeu no annuncib, o homem franziu o sobr'olho, cus^pilhou o cigarro e, atafulhando as mãos nos bolsos das calças, pandeou o ventre com arrogância, perguntando: «Se tinha pratica. Se entendia daquelle negocio?»

Thadeu confessou, acanhado, que, em botequim, ad izer verdade, nunca senara, mas estivera em uma venda, entendia de bebidas é com uma explicação daria contas de si. O homem pozse a andar pela sala, cabisbaixo-, a remoer, e disse, por fim: «Tsto não tem que saber. Tudo tem seu Dreco. K lá o café. tem até a machina. Ê só deitar-lhe o pó, a agua quente nor cima e a chorumela vai nor si mesma. A freguezia é conhecida: ranaziada bôa, quasi tudo gente do mar — remadores, ■nescadores. De manhan, á hora do banho, costumam apparecer figurões, pessoal do commerci'^: até senhoras já aqui têm entrado, e da nata. Mas o geral é o povo do remo e d a vela. ..

Lá, ás vezes, coi^a de mais gole, menos gole, esy toura aqui uma esbodegação. Mas é fogo de palha... A c asa abre-se ás quatro da manhan e fe- :ha-se á meia noite. Dou quarenta mil réis, casa e comida. Temos lá ao fundo um quarto e come-se da casa de pasto, aqui ao lado. Se convém, o mellior é entrar hoje mesmo, porque estou só. O outro, um maganão, foi-se com uma bôa taréa e lá está a gornir o xadrez. Era malandro para roubar-me a alma, se eu a não tivesse sempre commigo.

Acordaram no ajuste e, nessa mesma tarde, a canastra do ex-soldado occupou um vão do quarto, um cacifro, onde mal cabiam a cama e um lavatório de ferro. A parede estava forrada de velhas illustraçÕes de jornaes, c num dos Ialos, de tabique, havia uma porta na qual estava ^regado um cabide de dois ganchos. Uma janelinha abria sobre o mar, cuja voz preguiçosa soava, resoava conistantemente em rythmo de respiração arfante.

O serviço era de ef^^ sem. tréguas, com poucas horas de somno. o, ainda escuro, o homem, que dormia no quarto contíguo, roncando estrondosamente, batia no tabique atroando o silencio com o vozeirão acatharroado : «São horas!»

Thadeu punha-se logo de pé, ás vezes tão amollengado que mal podia levantar o ferrolho da janellinha, recebendo em cheio, no peito, a lufada salitrosa. Borrifava o rosto e saliia ^ 238 MIRAGIÊM accender a machitia do café, abrir a. porta para receber o leite e o pão.

Os fregnezes não se faziam esperar: homens rijos, ainda somnolentos, bocejando alto, pig"arreando. Sentavam-se de pernas estiradas e comiam com appetite de sande. Alguns, em trajo de banho, e?chalando salsngem. pernas nuas, descalços, entravam á pressa, encharcados:, toma-- vam um café, um gole de paraty e sabiam correndo.

As vezes eram g-rupos estroimas, bravateando feitos: um nue fora a Villegaignon a braçadas largas, sem pausa; outro que varara em mergnlbo desde a falua até a bóia. E historias de rolos com policiaes, desbarato de maltas a cacete, murros achaparrantes. Thadeu foi, aos poucos, relacionando-se com aquella gente heróica e, como houvesse contado a alguns a sua vida de soldado, nelía enxertando bravuras imaginarias, muitos dos rapazes, quando entravam, perfilavam-se em continência cómica de mão á fronte e declaravam o que queriam, como se bradassem ás a rmpjs: «Um paraty!» «Uma media e pão quente!» (fCafé!»

