Universo da obra
Universo da obra
Com a volta da familia renasceram, mais fortes, no espirito de Thadeii, as primitivas idéas de cultura. Ainda fraco, tornou ao campo recomeçando a carpa das terras de novo invadidas pelo mattagal e, apezar da violência das soalheiras do^ estio, só recolhia á casa. ao pôr do sol.
Nazario' ia, muitas vezes, ter com elle, conversavam ás ombra, estirados na relva, á borda d'agua.
Thadeu, sempre esperançoso, falava das colheitas futuras, calculando resultados. O ferrador, porém, em vez de encorajal-o, aconselhava-o a deixar aquillo : que voltasse á vida dos primeiros tempos, que nãO' era homem para aquelle trabalho; aquillo pedia pulso, saúde...
Appareciam, entretanto, os primeiros botões MIRAGEM "]7 precursores, os milhos espigavam, o feijão alastrava como se a terra, subjugada e vencida, tivesse cedido ao esforço perseverante, abrindo, emfim, o seu seio germinador á semente, para reproduzil-a em rama\ em flor, em fruto.
Á noite, deitado, com a janella aberta, escutava attentamente rumores mysteriosos, ora surdos e cavos, ora agudos e lancinantes: sussurros longos comO' suspiros de agonias, estalos, uivos, e parecia-lhe cjue era a terra que gemia, na ânsia genésica, prestes a desabrochar. Era a agonia inicial das eclosões. A terra mãi, procreadora e santa, sua esposa, fecundada pelo' seu braço, contorcia-se no grande parto outonal, á luz calma e fria das estrellas. Sorria feliz e adormecia com esse sonho, ouvindo sempre o sussurro das mattas longinquas açoutadas pelas ventanias.
Maria Augusta, porém, em vez de animal-o^ dava mostras de aborrecimento, contrariando-O' :
— Que se deixasse de semelhante idéa. Que havia de fazer um homem só com aquelle mundo de terras? Ainda se elle tivesse alguém para ajudal-o... Não contasse com ella, com ella não, que nunca pegara em enxada.
E, por mais que elle insistisse, trazendo exemplos, citando factos : outros que haviam enriquecido com um palmo de terra, ]\Iaria Augusta retorquia :
— Que sim. Não dizia O' contrario, mas eram homens, não andavam a deitar os bofes pela boca, como elle.
Thadeu calava-se e recolhia-se, fugindo ás recriminações da m ãi que, constantemente, falava da miséria próxima, mostrando-lhe a despensa vasia e o caderno das compras.
— O dinheiro ha de sahir de alguma parte, dizia em tom de ameaça.
Os dias passavam monótonos e tristes. A vida, em casa, tornava-se impossível para Thadeu
— eram doestos e diatribes, pragas, suspiros de desespero. Luiza pedia a morte, soluçando. Para evitar scenas taes sahia cedo, ia refugiar-se entre as arvores, cavando e pensando.
Á noite passava pela ferraria para desabafar, contandO' a Nazario as rixas domesticas. «Tratavam-no como um cão. A mãi não lhe dirigia a palavra, Luiza evitava-o. O seu quarto, abandonado e esquecido, era elle quem o arranjava, á n oite, quando voltava do serviço. Que havia de fazer? Tentara aquelle recurso por lhe parecer de mais proveitO' para todos e, era assim que lhe pagavam a canceira e o esforço. Que havia de fazer?»
Nazario aconselhava, compadecido:
— Que tivesse paciência. A pobre mulher viase só, já caminhando para a velhice, sem os commodos a que estava habituada e então, coitada! tinha rabugices. Tivesse paciência, aturasse-lhe os rompantes. Era filho, tinha obrigação.
— Mas Luiza ! Que lhe fiz eu ? Eu, que só vivo ix)r ella ? Que lhe fiz para que me trate assim ? Até ameaça-me com homens : Que sahe de casa, que não está para morrer á mingua, nem para ser minha escrava, dizia com a voz trémula, quasi cliorando.
— Ora, Luiza... Luiza é uma cabeça de vento. Não te importes. Eu vou ter com ellas. Isso passa, descança. Mas se queres o meu conselho, deixa-te de terras. Em parte tua mãi tem razão.
