Universo da obra
Universo da obra
Flammejava violento o sol do meio-dia e, atravez do silencio abafado, tiniam vibrantes pancadas de m alho num ferreiro próximo. A estrada secca rutilava e havia no ar adusto e tremulo um cheiro acre de herva esturricada, como se lavrasse incêndio na várzea. De longe em longe passavam tropas vascolejando bruacias e surr5es e estalavam chicotadas ríspidas. Em torno do casa, cercada de colmeias, zumbiam enxames de abelhas.
Maria Augusta e Luiza cosiam sob o alpendre quando viram chegar á cancella um pequenote, esbaforido e arquejante. «Que é?» indagou Maria Augusta com máu modo, e o pequeno, esticando-se nas pontas dos pés, bradou para que bem lhe ouvissem a voz: «É seu Manuel...» E, voltando-se para a estrada, atirou o braço em gesto largo.
— Mas que é? Que é que você quer com seu Manuel?
— Cahiu e o carro virou por cima delle. Parece que está morto.
Maria Augusta levantou-se d'impeto, com a boca aberta como se lhe faltasse a ar, os olhos immensos, fixos, brilhando em fulgor de loucura.
Luiza, estonteada, de pé, olhava-a de mãos postas, tremendo :
— Que é, mamai ? Que foi ? Mas Maria Augusta já h avia atirado para longe O' panno que cosia e precipitou-se para o jardim, soluçando sem lagrimas, de mão á cabeça, a exclamar allucinada :
— Ai meu Deus ! q ue será de mim ? ! Meu pobre Manuel ! Meu pobre marido !
Luiza, paralysada em espanto, andava com os olhos tontos de um para outro lado, aturdida.
Tremiam-lhe os lábios e o collo ondulava precipitadamente. Mas como a mãi desapparecesse, arrojou-se descalça, aos gritos, agitando os braços em desespero.
Turco, que dormia entre as tayobas, despertou e seguiu-as, ladrando. Maria Augusta já havia alcançado a estrada e enchia a ar com exclamações afflictas vendo vir o grupo que trazia o marido. Ficou estatelada, sem animo de avançar, apertando freneticamente a cabeça entre as mãos.
E soluçava: «Não o queria vêr! Não tinha coragem !»
Luiza agarrou-se-lhe aos hombros, chorando: «Meu pai! Meu paisinho!» Acudiram mulheres da visinhança e cercaram-nas animando-as com palavras de conforto: «Que tivessem paciência!
Que se conformassem com a vontade de Deus.»
Crianças apinhavam-se pasmadas ; algumas choramigavam e o grupo aproximava-se lentamente, funebremente, como em enterro — homens suados, em mangas de camisa, trabalhadores, negros, um rancho compacto, moroso e grave. Uma nuvem dourada de poeira toldava o ar e o sol abrasava cahindo de chapa sobre a turba.
Maria Augusta, que se debatia entre as mulheres, libertou-se e investiu impetuosamente, com regougos, desgrenhada. O grupo abriu-se e ella poude chegar até junto do marido, que vinha estendido sobre uma taboa, manchada de lama, pallido e rigido como um cadáver. A camisa, aberta e rota, deixava inteiramente nús o largo peito másculo coberto de vello negro e crespo, os braços formidáveis, o robusto pescoço, que se destacava da alvura dos hombros marmóreos, pelo tanado da côr, quasi brônzea, adquirida nas soalheiras dos campos. A physionomia estava horrivelmente contrahida como a do estuporado, as pupillas vítreas e dilatadas. Uma lagrima desciaIhe morosa e triste pela face salpicada de lama; copioso suor inundava-lhe o rosto algido. As mãos crispadas, os dedos em flexão tetânica, o polegar crtizando' a palma da mão, duro e rijo, em resistência de ankylose.
Maria Ang^usta atirou-se de joelhos e os homens pousaram em terra a taboa, afastando-se diante das duas mulheres que se abraçavam com o corpo comO' se o quizessem 'aírrebatar e, de rastros pela poeira ardente, procuravam, com palavras de t ernura, chamar á vida o morto amado.
Subitamente, porém, um homem surgiu arquejante, atravessou o^ agrupamento e ajoelhou-se entre as mulheres baixando a cabeça sobre o corpo imm.ovel. Tremiam-lhe os hombros e todo elle vibrava agitado violentamente pelos soluços. Mas sobrevindo-lhe um accesso de tosse, ergueu a cabeça abafando a boca com a mão e viram-lhe o rosto demudado, os olhos fundos e mais pallido do que o que ali estava estirado em meio da estrada, inerte, ao sol. Era Thadeu.
