Universo da obra
Universo da obra
Noite linda! O luar abria-se amplo e sereno caleando as casas, estendendo-se nevadamente pelas ruas, forrando as collínas como de gaze ténue.
As folhas das arvores*9cintillavam, e, longe, tudo era alvor de mármore como se toda a cidade com o seu casario, os seus campos e outeirinhos fosse um só monumento.
Grupos gárrulos de moças passavam a caminho da Matriz, para o Mez de Maria. As casas respiravam pelas janellas abertas ao encantamento da noite e sentia-se em tudo o prestigio suave d'aquelle filtro celestial pulverisado em névoa luminosa.
Thadeu seguia vagaroso, cabisbaixo, olhando a própria sombra, muito n^ra na claridade nivea.
Ao chegar á estrada do Madruga estremeceu em súbito arripio. O peito ardia-lhe. Rápido levou a mão á garganta sentindo-a exsiocada, áspera, pruente. Tossiu de leve e estacou de golpe, sustando a r espiração ao pungir de instantânea ag^ .'liada varando-o do peito ás costas. E logo receiou o sangue, attribuindo a crise que o amealhava á i mprudência que commettera deitando-àí9 suado, de costas para a janella aberta.
A noite esfriava. Levantou a gola do casaco e foi indo, apprehensivo.
A estrada do Madruga parecia lageada. Os grillos faziam um concerto estridulo, bacuraus voejavam mansos, em alores froiixos, piando.
Uivos de cães entristeciam lamentosamcnte a noite alva.
Vozes grasinavam no silencio. Sur^u um grupo na claridade — roceiros que vinham ao Mez de Maria. Thadeu cruzou com elles, houve um murmúrio de saudações e as vozes foram abrandando, perderam-se e o silencio fechou-se de novo, com os pequeninos ruídos dos insectos e o palpitar suspiroso dos ramos meneando á aragem. .•,,.^ Tristonha saudade subiu-lhe do fimdo d^almau Aquella noite lembrava-lhe outras de igual belleza e doçura, lá longe ! n o terreiro do rancho pequenino, quando Maria Barbara, com a cabeça ao seu hombro, apertando-lhe, de leve, as mãos, que aconchegava ao collo, cantarolava baixinho, ■304 MIRAGEM d'olhos semi-cerrados. Em baixo o rio murmurava faiscando ao luar e os caborés nas arvores rolejavam agourentos. Que saudade!
Lentamente uma sombra atravessou a estrada desa/pparecendo nas ruinas da ferraria. Seria Nazario?! Apressou os passos, mas ao chegar ao pardieiro tudo era quietação deserta. Deteve-se á escuta, parecendo-lhe ouvir um canto triste, em rcgougo. Metteii-se pelo matto, atravez da folhagem fria. A voz continuava, 'lúgubre. Tantos, porém, eram ali os grillos em concerto que parecia que todas as folhas guizalhavam. Estacou procurando divisar no escuro.
Pigarrearam. Logo em seguida a voz roufenha perguntou:
— Quem está ahi ?
— Eu, Nazario.
— Eu, quiem ?
— Thadeu. Um vulto adiantou-se, destacando-se na claridade entre as folhas largas e prateadas dos carrapateiros. E insistiu:
— Quem é?
Os dois homens acharam-se frente a frente. O ferrador inc'Iinou-se com a mão em pala diante dos olhos.
Estava em mangas de camisa, com um velho chapéu de palha enterrado na cabeça. A barba, crescida e intonsa, asselvajava-lhe o rosto. Descahia tremulamente sobre as pernas moUes, curvado, olhando a finco.
— Sou eu, Nazario. Thadeu. O velho apru-- niou-se ágil, d'arranque e, reconhecendo-O', abriu expansivamente os braços acolhendo-o ao peito, a apeital-o, cm commioção que o abalava:
— Ó rapaz !. . . Podia lá imag^inar ! ? Mas então... Que foi isto? Quando chegaste? Afastou^o de si, pelos hombros. para examinal-o á vontade. Estás magro, que diabo! E com esse cabello assim rente... Mas então chegaste hoje...?
— Hoje. E vim logo aqui, e fiquei espantado...
— Ah ! s im. Isto está a cahir, como o dono.
— Disseram-me no hotel que eu te encontraria á n oite. Jantei e vim logo.