Hlle senna amorrinhado. E emquanto a freguezia. cm alegre algazarra, sorvia a goles cheios, as palanganas de café com leite ou virava cálices de c anna. elle admirava, com inveja, aquelles corpos de athletas, peitos anchos, convexos como escudos, bíceps em ampolas túmidas, pesCOCOS CO rdo veiados. Gostava de ouivil-os, excitava-os a experimentarem forças na quebra de braço, tle cotovellos fincados na mesa, mãos enclavinhadas, lutando em torsÕes de punho. E os músculos resaltavam-lhes túrgidos, rígidos, inchavam-se-Jhes as veias.

As cadeiras ringiam, estalejavam, a mesa oscillava até que o mais forte, contrahindo o rosto, de maxillas em trismo, retesando a musculatura férrea, ia dobrando o braço do companheiro como se vergasse uma barra e, de repente, em arranque supremo, abatia-lhe a mão nal mesa, subjugando-a. Atroavam clamores e palmas.

Thadeu acompanhava o formidável duello, esforçando-se como se nelle fosse parte e, quando se decidia a victoria, resfolegava cançado, exhausto da contensão em que se mantivera durante a p rova dos pugillistas. Admirava a força e o seu prazer era adiar-se entre aquellés rapazes cheios de vida, aquellés marujos tanados, ciijos braços venciam as vagas, cujos peitos pareciam cheios daquelle ar de saúde que, lá longe, enfunava bojadamente as velas e, mais alto, levava de roldão as nuvens.

No correr do dia eram raros os fregiiezes.

Appareciam alguns lerdos, muito parranas, sentavam-se preguicentos, coçando a grenha riçadà, tomavam café, cerveja ou canna, deixando-se estar em molleza, assonorentados.

Ás vezes formíivam-sc bancas de bisca, valendo rodadas de cerveja, num araviar de tavolagem, sob o voejo importuno das moscas. E I fora, ensurdecedoramente, era continuo o rilhar zininte de serras nas serrarias próximas e um cheiro seoco de madeira espalhava-se no ar levemente abrumado d'uma poeira de ouro.

Á noite era maior a frequência, gente so^ rumbatica, sorrateira, frascarios da zona, alguns rebocando zabaneiras esbodegadas e ébrias. Por vezes rusgavam. Palavrões estouravam e era iogo o desaguisado, a barafunda. Um que saltava ás g ingas e ás rabanadas, desafiando; outro, logo investindo com alvoroço, espalhando o grupo. Fechava-se o tempo, rolavam cadeiras no estrondo do turumbamba.

O dono da casa intervinha pacificador, apartando os d esavindos. Aos fracos, ia levando aos traimbolhÕes até a porta, esmurrava-os, sacudia-os ionge, com ameaças ; a os valentes, de fama, buscava apaziguar, falrudo-lhes como parceiro de pandilha: «Que diabo! T; " • vocês queimam-se por dá cá aquella palhi Oeixem lá as mulheres.

Não vale a pena bn . por porcarias. Isso anda ahi á tòa». Crntii::,a-os geitosamente para evitar prejuízos e trabalhos com a policia, porque, no final das contas, era elle sempre quem pagava o pato Thadeu - :ntoava-se por traz do balcão, en- 241 cornjado de medo, o olhar muito aberto, assombrado, na esi^ectativa arripiada de navalhadas, tiros, sangue, intestinos de fora, mortes. E, quando os brigões sahiam tumultuosamente, desafogava-se e, ainda trémulo, com o coração opprimido, arrumava as cadeiras que haviam rolado, ^^arria os cacos de louça, refazia a bodega, emquanto o patrão, furioso, resmungava contra a corja : «Que, um dia, tanto o haviam de esquentar, n q a u s e p i^ e e d r r d a i s a , a c o c m a b e u ça m a e b e a s l t a e ». n dia um dos taes ali,' Tliadeu começava a resentir-se d'aquella vida, dormindo três horas, se tanto, por noite naquella cama immunda, cheia de percevejos, sobre trapos: levantando-se de madrugada para lavar o botequim e attender aos freguezes. Sentia-se alquebrado, molle.