As lagrimas desciam-lhe dos olhos em fios, os soluços precipitavara-se, apenas interrompidos pela tosse cavernosa e rascante.
Não disse palavra. A noticia surprendeu-o quando descia para o Fura olho com o carrinho de mãO', levando compras.
Nazario, o ferrador, foi quem conseguiu desviar a f amilia de junto do esquife rústico garantindo «que Fogaça ainda respirava e que o melhor era carregarem-n'o para casa, que ali assim ao sol até lhe podia dar a gangrena.» Recuaram OS tres, os homens tomaram a taboa e o bando poz-se de noA^o em marcha.
Thadeu seguiu ao lado do pai, com os alhos marejados d'ag'ua postos tristemente no rosto impassivel e trágico do moribundo, que guardava indelevelmente O' rictus do momento da agonia.
De vez em vez subia-lhe um soluço, olhava vagamente como a pedir conforto aos que o cercavam.
Mas as lagrimas irrompiam copiosas, violentas, irresistíveis. Escondia o rosto nas mãos e seguia sem vêr, resmoneando palavras incomprehensiveis e, lentamente, afastando dos olhos as mãos lavadas em pranto, voltava á contemplação dolorosa., arquejanda de soffrimento.
Maria Augusta seguia amparada pelas mulheres, pedindo, atravez dos soluços, «que lhe contassem a d esgraça.»
— Ninguém podia dizer como fora, affirmou Nazario. Elle vinha descendo a rua Bonita com o carro — bois novos, sôfregos... Ninguém podia dizer a verdade : que fora assim, que fora assado. Ninguém vira. Dizia-se que um tronco de cabiúna, rolando do carro, apanhara-o em cheio.
Fora ainda por Deus que os bois não se lembraram de andar ; um passo, mais que tivessem dado e elle teria sido feito em bagaço, ali mesmo. Elle, porém, era de opinião que aquillo não passava de um choque e lembrava o que acontecera, no caminho de M endes, ao Catalani, que ficara debaixo de uma pilha de siaccos de café donde o haviam miragDm 23 retirado como morto e, entretanto, ainda por ali andava, arrotando grandezas e caloteando Deus e o mundo.
Luiza preoccupava-se com o coração, queria saber «se não^ ficara of fendido ?» Indagava «se não sahira sangue?»
Niazario, grave, consolava:
— Descançem ; não ha de ser nada. O doutor não tarda. E, alteando a voz : «Vão vêr que anianhan ou depois elle está ahi lépido e são como um pêro. É um touro ! Isso é lá homem para morrer assim?! Perdeu os sentidos, é o que é, mas também a coisa não foi para brincadeira — um diabo de viga capaz de sustentar o edificio' da Camará...»
Diante da casa houve pequena pausa emquanto um homem abria a cancella para que entrassem os que transportavam o corpo. Tliadeu tomou a frente guiando os padioleiros atravez do jardim, até á varanda, com muitas recommendaçÕes :
— Que fossem devagar, pela sombra, evitando solavancos. Maria Augusta, abraçada á filha, seg-uia á distancia, lastimando-se : «Grande Deus de misericórdia! Oue será de nós?!»
Nazario ficou á porta impedindo^ a invasão: «Oue diabo queriam lá fazer? Deixassem-se de bisbilhotices. Tudo era folia para aquella gente.»
E empurrava as crianças, tirando-as da cerca ao» safanões violentos:
— Chiça! Pensam vocês qu'isto é circo, cambada ? Está um pobre hamem a morrer e esta canalha aqui assim a fazer uma bulha de seiscentos diabos. Chiça !
E, com razões e violências, conseguiu arredar a onda de curiosos e só quandO' os padioleiros reappareceram resolveu-se «a entrar um bocado para vêr o coitado.»
Haviam-no estendido no leito, de Ijraços abertos, a cabeça alta sobre os Travesseiros; tinha o peito nú e húmido de suor.
A respiração flebil, quasi imperceptivel ; mal se lhe sentia o pulso, mas as lentas pulsações da artéria eram indicio de vida.