— É... E olhava-o anediando lentamente a barba longa. Apertou-o, de novo, nos braços silenciosamente. Depois, voltanido-se, a collear, de caibeça baixa, convidou-o a seguil-o.
— Entra. Ha ainda aqui um canto agasalhado, onde ■durmo. É a minha sala die visitas : além áo sol e da lua és tu o primeiro que lá entras. Nãoha luxo, commentou com risinho leve.
Agachcm-se remexendo, raspando o chão, ás a-palpadellas. Riscou um phosphoro, accendeu o coto de vela espetado na garrafa e, levantando a luz, contemplou o amigo.
Foi de espanto e piedade a impressão que reciprocamente tiveram os dois homens. Não disseram palavra e o ferrador, pousando a garrafa sobre um tijollo, sentou-se encolhido. A luz tremia fazendo bailar as sombras.
— Pois é verdade, rapaz, aqui estou eu. É o que vês... Quantos annos, hein! Três, não? Três annos... ! T irou o chapéu e os cabellos brancos espalharam-se enfuriados, rolaram-lhe pela testa chegando-lhe quasi aos olhos. Deixaste a farda ou vens licenciado?
— Não. Dei baixa por doente.
— Ah ! sempre me pareceu que não tinhas lombo pr'a farda. E vens para cá? Thadeu fez um gesto de indif ferença e, inclinando-se para o ferrador, pergnntou baixinho, commiserado:
— Mas como foi isso, Nazario? Mamai...
Liuizá...? O velho deu d'homibros, com abandono:
— Desgraças... Que se ha-de fazer? Tua mai, mezes depois da tua partida, andou por ahi a dar cabeçadas de todo o tamanho. O veu de viuva serviu-lhe de capa para muita pouca vergonha. Vendeu a casa a um tal Venâncio, um que foi barbeiro na Barra, metteu-se nos cobres e tocou-sè para o Paty, mais a pequena, que nos sahiu uma bisca de marca. Por lá andou a fazer o diabo.
Voltou um amio depois magra como um carapau e rosnou-se por aqui que ella entregara a pequena a um fazendeiro. Historias! Luiza deixou-a para metter-se com um tal Feliciano, sujeito de baralhos e j aburus, que até lhe batia. Hoje vive com um rapaz, boa coisa, mas doente. O pobre de Christo anda por ahi a deitar os pulmões pela boca. Não vai longe. Já as viste ? •
— Luiza, disse Thadeu.
— E a velha? Elle baixou a cabeça calando a verdade. E o ferrador aconselhou:
— Homem, é melhor mesmo que a não vejas.
Deixa-a lá! Se ainda lhe pudesses dar remédio...
Em fim ... Eu, é o que vês. Espero que chegue a minha hora, que vem devagarinho e parando em todas as d esgraças. Damião morreui...
— Luiza contou-me.
— Pois é assim. Voltas do mundo, meu rapaz. Oue se lhe ha-de fazer? A gente vai nellaS Cf •mo as follias nos remoiíihos do' venito.
— E que faz você agora?
— Eu? trabalho por ahi, á enxada. A terra começa a comer-me em vida. E olha que é mais dtira que o ferro, isso c, digo-t*o eu. Ando por essas fazendas capinando como um negro. Quando não posso mais. arrio. E isto vai indo assim até que, um dia, acabe. O quie não quero é que me aconteça o que está acontecendo á casa ; i sso, não !
Não imaginas como me dóe vêl-a desmanchar-se aos pO'ticos: hoje um tijollo, ámanhan uma viga...
Riem-se de mim. troçam-me porque bebo... Deu d'hombros. Soubessem elles...! O que eu quero é não pensar, sabes? não pensar. Emquanto trabalho, na canceira da enxada, vai tudo muito bem ; mas quando me deito nestes trapos ou ahi por fora... eu é que sei!
Calou-se alisando lentamente a barba.
— E tu? Que vens cá fazer? Tsto está que é uma miséria. Fizeste mal em vir. Vai-te embora!
Eu é porque já não posso commigo, senão... Estou aqui como num cárcere e as correntes que me prendem são mais fortes do que grilhões de ferrO'.
Sei lá!
Thadeu ouvia-o calado, com pena e, como o velho inclinasse a cabeça, com o® braços descabidos com desfallecimento, elle bateu-lhe no hombro carinhosamente:
— Pobre Nazario !