Quando se recolhia ao quarto, ouvindo o chiar dos ratos, o esfervilhar das baratas, sempre preoccupado com as enormes centopeias que colleavam 110 soalho negro, dohrava-se, de mãos . a - r ; d i e l n h d a o rg , a , c c o o m m o a s e in s a p p i i n s h a a d a s d . o rida, as solas dos pés Custava a adormecer, sempre com pensamentos lúgubres ou revivendo saudades tristes.

Uma noite, ao deitar-se, depois de fumar um cigarro, sentiu angustiosa oppressão como se lhe esmagassem o peito, anciã d'ar, ardor urente na garganta. Tossiu e, d'impeto, afflicto, engasgado. poz-se de pé. A tosse ag^gravou-se-lhie ríspida, rouca, despedaçando-1'he o peito. Veiu-lhe uma golfada á boca, postejou-a no chão — era sangue. Sentia como recalques nos hombros, pontadas que o varavam. Abriu o postigo, Uma lufada de ar frio bateu-lhe em cheio no rosto, dobrando a cliamma da vela, que ardia espetada 110 gargalo de uma garrafa.

O ceu estava todo estrellado, luzes vermeIhejavam na escuridão faiscante do' mar. Thadeu aspirava sôfrego aquelle ar benigno, que o reanimava.

De repente, porém, um prurito irritou-lhe a garganta e a tosse irrompeu de chofre áspera, em accessos seguidos, uns sobre outros, a mais e mais angustiados, como se o frio da noite lhe houvesse exacerbado a crise.

Encostou o postigo e, bambo, esfalfado, cambaleando como bebedoí, atirou-se na cama abandonadamente, escarvando o peito com as mãos grifanhas, como em ânsia de o abrir para enchel-o de ar, id'aquelle ar que circulava fresco, salino, sadio, dando vida a tudo, que até as roupas com elle agitavam-se no cabide, papeis arrastavam-se pelo chão, a chamma da vela palpitava tremula, só elle, com a impermeabilidade que o blindava, não lhe sentia, no intimo, o frescor e o beneficio. Outra golfada encheu-lhe a boca. Levantou-se rápido, medroso, sentando-se á beira da cama com os cotovellos nos joelhos, miraghm 243 a cabeça entre as mãos: e quedou exhausto, cuspilhando sansfue.

I"''m suor de asfonia envisjSfava-lhe a fronte, os olhos arrasavam-se-lhe de lagrimas. Poz-se a offesfar, a gemer surdamente.

No quarto contíguo houve um estalejar e logo o pigarro do patrão e. em seguida, espalmadas pancadas no tabique.

Thadeu arquejava aos haustos, molle, lançan*do. alquebrado. Repetiram-se as pancadas e, como ficassem sem resposta, o patrão vozeirou:

— Eh! Thadeu... Que é isso? ÍÉs tu que estás gemendo? Elle quiz responder, mas a tosse as^ saltou-o de novo. violenta.

A porta do cabide abrin-se e o patrão appareceu de camisa de meia e ceroulas, descalço.

Ao dar com o empregado naquella oppressão, esbogalhou o? , o lhos empapuçados :

— Oue é isso? Que foi? Thadeu encolheu os hombros em gesto lerdo de abandono e desanimo.

Por fim rounuejou, rascante: ((Sangue». O patrão abaixou-se sobre o soalho e. impressionado com o que via. fez um esgar áe aborrecimento, p pensar na mficada de ter de cuidar do enterro, trabalheira na policia. amollaçÕes, todo 6 dia perdido e sempre alguma gorgeta a este, áquelle.

K quem tomaria conta da casa? Poz-se a ca- (:ar a cabeça enfesado, a alisar os grossos braços cabelludos. ((Mas afinal... porque isso? Que acontecera ?)) Thadeu espalmou a mão no peito. Fechou-se o silencio e foi o homem que o quebrou, dizendo amofinarlo :

— Olha lá, rapaz, isso de sangue é serio. Toma cuidado! E caminhava pelo quarto: Vai-se deixando, deixando e um dia...

