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Capítulo 17 · Miragem

Segunda parte VII

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o quartel agitava-se em fervedouro de colméa em cresta. Sentia-se como um presagio sinistro, a a meaça de perigo mysterioso, alguma coisa qne vinha sorrateiramente, insinuando-se, que talvez já a li estivesse, invisivel, trahindo. Que seria? Nova mobilisação, sem duvida. Os sargentos, interrogados, encolhiam os hombros, o pro^ prio cadete Fernandes, sempre informado, dentro de todos os segredos -do Estado Maior^ respondia com evasivas. Os soldados qtie chegavam da cidade eram logo assediados de perguntas: «Que havia? Se se dizia alguma coisa?» «Nada. As ballelas de sempre. Historias...»

Citavam-se nomes de generaes, referiam-se soenas de rebeldia no Club Militar, garantia-se que havia ordem de prisão contra Benjamin Constant, I>eodQro e outros. Mas os incrédulos sorriam ironicamente.

Uma noite, porém, circulou rápido o boato d.e promptidão, logo confirmado em ordem transmittida pelos sargentos e todo o quartel alvoroçou-se em urgência de aprestos, como se o mysterioso inimigo que o rondava se houvesse, emfim, decidido a iniciar o ataque.

Que seria? Era um corre-corre aforçurado, gente a entrar, a sahir da Arrecadação arrastando cunhetes, carregando armas. Sussurrava-se á cautela, como no receio de que uma palavra pudesse comprometter a segurança da praça. Os officiaes armados confabulavam no commando, entravam, sahiam preoccupados. Que seria?

Thadeu encontrou Fabrício e o maranhense foi-lhe logo diz:endo, sarapantado :

— Então? Eu não dizia? Está ahi...!

— Mas que é?

— Ora que é... é o estouro!

— Você está sonhando. Isto é mas é embarque.

— Embarque ? Não está mau o embarque com armas embaladas e cartuxame pesando na patrona. Pôde ser embarque, pôde ser, mas de outros; nosso é que não é. Mas um negro chamou-o e ò maranhense alcançou-o e foram-se os dois conA^ersando.

Foi o Sabóia que descobriu o segredo. Era a 206 MIRACDM coisa! E, com muito entono, arrotando importância, poz-se a pontificar sobre a Republrca, governo do povo pelo povo, regimen da Liberdade, como na França.

Os soldados ouviam-no calados, sem interesse. Tinham-no por um «contador de rodelas» e entreolhavam-se sorrindo ou rompiam á galhofa pedindo-lhe promoções quando elle fosse o Presidente da R epublica.

Adiante um mulato parabvbano, com fama de cangaceiro, encostado derreadamente á parede, de perna traçada, picava fumo, falando em voz descançada, num grupo:

— Eu não gosto di mi mettê in rascada. Não gosto, não; e colleava franzindo o carão tanado.

Não sou home d'intrá nessas cosa môdi fazê figuração. Ou é sério ou não é. S'é sério, muito bem. a genti briga di verdade, sinão, não! Brinquedo não é cummigo. Brinquedo di home ohêra a difunto. Cummigu é ansim, e sorriu cruelmente descobrindo a s errilha dos dentes brancos e agudos como de peixe. Ses sabi, eu fujo de briga, não tenho sangui bom. Eu mi cunheçu. Candu a cabeça mi ferve vejo tudo vermeio i antonce não resipiondo por mim. P'ra que? Bolelhoii o fumo na palma da mão e enrolou o cigarro.

Era madrugada escura quando a corneta alarmou o silencio.

Foi uma balbúrdia nas companhias — vozes, correrias, estridor d'armas. Na meia luz dos cor^ redores era um atropello de estremunhados, uns resmungando aborrecidos, outros rindo e eram trancos, abalroadas; uos vestindo, ás pressas, a farda, cingindo o cinturão, outros lerdos, espreguiçando-se em vagar amollecido e indifferente.

Mas em breve estava todo o batalhão em forma.

De repente um tiro atroou.

Houve agitação de pânico nas fileiras, logo, porém, serenada com o que correu de homem a homem: — «É o tiro das quatro».

Mas a attitude reservada dos officiaes, o ar carrancudo do commandante davam que pensar e cochicha va-se na forma: «Que iam aquartelar no Arsenal de Marinha. Outros, porém, affirmavam que tinham ordem de seguir para o Realengo.