— ^É... Já agora tanto me faz isto como aquillo. Quando um homem está mettido nagna que lhe importa a chuva! A maior destgraça que me podia acontecer já aconteceai, o mais... não me faz mossa: são como calhaus atirados a uma pedreira. A vida é isto. rapaz: uns lá em cima, outros em baixo. Que hei-de fazer? Emquanto tive forças nos braços e o filho vivo dei o que podia á forja, bem sabes. Muito ferro verguei com estas mãos, hoje...! É natural. Tu, não: deves voltar. Vai-te embora. Aposto que já te disseram por ahi que ando sempre a cahir...?
— Não...
— Ora, não! Aqui não se diz outra coisa; até os fedelhos fazem caçoada de . m im. Já até me puzeram um nome. Atirou a cabeça em gesto de abandono. É assim, meu rapaz. Ruinas são ruinas.
Bebo. Mas olha que não é por vicio, isso não é.
Bebo, como se tomasse remédio para uma dôr muito forte. Não faço mal a ninguém, vou indo: cahe aqui, cahe ali com o jtiizo fora dos eixois...
E é assim. Quando adoeço, sei o caminho da Misericórdia. Ponho-me para lá, chego á porta, bato, atiro-me numa cama e lá fico. Ali, sim ! A li é que é... ! S ósinho, dias e dias, a olhar o tecto, não imaginas como tudo me sobe na saudade. É um deses^pero! Soffro mais com as lembranças do que com a doença. Lá a gente é bôa, quér-me bem.
Até já me quizeram tomar para jardineiro. Eu é que não quiz. Preciso d'isto, desta tristeza. Estou aqui como a velar defunto.
— Pobre Nazario !
— Pois é assim... A gente, perto, não dá pelas mudanças, precisa sahir algum tempo para sentil-as á volta. Eu fui descendo aos poucos ; t u rolaste d'alto. Deves estar com o coração doído.
Imagino! Mas tem coragem, nada de desanimar.
É preciso seguir para diante.
Levantou-se. Estava descalço.
— E onde comes, Nazario?
— Ah! isso de comida ha sempre. Nesta terra não se morre á fome. Como por ahi. Todos me dão. E, A-endo Thadeu relanceando o olhar pela ferraria, disse:
— Estás a vêr a casa. Lembras-te? A forja ainda ahi está. Olha a bigorna. As vezes ponhome aqui a malhar á tôa só para ouvir o som do ferro. Mas logo o pequeno apparece-me, vejo-o, ouço-lhe a voz, sinto-o perto de mini. E siisjpirou caminhando airadamente, a sacudir os bra<»os. 3 T O MI-RAGrtyt como se repellísse visões. E dizerem que ellès nSo voltam... Só quem os não perde é que os não ve.
Já me quizeram comprar este terreno. Não ! T stò é sa.8fradD. Ha neste chão muito suor e muitas lagrimas. Emquanto eu for vivo outro não cliama. seu a este buraco. Voltou-se de repente: Sabes quem está ali enterrado? o Turco, o teu cão. Morreu-me aqui em casa. Appareceu-me um dia cambaleando, babando como se estivesse damnado.
Estive vai, não vaí, a atirar-lhe com o malho em cima, mas o coitado deitou-se, a olhar-me tão triste, sacudindo a cauda que eu... Sei lá! Acabou abi. Eoi o pequeno que o enterrou. Lá está. Ah! meu rapaz, foi^se tudo... tudo! Só as arvores melhoram com os dias, os seus cabellos bramcos são folhas verdes. Quanto mais envelhecem mais lindas ficam e mais viçosas. Onde estás?
— Num hotel, perto da estação.
— Ah! sei. TÊ d'um italiano, que foi colono do batão de Massambará. Chama-se Giordano. Vaimos lá para fora. A noite está linda!
Apagou a vela e sahiram. Caminhando juntos, numa só sombra, Nazario disse de repente:
— Olha lá a tua casa. Está que é um gosto.
Dá tudo.
— Eu não te dizia! exclamou Thadeu.
— Pois sim ! Mas quantos homens imaginas que tem ali o barbeiro? seis latagÕes. E querias, sósinho, dar conta de tudo. Estás enganaido. A terra não é o que se pensa. Se ha. força para doMIRAftSM 311 mal a prcsta-5c a todo, senão... ai! de quem se mette com ella. Eu que o diga !