— Eu vou-me embora. O patrão estacou, surpreso. :

— Hein?!

— Vou-me embora.. Isto pode peiorar... O homem ficou-se a olhar o sangue, em manchas no soalho e na cama. E Thadeu proseguiu vagarosO', descança,ndo nas palavras :

— Não poso mesmo. Tudo me cança. E respirava arrancadamente. Vou-me embora. Lá tenho os meus, é a minha terra. Assim, como assim...

Sobre veiu-lhe a tosse e, já sem forças, de todo vencido, debruçou-se no respaldo da cama, comprimindo o peito. O homem contemplava-o com pena; offereceu-lhe agua, um pouco de vinho. Não obtendo resposta foi ao postigo, entreabriu-o e ficou olhando vagamente.

Clareava : uma luz baça, em neblina, atravez da qual appareciam serranias distantes e o mar liso, esbranquiçado, luzindo a trechos. LembrouIhe, porém, que era tempo de abrir a casa, arranjal-a para os freguezes matinaes. Voltou-se para olhar o empregado, com esperança de o vêr de pé, prompto a descer, como de costume, para o serviço. Mas o coitado recostara-se ao travesseiro, exânime, e, d'olhos abertos, parados, a boca contrahida em rictiis, respirava lentamente, a custo, como nas ultimas. Foram-se-lhe cerrando as pálpebras e o homem disse-lhe, em voz como dé acalento :

— Deixa-te estar. Vê se dormes um pouco. Se isso continuar d'aqui á Misericórdia é um passo e tens lá tudo — médicos, enfermeiros, remédios. . . E de vagar, surdamente, sahiu encostando, de leve, a porta.

Feitas as contas e resolvida a viagem para. a madru.ç^ada sesn-iinte, apezar do medico da Santa Casa haver aconselhado repouso, receitando-lhe para «o sangue», Thadeu sahiu a contractar um tilbury que o levasse á Central, para o expresso de Minas.

Dos ordenados que recebera durante seis mezss de casa. com mais um pouco que sempre reservara para essa sonhada volta, resta v^am-lhe uns trezentos e tantos mil réis, fortuna bastante para quem regressava ao lar. sem outra ambição mais que a de rever a terra e .-ibraçar os .seus.

Apczar de fraco, combalido, com aquella canceira que o derreava, passou a tarde servindo n*^ botequim para despedir-se de certos freguezes amigos. Uns aconselhavam-no a seguir: «Que fosse. Não brincasse com aquillo. A roça era tudo para taes moléstias.» E citavam curas maravilhosas. Outros discordavam incrédulos :

— Historias! O melhor era elle ficar onde estava. Aqui, deixem lá! aqui sempre ha outros recursos :m édicos, remédios. Isso de ares de matto é bom para bichos. O que se quer é tratamento. E estranhavam que elíe não se houvesse mettido naigua salg-ada. Pois você aqui, a dois passos do mar, não tentar os banhos... Só por miuita preguiça. Aquillo sim! Com uns trinta banhos de mar ficava prompto, e sem drog"as que arrasam o estomag^o.

Tha'deu sorria, mas firme no seu propósito, lá arrumara o bahú, tinha tudo prompto e o tilbury encommendado. Ia mesmo. Se a terra o não curnsse então... e deu d'hombros.

Subiu cedo para o quarto, deitou-se vestido, mas evitou dormir com medo de perder o trem.

Corria diante das horas, viajando em espirito, revendo a cidade : ruas, caminhos, casas, a igreja, estradas entre mattos, fazendas. Fumava cigarros sobre cigarros. Estendeu-se a fio comprido na cama. mas logo o somno pescu-lhe nas pálpebras, chumbando-as. Reagiu com medo e poz-se a andar no quarto, para distrahir-se. Bebeu, um gole d'agua, banhou o rosto. Por fim abriu o postigo e cravou os olhos no ceu que começava a t ingir-se em cores d'alva.

