Universo da obra
Universo da obra
Thadeii, que passara o dia distrahido, procurando o t umulto das palestras para desviar o espirito das apprebensÕes que o invadiam, recolhendo ác ompanhia, sentiu-se tomado de tristeza
— mixto de saudade e de medo, saudade dos seus que além ficavam, medo desse desconhecido paÍ2 que outros diziam ser immenso e tristonho, cortado de grandes rios ainda sulcados por montarias selvaí^ens, enormes ubás cavadas em tronco nas quaes navegavam famílias de Índios; rios que as onças atravessavam bramindo e em cujas margens abarrancadas jacarés arrastavam-se procurando os raios do sol quente; campos extensos, sáfaros, de áreas adustas, sem arvore de sombra, sem fonte ou córrego, tristes ; ou selvas virgens, de arvores gigantes, onde ainda retroava o tembí do tapuyo.
Outros haviam falado, com pavor, nos pântanos pestilentos que a vegetação escoinde e nos terríveis flagellos dos moscardos, nos grandes repteis escamosos que, pela noite calada, vêm resvalando lentos e penetram nas casas abafando a vida dos que dormem nos terriveis anneis do seu corpo formidável e, sobretudo, o abrasamento do sol no cen, sempre azul, raro em raro lavado pelos aguaceiros das tempestades. E as febres e todos os males desenvolvidos e germinados nas aguas podres dos alagadiços.
Outros, que haviam trilhado esses caminhos, por conhecerem os amargores da viagem, lastimavam-se e Thadeu, como se quizesse prepararse para o soffrimento, educando-se em terrores para a aventurosa travessia, ouvia-os avidamente, incitanido-os a cointarem, sem omissão de pormenores, todas as perii>ecias das longas marchas, todos os episódios assistidos, todas as agonias supportadas.
Sentia-se desanimado, posto que Fabrício, sempre calmo, encarando' tudo com a tranquillidade que lhe dava o fatalismo de sertanejo, pro^ curasse encorajal-o dizendo-lhe, com a resignação mansa dos convictos:
— Descança, homem, o que tem de ser Deus é quem sabe. Febre, tanto se apanha aqui como no inferno e isso de bichos é historia. Lá não pôde haver mais bichos do que no meu sertão e eu, graças a Deus, ainda estou aqui, vivo. Qual MIRAGDM 129 O que! Deixa falar quem fala. Essa gente mente que nem o diabo!
Mas Thadeu suspirava. A morte appareciaIhe ameaçadora e inevitável, sob diversas formas.
Morreria — era a sua convicção — varado por bala, ou afogado num rio, colhido pelas garras de uma fera, ou em delirio, sobre a maca do hospital-barraca, victimado pela epidemia das lagoas.
Todos os géneros de morte se lhe apresentavam ao espirito apavorado. Hesitava, mas tinha certeza de q ue um delles havia, fatalmente, de o arrebatar, além, no campo desconhecido e vasto dessa terra maninha para onde ia partir no meio dos pelotões indi ff crentes, não tendo, em toda aquella turba, um verdadeiro amigo a quem pudesse confiar os seus sof trimentos Íntimos, as suas angustias, os seus cuidados, saudades e recordações, sonhos e até amores, porque, nessa vida de isolamento, haviam visitado o seu coração deserto lembranças de antigos casos passionaes que, pouco a pouco, pela insistência, se foram tornando preoccupaçÕes e amor por fim, amor vago, flor de saudade.
O que dantes sentira, vendo e ouvindo essa que seus olhos reviam em uma espécie de bruma suave, não fora senão uma amizade meiga de criança, nada mais. Entretanto, pensando nessa partida inopinada, apontavam sentimentos no seu coração como" vêm á tona de um rio de aguas tranquillas e mansas, quando as revolvem os ven- 5 tos, algas perdidas, folhas que repousavam no arro. «Morre-se em toda a parte», dissera Fabrício.
Mas que tristeza morrer longe do affecto e ficar, para o sempre, no exilio de terra estranha, sob outro sol, sem uma cruz que lembre o fim da vida e a paz eterna do corpo!
Parece que ha uma consolação em saber a gente que na morte farão sombra sobre o tumulo os galhos da arvore que se conheceu em vida e cantarão nos braços do cruzeiro tosco os pássaros familiares, quasi irmãos, nascidos na mesma terra, afagados e aquecidos pelo mesmosol.