Que diabopodes tu fazer sósinho? nada. Volta ao teu emprego e deixa-te de castellos no: ar. Não abandones o certo pelo duvidoso. E quanto ao mais, descança. Eu vou ter com ellas. uma manhan, porém, no momento em que 'iiiadeu sahia para o trabalho, Maria Augusta tomou-lhe a frente com arrogância:
— Não tinham mais nada em casa ; estavam nuas. O pouco que restava elle havia devorado.
Oue resolvesse: ou mudava de vida ou procurava outro rumo, porque aquillo não podia continuar assim. Ellas sabiam viver, nãolhes haviam de f altar recursos. Elle era um preguiçoso, um vadio, só queria comer e dormir. Arranjara aquella historia de lavoura para passar os dias refestelado, de barriga para oar, como um fidalgo. Que se arranjasse! Era homem, não se perdia. Deixasse-as.
Thadeu tartamudeou algum tempo sem achar resposta e, humilde diante da mãi, antevendo, 8o MIRAGÍÍM como numa visãO', todas as misérias que ella annunciava, falou sem revolta, submisso:
— Mas, mamai, por que não vem vêr o que tenho feito? Quem lhe disse que passo^ os dias deitado? Quem foi?
— Quem viu ! Luiza, ahi tens ! t ua irman, que não tem necessidade de mentir.
Os olhos de Thadeu rolaram allucinadamente, a còr subia-lhe ao rostO' e, trémulo, dominandose, exclamou baixinho, commovido :
— Luiza, mamai ! Ella disse que me viu dormindo ? L uiza ! !
— Sim, Luiza. Queres negar?! Pois sim. Só tu falas verdade, só tu trabalhas... O caso é que não temos nada para pôr no fogo e estamos com os braços á mostra, porque o poucoí que nos ficou lá se foi, E assomada:
— Pois, meu amigo, é cada um cuidar de si.
Tu, que és homem, não te importas; po^is olha, meu filho, á fome é que não hei de morrer, isso garanto. No dia em que me faltarem recursos, ora...! Assim como assim, antes isso...
Thadeu, levantou, de golpe, a cabeça, exclamando com indignação:
— Mamai !
— É como te digo.
E, tranquillamente, voltando-lhe as costas, soltou uma gargalhada irónica. Thadeu baixou a cabeça e grossas lagrimas rolaram-lhe dos olhos.
MIRAGEM 8l A ferraria silenciosa, qnasi toda em sombra, com um muro apenas alumiado por uma candeia de azeite, parecia deserta áquella hora da noite.
Na forja vasquejava um resto de brasido. Vagalumes erravam pelo interior sombrio, piscando scintillantemente com fogos fátuos. Fora, alvejava o l uar.
Quando Thadeu entrou na officina, tímido, Como criminoso, relanceando olhares investigadorts, um vulto ergueu-se de repente como se houvesse surgido da terra.
— Quem é ?
— Sou eu, Damião. Que é do homem ?
— Deve estar no Leonel ; f oi para lá, mais o Augusto. Se você quer vou chamal-o. Espera ahi.
Sahiu a correr para a estrada.
Thadeu encostou-se á bigorna tristonho, acabrunhado com a lembrança dos factos desse dia.
As palavras cruéis de Maria Augusta pareciam resoar-lhe ainda aos ouvidos ; a calumnia de Luiza atormentava-o, e mais do que tudo, a ameaça deshonesta : o lar polluido pela mancebia, o nome immaculado' da familia, única herança que lhe restava intacta e pura, aviltado no concubinato.
A mãi mercadejando com a viuvez; a irman, desprotegida, desamparada, testemunha paciente desse crime, com a pureza do seu corpo e da sua alma sitiada pela cubica lúbrica, delxando-se seduzir e vencer por promessas, entregando-se ao primeiro que lhe acenasse com o engodo mentiroso' de p rosperidade ephemera, de tranquillidade e fausto transitórios.
Conhecia bem o temperamento ambicioso de Luiza: cederia á tentação sem escrúpulo, desde que presentisse a possibilidade de satisfazer o mais insignificante capricho.