Na escuridão do pateo ondulava, com surdo vozeio e trepidações metallicas, a longa fila de homens. O a ço das amias piscava pontilhando a treva ;p or vezes uma voz mais alta vibrava.

Era Novembro, clareava cedo e já se quebravam as primeiras barras quando os officiaes tomaram posição. A corneta de commando deu o signal de «Sentido!»

A musica destacou-se formando á frente e o ! ;:tarhão, escalado em pelotões, estava attentO' ao . .riimandante, muito firme na sella.

A cainçada do quartel, a principio escabriada, icttendo-se pelos cantos como em espectativa, r;;i:.:.:tu, de repente, em embolada correria, ladrando como em luta, rebolando nas atropelladas voltas em que se ensarilhava. Mas a corneta soou, e o batalhão poz-se em marcha, ás surdas, desfilando na sombra como nma chusma de galés. Lentamente, colleando nas voltas da ladeira, chegou á Guarda Velha recompondo-se em formatura.

A^ cidade dormia tranquilla. Aqui, ali uma luz vasquejava somnolenta. Carroças rodavam com estrondo, passavam quitandeiros com cestos acogulados de legumes; vaccas de leite tilintavam chocalhos; bondes, ainda accesos, desciam com operários e o ar fresco tresandava a azedume.

O ceu branqueava listando-se de galões dourados. E o batalhão seguia em silencio: subiu a rua da Carioca, atravessou o Rocio, entrou na rua Visconde do Rio Branco até o Campo.

O parque, com as arvores lustrosas, enfeitavase de sol, uma luz de festa, leve, de brilho novo.

Os operários passavam indi ff c rentes, sem dar attenção áquella força que seguia para destino ignorado. Os soldados interrogavam-se na fila, alguns, vendo populares ás esquinas, acenavam-lhes de cabeça como a pedir explicação daquillo.

De repente tronou uma pancada de bombo, e a musica estrugiu cheia e alegre como em um hymno á alvorada radiante. O ceu abria-se todo em azul e as montanhas pareciam pulverisadas de ouro, em apotheose. Silvo de locomotiva cortou o ar — era o expresso que partia.

Mas um som estridulo de clarim vibrou percuciente. Seria o 2." de artilharia?! Era, então, verdade... E Fabrício, que tiritava encolhido, apru^ mou vivamente a cabeça, exultante, exclamando para Thadeu:

— Eh, ra')az... P. a coisa! Vê você, hein...

Isso de medo é historia... Eu, antes de sahir do quartel, no meio d'aquella barafunda, estava que você não imagina: o coração dava cada esbarro que parecia querer-me arrombar o peito, e eu bambeava frouxo das pernas e c'um frio de bater os dentes. Pois agora, palavra! estou pedindo que isso pegue mesmo direito. Medo é historia! A gente tem medo antes da coisa começar, mas na hora da fu béca não ha nada. Na guerra ainda deve ser melhor, com as bandeiras voando, os tiros, a musica... A musica, então! Eu, ouvindo musica, é um horror 1 E você, Thadeu ?

— Eu sei lá !

— Que diabo, rapaz... Você parece que não tem sangue, sempre jururu. Assim também não.

Diabo de homem casmurro !

Em verdade, desde a formatura no pateo db quartel Thadeu mantinha embezerrado silencio, como de zanga, alheio a tudo, executando as manobras automaticamente. É que se recordava da partida de Corumbá, rememorando episódios da sida que levara, de tanta meiguice, no rancho de beira rio, cheio da sua saudade.

Em marcha, atravez da cidade ainda em íomno, parecia-lhc estar caminhando em outra terra, longe, e, por vezes, nas mulheres que via, 2 IO MIRAGEM descobria traços de Maria Barbara, ouvia-lhe a voz dolente chamando-o de dentro d'alma e, stibito, como se se abrisse no espaço larga janella de apparição, 7/iíi-a a ella própria, viva e linda, no desalinho do sahir da cama, com os cabellos desmanchados, esvoaçando-llie na fronte, o corpinho aberto sobre o coUo nijoreno e cheio. E estava nesse enlevo quando delle o tirou o maranhense com a sua g-arrulice. Refugou enfesado:

— Ah! você fala tanto, Fabrício. Nem na forma... Que coisa!

— E você? Você nem parece gente... Isso o que é é medo . . .

— Medo ! M edo de que ? E u faço tudo calado.

