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Capítulo 20 · Miragem

Terceira parte II

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Ao descer na estação, onde amorrinbavam vadios em calaçaria perrengue, um menino abordou-o esbaforido indagando — se «queria hotel ?» e inculcou-lhe uni) ali perto, apontando, a coisa de vinte passos, um macisso de verdura quasi de todo encobrindo uma casa achaparrada no fundo de viçoso jardim, de onde subia um mastro com uma bandeirola que girava á laia de catavento.

Lesto, sem esperar resposta, o menino arrastou o b ahú, pedindo a Thadeu que o ajudasse a pòl-o á cabeça e partiu logo, meio curvado, a trote curto, arquejando ao peso.

O hotel, á sombra de espessa latada, era uma al^re locanda italiana, cheia de gaiolas chilreantes. Deram a Thadeu um quarto amplo com janella sobre o jardim. EHe pediu café, tomou-o ás pressas e sahiu.

A cidade pareceu-lhe mais branca, como renovada. Ao fundo, no alto da coUina alcatifada de relva, solitário como um castello antigo, impuw nlia-se, soberbo, o palácio do barão do Amparo.

As ruas estiravam-se muito limpas, em declive, quasi ermas.

Um pequenóte passou por elie assobiando, com uma samburá de legumes á cabeça. Parecia-se tanto com Damião... Não ! N ão podia ser, o outro devia estar quasi homem.

Andava com os olhos de um para outro lado, nas casas, nos raros transeuntes, detendo-os nos animaes que passavam, como se os reconhecesse.

Voltou-se ouvindo o cocoricó de um gallo.

Sorvia a haustos o cheiro da terra. Tiniha Ímpetos de entrar nos negócios para rever conhecidos, camaradas do antigo tempo, mas a saudade da familia recrudecia-lhe no coração como se aggrava a sede na proximidade d'agua.

Não ! P rimeiro a mãi ! Q ueria causar-lhe surpreza, surgir-lhe em casa, atirar-se-lhe aos braços, beijal-a, e se alguém o reconhecesse espalharia logo a noticia da sua chegada. Não ! P rimeiro ella e Luiza...

Mas caminhando não se continha que não parasse aqui, ali : d iante de um cercado, em frente de uma casa, á esquina de uma rua, olhando enlevadamente, triste. Era por ali que costumava 26p MIRAGEM descer, morosamente, chiando, o carro do pai atochado de l enha. Além, a picada tantas vezes percorrida de m anihan e á tarde, no tempo da meninice. Viviam ainda as boas arvores antigas e os espinheiros cobertos de flores nevadas orlavam a estrada secca e risonha. Cães passavam em corridas amotinadas, ladrando, reibolavam na herva, espojavami-se. Ivembrou-se do Turco...

Que seria feito d'elle? Tropas desciam tilintando e a cantilena dos tropeiros despertava-lhe recordações. Noites ao luar nos terreiros das fazendas, ouvindo o burundun dos caxambús, o jongo monótono dos escravos, os descantes amorosos, ao som das violas, nos frios mezes das festas, emquanto a garoa pulverisava as arvores, os caborés piavam agcurentos nos topes dos velhos troncos e os sapos nos açudes tintangalha- \am.

Iam, pouco a pouco, reapparecendo as scenas do passado.

Além era o caminho da Lagoa, onde vivera dias alegres, emquanto o pai, contratado, abatia as mattas da visinhança. Revia toda a fazenda com a sua entrada florida de allamandas — as senzalas em baixo ; a casa num alto, ao fundo do jardim, sempre franca, e, na varanda, dois terríveis cães, Atrevido e Montezuma, guardando a entrada.

Revia maravilhosamente. Era a volta á mocidade, viagem rápida, fantástica, atravez do passado. E tão abstrahido caminhava que foi preciso que um carreiro, que vinha trepado entre os lueiíos do carro, lhe bradasse de longe: — Eh! mogo ! D esviou-se, e os bois passaram a trote pesado e sacudido, arrastando o carro com a coberta de e steira, debaixo da qual viajava uma familia negra.

Deteve-se devassando o interior do vébiculo onde aquella gente accomodava-ise como em tenda. Uma das mulheres ia amamentando o filho; ao lado, encolhida, com a cabeça coberta por um lenço enrolado á maneira de turbante, uma negra;, engelhada chupava o cachimíbo de taquara.

A vida errante...

Sahindo de um centro tumultuoso, sentia-se bem na tranquillidade da sua terra. Era a mesma, guardando os mesmos costumes, simples, patriarchal, modesta, bem com as suas arvores, enfeitando-se apenas com suas flores e satisfazendo-se com o lento rumor das aguas e com o canto lyrico dos pássaros. Reconihecia-a : não se havia modificado, recebia-o com a mesma feição immuitavel e serena. A gente apenas pairecia outra.