Saber a gente que, de longe em longe, lagrimas virão regar a terra fúnebre e flores exhalarão perfumes sobre a lapide tristonha, consola, é como um outro viatico para a alma.
Com a chegada de novos contingentes o quartel regorgitava. As companhias cheias, atulhadas de e quipagens, mal comportavam os homens. O n umero de barras fora augmentado' de sorte que as passagens tornavam-se de tal modo estreitas que, para caminharem, os soldados tinham de ir de esguelha, esgalgando-se, saltando por cima de trouxas espalhadas pelo chão. Violas gemiam, cantilenas soavam e, ao fundo, na sala da musica, estrugiam dobrados e marchas.
Á luz das lanternas dos corredores soldados bmniam os ámarellos das fardas, escovavam o correame, pespontavam blusas ; outros, em mangas de camisa, os pés em tamancos, fumavam tranquillamente sentados sobre canastras. No pateo sombrios grupos cruzavani-se.
Thadeu e Fabricio, sentados sobre cunhetes, cómmcntavam a ordem imprevista do ministério da guerra. O maranhense parecia satisfeito, porque ouvira a um tambor que a expedição tocaria, de passagem, nos portos do Norte e essa idéa de rever a terra natal, de ouvir, ainda uma vez, o marulho do mar patrício, bastara para consolar o seu espiriío nostálgico.
— - É , então, depois de amanhan? indagou Thaxjeu.
— Parece.
— Máu dia !
— Porque?
— Sexta-feira.
— Ora ! T anto faz um dia como outro.
— K qu2 historia é essa com os paraguayos...?
— Sei lá.
— - D izem que elles andam por lá fazendo tropelias. r\ías o cadete Fernandes, que ouvira, encostado a um varão, interveiu indignado:
— ■ O que, homens ! P ois vocês acreditam nessas cantigas ?
— É o que dizem os jornaes.
— Quê nada! Que é que dizem os jornaes?
— Que ha uma questãO' entre bolivianos e paraguayos.
— Historia ! bradou o cadete. Não ha nada ! posso garantir a vocês. Eu conheço o Paraguay, estive lá ha pouco tempo. O Paraguay não tem homens, a guerra devastou aquillo tudo. E a Bolivia... Coitada da Bolivia! Isto é historia...! O que é sei eu!
— Que é ? indagou Thadeu curioso.
— Que é ? é medo. Medo que o governo^ tem do exercito.
Os dois soldados arregalaram os olhes. Causara-lhes estranheza aquella declaração do cadete. Não podiam comprehender que o governo, senhor absoluto das tropas, que podia, de uma hora para outra, mandar encerrar todos os batalhões em um forte, tivesse medo dessa mesma hoste pacifica, que se curvava á sua ordem, sem protesto.
— Medo de que, seu cadete? indagou Fabrício com sorriso de pouco caso.
— ■ M edo de que ? ! de mim, de ti, de todos nós.
— Quem? O governo?!
— O governo, sim. E que pensa você ?
— Penso que nós depois de amanhan estamos marchando p'ra bordo, disse e rompeu a rir.
— Sim, estamos marchando, porque, infelizmenite, não temos entre nós um homem de coragem. Infelizmente a verdade é esta — nós não pasmamos de um bando de escravos.
— Escravos não, repelHu Fabrício.
— Escravos, sim! Escravos! Então isto é ordem que se dê? Nós nãO' temos família? Não temos mãi, como elles? Se houvesse alguma affronta a repellir, muito bem, era nosso dever partir. Mas simplesmente para deixar livre o campo á tyrannia?!... Onde está o patriotismo desse governo que manda para o degredo mais de cinco mil homens. s'mplesmente porque receia que a oppressão lhes estimule a coragem? Onde é que está o patriotismo, digam?
Os soldados não responderam e o cadete proseguiu in fla nimado :
— Que é o exercito? é a força da nação, essa força, entretanto, vive sob o jugo de um ministro da coroa que faz delia o boi do carro do Estado, pondo-lhe na cerviz, á laia de enfeite, a bandeira nacional. É isto ou não ?