— É, como carneiro, . . E u sei...

Quando defrontaram o Quartel General o commandante, lançando o cavallo a galope, passou á f rente seguido do Estado Maior. Cornetas soaram e, diante da guarda formada,, o batalhão penetrou na praça, fechando-se sobre elle o pesado portão.

Outros corpos formavam no pateo destacandose, pelo brilho' dos capacetes e pela alvura do uniforme de l inho, os destemidos bombeiros, em cujas cintas largas scintillavam ferros.

Ofíiciaes montados passavam, repassavam á frente das fileiras firmes, outros continham a custo o ardor dos ginetes que, cabeando, ás upas e arrifadas, investiam, de instante a instante, em sôfregos arranques. Aqui, ali soava uma voz de commando e as filas ondulavam com brilho d'armas.

Toques vibravam fora e os soldados, reconhecendo-os, anniinciavam. por elles, os reg^imentos.

Havia, entanto, desconfiança. Aqnellas forças encerradas no nuarte! em espcctativa fria^encaravam-se como \r\)rn'^n-^<i_ ^9 attitudes não sie definiam, a r eserva de umas, a arrogância de outras deixavam, duvidas alarmantes.

E se alcfum dos corpos se recusasse a adherir, tomando o partido do imperador? Que haveria ali dentro? K aquelles toques lá fora, o bofborínlio crescente e aqnillo de fecharem O' portão, tudo fazia p^ensar em ri'ada. Um soldado estranhou:

— Homem, parece que elles nos prenderam aqui dentro. Ha de ser engraçado.

— Prender porque?

— Sei lá! Pois você não está vendo o portão fechado e esse furundum lá fora? Isso é coisa! Ás janellas do enorm.e edifício appareciam officiaes e paisanos, conversando pgitadamente. Piquetes cruzavam-se na varanda, installando sentinellas em vários pontos. Súbito, em atroar tonitruoso, grande clamor abalou o silencio apprehensivo. As forcas como que e.stremeceram em arripio, brilhos faiscaram em electrisado movimento d'armas.

Clangoraram cornetas e clarins e novos brados retumbaram. Ouanido serenou o estridor ovante ficou ^pairando ern sons claros na alegria da luz. o querido dobrado «Matto-Grosso», hymno de saudade a lembrar o exílio, as amarg-uras nostalg-icas, excitando os ânimos á represália.

Nesse instante abriram-se, de par em par, os portões do Quartel. Seria a rendição? Os soldados ag'itavam-se na forma com anciosa ciiriosida!- de, esperando uma ordem, que não vinha, da serenidade do c ommandante, immovel, impassivel, estatelado na sella.

De repente, com estropeada sonora, um bando de cavalleiros entrou de roldão no Quartel. As cornetas soaram em continência, rompendo, em todos os corpos, a marcha batida.

Surgindo em plena luz a airosa cavalgada logo correu, em frémito de enthusiasmo, o nome de Deodoro. Um cafuso exclamou trefego:

— Uai! É elle mesmo... Pois não diziam que elle estava tão doente, de cama!? Caboclo duro!

Olha só como vem bonito ! I sso é que é um cabra !

Com elle é qu'eu quero vêr.

Era o velho gemi ai o companheiro de exilij.

Era elle que assomava altivo, garboso entre osofficiaes do seu Estado Maior, montando o ginete negro e luzidio, que todo se enfeitava como orgulhoso do c avalleiro que trazia.

Vendo-o, os soldados sentiram-se como que electrisados e sorriam-lhe, balbnciavam-lhe o nome ATneradamente ; a lguns descobriram-se, adiantaram.-se da fileira como se quizessem ir ao encontro do camarada heróico, que se arrancava do leito, dominando o .soffrimento, para collocar-se ao MIRAGEM ' 213 lado dos seus irmãos d'armas, correr com elles o perigo da grande hora, cahir olt com elles triumphar na camipanha em que se empenhara pela Pátria.

Todos os olhos estavam fitos no perfil aquilino do soldado enérgico. No rosto magro e pallido, emmaranhado em barba hispida, selvagem, os olhos flammejavam. Sentia-seJhe o arfar cançado do peito. Por vezes esponjava a fronte com o lenço, impunha a mão á ilharga, premindo-a. Aproximava-se.