Thadeu, em azáfama estouvada, andava pela casa procurando arnica e bradava: «Que fossem' buscar "o medico, que trouxessem qualquer.» Maria Augusta não sabia do quarto. Sentara-se á cabeceira do marido e, immovel, como petrificada, percebia-se-lhe apenas o ondular do collo e as lagrimas que desciam silenciosas e grossas dos olhos minguados e roxos. Luiza correra a accender o oratório.
Nazario aproximava-se do^ quarto, pé ante pé, quando uma mulher appareceu á porta com ar de espanto, o dedo nos lábios: «Então? Que é? Viai mal?» indagou Nazario baixinho. «Entre, mas devagar. Parece que elle está recobrando os sentidos.» O f errador insinuou-se pela porta entreaberta.
Fogaça parecia libertar-se do colapso agudo, sahia da inhibição provocada pelo traumatismo.
Os braços moviam-se lentamente com tremores leves, a physionomia compunha-se ; u m soluço fugiu-lhe da garganta oppressa e os olhos foram readquirindo o brilho natural. Aquecia-se e já se lhe podia sentir a respiração, posto que ainda jflébil, a pequenos sopros. Maria Augusta ajoeIhara-se no beiral da cama e procurava falar-lhe.
Torcia as mãos e anciã va, de olhos cravados no homem, acompanhando-lhe attenciosamente todos os movimentos. Mas Nazario adiantou-se:
— Que era melhor não dizer nada. Esperasse.
Elle estava, melhorando, deixassem.
Fogaça, eff activamente, começava a reanimarse : — os braços, em lentas flexões, esfregavamse pela cama, a cabeça oscillava como em agonia e as pálpebras baixavam, subiam, pesadas, morosas, deixando vêr os olhos sempre quietos, mas já sem o tom baço e frio que os velava. Por fira a perna curvou-se e os lábios abriram-se sorvendo um grande hausto profundo. Maria Augusta não se conteve — lançou-se quasi sobre o corpo, exclamando em delírio de ternura:
— Meu Manuel ! Meu Manuel ! Sou eu ! Não me conheces? Sou eu, Maria Augusta. Então, meu velho? Então?!
Nazario insistiu :
— Estás a teimar. Olha que podes magual-o mais. Elle está todo machucado.
— Oeixe-me, pelo amor de Deus ! Deixe-me ! dizia a mulher tomando nas mãos afflictas a cabeça do marido.
Thadeu, que espreitava á porta, entrou sorrateiramente :
— Melhorou ? Melhorou ? E vendo a mai, carinhosa, desvelladamente inclinada sobre o pai, avançou, com o rosto aberto em sorriso. Mas o ferrador interpôz-se :
— Não vás também fazer asneiras... Deixa-te estar onde estás. Que é do medico? Deixa lá o homem que está melhorando. Vocês é que estão com vontade de o vêr morto. Não é com lagrimas que se curam feridas.
E Thadeu. timido, estacou ao lado de Nazario, contemplando, de longie, o corpo do pai.
— Ah ! m eu Deus ! suspirou por fim o enfermo, com esforço ; e os olhos, como se acordassem, correram o quarto de relance, fixando-se nO' rosto de Maria Augusta.
— Ah ! m eu Manuel ! Oue foi isto, meu velho? Que foi?
Fogaça esticou o lábio com indif ferença e cerrou os olhos, abrindo-os, logo depois, docemente:
— ^ D á-me agua, disse num fio de voz difficil.
Dá-me agua e manda chamar o Galdino.
Thadeu aproximou-se commovido e tremulo e Fogaça, dando com os olhos nelle, sorriu tristemente.
— Já foram buscal-o, meu pai. Está melhor?
— Melhor... e, com uma grande resignação: «Estou aqui deitado esperando o somno» e os olhos moveram-se procurando o céu. Melhor!...
Procurou estender a mão ao filho, mas o braço abateu inerte sobre a cama. Balbuciou o nome de Luiza.
— Quer que a. chame, papai?
— Sim... e dá-me agnia, tenho muita sede.
Trincou os lábios, levou a mão ao flanco franzindo o rosto..
— Está doendo?
Acenou com a cabeça — que sim.
Maria Augusta, que sahira, reappareceu annunciando o doutor. Nazario correu a collocar uma cadeira junto á cama e adiantou-se sollicito para receber o medicO': um homem magro, alto, esguio, de pêra esfarripada. Entrou no aposento falando a todos, pelos nomes, intimamente, e foi direito ao leito.
