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Capítulo 7 · Miragem

Primeira parte VII

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Quando chegou ao Paty a noticia da moléstia de Thadeu, as duas mulheres sobresaltaramse. «Que seria? Que não seria?»

Maria Augusta, que já se queixa va do aborrecimento da v ida — «mettida naquelle desamparo», aproveitou o motivo para fugir ás instancias de Manuel Gomes, que insistia em que ficassem mais uns tempos. Negou-se ; e, nessa mesma tarde, tratou de arranjar a bagagem, pedindo o carro para a manhan seguinte.

— Não, que se lhe morresse o rapaz não sabia que havia de ser delias, sem ninguém no mundo. Luiza correu a entrouxar a roupa laffirmando — «Que não podiam deixar o irmão sósinho, sem uma pessoa que lhe desse os remédios a tempo e a hora.» Tinha lagrimas e gestos afflictos. invocava os santos, mas intimamente sentia-se feliz : I a rever Vassouras !

Manuel Gomes tentou dissuadil-as, promettendo ir em pessoa ao Madruga vêr o rapaz; ellas, porém, no propósito em que estavam, recusaram.

Luiza oppôz-se. — «Que até lhes ficava mal deixarem o i rmão, o único parente que tinham na terra, abandonado no fundo de uma cama.»

A mãi concordou : «Ficava feio : haviam de falar e com razão.»

Manuel Gomes encheu o cachimbo e, estirando as pernas, deu d'hombros :

— Pois sim. Aqui vocês tem tudo, não lhes falta nada. Querem ir? pois vão, minhas filhas, mas certas de que o rapaz não tem nada de cuidado. Teve saudades e inventou essa historia de doença.

Mas Maria Augusta inter rompeu-o, defendendo o f ilho :

— Não era capaz de assustal-as desse modo.

Elle que mandara dizer que estava doente, estava mesmo. Emfim, fosse como fosse — o dever delias era seguirem quanto antes; nãO' queria remorsos.

Recolhendo-se ao quarto, sentadas na cama, mãi e filha desataram a falar do sitio, recapitulando a vida amargurada que levavam naquelle zungú de negras e mulatas, com Maria Rita á frente, muito catinguenta, puxando a dança.

— Nunca vi ! exclamou Maria Augusta, benzendo-se com a mão espalmada. Contado ninguém acredita. Um homem como seu Manuel Gomes mettido com uma immundicie d'essas, sempre fedendo a sarrode cachimbo e a cachaça e suja de fazer nojo... Até parece feitiço. . .

E Luiza acrescentou :

— Ainda se fosse ella só... são todas. Todas essas mulatas que andam ahi com luxos de donzellas, muito cheias de quindins, de me deixes, tudo isso reza pela mesma cartilha. Eu vi muita coisa! Á noite seu Manuel Gomes não dá acordo de si : sahe da mesa aos tombos, como mamai vê, deita-se na muafa e a casa fica entregue a e ssa corja. Então é que é... Na noite em que a senhora teve aquella dôr eu fui á cosinha buscar um pouco d'agua quente. Ahn ! Não lhe conto nada...! Estavam todas de pagode com homens, um tocando violão, e Maria Rita no meio da troça.

— Pois é. É para você vêr. E quer «dona», essa biraia! Também que é que se pôde esperar de uma typa que sahiu do quadrado? Seu Manuel Gomes é que eu não sei... E sempr.e a falar nas despezas, no preço disto, daquillo. Pois se viemos para cá foi porque nos chamaram. Eu sei... Pensavam que tínhamos ficado com mundos e f undos... Suçi^! Seu Manuel Gomes é MIRAGUM 73 que eu não sei. Um homem tão direito, tãO' serio, dar para uma coisa assim.

— Ora, mamai, gente que bebe é isso. E a senhora sabe lá as porcarias que ellas dão ao pobre?! Vamo-nos embora...

Luiza arrastou o bahú para o meio dO' quarto, abriu-o c poz-se a arranjal-o. Maria Augusta ia-lhe passando as p€ças de roupa que ella alisava, dobrava e acamava, falando sempre :

— A senhora é porque não viu o barulho que fez ahi o mascate por causa de um par de brincos. Foi uma vergonha! Ellas chegaram até a querer bater no homem e os brincos estão nas orelhas de Florinda, a tal que diz que vai casar com seu Chiquinho e vive mettida com um e com outro. E esses moleques!? O que elles fazem por ahi! O tal Totonho então... comendo á mesa com a gente, sujo, com o nariz escorrendo ranho e aquelles olhos cheios de sapiranga. Deus me livre !

De repente ©stacou hesitante e, derreando o busto, para falar a Maria Augusta, perguntou:

— Quantas camisas a senhora trouxe?

— Faltam, não é!? explodiu Maria Augusta.

E, atirando os braços, frenética: Não sei, não contei, mas deve faltar... Não vê que essas ladras deixavam de surripar alguma coisa... Poz as mãos, d'olhos em alvos: Camisas de bretanha, com rendas finas. Foram-se! Conta. Vê quantas tem. Vagabundas! Luiza contou oito.

— Oito!

— Ora se eu havia de trazer oito tamisas !

Quatro, pelo menos, ficam com ellas. É essa Maria Rita. Um diabo que sempre vestiu estopa. Eu mesma não sei onde tinha a cabeça quando aceitei o convite desta gente para metter-me aqui.

Emfim... Bateram á porta. As duas entreolharam-se e Luiza foi abrir. Dando com Maria Rita abriu-se em exclamação' af favel :

— Ó D. Maria, entre. Estamos aqui nos arranjos...

Era uma cabrocha reforçada, de collo farto e quadris anchos. Vinha em mangas de camisa, com O' peito, os hombros e os braços nus, os seios bambos, cabidos em papo ílaccido. Estacou á poTta languorosamente, abrindo os braços entre as ombreiras.

— Que pressa, gente. Nem que fossem tocadas...

Maria Augaista, agachada como estava, explicou :

— Que não. Até levavam saudades. Tinham sido tão bem tratadas... Mas que haviam de fazer? o rapaz sósinho, doente... Não haviam de deixar que estranhos fossem cuidar delle quando ellas estavam ali. Isso não.

Anna Rita concordou:

— Sim. Se é por moléstia... ''

— Pois é. Se não fosse a doença ficávamos !

E, de repente, risonha: Por que a senhora não 7IIRAGEM 75 vem passar uns dias com a gente, em Vassouras?

Que é que a prende aqui? O compadre...? ora!

Anna Rita desculpou-se :

— Qual ! não podia deixar a casa, principalmente naquelle momento. Sem ella ninguém se entendia, ali.

— Uns dias...

Arrugou o carãoem sorriso e, recuando, rematou :

— Bem, não quero estorvar mais. O café está na mesa.

Sahiu e Maria Augusta, sentindo-a afastarse, cuspilhou para um canto, dizendo, com asco:

— Diabo da burra ! É até capaz de fazer alguma porcaria para se vingar da gente.

E fechou o bahú com estrépito.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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