— Antes eu tivesse ficado ! suspirou o rapaz.
Quem sabe se mamai... O ferrador resmungou:
— Ora... E voltou a falar da terra: Está uma belleza! Has-de vêl-a de dia ao sol. Eu, é p|orque já não tenho apego á vida, mas quando olho para isto e comparo commigo, com a minha miséria, tenho inveja.
Iam vagarosamente ao longo de uma sebe de espinheiros em flor. O luar abria-se mais alvo, tudo esplendia em clarão marmóreo e o silencio crepitava em soídos mysteriosos como se invisíveis seres andassem na própria luz, em pollen, cantando nupcialmente o epithalamio da natureza.
Os dois homens manchavam a serenidade lúcida. Pararam e, como Nazario se achegasse da sebe attrahido, talvez, pelo doce perfume, um cão investiu ladrando.
— Vamos, que os cães já nos estão enxotando. E p roseguiram devagar.
O ferrador continuou com expressão dolorosa :
— Quando me chegou a noticia da morte de Damião, não sei que se passou em mim. Fechei a porta da casa e sahi. Andei lá pela Barra, vi o rapaz, levei-o a enterrrar... Calou-se um momento, continuando, em voz entrecortada e surda, como se lhe subisse muito do fundo do coração, aos pedaços:
— ^O cemitério, tudo aquillo... foi como se eu visse pela primeira vez a morte. Emfim... Tornei para cá outro homem. Então pesaram-me os annos, emíbranqueci da noite para o dia, o somno fuigiu-me dos olhos, os dias esvasiaram-se, como se tudo tivesse acabado para mim. Uma manhan, ao aicordar, dei com o sol á minha cabeceira, parecia uma chapa em brasa das que eu retirava nas tenazes da forja que elle aíolleava, o poibresinho. . .
Sabes tu ? era a primeira telha partida. Nesse dia começou a ruina da casa. Tudo está na primeira Srecha, no primeiro tijollo que cahe, na primeira telha que se parte, se a gente não entra com o reparo a temtpo, vai-se tudo. Tal qual como na vida de um homem : um erro, ás vezes um descuido é quanto basta para desmantellar 'honra, fortutia...
É assim. Aqui me tens como tronco secco...
— E eu, meu velho !
— Ah ! t u... Tu és moço, tens a esperança que é força. É como a mesada de Nosso' Senhor quie a gente, quando é rapaz, vai gastando' á tôa, mas quando chega a velhice e não se recebe mais esse soccorro do ceu, íica-se como me vês...
— Tu pendeste Damião, é verdade, mas eu...
— Tu... É. .. Mas por ahi andam, já é alguma coisa vêl-as. Doidas, coitadas! Tua mãi queixava-se de ti, que não lhe escrevias...
— Escrevia sempre ! a f firmou Thadeu.
— Acredito.
— E a ti também. Tu é que nunca me respondeste, nem ella. Ning-uem!
— Responder ! Responder para que ? Para dar-te noticias tristes? para mentir? Não! a gente ideve poiípar ao coração as dores, ellas são' tantas no ar, entraiulo-nos nalma com a respiração!
Para que mais?! Esqueceram-te? Faze o mesmo.
E, suibito, estacando, tiroiu do seio uma lata como as que os negros usavam como estojo da carta de alforria, abriu-a, sacudiu-a na palma da mão e, entregando a Thadeu uma photographia, disse :
— Vê se conheces. Riscou um phosphoro proteg^endo-o com a mão em concha.
— É Damião. O fe rradoísorriu tristemente :
— Elle mesmo, coitado. Vinte annos, heirí?
Ainda os não tinha e por um diabo de mulher...
É o que me resta. É tudo que tenho : o meu bem e o meu mal. Quando olho para isto, não sei — tudo me apparece o passado todo. É assim como uma lâmpada com que caminho no escuro. Sei lá... E atafulhou no peito o triste re'Hcario. E ainda perguntam porque bebo. Belx) por isto... e só.
— ■ A creditas em Deus, Nazario ?
