Leia agora
Miragem

Universo da obra

Miragem

Capítulo 9 · Miragem

Primeira parte IX

9 de 24 ≈ 12 min de leitura

Dezembro, mez das aguas, esplendido nos primeiros dias torridos, subitamente enfarruscou-se toldado de grossas nuvens que rolavam pesadas e vagarosas accumulando-se nas barras do céu.

Ao cahir da tarde, côm a chiadeira das cigarras, rumorejavam surdos trovões e o escuro arripiava-se em relâmpagos, zebrava-se de coriscos.

Ventos espalhavam as folhas seccas, Lvantavam remoinhos de pó.

Uma noite, súbito, fragorosamente, um raio estrepitou e, como trazido no vendaval azoado, o aguaceiro abateu violento, estrondoso, ás bátegas, arremessando-se aos gorgolÕes das gárgulas, transbordando das calhas, crescendo na estrada em rio barrento, que invadia os terrenos, em ameaça de inundação.

De manhan, com o abrandar da chuva, escoando-se as aguas, a estrada appareceu em lodaçal vincado a carris profundos, cavado em patejos de gado.

Aqui, ali nas depressões do terreno, rebalsavam-se poças alagoadas, onde os carros entravam de corrida, aos trancos, atolando' as rodas até os eixos, com os bois arrancando, como espavoridos, ao falario excitante dos carreiros que os aguillioavam desesperadamente. Ou era um tropeiro que praguejava atropellando a recua para conlel-a, procurando arrincoal-a numa rampa emquanto acudisse a um maclio cuja cangalha toml)ara e, espantado, ás upas, chapinhando no lodo, ameaçava debandar em rumo ao matto. Raros transeuntes corriam encolhidos, com pannos pela rabeca, chapinhando no lameiro.

Ás vezes, em estiada, descia ao charqueirão um pallido raiO' de sol, logo, porém, recomeçava o boriasseiro, engrossava e, de novo, a chuva batia pesada, em carga, inchando córregos que tnansl)ordavam das valias, coalhados de hervas e de ímmundicies.

Chovia torrencialmente quando Maria Augusta appareceu na ferraria, esbaforida, procurando Nazario.

O ferrador, que trabalhava á forja, ouvindo o seu nome, voltou-se rápido.

A viuva precipitou-se com uma carta na mão, soluçando, afflicta, sem poder falar.

— Que é ? Qne tem ? indagava Nazario commovido e tonto, .amparando-a com o braço, desviando as mãos » negras de ferrugem. Então que é?

— Thadeu ! soluçou Maria Augusta.

— Doente ?

— Não ! d eixou-me. Sahiu de casa, fo i-se embora...

— Foi-se embora!? ComO'? Parecia-lhe impossível que o rapaz tivesse sabido da cidade sem, ao menos, Ibe haver ditO' .adeus. Não comprehendia. Foi-se embora... Quando?

— Hoje. Deixou-me esta carta debaixo da porta do quarto. Foi Luiza que achou. Ah ! seu Nazario, meu filho! Que ingrato!

Deixou-se cahir sobre o banco e Nazario, tomando-lhe a cartai, bradou pelo filhO':

— Ô pequeno, anda cá !

O rapazola surgiu de traz da forja attonito, tisnado e estacou diante do pai limpando as mãos ■ao avental de cânhamo.

— Lê isto! Lê, anda! e entregou-lhe a carta.

O pequeno desdobrou lentamente o papel e, com grandes pausas, ferindo forte as palavras, foi lendo sem levantar os olhos, embatucando, ás vezes, para soletrar: «Minha mãi. A vida assim como vai é um sacrifício para todos nós. Depois da morte de papai pensei em ficar aqui acompanhando a senhora eL uiza, mas o meu trabalho não apparece e a miséria ameaça-nos. Sei que pana nada sirvo, doente como sou. Deus me proteja e a sua benção me guie. Vou tentar ã vida em outra parte, talvez seja mais feliz e hei de ser, porque as minhas tenções são puras. Tudo quanto eu fizer será para a senhora e Luiza. Peço perdão do passo que vou dar. Saudades a Nazario e a Luiza. Abençôe-me. Thadcii.)) Nazario não disse palavra. Maria Augusta chorava nervosamente:

— 'P-artiu... E nem disse para onde... Um rapaz doente... Que ha de ser delle, Meu Deus!

Que ha de ser delle!?