Súbito deteve-se, refreando o cavallo que pinoteava ardego, batendo as narinas sôfregas. Os offíciaes cercaram-no. Coruscaram límpidas espadas e o ginete negrO' poz-se, de arremesso, a pino, sem que o cavalleiro, ao menos, oscillasse e lançou-se a galope ao meio do pateo, seguido do grupo irradiante dos offíciaes que, com as espadas niias, como que formavam uma aureola ao chefe.

Estacando d'esbarro Deodoro arrancou da espada, brandiu-a alto, como um raio e, firmando-se nos estribos, erg;ueu-se imponente, em attitude monumental.

As ba3"onetas lampejaram em prancha nítida, longa e larga. Desfraldaram-se em cores álacres as bandeiras, levantando^se sobre as armas. Soou a cometa de commando, outras responderam em ccho e todas as forças mover? m-se formando por pelotões. E&trondaram musicas, os corpos dispuzeram-se em ordem de marcha e rompeu em clangores o dobrado do exílio, enchendo o pateo, rolando, repercutindo no ar, em echos, como se, no espaço, igualmente desfilassem forças invisiveis, alliadas ás que na terra sahiam pela Liberdade.

Atravessaram o pateo. Fora o espectáculo era impressionante. Toda a área fronteira ao Quartel estava occupada militarmente : á frente, uma bateria d€ a rtilharia e, tomando os extremos, a cavallaria e a mocidade da Escola Militar, e o povo eonfraternisando com o exercito libertador.

Mal o general appareceu toda a multidão agitou-se em frenesi de enthusiasmo, affluindo, de avanço impetuoso, ao seu encontro, envolvendo-o, a acenar com os chapéus, bradando delirantemente, em exaltação de loucura. As forças que sahiam detiveram-se contidas pelo tumulto e os cavallos dos officiaes empinavam-se abrindo passagem ás investidas e aos recuanços.

Uma das bandas atacou o Hymno Nacional.

O vozeio cresceu tempestuoso e das janellas do Quartel, apinhadas de gente, romperam exclamações entbusiasticas. Lenços palpitavam no ar.

Thadeu estava deslumbrado e commovido: sorria com os olhos boiando em lagrimas. Sem comprehender a significação d'aquelle espotaculo empolgante sentia, entretanto, que alguma coisa se desprendia da Pátria, desarreigava-se-lhe da terra, fugia-Uie do ceu, levada naquelle mesmo turf«^ MIRAGEM 215 bilhão que o arrastava, como as cheias dos rios esbarrondam barrancas, desenraízam e carream de bui)iiia troncos centenários.

Os lábios batiam-lhe em crispações nervosas, abriam-se-lhe muito os olhos, a pelle coriscavallie em arripios.

Fabrício, notando-lhe o desassocego, percebendo-lhe o enthusiasmo, tomou-lhe a frente dizendo-lhe em rosto:

— Então, rapaz ! B onito, hein ? ! I sto é que é ! está tudo acabado! Agora sim. Vai^se embora o velho.

Para o maranhense tudo aquillo reduzia-se a uma vingança contra o imperador. Elle não via mais que o ancião como allvo de todas aquellas armas. Tliadeu fez um gesto de resignação piedosa e l amentou: «Coitado!» Mas o maranhense, febricitante, tirou o boné e, levantando a carabina, acompanhou o povo nas acclamaçÕes á Republica.

Que llie importava o mais ? Ia no torvelinho, entrara no arrastão do caudal como folha em torrente, eb radava.

Artilheiros, trepados nas carretas, vozeiravam desvairadamente acenando com a barretina. E naquella variedade de uniformes, por entre bandeiras desfraldadas, bayonetas rutilas, brilho de instrumentos, na poeirada fina que ondulava em bruma de ouro, ao sol, o povaréu premia-se, ondulava em alacridade airada de libertação. Os alumnos da Escola Militar, em desalinho de jor- 2l6 MIRAGEM nada, com as blusas manchadas de suor, eram os mais ardorosos nas vozes revolucionarias. Cavalleiros corriam á rédea solta e as cornetas soavam.

Populares rodeavam os canhões, afagavam-nos, falavam-lhes, como a animaes amigos.

Bandos de garotos cabriolavam, ás gingas, brincando de capoeiragem. De quando em quando, aqui, ali uma voz estrugia e logo retroava o alarido.