— Eu ? ! Que pergunta ! Caminharam alguns passos em silencio. De repente, parando, o ferrador exclamou encarado em Thadeu : Mas porque me pergimtas isto? Thadeu encolheu negligentemente os h ombros:
— Não sei... Tenho soffrido tanto! Qtie mal fiz €u? E tu, meu pobre Nazario? E ha por ahi tanta gente ruim que vive nadando em ventura.
— ' E sabes lá o que sie passa nalma dessa gente ?A felicidade não é o que se vê, rapaz, como o ceu não é isso que ahi está. Felicidade... Olha esta noite : mais alva que a neve e toda manchada de negro. Quanto mais olara é a luz mais se carregam as sombras. Quem sabe o que se passa no coração desses taes. . . ! ? Se houvesse na vida felicidade perfeita, Deus seria injusto e os infelizes teriam razão de revoltar-se contra Elle. Nós sempre nos imaginamos os maiores desgraçados ão mundo, do mundo ! d 'esse bocadinho de terra em que vivemos... O mundo é tão grande!
Os dias deviam passar de vez levando tudo, tudo ! Mas não, deixam ficar bocadinhos e esses bocadinhos crescem, como sementes cabidas das arvores, e dão flores tristes e venenosas, como a saudade. Que somos nós? passado. Queres saber? quanto mais peno mais creio; quanto mais soffro mais me achego á cruz.
Sabes qual é o teu mal ? é isso de andares sempre imaginando. PÕe-te num alto, bem alto, olha para baixo e tudo te parecerá sereno; desce, e verás as pedras que magoam, os espinhos que ferem, as ondas que afogam, as podridões que tresandam, as maldades da terra e do coração, a vida, emfim. Lá de longe, de onde estavas, vias tudo aqui côr de rosa. Chcg«st«, ahi tens, É asaim.
MIRAGKM 315 meu rapaz. Um parente meu, que esteve em Africa, contou-me que naquelles sertões de arêa anda-se, aiida-se dias e dias a íio sem vêr agua nem soiíioia. -Ue repviíite lá surge um bosque de palmeiras. Os que vãr> morrer de sede dão graças a Deus, aos brados, e galopam para a delicia. É correr, é correr quie nem o vento os ganha... E o bosque a fugir diante delles e, quando os coitados chegam ao sitio da verdura, não acham mais que arêa e ossadas de outros que morreram da mesma mentira. Isso tem um nome, que me não lembra. Eu diamo-lhe illusão. Na vida é a mesma coisa : além, sempre o tal bosque, correse e que é que se encontra?... Tu ainda podes seguir, és moço... Eu... já não tenho olhos para ver ao longe, não me illudo mais : f ico onde estou, no meu quiete, até quando Deus quizer. Aqui estás e é o que vês. Tua mãi... tua irman... Já agora, rapaz, não sei. Salval-as... ? duvido muito !V ai-te embora. Calou-se, d'olhos no ceu, murmurando como se rezasse baixinho.
Um casal de negros passou por elles, perdeuse na sombra dos mattos, rindo. E Nazario continuou :
— Eu, no teu lugar, voltava, ia-me embora.
— E mamai?
— Tua mãi... Tua mãi anda por ahi perdida. Nem eu sei! Metteu-se com uma tal Ludovina, que conheci escrava do major Moreira, ef oi um descalabro. A principio falou-se 3l6 MIRAGEM muito. Feoharam-se-lhe todas as portas e ella ficou p'r'a'hi, escorraçada como animal leproso.
Só apparecia á noite, mas depois, isto é assim mesmo, desandou de vez e era de dia e de noite por essas ruas, que fazia pena. Emfim... Deus sabe lá o que faz...
Caminharam em silencio. Por fim Thadeu perguntou timidamente :
— ^ E a filha de Madama Tihene23a, Naza!- rio?
— Que tem?
— Que fim Jevou?
— Está ahi. Casoui-se com um primo, que veiu da Europa e está hoje na casa. Já tem dois filhos. Sempre bonita. Olha, se queres vêr tua mãi podemcs ir lá agora.
— Agora ? Tão tarde. . . !
— Tarde ! Q ual tarde ! Para uma mãi a hora em que lhe volta o filho é sempre de festa. Thadeu 'hesitava, d'olhos no ceu, recordaindo a scena na casa da Ludovina.
— Se deixássemos para amanham?