P'abricio riu achando graça á comparação e o cadete continuou:
— Eu vesti a farda com enthusiasmo, mas conu fesso que hoje... Deu meia volta torcendo as mãos, nervoso e, súbito, encarado em Thadeu, declarou batendo no punho : — Se eu tivesse aqui uns galões... qual! esse governo havia de vêr.
— Mas, seu cadete, o governo não tem razão para não gostar do soldado.
— Ah ! n ão tem razão ! e xclamou o cadete acocorando-se, não tem razão?
— De certo.
— Meu caro, você, infelizmente, está muito longe de conhecer a verdade. Vocês não podem compreijender o motivo desta mobilisação.
— Nós que vamos é porque ha alguma coisa... -— Alguma coisa. Alguma coisa o que, homem ?
— Não sei. Mas os jornaes não precisam mentir. '• i' ■-' ''-^-Ah! 'sini,"õsjíi(í)»rnaes não precisam mentir; e não têm mentido.
— Pois é. E elles trazem as noticias da guerra entre os paraguayos e os bolivianos.
— Que guerra, homem ! ? Que guerra !
— Em Matto Grosso. '.^-Ah! em Matto Grosso!
Galou-se algum tempo, mas, de repente, avançando para os dois soldados, affirmou em tom peremptório :
— OHiem, querem saber porque é que vamos páiu^Míúto Grosso? fez uma pausa encarado nos homens que não Ih.e tiravam os olhos do rosto contrahido: Ouerern saber? É por causa da RepuMca.' Hoje todo o exercito é republicano e o governo receia a revolta das aiTnas.
Já outras praças haviam formado circulo em volta do cadete e ouviam-n'o attenciosamente.
— Que diabo ! A obediência em excesso chaMIRAG:eM 135 ma-se servilismo. Então só temos valor, só merecemos alguma coisa qnando precisam do nosso sangue nos campos de batalha? Os canhões ribombam na f ronteira, carne para saciar a fome das feras, carne para fazer calar os brutos de aço. E ahi vamos nós, pacientes e resignados, por amor da pátria, servir de pasto á artilharia, que reclama do nosso patriotismo essa obrigação evangélica. E, na liora em que protestamos, em nome dos nossos direitos de homens, como nos respondem ?^ com a solitária nos presidies ou com o degredo. É iniquo. Olhem, eu estou com minha rriãi de cama, á morte, pois não consentiram que eu fosse á casa beijar-lhe a mão. O governo expediu ordens terminantes. A disciplina militar é severa : c a pátria que im]iõe. Oh ! é bem terrível e c ruel a pátria que rouba ás mais os filhos, que escravisa os homens que são o seu orgulho, a sua honra, o sustentáculo da sua integridade, levitas do seu s}'mbolo. Bolas!
Os soldados ouviam-no em silencio ; alguns, de vez em vez, acenavam em signal de approvação, resmungando phrases.
O cadete passeava de um para outro lado.
Repentinamente voltou-se :
— Dizem que vamos partir para impedir a invasão da fronteira. Mas consta alguma coisa?
Que "é que consta ? Digam !
E impetuoso, enumerando pelos dedos :
— ^ C onsta que o exercito murmura ; consta que a tropa, por demais sentida, e com razão, espera o momento da represália ; consta que os generaes desgostosos concertam planos de revoltas ; consta que se conspira, isso sim! exclamou num silvo. E como o governo, com os seus actos consecutivos de t yrannia e de perseguições, alienou de si todas as sympathias da classe militar, resolveu lançar mãO' desse meio supremo para inutilisar a força, em cujo seio^ germina a grande idéa libertadora. Ah! mas a hora ha de soar...!
Os escravos tiveram o seu dia, o nosso sol ha de raiar e essa manhan será alumiada pelo clarão rubro dos canhões. Nem todos ficarão nos banhados de Matto-Grosso, tenho certeza ©, os que de lá voltarem, endurecidos na provaçãO' do exilio, saberão tomar as devidas contas aos carrascos. Pátria ! P átria ! é com o que lhes dão.
E, voltando-se para Eabricio:
— Você mesmo que riu... Você não tem mãi?
— Como mãi ? !
— Mãi, homem. Você não tem mãi?
— Como não ? !
— E não sente deixal-a !
— Sinto, de certo. Pois então não hei de sentir?
E outros concordaram baixinho :
— De certo.
— De certo! corroborou Eabricio; mas desde que sou soldado... Os outros não vão? Os outros também não têm mãi?
