Universo da obra
Universo da obra
Correram dois longos mezes sobre esse dia de lastima e de arrependimento sem noticia alguma de Thadeu. A casa, conservava-se fechada como em luto e Luiza, quando vinha á janella, tímida, vexada, espiando por entre as frestas, escondiase, mal avistava algum rostO' conhecido, para fugir ás perguntas sobre o irmão. Nazario visitava-as de quando em quando. Á noite, mal deixava o serviço, ia até lá paxá saber se havia alguma novidade. Maria Augusta recebia-o desolada; chorava contando que tivera maus sonhos.
— Quem sabe se não se matou ! soluçava.
Nazario re volta va-se:
— Que se deixasse de asneiras. Era lá coisa que se pensasse ? ! Matar-se, porque ? Estava cui- 4 dando da vida. Mais dia, menos dia, teriam cartas.
E desenvoh^^ia todo um romance de conjecturas, mostrando Thadeu em azáfama pelas ruas do Rio, atráz da fortuna, perseguindo-a ambiciosamente com a mesma teimosia com que se lançara á t erra ingrata que tão mal lhe pagara o esforço. E, para consolo, concluia — que dentro em poucos annos haviam de vêl-o apparecer carregado de o uro. Os homens faziam-se assim. E exclamava:
— E esses pirralhos que andam por ahi mourejando dia e noite? Esses pobresinhos sem mãi, que deixam a pátria quando começam a viver, não se fazem homens, nãO' enriquecem? Olha, eu, aos sete annos, já andava pelos montes pastoreando. NãO' houve brinquedos para mim, não! que isso por lá é só para os morgados. Para correr tive os pinheiraes e as encostas de urzes e como amigos os carneiros e as ovelhas. Aos doze annos vim por esses mares sósinho, com Deus, que nunca me desampara e aqui cheguei, aqui tenho vivido até hoje sem nunca mais ter visto os campos da minha infância, sem saber se os meus são vivos ou mortos, coitados! É como te digo. E era uma creaturinha que nem lêr sabia.
Arranjei-me ainda lassim e aqui estou, quanto mais elle que é homem feito. Ha de ir para diante; deixa-te de agouros. Não escreve, faz mal, isso faz; mas quem sabe lá os afazeres que tem?
Olha, fica certa de que se tivesse morrido já teríamos sabido. As más noticias têm sempre portador. Descança.
Uma manhan, porém, justamente na occasiao em que Alaria Augusta entreabria a janella que deitava para a varanda, Nazario assomou á porta, agitado. Entrou no jardim a grandes passos, sacudindO' os braços, frenético, a cabeça baixa, resmungando.
— Que é isto! A estas horas por aqui!? exclamou Maria Augusta.
— Estavas ahi?,.. E ainda de longe, mostrando-lhe uma carta, disse : E screveu-me !
— Escreveu!? Ora, graças a Deus!
E escancarou a porta, apparecendo no limiar ansiosa, insoffrida.
— Onde está elle? Onde? -Onde ha de estar... No Rio.
Pela expressão do rosto de Nazario, Maria Augusta adivinhou o desespero que lhe ia nalma, e exclamou avançando:
— Está doente, aposto !
— Qual doente ! É um doido.
E, subindo os três degraus da varanda, de pé, diante de Maria Augusta que o encarava, disse, quasi sem animo:
— Assentou praça.
— Como ?
— Está na tropa.
— Thadeu ? ! icféf^ miragi;m -^— É O que está aqui.
Calaram-se, succumbidos. Maria Augusta cruza.ra as mãos e, immovel, extática, fitava o rosto' de Nazario demudado e triste. '^— Mas... assim doente! Que vai elle lazer? "O^férràdof encolheu os hombros. Luiza, que appafecéra á porta, vendo a attitude de ambos, indagou pressurosa:
— Que é, mamai ? Que é ?
— Thadeu...
— Que tem ?
— 'Assentou praça. Logo, porém, voltando-se para Nazario, interrogou: Mas por que? não disse ? '' — Misériáir.' É o que elle diz. Fome.
— Fome. . , ?
— É o que está aqui. E passou a carta a Luiza.