— Qual amanhan ! V amos agora mesmo. Com uma noite d'estas até dá gosto andar. Vai-se por ahi devagarinho... Mas olha lá: nada de mollezas. Não pienses que vais encontrar tua mãi como a deixaste. Se começas com os teus castellos, a imaginar isto e aquillo, estás arranjado. É vêl-a(, falar-llie, mas sem choradeira... E nada de tocar no passado, entendes ? Para mim — elles dizem que não, que é vicio — para mim a coitada não está lá muito certa da bóia. Não, que essas coisas... eu é que sei! Vamos! E puzeram-se a caminho.
A noite maravilhosa sustinha a cidade em êxtase. Apesar da hora adiantada havia ainda casas abertas, gente ás janellas, ás portas, refestelada em cadeiras, palestrando; grupos de moças passeiaindo nas calçadas. Sons de piano abemolavam o silencio mystico. E os dois seguiam calados e vagarosos. O luar operava O' seu encantamento nostálgico na alma melancólica de Tiiaden. A luz enchin.'-se de espectros, enxameava-se de visões, e elle caminhava absorto revendo o passado. E o ferrador, cabisbaixo, pensava, recordava. Juntos, hombro a hombro, apartados, cada qual na sua savidade, com o<s seus mortos, lá iam!
Uivos de cão agouravam o silencio. Uma coruja passou nos ares chirriando .
Na rua Bonita cruzaram com uma serenata: violão, cavaquinho e fiauta. A melodia languida ao luar era como o aroma dos incensórios: uma essenicia esparsa que subia, ondulava, espalhandose, diluindo-se fina, docemente no espaço. Quantas lembranças naquellas notas languidas! E á medida que se distanciavam mais os sons commoviam, como endeixas maguadas.
— Bem, cá estamos, disse Nazario. Ficas aqui, eu vou até lá. Se ella ainda estiver açor- ^l8 MIRAGEM dada, chanio-te, entendes? É um instante. Até já. K foi-se ladeira abaixo.
Thadeu sentou-se na borda do terreno, fumando. Crianças cantarolavam:
Carneirinho, carneirão . . .
Olhai p'ro ceu, olhai p'ro chão. . .
Aqucllas vozes entravam-lhe pela alma, revolviam4;he a memoria exhumando saudades, recordações dos dias menineiros, dos folguedos ingtenuos do bom tempo — corridas, danças de roda, fogueiras de S. João, bailaricos no Natal. Que alegria em casa! quie lufa-lufa: mesa farta, o oratório acceso, danças e a criançada solta, a pular no jardim, impanzinando-se de doces.
Carneirinho, carneirão...
Nazario reappareceu mazorro. Parou diante delle coçando a cabeça e idisse : — Não es(tá.
— E então ?
— Então, que? Não está. Vamo-nos embora.
Sentindo, porém, que o rap^z hesitava, adiantouse enfesado: Vamos, homem. Queres ficar aqui plantado? A noite está fria.
— Mamai está lá, Nazario, Tu é que não me queres dizer. O ferrador voltou-se arrebatadamente :
— Não te quero dizer... Encarou-o e, d' improviso, resoluto, af firmou: Pois estál E eutão? Está mesmo. Está lá. Mas é melhor que a não vejas, entendes? Amanhan. E em resmungo: É u ma desgraça. Que se lhe ha de fazer?
Demais a mais com aquella vagabunda da Ludovina... Vamo-nos embora.
Desceram vagarosamente, sorumbáticos, até que o ferrador, para distrahil-o, interrogou-o sobre a vida militar: como se dera no quartel, se gostara d'aquillo? E elle poz-se a recordar, ipor alto, o tempo de serviço e, quando se referiu a Matto Grosso, foi meigo descrevendo saudosamemte os dias felizes que vivera no rancho de beira-rio. com Maria Barbara.
— E é para onde volto, Nazario. Vou ver se arranjo algum dinheiro no Rio e tóco-me para lá. Ali, sim: Só ali conheci a felicidade. O ferrador resmungou:
— É... Mas de repente, mirando-o sisudo:
Oneres o meu conselho? Não voltes. Deixa lá a rapariga. Para que? Assim como assim o melhor é guardares a lembrança do tempo que lá viveste e o resto...
Isso de felicidade é como dinheiro de jogo.
Vais ahi a nma l^arraca, entras, jogas, levantas a parada. Se sahes com o bolo, muito bem; mas se insistes, é prejuízo na certa. E vai-se tudo, não só o lucro como ainda o que tens no bolso e sahes a tinir, como me tem acontecido muitas vezes. Foste feliz? não voltes á banca. Olha para mim. Tenho o retrato do filho, ando com elle: é como uma ficha que coinservo. Pensas que vou ao cemitério? Não! Para que? Contento-me com o que me ficou. Isto, ao menos, é alguma coisa, é elle... E o que lá está...? É assim, rapaz.. Deixa-te estar onde estás. A gente ouve o coração, que é mau guia, e o resultado é andar-se por ahi aos trancos e barrancos. Deixa lá a rapariga.
E aqui mesmo... não deves ficar. Vai-te embora. Queres viver como eu' no meio de ruinas?
Queres!? Não! Mesmo para tua mãi a tua ausência será uma obra de misericórdia. Não hasde querer envergonlial-a sempre. Faze por élla o que puderes, mas de longe, entendes? de longe!
Calou-se, como arrependido, dizendo depois:
— Se ainda pudesses salval-a. . . mas qual ! É tarde!
Já viste alguém conservar em casa o corpo do morto? Não! Faz-seJhte quarto, diz-se-lhe adeuis e, ohegada a 'hora, não ha remédio senão entregal-o á terra. De que nos serviria .guardar o cadáver em casa, vendo-o apodrecer, sentindo-lhe o fétido...? Se ainda tivéssemos poder para o resuscitar, vá, mas que somos nós?! Vai-te embora !E squecer é impossivel, bem sei ; essas coisas ficam-nos no coração como raizes, mas emfim... Olhos não vêm... Já cumpriste o teu dever: visitaste o teu cemitério. Vai-te embora.
Eu não vivo aqui? O filho não está lá? É assim...
Haviam chegado ás ruinas da ferraria.
— Está frio, hein? disse o ferrador esfregando as mãos. Sentaram-se na apodrecida soleira.
MIRAGEM 32 T Thadeu olhava a paizagem pallida, defumada de névoa e silente. Súbito estremeceu aprumanda-se. Poz-se de pé, com a mão ao peito.
— Que é ? Estás mentindo alguma coisa ? acudiu o f erreiro sollicito.
— É a pontada, de vez em quando.
— Está frio. Vê lá ! Não vá a humidade fa - zer-te mal... Se queres entrar...? Isto não é casa que se offereça, mas emfim...
— Não. Sentou-se de novo, pigarreando uma tosse frouxa. E as terras, Nazario? Têm dado?
— As terras da tua casa ? O ra ! A té café 1 L embras-te dos cafesaes? Estavam em matto. Agora parecem novos. Ah ! m eu amigo, sem trato não ha lavoura. Has-de vêl-os logo mais. Eu dou-me com o homem...
— Não! Não quero! Um accesso mais forte, arrancado, sacudiu-o violentamente, o peito resoava-lhe rouco, aos retrôos.
— Homem, vamos lá para dentro. Sempre é mais agasalhado. Ou se queres, eu acompanho -te ao hotel. Isto está frio. Eu mesmo estou sentindo.
— Não. Não vale a pena. Está amanhecendo.
— Amanhecendo?! Qual amanhecendo nada!
Isto não passa de meia noite. Estás a vêr tudo branco e pensas que é madrugada? Cerração é que é... Vamos entrar.
— Não, Nazario. Só se estás com somno.
— Somno ! E u ? ! Q uem m'o dera ! P ois é isto.
Está tudo acabado. Eu, se fosse mais moço e 11 tivesse saúde, atirava-nie por esse mundo fora, A g-ente não se deve prender á terra, é muito menos aos homens, como não se prende aos dias.
É andar, andar para não crear raizes, porque o arrancar-se a gente de onde se arreiga, isso é que dóe. Estou velho, mal posso com as pernas e, já agora, onde quer que vá levarei commigo terra agarrada ás raizes que aqui criei. Thadeu poz-se a andar apertando o peito para conter os fluxos de tosse.
— Não ! V amos lá para dentro. Estás a resfriar-te aqui fora. E o ferrador, tomando-lhe o braço, levou-o peia vereda, entre os carrapateiros orvalhados.
O luar abrumava-se em espuma fluida, como de leite, subtilisada sobre os campos quietos. Surdos mug-idos rolavam ao longe. Os gallos amiudavam.
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