De pé, com o.s olhos no rosto de Fogaça, indagou em tom alegre :
— Então qu'é isso? O rei dos homens...!?
Fogaça sorriu esforçando-se para mudar de posição.
— Nada. Nada. Deixa-te estar como estás.
Houve um recuo respeitoso. Thadeu e Nazario foram ficar junto á porta. Maria Augusta encostou-se ao respaldo do leito e Luiza, que entrara, estacou olhando com grandes olhos, trazendo ainda na mão um rosário de contas agrestes. O m edico examinou o enfermo minuciosamente. De quando em quando o rosto de Fogaça crispa va-se em rictus. «Doe-te?» Elle af firmou com o olhar languido, «Não é nada,» serenou o medico: «questão de dias.» Espalmou a mão sobre a f ronte algida: «Não tem febre...» e, imperativamente, com o indicador a prumo:
— Nada de conversas, estás ouvindo ? Nada de falas aqui no quarto. Voltou-se para os que o cercavam : Toda a tranquillidade é pouca. E desaancem.
— Ouviu ? ! observou Nazario a Maria Augusta. Conversas, lá fora.
Thadeu acompanhou o medico á porta : ■ — Vai receitar, doutor ?
— Está visto.
— Mas não é coisa de perigo... ?
— Perigo, perigo... Isso e conforme. Depende principalmente de vocês. O estado delle não é bom, não é, falando verdade, mas também não é desesperador. Nada de conversas aqui dentro, o mais absoluto silencio. Qualquer emoção pôde matal-o, o choque foi grande. Nem sei mesmo como elle resistiu.
O medico acabava de sahir, ouvia-se-lhe ainda a palavra precipitada, pelo corredor, a recommendar cuidados, e já Fogaça, ancioso, agitava-se na cama fincando os cotavellos para soerguer o corpo. Nazario, que o acompanhava, acudiu:
— Não te mexas, homem ; olha o que disse o medico. Deixa-te estar quieto. Queres vir mais MIRAGBM 29 para cima? Pois vamos lá... Mas devagarinho, devagarinho.
T.omou-o, então, pelas axillas, arrastou-o de leve, muito de leve, pnxando-lhe em seguida o lençol para o peito, com delicada sollicitude.
— Assim estás bem. Agora deixa-te estar calado. Tens muito tempo para a prosa.
Sentou-se na cadeira ao lado, cruzando devagarinho os pés enormes, tisnados, que balançavam velhas chinellas de ourelo, negras da poeira ferruginosa da f orja. Fogaça volvia os olhos com lentidão, agitando-se em movimentos brandos, ora encolhendo uma perna, ora repousando um braço sobre o ventre. Nazario não o perdia de vista e, calado, immavel, quando desviava os olhos do enfermo, ficava a contemplar, num espelho, em frente, o seu próprio rosto, magro, queimado, a barba espessa e ruiva, os olhos miúdos, a fronte curta e sarapintada de sardas.
Fora soavam passos, tiniam louças.
Houve um longo silencio. Nazario, com a cabeça inclinada ao peito, cochilava, estremunhando', de i nstante a instante, de olhos piscos ; e fitava Fogaça que parecia adormecido, mas lentamente as pálpebras abriam-se e os olhos, do enfermo rolavam tristes nas orbitas cercadas de uma orla escura, que as tornava profundas como as das caveiras. A p orta entreabria-se a espaços e uma cabeça espiava acenando a Nazario, que deitava o rosto sobre a palma da mão e cerrava os olhos, 30 MIRAGBM a mostrar que o outro dormia. Sahiam sem rumor.
De repente o enfermo estremeceu, curvandose em arco, com um olhar de indizível terror, a boca crispada deixando escapar um arquejo rouco.
Grugrulejos roncavam-lhe no peito como se o ar rolasse em borborinhos nos pulmões, os olhos reviravam-se-lhe angnistiados, arranques faziam ranger a c ama. Nazario precipitou-se de golpe, agarrou-lhe a cabeça, que se firmara no sinciput, a pescoço curvado em torção violenta, os músculos rijos, retesos; e todo elle tornava-se livido e gelado. O s uor humedecia-lhe a fronte algida, os dedos contrahiam-se-lhe com estalos seccos, o ventre empinava-se a mais e mais. Nazario inclinouse e, encarado nelle, poz-se a falar baixinho, inquieto :
— Eh ! Manuel ! EntãO', Manuel . . . ? Deixa-te estar. Olha o que disse o medico. Que é isso?