— Sim, os outros vão, avançou o cadete estendendo o b raço para o longínquo, vão porque não sabem que são enxotados. No dia em que o soldado tiver consciência da sua missão e vir que não tem servido senão para instrumento de vindictas tentadas contra generaes, saberá reagir.
Elles receiam a propaganda, tremem diante de Madureira que fala ao soldado como amigo e como patriota... Mas pensam, talvez que, pelo facto de mandarem para longe as tropas, apagam os sentimentos que nellas vão crescendo dia a dia? ívnganam-se. Lá fora não será a propaganda feita pela palavra, será a propaganda latente da s audade, da fome, da agonia. Sim, quando vocês pensarem nos seus hão de indagar intimamente a r azão desse apartamento e então... hão de vêr que ella existe apenas no rancor dos ministros e na fraqueza de um velho que se deixa embahir pelas palavras de um rol de falsos conselheiros e, c ada um de vocês se transformará em uni inimigo terrível, em um republicano ardente.
A idéa de liberdade alastrará então pelas almas.
A mim quem converteu foi o soffrimento.
Um rapazola que passava estacou :
— Estás indignado, Fernandes?
— Pudera,..
— Matto-Grosso é uma pandega.
— Pois sim . . . !
Como o outro seguisse cantarolando, o cadete continuou : 13a miragí;m
— Servimos para tudo, até para capitães de matto.
— Onde, sen cadete ? indagou Fabrício.
— Onde? em Santos.
— • O ra, mas não se pegou ninguém.
— Sim, porque os soldados recusaram-se, mas que mandaram, mandaram...
— Olhe, eu cá por mim agora tanto me faz aqui como ali; isto ha de acabar.
— Ah! sim, ha de acabar. E em brado: Ha de acabar mesmo, com a Republica...
— O que, seu cadete ! exclamou Fabrício.
— É ! Estás espantado ? A Republica, e então...?!
— Republica I A cara de assombro que fez o maranhense provocou uma explosão de gargalhadas. Thadeu, derreado, ria a bandeiras despregadas.
- — Vocês estão rindo? De que? indagou o cadete enfurecido.
— Não é do senhor, seu cadete; disseram.
— É de mim ? indagou, Fabrício mirando-se :
Mas de que, gente?
Redobraram as gargalhadas. O corredor enchia-se de soldados que surgiam de todas as partes. Ergueram-se os dois. Thadeu redobrou a gargalhada, mas o maranhense, e^cclamou revoltado :
— Homem, acaba com isto. De que é que você está rindo?
— ^ D a tna cara.
— Da minha rara ? da minha cara ? One é qne tem a minha cara?
E o cadete pondo-se-lhe á frente :
— Aposto qne não sabes o que é Republica?
— En?
— Sim, você mesmo. One é?
Fabrício olhon em volta e, fitando o cadete, balbncion tímido.
— -Mas, seu cadete...
— Não sabes ; é por isso qne ris, conclnin, voltando-lhe as costas; e de lone^e: E como tn. são qnasi todos — e abrangeu, em gesto largo, o vasto pateo sombrio do quartel.
- — Não pensa, homem ! disse Fabricio de improviso. Está você ahi banzando á tôa. Isto é peior. Deixa o mundo girar. Que é que se ganha com tristezas? Soldado não tem querer.
Olha, ás vezes, quando você me encontra jururu, mettido por ahi. estou pensando na minha gente.
Minha mãi é que me mata, coitada! suspirou.
E.stá velhinha e não tem mais ninguém no mundo senão eu. Meu pai vive atirado no fundo de uma cama desde que ficou entrevado. Eu, que era o tombo da casa, ando por aqui sem sal)er delles. Deus sabe a miséria que os pobres estarão soff rendo ; entretanto não vivo chorando. Se as minhas lagrimas servissem para alguma coisa, I40 MIRAGEM mas chorar p'ra quê? Não pensa, deixa andar a coisa. Dizem que a gente vai por castigo. Castigo por que? Que foi que fizemos?
Thadeu encolheu os hombros com indifferença.
Em torno discutia-se. O plantão, condescendente c amigo, permittira a conversa em voz baixa. Elle próprio demorava-se, de longe em longe, junto ás barras, emittindo opiniões, recordando episódios do tempo em que andara por esses campos malignos, qiiasi desertos, apenas atravessados pelas boiadas sertanejas.