— Que ha de ser ! Que ha de ser ! irrompeu o ferrador assomado. Vocês são as culpadas, sim ! São vocês as culpadas. Traziam o pobre rapaz num cortado. Era. volta e meia, um dito, eram pragas, maus modos, até lhe deixavam o quarto por fazer. A culpa c de vocês, unicamente de vocês, tenham santa paciência. Querias, talvez, que elle cavasse dinheiro? Até a sen\hora Luiza... Que diabo! Elle ainda foi muito bom, aturou de mais. Queres que te diga? Isso não foi coisa de momento, elle já andava com essa idéa e, se não a pôz em pratica ha mais tempo, foi por minha causa. Não tenho pena de vocês, tenham paciência. O mal está feito; agora, minhas amigas, tratem de remedial-o. E murinuT rando: Um pobre homem que não pensava em outra coisa senão em fazer a felicidade delias, tratado como um cão!

Pôz-se a passear aO' longo da ofíicina. Por fim estacou junto á bigorna :

— E agora ?

A viuva levantou os olhos húmidos e supplices.

— Sim... E agora? Que diabo vão vocês fazer? Elle, está no Rio, sei eu! na Corte é que elle está, mas vão lá procural-o.

Cruzou os braços e levantou os olhos para o tecto, bamboleando a perna, a balbuciar baixinho.

Súbito indagou :

— Vocês não têm lá parentes? E nervoso, agitando-se : Nem que tivessem, era o mesmo...

Conheço Thadeu : é capaz de morrer á fome, mas pedir, não pede...

Maria Aug-usta ouvia caladai. DamiãO' voltara para junto da forj,a e espiava curioso.

— Mas que hei de fazer ? implorava Maria Augusta.

— Que ha de fazer ? sei lá ! Agora é que você se afíiige — antes eram desaforos e brutalidades de toda a espécie. Ah ! e ntão sempre o tisico servia para alguma coisa?! Que ha de fazer, sei lá!

E mais oalmo : Elle ha de escrever-me, mas se eu lhe responder podem estar certas de que não o chamo para Vassouras, elle que se vá deixando estar por lá. Voltar para a mesma vida attribulada, amofinado constantemente pela famiH.a, isso não. Eu é que o não chamo mesmo.

— Mas que lhe fizemos nós ?

— Ah! que lhe fizeram? Nada... não lhe fizeram nada. A mim é que vocês não faziam a terça parte, garanto^. Não lhe fizeram nada... E indignado : Se até a outra entendia que havia de governal-o !

— Quem ? Luiza ?

— Não, eu !

Afastou-se e desappareceu murmurando.

Maria Augusta, cabisbaixa, chorava. Damião, que se aproximara, parou diante delia condoído e olharam-se:

— Damião, tu deves saber... dize...

— Não ! fez ingenuamente o pequeno, se eu ■coubesse... E curioso: Foi para o Rio, não é?

— Não sei ! suspirou ella.

— E agora ?

Contemplaram-se calados e nos olhos do rapaz foram-se formando lagrimas. Enxugou-as rapidamente com a manga da camisa e correu a refugiar-se atraz da forja, onde o fog^o morria.

Nazario, ao cabo de alguns minutos, reappareceu puxando uma besta pela arreata. Vinha agasalhado em amplo -capote de baeta escura, grandes botas nos pés, á cabeça enorme chapéu de palha acabanado.

— Ora vamos lá vêr isso ! disse.

— Onde vai ? indagou Maria Augusta enxugando os ollios pisados.

— Vou até a estação. Quero tirar a limpo essa historia. Lá devem saber se elle embarcou.

Silenciariam. Por fim o ferrador, meneando com a cabeça, declarou que lhe parecia impossível que o rapaz tivesse partido^ lassim á francesa, sem ao menos deixar-lhe duas linhas.

— E vai com esta chuva ?

— Chuva não quebra osso. E raspando o animal, insistiu: Notando-se: não o accuso. Acho que fez muito bem, repito; fez muito bem. De certo, que a vida que elle aqui levava era um horror.

E voltando-se inopinadamente para Maria Augusta :

— Não penses que reprovo o seu procedimento, não, senhora; fez o que outro qualquer, no seu lugar, faria. Vou porque, emfim, interessome por elle, estimo-o. Era preciso que eu não tivesse coração. Cresceu-me nos braços, posso iaissim dizer. Que diabo! também a gente não é feita de pedra.

Calou-se estendendo a manta sobre o dorso da besta. E como f a lando comsigo, continuou :

— Cresceu aiqui junto de mim, tenho-lhe amizade. Vou por isso. Não posso, sou um não sei quê, disse commovido, é por isso que não gosto de me ligar a outros, sou molle, sou... Sei lá!

E, abrindo os braços em largo e rápido movimento, os olhos marejados d'agiia, a voz trémula, fngindo-lhe dos lábios trémulos, exclamou, mostf/ando as lagrimas : É isto ! Que hei de fazer ? É isto ! Também, que diabo ! a gente habitua-S€.

Deixou cahir a cilha sobre os ilhaes do animal e chamou pelo filho :

— Põe os arreios.

Maria Augusta, vendo Nazario sentar~se, com o rostO' banhado em lagrimia's, fitou-o.