Esses velhinhos que o saudavam seriam os homens do seu tempo...? Oh! como os annos lhes haviam pisado as faces...! E esses robustos moços alegres, ágeis, afanosos, seriam as crianças que elle havia deixado galgando montes, devastando ninhos? Nem uma só physionomia das antigas. Ah! sim, aquelle velho negro vagaroso, com uma 'bandeja pousada na palma da mão, O doceiro, esse vira-o pequeno. E não conteve um sorriso lembrando-se de certa partida que lhe pregara, furtando-lhe duas tigellinhas de geléa. E panecia estar a vél-o, indignado, praguejando, a ameaçar a garotada com um bambu.

Uma badalada vibrou — o sino da terra. Era uma saudação, como se a igreja o tivesse reconhecido, apezar de mudado como estava, e o abençoasse do alto.

Parou commovido em meio da estrada, e, descobrindo-se, fez o signal da cruz.

Andorinhas cruzavam-se no ar trissando e um balido de ovelha, gemente e saudoso, sahia, de espaço a e spaço, dentre as moitas, por traz de uma cerca de horta. O sol aquecia e o sino continuava a dobrar a espaços.

A casa de Nazario era ali perto. Parecia-lhe já distinguir, por entre as ramas, o telhado -da ferraria, negro, como de ferrugem, sempre ru^ murosamente rodeado de pombos.

Aquella hora estava o velho, de certo, a malhar á b igorna e Damião ao folie da forja fazendo rugir assanhadamente a chamma rubra. E sorria antegozando a estupefacção dos dois quando o vissem.

Occorreu4he, então, fazer como nas historias que ouvira na infância: Entrar acabrunhado, dizendo-se peregrino, pedir agua e comida, um. canto para descançar a cabeça, até que um d'elles, re» conhecendo-0, lhe cahisse nos braços, com alvoroço comniovido.

Passara a amendoeira; mais alguns passos e veria, com o mesmo olhar, a casa paterna e a tenda querida do ferrador amigo.

Encheu-se de animo, açodando os passos. Tanto, porém, que entrou na estrada larga estacou su^ bito, relanceando aturdidamente o olliar em voíta. como duvidoso do que via. Estaria enganado?

Não! Era aquella a estrada do Madruga... E a ferraria? Ali só havia ruínas, muros esburacados, pedras soltas, matto. Mas lá estava, sobre uma ferradura mal pintada, em letras quasi extinctas, o an núncio : «Ferreiro e serralheiro. Perram-se animaes>.y> Esteve algum tempo olhando a velha casa, cuja porta, como se houvesse sido arrombada, mettida dentro, tombara, mantida apenas por um dos gonzos, desconjuntado.

Despegado da parede um dos alisares pendia abrindo vão que as folhas damninhas atufavam.

A soleira, coberta de beldroegas, com tortulhos nas fendas, esfarellava-se, podre. Telhas inclinavam-se sobre a calha desbeiçada e tudo, em volta, denunciava abandono.

E era aquillo a ferraria de outr'ora, o seu refugio nas horas tristes, o lar de consolo e de amizade.

E Nazario? Que seria feito d*eUe? Lembroulhe, então, que o ferrador, em horas de desanimo, queixando-se do pouco que ali fazia, mais de uma vez manifestara-lhe intenção de mudar-se ipara a Barra. Sempre era outra coisa — centro mais activo, mais rico, cercado de fazendas. Talvez tivesse realisado o seu desejo.

Afastou-se com pena, ainda voltando-se, entristecidamente, para olliar as ruinas.

Ao chegar diante da casa paterna a sua sutpreza subiu de ponto. Era outra, toda reformada, com a varanda mais larga, cheia de parasitas, o jardim saibrado, canteiros, alegretes, vasos de plantas e dois cães de porcelana de guarda a principal alameda.

Mas o que mais o deslumbrou foi um pombal, em forma de kiosque, junto á sebe de acalyphas.

Pombos arrulhavam no beiral, outros voavam em volta ou abalavanj, com estalos d'azas, desapparecendo no bambual.

Ia empurrar o portão de ferro, novo, mas deteve-se com receio de algum cão que por ali estivesse ei nvestisse. Bateu e logo se lhe alvoroçou o coração, aguçarain>-se-lhe mais os olhos fitos na varanda á espera de uma das criaturas que viviam, em imagem, na sua enorme saudade: Maria Augusta e Luiza.