— O que nos vale é que é Deodoro que vai com a gente.
— Caboclo direito ! a f firmou com enthusiasmo o veterano. n — Amigo do soldado até ali ! adiantou o cadete.
— Camarada, camarada como qualquer de nós. Não é de coisas. E valente como um tigre!
No Paraguay, quando elle apparecia, era obra!
Só se via guarany correndo. De uma feita...
E, atirando gestos estabanados, o veterano pôzse a contar um episodio da campanha — o entrincheiramento paraguayo junto da encosta de um cerro, o fogo vivo da artilharia mascarada, as sircccssivas cargas de cavallaria e, de repente, entrando a m arche-marche, o batalhão commandado pelo caboclo terrível, que vinha á frente num cavallo libuno, com a sua bella figura marcial, o MIRAGEM 14- seu perfil de agiiia dominadora, brandindo a espada terrivel, rompendo atravez da fumaça que encobria o inimigo, emboscado atráz das sebes e dos gabiões.
Ouviam-n'o todos attenciosos, interessados, e o velho soldado, recapitulando episódios da sua vida guerreira, sentia-se exaltado pelo enthusiasmo. Foi necessário que o plantão lhe recommendasse «falar baixo)), para que elle abrandasse a voz atroadora que despertava a attenção de toda a companhia.
— Ah ! meu amigos, e ainda falam ! E u só queria vêr vocês lá nesses campos, no meio d'aquella indiada que voava nos cavallos como fantasmas, soltando gritos que doíam nos ouvidos, com uns facões que nenhum de vocês seria capaz de levantar do chão quanto mais de manejar. Lá é que eu queria vêr vocês, seus prosas.
E, embrulhando-se nos lençóes, estirou-se na barra resmungando:
Matto-Grosso... Matto-Grosso... Isso é até um passeio.
— E dizem que é justamente por causa do Deodoro que nós vamos, adiantou o mulato.
— Por causa do Deodoro, porque?
— Porque anda mettido com os republicanos.
— Que republicanos, homem ! O nde é que ha republicanos...? Isso é historia. Elles gritam, mas não fazem nada. Qnem é que quer saber de Republica nesta terra?
— Mas é a verdade! affirmou o , c adete com cnereia. É a verdade! O que elles querem é verse livres do Deodoro que é, incontestavelmente, o maior prestigio do exercito e que, nO' dia em que quizer fazer voar toda essa bobagem de thronos, faz mesmo. É por causa delle que vamos, fiquemf iy.qcês saben d o . ■T— Mas, seu cadete, que é que vem fazer a Republica? faça o favor de dizer, inquiriu o veterano, calma e tranquillamente, sem levantar a cabeça do travesseiro.
— Que vem fazer? Vem acabar com a escravidão -do povo, como a lei de 13 de maio acabou com a escravidão do negro. Vem trazer-nos a paz, a liberdade, a autonomia que não temos.
Sorqios, por .^.caso, urn povo? diga. Somos um conjunto d.e íitereSj .sem vida própria, sem independência. Temos, como factores constitutivos da nossa vida politica, os conselheiros e os padres. Vivemos entre duas hypocrisias : o auHcismo e o beaterio. O velho vive de zumbaias, ouvindo os eruditos murmúrios dos sábios e aprendendo, com uns jarretas, idiomas clássicos. A filha vive de genuflexões e de rezas. O pcvo tem fome, a miséria alastra. Que importa se ha um astro novo no céu? que importa se ha inda uma conta no rosário bento? A Republica vem libertar-nos da bajulação e do fanatismo. Precisamos confraternisar com as nossas irmans. É uma anomalia cómica este império isolado entre Republicas. A coroa de Colombo tem uma pedra falsa.
É tempo de cuidarmos de nós. É tempo de constituirmos aP átria. E é com receio de que isso se realise que o governo manda para os pantanaes o exercito.
E impetuoso, esmurrando o travesseiro:
— Mas é debalde ! A Republica é fatal ! Ha de vir como depois da noite vem a madrugada.
— Pois sim, disse ironicamente O' veterano cobrindo a c abeça e, de1)aixo da colcba, ainda repetiu em tom de troça: . — Pois sim, seu cadete... E quando ella vier mande entrar.
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