— Agora lançam toda a culpa para cima de mim, balbuciou.

— Mas de certo. Onde se viu tratar um filho como tu tratavas? Nem que elle fosse escravo. Tem paciência: a culpa é tuai, isso é... A culpa é tua e da tal menina, já com fiducias de não sei que. Fosse minha filha que havia de vêr.

— Ora qual ! disse Maria Augusta amuada, que culpa tem ella ? Eu nunca ouvi nada que pudesse melindrar Thadeu. Elle sim, andava sempre com impertinências, inventando namoros:

Que ronda.vam a casa, que ella escrevia bilhetes a beltrano e a sicrano, que fazia, que acontecia.

Nunca ouvi uma palavra de Luiza que o pudesse maguar, por mais leve que fosse. O que elle quiz sei eu. E tristemente: Não é fácil sustentar uma familia. Um homem só arraiija-se bem em qualquer parte. Deus o ajude. Todo o mal que lhe desejo recaia sobre mim.

— Ahi vens com historias...

— Ah ! t ambém não posso falar, seu Nazario ! ?

— Fala, fala quanto quizeres, não te estou tapando ab oca ; f ala quanto quizeres, porque a verdade, minha amiga, essa conheço-a eu. Nunca andei cheirando a tua casa para saber o que lá se passava, mas não vivo no mundo por vêr os outros viverem. O que elle soffria sei eu. Thadeu não deixava a casa se não tivesse motivos para o fazer. Quando para cá voltou depois da morte do pai (vocês estavam nO' Paty), aqui, neste mesmo banco em que estamos, disse-me elle as suas idéas. Queria cultivar o terreno, porque o empregO' c[ue tinha pouco lhe rendia, julgava que com o seu esforço viria a alcançar colhaitas abundantes que l he dessem para viver em paz e á farta. E q ueres que te diga? só falava em ti — «por que minha mãi está velha, precisa de descanço.

Preciso cuidar do futuro de minha irman...»

Pouco se preoccupava com a sua pessoa e quando eu lhe disse que elle não resistiria ao trabalho da lavoura sorriu e, no dia seguinte, queres saber? lá o encontrei no campo ás voltas com ia terra, capinando como um negro, debaixo de uma soalheira de metter medo. E emquanto lhe sobraram forças ali esteve até que a moléstia o derrubou. E e sse homem o pagamento que teve foram os m^us tratos, as más palavras, as caras amarradas, tudO' que vocês imaginaram para amofinal-o. Tenham paciência, a verdade é esta. Ss elle tomou essa resolução, Maria, queixem-se vocês de si.

Damião, que acabava de arrciar a besta, adiantou-se.

— Está prompta, papai.

— Deixa-a ahi, prende-a. E, continuando em tom intimo e brando : Teu filho adora-te, lapezar de tudo; não era capaz de deixar-te por simples capricho. Queixas de ti, só as fazia a mim. a mais ning-uem. É assim mesmo. Não lhe podes querer mal. Olha, eu já não espero a mesma coisa, o mundo é isso, infelizmente : quem mais faz menos merece. Has de vêr que esse pirralho, que eu tomei da mãi, aquella vagabunda, que nem para lhe dar de mamar servia, desde que se apanhe homem feito, adeus velho...! Pensas que espero alguma coisa delle? Espero tanto como do Papa... É meu filho, hei de reconhecel-O', mas não penses que conto com a sua protecção para a velhice dos meus dias. Faço por fazer... O mundo é assim mesmo. Mas teu filho?! Tem paciência...

Elle via Deus no céu e vocês na terra. Esta é a verdade.

E encaminhou-se para o animal, repetindo convencidamente :

— Esta é a verdade.

Maria Augusta, quando o viu montado, levantou-se :

— Então até a tarde.

— Até a tarde. 96 MIRAGiÊM

— E indague bem, implorou lacrimosa,.

— Hei de fazer o que puder. Até logo !

Cravou ás esporas no animal e partiu. Chovia forte.

Escurecia como se anoitecesse e Nazario, deixando as rédeas sobre o pescoçO' do animal, pensava sinceramente indignado :

— Que aquillo não se fazia. Deixar duas mulheres desamparadas, aba,ndonar a mãi e a irman e nem uma palavra de adeus para elle, era ingratidão, não se fazia. Pobres coitadas! Que havia de ser delias?! Não. Isso não! tivesse paciência. Isso, n ão!

E o animal, entregue a si mesmo, ia a passo pelo lameiral balofo, enterrando as patas, d'oreIhas bambas, á chuva torrencial e grossa que cabia, tocada pelo vento rispido.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Miragem

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Miragem

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Miragem

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Miragem Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Miragem

Capa de Miragem
Continue a leitura Primeira parte IX Capítulo 9 · 9 de 24 · ≈ 12 min
Todos os capítulos 24 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir