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Capítulo 11 · Miragem

Segunda parte I

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Segunda parte

,>L> SiúU^llVI^i Já havia soado o toque de silencio,. ,:••-'-.

Por entre as barras, ao longo da companhia conservada em penumbra dormente, O' plantaoi perpassava moroso. Poucos soldados dormiam. Um, caboclo, sentado, com as pernas encolhidas, presas entre as mãos enclavinhadas, olhava a fito o céu por um dos respiradouros, como enamorado da lua.

Outro, resupino, com os braços por baixo da cabeça, olhos parados, cantarolava baixinho, enlevado.

Súbito, um dos que dormiam, sentou-se mastigando, poz-se a coçar o peito cabelludo, torceu os braços e abateu de novo, pesadamente, aos resmungos. Um, de nome Fabrício, encostado á lio MIRAGEM 7 parede, de cabeça baixa, immovèl, parecia rczar.

E, certamente, rezava a oração herdada, a prece familiar, amuleto mystico da sua gente religiosa e simples, reza que elle dizia ter sido achada em sitio de mysterio, em manhan de graça, por um menino, filho de certa mulher tida por santa no seu sertão maranhense.

Rezava-a ali assim, porque, para a sua alma fervorosa de crente não bastava a oração do regnnento; para descanço e paz do seu espirito eram necessárias aquellas palavras misericordiosas, preservativas da peste, das traições e da morte no escuro, sem Deus.

Trazia-as veneradamente escriptas e encerradas em um bentinho de panno ao pescoço, e guardadas na memoria para evocal-as de prompto quando soffresse, ou nos dias cruéis de combate, nos campos da guerra que elle constantemente via, atravez do pavor, em vago e indistincto horisonte de fogo e sangue, por onde fugiam, a galope, com as bandeiras rotas voando ao vento, 4 os esquadrões desmantelados. ' Ao fundo, na parte mais escura, sussurravam conversas. Cabeças moviam-se, bustos avultavam ' mergulhando rapidamente quando o plantão, chegando ao extremo da sala, retrocedia lento, com o seu passo regular e surdo de vigilia.

Correra, durante o dia, com visos de verdade, que o governo decidira mobilisar para a fronteira do sul uma brigada das três armas para re- ,1 MIRAGEM III pellir certo caudilho oriental que, á frente de g-uerrilheiros, percorria a fronteira do Rio Grande saqueando estancias, reduzindo a cinzas as propriedades por onde passava como uma praga.

Outras versões appareceram.

Um cadete, addido ao batalhão, af firmara, em palestra nO' corpo da guarda, que ouvira na secretaria a d ois officiaes de estado-maior, que essa medida imprevista não passava de expediente do governo imperial para sustar a marcha progressiva da idéa republicana, que a palavra atrevida de Senna Madureira e os conceitos democráticos de Benjamin Constant iam propagando, não só entre os officiaes, a fracção intelligente do exercito, como nas fileiras que se deixavam attrahir pelo appello patriótico e ousado dos seus chefes, nianifeslando-se tacitamente pela represália. A verdade, porém, era desconhecida ainda e de uma a outra barra segredavam-se timidamente, em conciliábulo, constas e boatos.

Um mulato gaguejava confidencias, sacudindo o b raço nú cm gestos indignados. Ouviam-n'o e, nas barras mais distantes, soldados levantavam a cabeça escutando curiosamente :

— Isso é mesmo com os gringos, cochichava o mulato convencido. Essa coisa havia de ter o seu dia e Deus queira...

Outras vozes aífirmavam surdamente, cheias de ódio, prenunciando victorias. M^s um veterano erguendo meio corpo, disse com calma, emquanto rebuscava alguma coisa debaixo do travesseiro :

— Olhem, vocês estão ahi a dizer coisas á tôa. Meus amigos, se nós, agora, tivermos guerra com os argentinos, nas primeiras batalhas... olhem., , é cada um tratar de ganhar o mundo.

Isto tão certo como eu estar aqui procurando o meu cachimbo.

— Nas primeiras..,! bradou o mulato, muito gago. Nas primeiras! mas depois.,,!