Paisanos, a cavallo, im.miscuiam-se no Estado Maior de Deodoro. Uma fiía de bondes estaciona!- va diante do Quartel General, contida pela multidão. Passageiros, de pé, olhavam curioso«s; alguns desciam, outros protestavam intimando os cocheiros a voltarem. Augmentava, a mais e mais, a turba-multa e o gradil do Parque estava emmaranhado de curiosos que marinhavam por elle, equilibrando-se difficilmente. Havia gente nas arvores.

Súbito clarins retmiram em sons estriduios. Os artilheiros correram ás peças. Houve uma debandada espavorida. O povo refluiu esparrimando-se atropelladamente em todas as direcções, aos gritos : ((Vão atirar ! Vão derrubar o Quartel !» No terreno ficaram apenas as forças, os paisanos que acompanhavam Deodoro e um ou outro popular mais ousado.

Um tiro secco estale jo u num capulho de fumo.

Houve um alarido de pânico. Outroribombo, outro. E o s que se achavam ás janellas do Quartel correspondiam com acenos de enthusiamso áquelle bombardeio.

Eram salvas triíimphaes, vozes das armas saudando a v ictoria pacifica, a redempção da Pátria e vinte e um tiros reboaram gloriosamente na manhan radiosa.

— Mas afinal... porque é isto? perguntou Thadeu ao sargento Saboya, que não cessava de falar, ora a um, ora a outro, explicando o regimen republicano, o governo do povo pelo povo.

— Porque ? Hom'essa ! E ntão você acha pouco o que temos soffrido d'essa canalha? E MattoGrosso ? E Santa Cruz e Lage, por dá cá aquella palha? Acha pouco? E soldados morrendo por ahi debaixo de vara, apodrecendo nas solitárias ... ?

Pois agora, men amigo, se Deodoro não tomava a coisa a peito, nós iamos mas era para o Amazonas, para o inferno d'aquelles rios, morrer de febres. Agora vamos vêr quem mandíi! Venham para cá com os palavriados.

— ^ E o imperador, sargento ?

— Que tem o imperador ?

— Matam-no, com certeza.

— Que matar, que nada. Você parece besta.

Matar, para que? Ninguém aqui é Adriano do Valle. Manda-se o homem p'ra fora, p'ra Fernando, e e stá acabado. Napoleão — e era Napoleão! — não foi para Santa Helena? Não diz que é sábio, que gosta de lêr? Pois que se arranje com os livros. De poetas estamos fartos. Matar... 2l8 MIRAGEM Aqui não ha assassinos. E sabe você, em França, quando derrubaram a Bastilha, não ficou nada: foi rei, foi rainha, foi tudo. E é como devia ser.

Esse, emfim, não digo, nem Deodoro e homem para mandar matar, mas devia ser. On é republica ou não é.

Um «Viva a Republica!» rouquejou na fileira.

Voltaramt-se : era o cadete Fernandes, vermelho, suado, tarantulando como epiléptico.

— ' O lhe o cadete, disse o sargento. Tem chorado que parece doido. Esse sim ! Se elle tivesse o poder na mão garanto a vocês que o velho estava na unha, o velho e todo o seu rancho de S.

Christovão. Isso é mau que é damnado ! Deodoro, não. Carranca fechada, mas lá por dentro é coração só.

Ainda se não havia dissipado de todo no ar o fumo dos canhões e já o povo, tranquillisado, regressava ao campo bradando mais fogosamente em Ímpetos heróicos.

Vozes coléricas proipimham represálias e depredações, exigiam martyres. Um negro, em mangas de camisa, berrou, com furor de energtimeno: «Abaixo o ministério! Morra a Princesa!» «Morra!» respo^nderam. Um rapazola poz-se a arengar esmurrando o espaço e destacaram-se valentes concitando o p oA-o: «Vamos á Camará! A Camará!»

Mas uma das bandas atacou triumphalmente o Hymno Nacional e foi como a benção de Christo sobre as aguas tempestuosas. Houve um momiraCEm 219 mento de êxtase religioso. Homens choravam, aljraçavam-se. De repente uma espada fuzilou no ar e Deodoro lançou o ginete a galope seguido dos officiaes e um brado immenso atroou longamente a p raça, rolando, desdobrado em echos, pelo espaço azul até as montanhas e de lá partindo em aimuncio de victoria para o paiz inteiro : aViva o Brasil!» E, quando abonançou o tumulto, ainda pairavam os últimos sons do hymno abafados pelo rufo dos tambores e pelo estridor dos clarins e cornetas dos regimentos e batalhões em marcha.