M^r ia Augusta, em verdadeira agonia-, suffo'- canQo lagi^más, apertava a cabeça nas mãos :
— Mas, meu Deus! Que ha de ser delle?!
Nazario, calado, não levantava os olhos <lo chão. •— Ouè' s'é' fi^á de fazer, meu Deus! Ah! seu NazánV. .. Ò ue sé ha de fazer?
— Que se ha de fazer? Sei lá! Mas queres ou —nã o S iqmu.e tua filha leia? ^-'^•'•I ''"'''•
— Pois então ouve.
E Luiza, desdobrando a carta, olhava ora um, MIRAGEM lOI ora outro, como se duvidasse do que diziam. Por fim,- começou vagarosamente a leitura: «Nàzario Quando sahi dahi, de noite, tive vontade de bater na tua porta pa;ra te dizer adeus, mas tive medo dè-frà^Gfuear e não queria mais voltar para casa paf a "^que^ Triamãi riao tivesse mais amofinações cõriírnigó. ' P assei sem parar e sabe Deus como! De longe, voltei a cabeça muitas vezes para olhar...
Sentia iim aperto no coração como se f ô sse ^ ■ morrer.' Ninguém me viu, i>oíque ainda estava !■[•■ escuro: Fiz a pé todo o caminho ate a estação^"'^''' sem encontrar viv'alma. Tenho muitas saudades de todos e de tudo e peço que tomes conta do jfííríro/ coitado ! porque Luiza, com medo que; ^ elle damnasse, nem aò 'hieríòs deixava ©• ptíbré- • ? sinhoi^doFmir nó "^jaífdim, c(uàiido éW^stává àhi, quanto mais agora!
No Rio tenho sóffridò muito, até fóitie; ^^^ velho, porque aqui não é como ria roçá^*^'' Procurei trabalho, fiz tudo para me arranjar, mas só achei hig-âr^níim jornal, como vendedor. Desde a tarde até ás 2 da manhan ficava, mais um italiai/o vêffiíó;' vetiderídò as "folhas no ponto dós bondes, tilas urna rioifè, com uma carga d'aguà,'^"'i apanhei tão forte resfriado que cahi com febre?,''''' muítb nikl." Um iiióçò do jornal, chiatriadó Azá^^*^^ I02 MIRAGEM rias, arranjou para eu entrar na Misericórdia.
Foi a minha salvação. Quasi morri com a tosse e a dôr no peito. Escarrei sangue e duas noites não soube que foi pregar olho com ânsias. Tenho sonhado muito com vocês e com o sitio. Com certeza é só matto.
Quando fiquei bom estive quasi a voltar para Vassouras. Mas não tinha cara de appareoer àhi.
Mamai podia-me dizer qualquer coisa. Assentei praça. Tenho casa e comida. Não sou o primeiro, ha muitos outros que vivem como soldados e sãO' 'homens como eu. Hei de viver também.
Estou no 7.° de infantaria e por ora não tenho que dizer. É uma carreira e o que tem de ser tem muita força. Não te esqueças do Turco, coitado !
Quando estiveres com mamai conta o que fiz e pede que me abençoe. Hei dè escrever a élla quando puder mandar alguma coisa.
Escreve para O' quartel do 7.°, 4.* companhia.
Dá lembranças ao Damião e abraça Luiza.
Teu amigo do coração Thadeu.y> Toda carta reçumava nostálgica tristeza: A partida, á hora escura da manhan nascente, tímida, medrosa, evitando cautelosamente os corações com receio de ser por elles vencido; as queixas brandas de misérias. Toda essa agonia na casa de caridade, entre desconhecidos, tão rapidamente narrada, deixava presentir a angustia no leito dos pobres, vendo a morte, ouvindo gemer o p adecimento dos sem mãi, dos sem lar na sala taciturna, e triste por onde deslisam as irmans vigilantes, com o crucifixo para acudir aos moribundos, sem faktr, sem outro rumor senão o do bater das contas do rosário que trazem á cinta. A preoccupação sentimental com o velho cão e a saudade sincera e meiga dos que haviam ficado na terra natal, tão apaixonadamente amada. Tudo quanto a sua rústica expressão dizia infundia-se nas^almas dos ouvintes, como dolorida queixa vinda de muito longe. Nazario trincava os lábios. Maria Augusta, de olhos baixos, chorava.