Um rapazola louro, franzino, investiu esmurrando a c oxa:

— Nem nas primeiras...!

— Nem nas ,primeiras ! af firmaram outrosi

— Pois sim. Havemos de vêr, tornou, em tom de pachorra, o veterano e, cahindo de costas, cruzando as pernas, repetiu : Havemos de vêr.

— Pois que venha, ora essa...!

Mias o plantão avisinhava-se, vagaroso e severo.

Voltou o silencio. Chegando ao fim da sala, junto da ultima barra, o plantão estacou e, aproximando-se, abaixou-se tocandO' de leve no hombro de um soldado que ali estava de bruços, com O rosto enterrado no travesseiro:

— Que é isto, 31 ?

O soldado estremeceu voltando-se de golpe.

— Que ^ que você tem ?

— Eu? nada; e sorria para o plantão que o fitava. Não tenho nada.

— Pensei que estavas chorando.

O mulato, que percebera o dialogo, interveiu:

— É toda a noite assim, esse homem. Chora que nem criança.

— Choro... E eu estou chorando? Mas o plantão imix)z silencio e, cruzando os braços, desceu em passO' surdo e grave por entre as barras.

Súbito um brado atroou fora, claramente.

— ■ O nze horas ! disse soturnamente o veterano atravez de largo bocejo^ cavo. Bòa noite, gente. E p uxou o lençol para a cabeça. Guaiaram tristemente: «Ai! ai! meu Deus!» O mulato, sentando-se, d'impeto, na barra, rouquejou:

— Cala a boca, chorão ! Cala essa boca moUe, [jorcaria! Ocê já que pega co'as manha, seu langanho ! ?

Explodiram risinhos e cachinadas, ditos zombeteiros: «Sè qué maminha?» uÊta! bicho mofino! Esse memo, quá... Até faz vergonha a gente...» «PVa quê ocê não vai sê irman de caridade, rapaz? «Oia que home banana assim é demais... !»

E, como Thadeu resmungasse, aborrecido com os dichotes com que o asseteavam de todos os lados, o mulato fitou-o de má cara e, com o dedo nos beiços, ameaçou-o :

— Cala a boca já, sua lesma! Diabo do mingau! Qu'é qu'ocê veiu fazê aqui no meio de homes? Geme mais ahi qu'eu te mostro!

Thadeu baixou a cabeça covardemente e dei- ^^4 MIRAGí^M toií-se encolhido. No extremo opposto do salão alguém poz-se a grunhir afflicto, como estrangulado. Foi u ma explosão de gargalhadas em toda a companhia, e o plantão, a rir, correu a despertar o h omem do pesadello.

— É o Borges, disse o mulato mal humorado.

O diabo come que nem giboia e, de noite, é esse berreiro assustando a gente. E, dirigindo-se, de novo, a Thadeu, intimou-o: — E ocê vê lá, seu punga. É dormir quieto, senão... E, estendendos d e e b a v i o x l o u p t d u o o s l a e m n e ço n l t . e , desappareceu, de mergulho, No silencio da companhia adormecida alguém velava insomne, com o terror de um vago presentimento: a guerra. Era Thadeu. " Ouvira calado toda a conversa dos camaradas, não perdendo palavra. do que diziam com referencia aos b oatos espalhados durante o dia e, apezar da jornada trabalhosa, desde a fachina até os exercícios da tarde, não conseguia adormecer, a p l e v n o s r a o n ç d a o n d n o o o f s u t q u u r a o r t é d i e s . s angue que se annunciava,' Essa idéa perseguia-o desde que vestira a farda. Quando as cornetas tocavam a alvorada no campo, estremecia como se lhe passasse por diante dos olhos, em relâmpago vermelho, a imagem da guerra sanguinolenta.

Seguindo para as fonnaturas, entrando no alinhamento emquanto os officiaes passavam a g-alope ao longo das fileiras armadas, esperava que um delles, estacando o g-inete, annunciasse ás tropas o dia da partida para estranhas paragens de lutas, que a sua imaginação medrosa creava, encharcadas de sangue, apinhadas de cadáveres, lavrando em incêndios. E admirava-se de vêr o batalhão debandar tranquillamente sem que a no\'a fatal fosse annunciada.