A desfilada foi uma apotheose. A cidade encheu-se como por encanto. Fabrício, vendo as ruas apinhadas, as janellas atupidas, observou ao companheiro:

— Olha, Thadeu. Não parece que essa gente sabia de tudo? Qual! povo adivinha mesmo! Lembrando-se, então, do que ouvira no campo, exclamou:

— E o ministro, hein? Diz que brigou como homem. Góst© d'um cabra assim...

Quando chegaram ao largo de S. Francisco era tal a multidão na rua do Ouvidor que as tropas fizeram alto e foi necessário que uma vanguarda de o fficiaes abrisse caminho para a entrada do g eneral e do seu Estado Maior, ao qual se haviam incorporado os paisanos, com Quintino Bocayuva á frente.

Bandeiras tremulavam ás sacadas formando ondulante abobada de cones e quando Deodoro appareceu trove ja ram palmas, gritos acclamaram-no e uma chuva de flores envolveu-o. E elle, firme na sella, sereno, acenava com a espada ás senhoras, sof freando o ginete que ladeava, aos pulos, sacudindo a cabeça nervosa, como a querer escapar da multidão que o opprimia e abafava. O delirio crescia. Populares atiravami-se aos soldados numa fúria de saque arrancando-lhes botões da farda, divisas; outros pediam, imploravam flammulas das lanças, e o alferes do io.° teve de defender ab andeira contra um grupo de patriotas que a queria retalhar para possuir relíquias do grande dia. As carretas passavam cheias de gente que vociferava. E a vozeria impunha-se ao clangor das bandas.

De repente correu pela tropa a noticia de que a Marinha, fiel ao throno, estava preparada para reagir. E os boatos terrificos que corriam no meio do povo, affirmavam que toda a esquadra, de fogos accesos, estava formada em linha de batalha e sustentada pelas fortalezas; que o5 navaes estavam promptos. Que ia haver sangue.

O cadete Fernandes, encarquilhando o rosto arrugado em rictus, disse, por entre dentes, rilhando :

— Canalhas! Nem que seja eu só...

Mas o Saboya chirriou um risinho de mofa:

— Ora, seu cadete... vosmecê também acredita em tudo. O senhor não vê logo ! ? Pois então os MIRAGEM 22 1 marinheiros vão lá fazer fogo contra nós... O senhor não vê logo...

— E que façam i r ugiu o cadete. Que façam !

Eu morro, mas depois de ter comido uns tantos.

Ah! cahir só, não caio.

Um homem ruivo, cabelleira em crista, debruçou-se á sacada de um hotel batendo as palmas.

Houve psios ! Vozes intimaram : «Pára ! Pára !»

Mas as musicas estrondavam, os clamores recrudeciam em fragor de tormenta. A multidão compacta rolava em bloco, era impossível susta-la. E o homem lá ficou, esbofando-se esbaforidamente, em vão, a bracejar arremangado, com os cabellos louros esvoaçando, brilhando ao sol como linguas de fogo.

Na rua Direita, desafogando-se, a multidão espraiou-se affluindo á frente como para garantir Deodoro. Mas já começava a descer gente, bandos precipitados; e eram empurrões, arremessos, rusgas, palavrões de insulto. Senhoras cosiam-se com as paredes, refugiavam-se em corredores, pediam abrigo nas casas commeiciaes. Rapazolas passavam espalhando que os marinheiros estavam com a artilharia prompta. Affirmavam ter visto alguns armados de mítchadinhas. Fechavam-se poitas, desciam, com estrondo, as cortinas de aço.

Muitos dos que se haviam precipitado para a frente iam-se deixando ficar e, á primeira aberta, investiam varando a turba aos encontrões, ás cotovelladas, até ganharem um dos passeios. Era o terror que os ia debandando, era o medo manif estando-se em deserções sorrateiras. Alguns não disfarçavam a fuga: uNada! Seg-uro morreu de vieilho! Assim como assim, que vou lá fazer? Se eu aiinda estivesse armado...» e esgueiravam-se.

O negro que, no Campo, propuzera deitarem abaixo o ministério e bradara «Morte á princesa!» giro-girava como em remoinho, sempre furibundo, sanguinário, a escumar iras libertarias, mas foi-se escapando até achar passagem para uma das ruas. E a tropa, mais desaffrontada, rcorganisava-se em pelotões e soldados corriam com estralejar das patronas cheias.