Quando Luiza terminou a leitura, procurou o rosto de ambos e viu-os immoveis, como duas estatuas que violenta rajada de desgraça fizesse, de quando em quando, estremecer: soluçavam.
Calou-se, dobrou a carta e entregou-a a Nazario.
Nos seus olhos, negros e luminosos, não havia marejamentos d'aguai. a sua physionomia não accusava emoção alguma. Estava impassível.
Por fim Nazario, limpando os olhos, disse com voz cheia onde ainda se podia sentir a vibração dos soluços :
— É um maluco ! e encostou-se á balaustrada olhando para o longínquo.
I04 MIRAGEM
— Agora não se pôde fazer nada ! suspirou Maria Augusta.
— Que se ha de fazer ?
Calaram-se. Na estrada uma tropa desfilava e a cantilena sentida dos tropeiros, desferida em lasguida toada, ficava longo tempo no ar, plangente. Passavam ligeiros e as alimárias, trotando, sacolejavam os surrÕes cobertos de palha, levantando nuvens de poeira. Os sinos, ao longe, dobravam á missa.
Nazario voltou-se sentido para Luiza:
— Olha, minha filha, tu não tens coração, deixa que eu te diga. Não penses que te quero mal. Deus te dê muito boa sorte... mias não tens coração. És de pedra...
— Porque ? Porque não choro ? Pois os outros fazem lá as suas maluquices e eu é que hei d€ pagar? Não faltava mais nada! Que culpa tenhO' eu?
— Tens culpa, tens. Teu irmão não daria semelhante passo se não estivesses constantemente a amofinal-o. Que tinhas tu com elle? Tua mãi, emfirn, tinha direito de dizer o que lhe parecesse, mas tu! tem paciência. E ainda agora nem parece que recel^este uma noticia assim. Olha, elle não é meu filho, mas eu chorei e sou um velho, não tenho vergonha de dizer. Chorei, chorei porque tenho coração e tu... Até parece que ficaste satisfeita com isso. Não é assim, minha filha; não é assim, tem paciência.
Luiza voltoií-lhe as costas, com arrebatamento. Maria Augusta, succumbida, tinha a cabeça baixa, as lagrimas rolavam-lhe dos olhos e, de vez em quando, em accessos, sobrevinham soluços que a agitavam nervosamente.
— Está bem, está bem, nada de desesperos.
Vamos vêr o que se pôde fazer. Elle é doente, mais dia, menos dia apparece-lhe a moléstia e dão-lhe baixa com certeza. Não desesperemos.
Tu o que deves fazer é ir falar aO' barão. Elle é quem pfjde arranjar isso. Conta-lhe tudo e agarra-te com a mulher. Eu vou ter com o Ferraz.
— E se vem uma guerra ?
— 'Qual guerra! Ahi vens tu... Guerra com quem ? Então pensas que nãO' ha outra coisa em que cuidar senão em guerras?! Vamos tratar de arranjar as coisas do melhor modo possível.
E acotovelou-se á balaustrada pensativo.
Luiza deixou-os e Maria Augusta, adiantando-se para Nazario, disse-lhe commovida:
— E se eu lhe escrevesse ?
— Deves ; d eves escrever-lhe para consolal-o ; é tua obrigação. Sabes lá o que é um homem achair-se só no mundo? Deves escrever-lhe, pois não... Mas nada de aconselhar doidices. Elle que espere. Se se puder arranjar alguma coisa, muito bem; senão... que tenha paciência.
E suspirou meneando' com a cabeça :
— Que doido ! Emfim ! h a de ser o que Deus quizer !
I06 MIRAGEM E, já no patamar da escada, recommendou :
— Olha, se o cão apparecer por aqui prende-o até que eu o venha buscar. Emfim, coitado! não custa fazer-lhe a vontade.
E em baixo, insistindo :
— E é isto : Vais ao barão e eu cá por mim hei de fazer o que puder. E até logo!
E sahiu cabisbaixo, resmoneando por entre os canteiros em matto.
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