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Capítulo 3 · Miragem

Primeira parte III

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Leves, ténues, fliiiam os alvos nevoeiros toucando os cimos, baixando sobre as veigas, em extensa e d iaphana amplidão brumosa, ora serena, ora ondeante e revolta como o fumo que o vento abate e rola, aflante, á flor da terra, pairando, fugindo até esgarçar-se, sumir-se no ar.

Cahia melancolicamente o crepusculo' de maio, já de inverno, frio e triste. Os sinos da Matriz, dobravam a finados.

Estavam a enterrar Fogaça.

Nazario, que o fora acompanhar aO' cemitério, consolava Thadeu.

Maria Augusta e Luiza, derreadas pela vigilia e pelo soffrimento, haviam ficado em casa.

Thadeu sahira com uma coroa, deixando-se estar ao lado do pai até o momento desesperado dos 35 primeiras rumores da terra cahindo, ás ruflas^ sobre o caixão.

Nazario conteve-se emquanto poude, mas a dôr angustiosa e sincera do órfão communicotise-lhe á alma sensivel, de sorte que as suas ultimas palavras de consolo sahiram-lhe por entre lagrimas e s oluços e quando, para evitar maiores agonias, quiz deixar junto ao tumulo a coroa de saudades para descerem, Thadeu oppôz-se: «Queria ficar mais um pouco com o pai. Mais um instantinho. Era a sua despedida.»

Os que haviam subido com o morto, logo que o coveira atirou as primeiras pasadas de terra, despediram-se com abraços e desceram. Outros ficaram ainda revendo túmulos, relembrando amigos, parentes, que ali jaziam sob lages, com uma cruz á cabeceira.

Thadeu torcia as mãos, e quando alguém se aproximava para abraçal-o, rompia a chorar, debruçando a c abeça sobre o hombro de quem o apertava nos braços, e guaiava:

— Ai ! m eu pai ! Meu pobre pai ! c oitado ! Meu pobre pai!

Pouco a pouco, porém, fo-ram desertando todos e N azario falou a Thadeu.

— Vamos indo, rapaz. A noite está a cahir.

Tua mãi e tua irman estão lá em casa sós. É preciso acompanhal-as. Que diabo! tens razão, mas... a vida é assim mesmo. Também perdi meu pai, sei o que isto é. Mas descança, elle está com Deus.

S6 MIRAGEM Coragem, anda dahi. Agora o chefe da casa és tu, entendes? tens obrigação' de ser forte. Se entras a d esesperar que será das pobres mulheres?!

Vamos.

Mas Thadeu, que baixara os olhos, descobriu o Turco deitado sol>re a terra fresca, com a cabeça enorme estendida entre as patas, a lingua pendente, arquejando.

— Ah, Turco! Também vieste, meu velho!...

O cão levantou os olhos meigos e agitou a cauda, fitando-o.

— Meu pobre Turco ...!

O cãO' pôz-se de pé e. ganindo surdamente, rebolando-se, aproximou-se, de cabeça alta, olhando-o enternecido.

— Então que é isto, rapaz! Vamos dahi, anda.

Mas o coveiro passou para o lado em que se achava o grupo, pedindo licença:

— Tivessem paciência, tinha de acabar aquillo antes da noite, porque o corpo não podia ficar ao tempo.

Desceram vagarosamente. Nas figueiras bravas ciciavam as ultimas cigarras e já fulgiam nos valles os primeiros vagalumes. O ar frio recendia docemente. O casario espalhado pelos declives, ia p erdendo a alvura e já a penumbra crepuscular fechava os horisontes. Appareciam luzes e, triste, como o toque fúnebre do enterro, o sino vibrou de novo, religiosamente, na mansuetude vesperal, os dobres da Ave Maria e par longo tempo gemeu no espaço o som dolente.

Os dois homens estacaram no alto, defronte do cemitério. Nazario, profundamente religioso, persignou-se com os olhos no céu, balbuciando.

Thadeu voltou-se para lançar um derradeiro 0'lhar ao sitio em que lhe ficava o pai.

O coveiro, curvado, atulhava a cova a lentas pasadas cheias e a terra atorroada soou a principio túmida, soturna, depois balofa, cahindo, por fim, sem ruido, , Chiavam carretas, tiniam alegremente cam-* painhas de tropas. Nazario tirou a bolsa de fumo, enrolou um cigarro^ e offereceu-o a Thadeu:

— Olha, fuma. A vida é isto. Que se ha de fazer? Hoje um, amanhan outro. Para que ha de a gente amofinar-se? O que não tem remédio... Custa, não ha duvida, mas... Como passassem diante da Matriz, já aberta e illuminada para o Mez de Maria, o ferrador accrescentou :

— Com Este é que nos devemos agarrar para que nos guie nesta vida e nos receba na outra.

Com Este é que nos achamos sempre. E, de chapéu na mão, persignou-se de novo.

Thadeu propòz sahirem dali. Estava a chegar gente. Era melhor evitarem os pezames, as palavras de sentimento que mais aggravam a tristeza.

— E que não querem dizer nada, acudiu Nazario. A verdade é que ninguém sente. Muita coisa : Sinto muito e porque mais istO' e mais aquillo e mal nos deixam o pescoço, vão ao gole e ao resto. Qual ! Sentimento é o dos que perdem, esse é que é. Que eu sinta, que diabo! é natural. Nascemos na mesma terra e aqui chegamos juntos. Elle foi lá para as suas lavouras, eu voltei á minha forja, depois de ter também tentado o negocio dos negros. Mal ou bem sempre nos demos e tu sabes o que éramos um para outro. Que eu sinta, vá lá... mas essa sucia?!

Esse bêbedo do Manéquinho pôde lá sentir alguma coisa? Um canalha que anda sempre a tresandar a cachaça! Um patife que não se fartava de falar do Manuel, a chorar como uma cachoeira. Bêbedo!,.. Não o rachei hontem com um murro, porque, emíiin, estavadiante de um corpo, mas cá por dentro... eu é que sei! A mór parte da gente que lá esteve hontem a fazer quarto não foi senão por causa da comesaina e do gole. Essa sucia, meu filho, conheço-a toda... todinha! digo-t'o eu.

Haviam chegado á casa. Nazario deteve-se:

— Vai e deixa-te de choros. Trata de consolar as mulheres e pÕe-te firme. Coragem! E até já. Vou aqui á casa e volto a ter com vocês.

Apertaram-se as mãos. Nazario partiu e Thadeu esteve ainda algum tempo á cancella, olhando o céu, que a noite estrellava, como se visse passar, subindo para o Paraiso, leve, luminosa, na 39 névoa fina do crepúsculo, a alma santa do que partira.

Demorou-sc absorvido e só voltou á realidade a um affag-o do cão, que não arredava os olhos do seu rosto, como se o quizesse consolar com a sua enternecida mudez.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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