Já as avançadas chegavam ao Arsenal de Marinha. Uma força de cavallaria avançou a galope pela ladeira de S. Bento, com as lanças altas ou com os clavina*s a prumo, quando o portão da praça, até então ameaçadoramente fechado, abriuse lento e sahiram parlamentares. Era a adhesão da Marinha. «Viva a Republica!» bradou um almirante agitando o boné e então, em unisono, po\'0 e soldados, no mesmo assomo, fizeram coro com o official e um frémito correu desde o^ Arsenal até as ultimas filas de soldados, ainda retidos na rua dò Ouvidor.

Soaram, a um tempo, toda as bandas no alvoroço frenético da multidão. Fabrício saltava descabellado, com a farda aberta; -o sargento ia de um a outro, confirmando o que havia dito: «Então! Pois a Marinha havia de atirar contra nós...

Está ahi... E vocês com historias...» O cadete, aphonico, esguelava-se em hiatos, atirando murros ao vácuo, aos pulos.

As fileiras desmantelavam-se. Officiaes é inferiores relaxavam o commando, uns por curiosidade de vêr o que sepassava no Arsenal entre as altas patentes do exercito e da marinha, outros para refrescarem a guela ou comprarem frutas no cães. E as praças, em liberdade, debandavam, umas sentando-se nas portas das casas, outras, mais resolutas, abandonando a forma e seguindo vagarosamente, com a carabina baixa, á procura de botequim ou frege onde comessem algumíi coisa.

Um m.olecóte, doceiro. que fazia o seu commercio naquella barafunda, estacou de repente em compadecido espanto diante de Thadeu que arquejava, com a cabeça no 'braço apoiado á parede, firmando-se á carabina. De quando em quando, em frouxos arrevessos. sahiam-lhe da boca golfadas de sangue.

O doceiro clirigiu-se a um soldado e disse-lhe o.íurdido :

— Olhe aquclle ali. Está botando sangue pela boca... • O avisado lançou um olhar indifferente ao camarada e bradou ao outro :

— Fabrício! Olha o teu amigo. Thadeu. Parece que entornou de mais. Isso em jejum... Olha lá...

Fabrício acudiu, mas verificando o que se passava, exclamou com pena:

— Que é isso, rapaz!? Pois você... Uma pasta de sangue vermelhejava na calçada e o misero ansiava, tonto. Á voz do amig-o levantou a cabeça — estava livido, com os cabellos collados em suor á testa, os olhos lacrimossos. O maranhense interrogou-o :

— Que foi ? Elle fez um g-esto vago. Limpou lentamente os lábios e disse em voz lenta e débil :

— Cançaço. Estou que não posso... É um fogo no' peito que não sei. Acho que não resisto.

E é melhor mesmo. Sentou-se encolhido, encostado áp arede, com a carabina entre os joelhos.

— Descança um bocado, disse-lhe Fabrício.

Lembrou-lhe, porém, falar ao sargento e foi resolutamente. Achou-o perorando num grupo.

— Sargento, o 235 está pondo sangue pela boca. Não ha ambulância, não ha nada. Elle a pé não aguenta. Está ali que não pode. Se a gente arranjasse, ao menos, um lugar onde elle descançasse um pouco.

O sargento encarou de má sombra o maranhense e,d epois de o mirar, com aborrecimento, disse, cruzando os braços :

— E agora!? Quem sabe se eu o hei de levar ás costas ? ! P ois se não aguenta, melhor para elle.

Fabrício conteve um Ímpeto de revolta e, bamibaleando o corpo, com um sorriso que reflectia cólera e d esprezo, respondeu:

— Não ha duvida. Eu levo elle. E foi-se para innto do companheiro, que se mantinha na mesma posição de angustia, tendo em volta, a contemplal-o um circulo de curiosos.

Soaram cornetas. Acudiram soldados de vários pontos, reorganisando-se os pelotões. E o cadete Fernandes, com o boné amarfanhado quasi a tapar-lhe os olhos, a farda desabotoada, entrou em forma dizendo em voz soturna:

— Muito bem. Vamos ag'ora vêr o resto.

No x\rsenal estrugiam as vibrações do Hymno e o povo, çm delirio, acclamando a Marinha, arremessou-se em massa para o portão aberto.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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