Nas sabidas, atravéz das ruas, apertado nos pelotões, marchando aO' rythmo guerreiro dos dobrados, distrahia-se muitas vezes em taes sonhos.

Imaginava-se caminhando para o terrivel desconhecido le ogo a visão fantástica substituia a realidade : A s casas appareciam-lhe como enormes penedos, as ruas eram desfiladeiros e, muitas vezes, camaradas puxavam-no para a forma, vendo-o adiantar-se, de olhos baixos, sahindo do alinhamento. Nos exercícios de fogo tremia com as descargas de pelotões e, quando, por sua vez, tinha de puxar o g^atilho, fechava insensivelmente os olhos. Os companheiros riam-se d'elle e o mulato Azambuja, que constantemente o ameaçava e o perseguia, iião lhe perdoava a timidez : na forma insultava-o com grosserias, atirando-lhe cotovelladas brutaes quando manobravam.

Nessa noite, porém, como se effectivamente houvesse circulado, fundada em verdade, a noticia da guerra, Thadeu não poude conciliar o somno. Vinham-lhe visões trágicas mal abaixava Il6 _ . M IIIAGEM ..ci^íA; as pálpebras — o assombro das batalhas, o hor- „.,rpr.. idas Jornadas em desertos sern sombra, a fome, ,', ^,^%^nçlepiencja,,^Qs clima^ emfim, que ouvira nas palestras com outros soldados que já haviam entrado em fogo. E, de tal maneira con- . centrava-se nessa allucinação do medo, que o^ seu .^.coração soffria com a saudade pungente dos que ^. „ h aviam ficado longe, sem noticia, julgando-o morto, emquanto elle caminhava para defender a pátria e, t alvez, essa mesma casa paterna, onde o . seu espirito..yiyia. ^^^\,^: . ^, : Quando o plantão apparecia silencioso, sentia ,,.,,_(leseJQ yiplento de interrogal-o, mas o vigilante .,.,.retroççá%'.mte,SL.^^^^^^ ouvindo o re- ,^, ..somnar dos soldados visinhos, ficava, a olhar vagamente, apavorando-se com, as fantasias da sua imaginação enferma. E as horas passavam.

Fora, de longos em longos intervallos, bradavam ás a rmas. O frémito de terror percorria-lhe o corjx) como se tivesse, de repente, ouvido alaridos de alerta no acampamento imaginário. E arrependia-se de ter deixado a tranquillidade das suas terras, o seu aconchego pacifico entre as arvores contemjxíraneas da sua infância. Arrependia-se de t er buscado abrigo na caserna para fugir á f ome e ao frio, quando lá fora havia milhares de homens traljalhando, felizes, amparados e independentes, sem a tortura das armas, sem o supplicio da labuta militar, sem essa promiscuidade de v ida — os dias em longas e extensas fórmas, ao sol , as noites, nas companhias, como rel)anho que, depois de andar em magote pelos prados, recolhesse ao aprisco, onde o plaintao, como pastor, velava.

Trocavam-se os plantões de ronda; ia um, outro vinha, estremunhado e molle. EHe só atravessava a n oite, de olhos abertos, rolandoí afflictamente na barra que rangia.

Uma nota al>emolada soou docemente como se viesse de muito longe... e, mais alto, subindo pouco a pouco, tornou^ se forte, vibrante e uma banda de cometas, em unisono, encheu o silencio ainda em penumbra com o toque da alvorada.

Solda)do'S sentarani-ae nas barras, outros, bocejando, retorcendo os braços, espichavam-se. Alguns, de pé, apanhavam rowpas e o caboclo Fabrício, nú d a cinta para cima, espiava debaixo da fjarra cantarolando a meia voz uma cantiga do Norte.*

— Eh ! Eh ! b radou o mulato sacudindo Thadeu. Acorda, homem!

A companhia rumorejava. Homens cruzavam-se chalrando, outros dobravam Icnçóes refazendo as b arras.

Thadeu abriu os olhos. A luz da manhan entrava pelos respiradouros e morriam no ar as derradeiras notas da alvorada.

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Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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