Anda dahi. • Mas Fogaça, hirto, fitava os olhos enormes, desorbitados e baços, a boca retorcida e fremente.
Um longo arroto gorgole jo.u-lhe na garganta e elle oscilou como agitado em tremor nervoso. As pálpebras vibraram frementes e, amarfanhando o lençol nas mãos crispadas, poz-se a arfar, aos haustos lentos, d'olhos coalhados, vitreos. Nazario olhava-o aturdido; tomou-lhe o pulso, apalpou-lhe o peito, sacudiu-o de leve, chamando-O' Manuel... Manuel! Repentinamente, voltando-s« para a porta, como se falasse a alguém, exclamoiu apavorado :
— Morreu . . . Esteve um momento a relancear os olhos F>elo quarto, tonto, hebetado e tornou ao amigo, abalando-o como para despertal-o: Manuel! ó h omem!,.. Ora esta!... Estatelado, boquiaberto, olhos dilatados de espanto, o ferrador resmungava sem comprehender o que via. Súbito, como espavorido, lançou-se do quartO' descalço, surgindo na sala de jantar, onde se achava à familia, preparando os curativos, e disse:
— Vocês querem saber ? Parece que o Manuel morreu... Houve um pasmo silencioso, entreolhado.
Em arrancada de louco. Thadeu arremessouse, mas estacou voltando-se para a mãi, como se ainda duvidasse e lhe quizesse ler na physionomia a confirmação da verdade. Mas Maria Augusta, tremula, mal se podia erguer :
— Como . . . ? Morreu como . . . ! ? Indagou ella atirando os braços em desesperado gesto.
Como...? Pois o doutor não disse que não havia perigo...?!
Mas no mesmo instante, assomada, atirou-se pelo corredor, aos gritos, e todos seguiram-na em tumulto, com uma balbúrdia de falas e de brados.
As portas do quarto abriram-se de par em par diante do grupo attonito, que se precipitava alongando os olhos, querendo vêr o morto.
 beira do leito Maria Augusta deteve-se of fegante, com os olhos ardentes cravados no marido. O r osto foi-se-lhe decompondo em esgar de espasmo, fortes anceios sacudiram-na, mas de repente, atirou-se de bruços, ás gargalhadas, estrebuchando, debatendo-se, rasgando as roupas, repuxando os c abellos. Agarraram-na conseg-uindo, a muito custo, arrastal-a do quarto. Thadeu, em estúpida impassibilidade, apalpava o pai, beijava-o, balbuciando. E Nazario dizia, em voz estrangulada :
— Não sei... Não sei... Foi num momento.
Não sei como se morre assim. Nunca vi ! E tocava o c oração com um resto de esperança. Nem um gemido... Nada!
Thadeu ajoelhou-se junto ao leito. Quasi no mesmo instante, porém, ergueu-se e foi buscar ao oratório um velho crucifixo, deitando-o sobre o peito do pai.
Sentia-se-lhe a agonia represada : os olhos, de um brilho fulguro, humedeciam-se, logo seccando como se a febre, que os inflammava; sorvesse o pranto; o peito estuava-lhe angustioso, oppresso.
Quedou airado, agarrando, sacudindo a cabeça a mãos ambas, como em accesso de loucura.
Mas quando a irman appareceu desvairada, aos gritos, poz-se a tremer, balbuciante, e arremetteu-lhe ao encontro com as lagrimas a jorros:
— Está morto, Luiza. O nosso bom pai já não existe. Olha, Luiza, o nosso pai...
E os dois, de joelhos, atiraram os braços sck bre o corpo ainda tépido, apertando-o, com afflictissimos soluços, balançando-o com desespero, a ponto da cruz rolar para o chão, cahindo sobre a esteira. Nazario apanhou-a respeitosamente e, depois de beijal-a, collocou-a sobre o travesseiro, ao lado do cadáver.
Fora, havia rumor de luta e os gritos de Maria Augusta repercutiam.
Uma mulher entrou vagarosamente com duas velas accesas, mas estacou á porta, indecisa, olhando vagamente o grupo.
— Entre e deixe ficar as velas-, disse Nazario.
Entre. Os mortos não podem estar sem luz.
E a mulher pousou em silencio os castiçaes sobre o l eito.
Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.