A miséria, ameaçadora e terrível, punha em desbarato os sentimentos castos da familia, escancarava as portas á infâmia,' abria a alcova sagrada, franqueava o leito cândido da virgem xo primeirO' que apparecesse, fosse quem fosse, contanto que tivesse dinheiro. Repugnavam-lhe taes pensamentos, repellia-os; elles, porém, torna"^am em tumulto, enchendo-lhe a alma de presagios lúgubres.
Quando Nazario appareceu á porta, seg"uido de Damião, Thadeu saudou-o do escuro onde estava :
— Boa noite !
— Ó rapaz ! exclamou o ferrador. Por que não foste até lá? Estávamos jogando o solo.
Anda cá para fora, que isso ahi está negro como um prego. Que ha de novo?
Thadeu desceu lentamente e encaminharamse ambos para a porta. Sentaram-se na pedra negra da soleira.
— Tu por aqui a esta hora... Isto é coisa.
Então, que é?
— Vou-me embora, disse Thadeu tristemente.
— Vais-te embora? Para' onde?
— Para o Rio ou para outro lugar qualquer.
Não posso mais. Mamai começa a expulsar-me.
Luiza disse-lhe que não faço outra coisa senão dormir, que vou para a roça deitar-me. Hoje, pela manhan, disseram-me que sou eu a ruina da casa, q.ie sou a causa da miséria que nos ameaça, porque não trabalho, porque devoro tudo quanto nos ficou de papai. Horrores. Mamai chegou a dizer-me que saberá fazer pela vida para não morrer ám ingua, dando-me a entender que procurará alguém . . .
Não concluiu. Violentos soluços sacudiram-no.
Nazario derreou-se a rir. com as mãos enlaçadas nos joelhos:
— Então que é isso, rapaz ! Estás louco ? !
Ora essa... ora essa! Tua mãi ia lá dizer isso, homem?! Tu é que andas a sonhar. És doido!
E sério : Então julgas que ella é capaz de manchar o nome de teu pai ? Estás doido ! Tua irman, é casal-a, isto é que é. Está mulher feita, já é tempo de vocês cuidarem disso. Ora essa...
Estás doido, decididamente.
— Pois sim, soluçou Thadeu. Se fosse • d e hoje... Mas eu sei que ellas me detestam.
— Detestam o que. pateta ! Não digas asneiras. Detestam...
— Já no tempo de meu pai, por qualquer coisa atiravam-me em rosto — que eu dava cabo de tudo quanto elle ganhava com as minhas moléstias, que eram um nunca acabar. Desejavam a minha morte, pediam-na. Não é de hoje. O melhor mesmo é eu ir-me embora. Longe, ao menos, trabalharei por ellas sem soffrer injurias.
De que me serve estar aqui se não tenho descanço ? Vou-me embora, deixo-as em paz. É melhor.
— Mas que vais fazer no Rio ? Pensas que o dinheiro anda ali aos pontapés? Enganas-te, rapaz. Se fosses mais novo podias arranjar alguma coisa no commercio, mas com a tua idade...
Que diabo' vais tu buscar ao Rio? Calma! Calma!
Mas Thadeu insistia:
— Não é possivel viver assim. Hei de achar alguma coisa, seja o que fôr.
Calaram-se. Houve um longo silencio. Damião, estiradO' na esteira, junto á bigorna, assobiava baixinho.
— Olha, queres saber uma coisa? Vem dahi commigo. Vem espairecer um pouco. Deixa-te de historias. NaO' me disseste que um sujeito de Ferreiros andava de namoro^ com tua irman?
Pois casa-a, homem. Casa-a de uma' vez, acaba com issO'. Deixa-a ir. É por seu gosto, que se arranje. O que a pequena quer é isso mesmo.
Que se case. Sua alma, sua palma. Isso ide mulheres, em chegando a certa idade, é assim. Deixa-a ir e cuida da velha. Ella sim, precisa de ti.
Vamos !
Levantaram -se. Uma nuvem negra encobria a lua e os dois partiram pela estrada escura, conversando. Súbito a claridade reappareceu suavemente. As c asas branquearam e os dois homens, extasiados, pararam em meio do caminho, contemplando o c éu resplandecente.
— Linda noite !
Sob o alpendre de uma venda um rancho de tropeiros cantava, ao som de violas. Estalavam palmas, e um vulto, de vez em vez, sahiai aos saracoteios, sapateando ao luar.
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