Mas foi uma negrinha que appareceu á varanda, olhando-o de longe, buscando reconhecel-o.

Por fim desceu, atravessou lentamente o jardim, até o portão, encarando-o interrogativamente.

— D, Maria Augusta Fogaça...?

MIRACKM a6$

— Quem ? EUe repetiu o nome. E a negrinha, acenando de cabeça, disse:

— Não é aqui, nãoi.

— Como?! A dona da casa...?

A negrinha hesitou, mirando-o ; p or fim, resolutamente :

— Olhe, o senhor espere. Eu vou falar lá dentro. E f oi-se a correr.

No breve tempo que elle ali esteve, ao sol, deu-se uma maravilhosa transfiguração sob o prestigio evocador da saudade — a casa volveu ao que era dantes; no jardim reviçaram as plantas do outro tempo, tornando tudo ao primitivo aspecto e figuras surgiram aqui, ali em attitudes que a memoria fixara. E elle reconheceui-as comh movido — tristes espectros ! — ' o velho pai, em mangas de camisa e tamancos, detorando galhos seccos com o podão, a mãi, lá ao fundo, perto do tamarindeiro, onde havia uma tina com bicame, com o avental concavo de milho, entre as gallinhas que a cercavam ávidas; Luiza debruçada á varanda; e, lá em baixo, perto das pitangueiras, o seu canto favorito, elle próprio, a brincar com o Turco que rebolava na herva. Dias felizes!

Mas a visão saudosa dissipou-se instantânea, a realidade retomou o seu dominio e elle viu á varanda uma senhora gorda, com uma criança que se lhe agarrava á saia.

— Entre ! d isse em tom imperativo. Elle atravessou oj ardim, direito á escada da v^randla, Sfe chapéu na mão. A senhora olhava-o com «©veridade.

— D. Maria Augusta Fogaça...?

— Quem ? ! Maria Fogaça. , . ?

— Sim, senhora. A proprietária...

— A proprietária sou eu! declarou a senhora com soberbo entono. Thadeu encarou-a espantado e, t imidamente, perguntou:

— Mas esta casa não pertence a...?

— Esta casa é minha ! atalhou a senhora. O senhor ^procura, talvez, a mulher que a vendeu, a viuva...?

— Sim, senhora...

— Ah! essa, segundo ouço dizer, vive lá para os lados do Pura-olho. E considerava-o altivamente, examinando-o dos pés á cabeça. Thadeu ainda hesitou. Por fim, tartamudeando desculpas, agradeceu e retirou-se.

Fora, não conteve as lagrimas. Seria possivel que sua mãi tivesse tido coragem de desfazer-se d'aqueilla casa, cheia de tradições, testemunha das venturas e dos sof frimentos da família, único legado do m orto?! Seria possivel...? E pensava caminhando.

Restavam-lhe apenas as saudades — o ninho domestico invadido por estranhos, a ferraria arruinada, nem um amigO' ; t odo o passado extinoto.

E como achar os seus, se nem ao menos o endereço conhecia? Elle, com certeza, conserva va-se no mesmo lugar em gue o haviam deixadt) — o MIRAGEM 2(57 morto. Esse de\na lá estar no cemitério, no seu tumulo, alimentando as rosas e os bog-aris silvestres, esse não se arredara como os outros. Iriri vêl-o.

Em caminho, porém, attentou em certa velha que vinha, estrada fora, com uma trouxa á cabeça. Reconheceu-a promptamente : erá a Eu^ phrasia, que fora cosinheira em casa, no tempo do pai. Ohamou-a. A velha nepfra voltou-se e, vendo-o parado, estacou hesitante.

— Então, Euphrasia?...

A neg"ra aproximou-se e. de repente, aisfadhan- <áo-se, começou a balbuciar monosyllabos, espanta,dà. meio risonha, olhando-o:

— 5 vosmecíê. nhô Thadeu ?

— ' E u mesmo, Euphrasia.

— Vosmece! Pôz-se a rir alvarmente: Ah! níhô Thadeu. Vejam só...! De onde vosmec? rem?

— Do Rio, Euphrasia. E tu, como vafs?

— Como velha. nhô. Vosmed^ vem ^ vez?

— Pôde ser. E de improviso :

— Onde está mamai, Euphrasia?

— Ah! nhô. Sínhá anda ahi... Tá morando no Pura-olho, mais Ludovina.

— Que Ludovina? 'K negra fez um ^^esto rápido e sorriu maliciosamente :

— Uma quie veiu do Desengano.

— ELuiza...?

— Essa anda lá para as bandas da Lagoa. E suspirou tristemente: Ah! nhô... mundo... mundo...!

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Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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