Universo da obra
Universo da obra
Leves, ténues, fliiiam os alvos nevoeiros toucando os cimos, baixando sobre as veigas, em extensa e d iaphana amplidão brumosa, ora serena, ora ondeante e revolta como o fumo que o vento abate e rola, aflante, á flor da terra, pairando, fugindo até esgarçar-se, sumir-se no ar.
Cahia melancolicamente o crepusculo' de maio, já de inverno, frio e triste. Os sinos da Matriz, dobravam a finados.
Estavam a enterrar Fogaça.
Nazario, que o fora acompanhar aO' cemitério, consolava Thadeu.
Maria Augusta e Luiza, derreadas pela vigilia e pelo soffrimento, haviam ficado em casa.
Thadeu sahira com uma coroa, deixando-se estar ao lado do pai até o momento desesperado dos 35 primeiras rumores da terra cahindo, ás ruflas^ sobre o caixão.
Nazario conteve-se emquanto poude, mas a dôr angustiosa e sincera do órfão communicotise-lhe á alma sensivel, de sorte que as suas ultimas palavras de consolo sahiram-lhe por entre lagrimas e s oluços e quando, para evitar maiores agonias, quiz deixar junto ao tumulo a coroa de saudades para descerem, Thadeu oppôz-se: «Queria ficar mais um pouco com o pai. Mais um instantinho. Era a sua despedida.»
Os que haviam subido com o morto, logo que o coveira atirou as primeiras pasadas de terra, despediram-se com abraços e desceram. Outros ficaram ainda revendo túmulos, relembrando amigos, parentes, que ali jaziam sob lages, com uma cruz á cabeceira.
Thadeu torcia as mãos, e quando alguém se aproximava para abraçal-o, rompia a chorar, debruçando a c abeça sobre o hombro de quem o apertava nos braços, e guaiava:
— Ai ! m eu pai ! Meu pobre pai ! c oitado ! Meu pobre pai!
Pouco a pouco, porém, fo-ram desertando todos e N azario falou a Thadeu.
— Vamos indo, rapaz. A noite está a cahir.
Tua mãi e tua irman estão lá em casa sós. É preciso acompanhal-as. Que diabo! tens razão, mas... a vida é assim mesmo. Também perdi meu pai, sei o que isto é. Mas descança, elle está com Deus.
S6 MIRAGEM Coragem, anda dahi. Agora o chefe da casa és tu, entendes? tens obrigação' de ser forte. Se entras a d esesperar que será das pobres mulheres?!
Vamos.
Mas Thadeu, que baixara os olhos, descobriu o Turco deitado sol>re a terra fresca, com a cabeça enorme estendida entre as patas, a lingua pendente, arquejando.
— Ah, Turco! Também vieste, meu velho!...
O cão levantou os olhos meigos e agitou a cauda, fitando-o.
— Meu pobre Turco ...!
O cãO' pôz-se de pé e. ganindo surdamente, rebolando-se, aproximou-se, de cabeça alta, olhando-o enternecido.
— Então que é isto, rapaz! Vamos dahi, anda.
Mas o coveiro passou para o lado em que se achava o grupo, pedindo licença:
— Tivessem paciência, tinha de acabar aquillo antes da noite, porque o corpo não podia ficar ao tempo.
Desceram vagarosamente. Nas figueiras bravas ciciavam as ultimas cigarras e já fulgiam nos valles os primeiros vagalumes. O ar frio recendia docemente. O casario espalhado pelos declives, ia p erdendo a alvura e já a penumbra crepuscular fechava os horisontes. Appareciam luzes e, triste, como o toque fúnebre do enterro, o sino vibrou de novo, religiosamente, na mansuetude vesperal, os dobres da Ave Maria e par longo tempo gemeu no espaço o som dolente.
Os dois homens estacaram no alto, defronte do cemitério. Nazario, profundamente religioso, persignou-se com os olhos no céu, balbuciando.
Thadeu voltou-se para lançar um derradeiro 0'lhar ao sitio em que lhe ficava o pai.
O coveiro, curvado, atulhava a cova a lentas pasadas cheias e a terra atorroada soou a principio túmida, soturna, depois balofa, cahindo, por fim, sem ruido, , Chiavam carretas, tiniam alegremente cam-* painhas de tropas. Nazario tirou a bolsa de fumo, enrolou um cigarro^ e offereceu-o a Thadeu:
— Olha, fuma. A vida é isto. Que se ha de fazer? Hoje um, amanhan outro. Para que ha de a gente amofinar-se? O que não tem remédio... Custa, não ha duvida, mas... Como passassem diante da Matriz, já aberta e illuminada para o Mez de Maria, o ferrador accrescentou :
— Com Este é que nos devemos agarrar para que nos guie nesta vida e nos receba na outra.
Com Este é que nos achamos sempre. E, de chapéu na mão, persignou-se de novo.
Thadeu propòz sahirem dali. Estava a chegar gente. Era melhor evitarem os pezames, as palavras de sentimento que mais aggravam a tristeza.
— E que não querem dizer nada, acudiu Nazario. A verdade é que ninguém sente. Muita coisa : Sinto muito e porque mais istO' e mais aquillo e mal nos deixam o pescoço, vão ao gole e ao resto. Qual ! Sentimento é o dos que perdem, esse é que é. Que eu sinta, que diabo! é natural. Nascemos na mesma terra e aqui chegamos juntos. Elle foi lá para as suas lavouras, eu voltei á minha forja, depois de ter também tentado o negocio dos negros. Mal ou bem sempre nos demos e tu sabes o que éramos um para outro. Que eu sinta, vá lá... mas essa sucia?!
Esse bêbedo do Manéquinho pôde lá sentir alguma coisa? Um canalha que anda sempre a tresandar a cachaça! Um patife que não se fartava de falar do Manuel, a chorar como uma cachoeira. Bêbedo!,.. Não o rachei hontem com um murro, porque, emíiin, estavadiante de um corpo, mas cá por dentro... eu é que sei! A mór parte da gente que lá esteve hontem a fazer quarto não foi senão por causa da comesaina e do gole. Essa sucia, meu filho, conheço-a toda... todinha! digo-t'o eu.
Haviam chegado á casa. Nazario deteve-se:
— Vai e deixa-te de choros. Trata de consolar as mulheres e pÕe-te firme. Coragem! E até já. Vou aqui á casa e volto a ter com vocês.
Apertaram-se as mãos. Nazario partiu e Thadeu esteve ainda algum tempo á cancella, olhando o céu, que a noite estrellava, como se visse passar, subindo para o Paraiso, leve, luminosa, na 39 névoa fina do crepúsculo, a alma santa do que partira.
Demorou-sc absorvido e só voltou á realidade a um affag-o do cão, que não arredava os olhos do seu rosto, como se o quizesse consolar com a sua enternecida mudez.
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