O horisonte zebra va-se de estrias rubras que, pouco a pouco, accendiam-ce como barras que encandcccssem em forja. O mar relumava quieto e liso, espelhante, em vários pontos imbricado de pasças como o dorso de um monstro de escamas de ouro adormecido á tona. Vultos enormes de couraçados tisnavam as aguas lúcidas e no fundo, além, o perfil da serra, de um roxo ennevoado, confundia-se com o ceu como applicação macia de vdludo em seda. Aves voavam alto, em circulo; outras, mais baixo, lentas, inflectiam em rumo ao largo, abrindo e fechando a cauda biíida como se cortassem o ar com uma tesoura.

Clareava. Villegaignon, com os flexiveis coqueiros meneando' languidos, parecia surgir da espuma que a cercava, airosa. Uma falua de lenha singrava em manso vagar, panno aberto, em bojo.

Na praia, em frente, quasi por baixo do postigo, andavam homens em mangas de camisa, com palamentas de barcos. Um galgiava a rampa, cantando, com um leme ao homlro; outros estendãam redes, tarrafas ou batiam cestos.

Banhistas desciam coi rendo em direitura ao mar, que esf rolava nas pedras, insinuando-se, fervidamente, em espumarada pelos vãos da costa.

Nadadores afastavam-se a braçadas, perdiam-se na distancia e, á beira da praia, na agua faiscante, appareciam, boiando, cabecinhas inquietas; e eram risos, gritos de susto; um ali rebolcando, outro a debater-se chapejando a onda esbaforidamente, aos bu fidos, borrifando bochechos d'agua.

O ceu inflammava-se. A serrania longinqua, com OS redentes accesos, como se ardessem, ia-sé tjda dourando. O mar rebrilhava em lampejos metallicos. Um viso, além, fulgurou, accerideuise vulvanico todo em çmro vivo e enorme, rutilo, o sol surgiu vibrante, dif fundindo a luz áurea por ceus, terras e mares. Pairou uma religiosa serenidade. Um silvo cortou o silencio, outro. Tiniu um sino, soaram cornetas aO' longe. Thadeu ficou em êxtase, enlevado na magnificência esplendida.

Mas a voz do patrão bradou por elle alarmada.

Estremeceu e, lesto, puxando o bahusinho pela argola, foi levando-o de rasto, quasi a correr.

— Está alii o tilbury, homem. Avia-te, que não ha tempo a perder. Estás quasi na hora. Despediram-sie ás pressas, num aperto de mão. Vai, vai! E trata-te, vê lá isso, E se voltares... cá estamos.

Dois alentados rapagões, em trajo de banho, entraram ruidosamente, rindo ás gargalhadas. Um delles, alto, moreno, de m.usculos athleticos, plantou-se diante de Thadeu, exclamando:

— Bravo ! Q ue luxo, linguiça. Onde vais nesse trinque? Ah! é a viagem.

Thad/eu sorriu, acenando de cabeça: «Que sim...» E abalou pressuroso.

Na rua foi um trabalho para suspender o ba'hú, cujo peso o fazia arquejar dobrado em esforço.

O moreno bradou : — O' punga !

Dum salto, poz-se-lhe ao lado, afastando-o MIRAGTEM 249 com um tranco, a troçar-lhe a tibieza e, ágil, levantando ob ahusinho a pulso, encafuou-o, fel-o correr, como uma gaveta, sobre o pollego surrado do tilbur}^ e, atirando rija palmada ás costas de Thadeu, quasi o fez trambolhar em cima do cocheiro.

— Boa viagem, hein ! P asta e volta! E o tilbury partiu.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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