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Capítulo 14 · Miragem

Segunda parte IV

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Lá iam !

Monotonamente, ao latejo da machina, pulsando em rythmo, o navio singrava, rumo ao Su-I.

Dias e noites no merencoreo infinito d'ag-uas, sob o ceu, ora de azul metallico, ora negro, crivado d de e c e e s r t a r . e llas como um panno de esquife salpicado Os dias pareciam infindáveis. De quando em quando uma vela branqueava como crista de es^ pimia ou rolos de fumo toldando o horizonte e era a bordo um alvoroço alegre, todos correndo a vêr o barco distante, numa attracção d'almas, necessidade de communicar com o semelhante, de sentir, no deserto, a aproximação de outra caravana em marcha. E ficavam-se, á amurada, a olhar com sympathia, a conjecturar.

Umas vezes, cruzavam com o veleiro ou paquete, saudavani-iio com alarido, acenando adeuses, procuravam lêr o nome do barco, á proa e, á medida que se distanciavam, cada qual na sua derrota, como que no coração dos homens crescia uma saudade d'aquelles desconhecidos mal avistados em vultos indistinctos.

Outras vezes era um brado no silencio das horas abhorridas — alguém que annunciava novidade : u m boto a rebolcar-se de roldão nas aguas, Lun peixe que se levantara da onda em vòo de frecha, rebrilhando, e logo, em pós elle, outros em cardume lampejante; ás vezes era o mar fervilhando 0'U uma gaivota que apparecia batendj lentas azas largas. Alegria grande era quando avistavam terra ao longe, serranias altas, de ténue, enne voado azul que as confundia com o ceu e em baixo, como espumarada morta, a praia extensa e e rma, branca nas suas arèas, ás vezes com coqueiraes em toucas. E os olhos alongavam-se perdidamente, saudosos.

Alguns contemplavam o ceu descobrindo figuras fantásticas nas nuvens.

Á proa, muito juntas, sobrepostas, atravesisadas umas sobre outras, oscillavam redes.

Para passarem o tempo moroso e enfadonho os homens inventavam distracções. Uns, resupinos, com os braços por baixo da cabeça, cantarolavam modinhas, contavam anecdotas picarescas ou feitos de malandragem. Ouviam-se sons tristonhos de violão, trillos de machetes. Trocavamse phrases de tavolagem, expressões de garito e, de quando em quando, em contraste, soavam exclamações sertanejas: «Iche! Vote! Virge!» ou eram termos bordalengos que indignavam as mulheres: «Gentii sés déxa di nomi feio. Sés não respeita iis mais veio nem as criança... Limpa essas boca. Cruz!»

Havia-os deitados no chão, sobre capotes de baeta, suando lustrosamente com o sol que lhes dava de cliapa em rosto.

Sob a coberta da proa, na penumbra, era cO'ntinuo o btzôo de conversas, o murmurejo de conciliabuJo cortado, ás súbitas, de cascalhadas estridentes.

No atabalhoo da bagagem pobre: bahús de couro, canastras, latas amo-lgadas, trouxas, caixotes, cacaréos diversos empilhados andavam mulheres muito relaxadas com as camisas escorrendo-iiies pelos peitos niuxil)entos, cachimbo ou cigarro nos beiços, á chalaça umas com outras ou trombudas, rezingando com os curumins que rebolavam, a m odo de cochinos, na salmoura lodosa que empapava o convés.

A espaços, triste, a sineta resoava. De quando em quando, rolavam soturnamente mugidos ou cocoricós de gallos retiniam alegres, como vozes da terra. E a gente de bordo, em faina, troçava com as reiunas esbagaxadas que pitavam de cócoras, banzando ou fuchicavam molambos.

Utua cafnsa perguntou mollcmente :

— Apois, a gente a quando é qui chega?

— Quando ? ! T em agua ainda que Deus manda. Matto Grosso não é graça, rcspouderam-lhe.

— Cruz! Oia cju'isso di navio infára di fázê nojo. Deus mi livre ! E u, fora di terra, não sou genti. K estalava muchôclios. E essa fedentina?!

Cumu é qui s'ag'uenta isso, mi diga! Ondi si viu bota gente assim nu meio dus bicho? Antonce isso tem' geito?! Só castigo. Ouantus dias inda farta?

— Uns dez.

— ^Dcz! Pois sim... Si não vinhé pur ahi uma peste in riba da genti... vSó memo p'r'u milagre c!i Nossinhô. Nem gado quandu vai p'r'u matadouro. Immundice ansim... E isso é du governO'.

Cambada! Nem qu'a gente fosse cachorro. Deus mi livre.,,! Óie, eui por mim, cumida memo dessa qni anda nessas gamella, não entra na minha boca. E cuspihiava de nojo. Us officiá tão lá no seu bem liom, cumendo du bom e du mió, c us. polire di nós é ansim. nesta porquêra. Mas na hora di morre bamo vê. Isso é qui é...

Thadeu, arrincoado a um canto, entre pilhas fie canastras, latas e trouxas, como em um nicho, passava os dias em inércia morrinhenta, fumando cigarros sobre cigarros. Os camaradas, vendo-o ali encorujado no escuro, com as pernas juntas, abarcadas nas mãos, o queixo fincado entre os joelhos, troçavam-no:

— Êh ! ocê cahiu memo, hein ? Enjoo ? Isso • é o diabo! Despeja, qu'ocê miora. Fazê di valente é p ió. Gumita... Gumita qui passa. Oia, metti II dedo na giiela. Mas Thadeu contestava :

— Que não, não estava enjoado. Um pouco tonto da cabeça, só. E lá ficava.

Quando sentia alguém irritava-se. Queria estar isolado, na quiete, para recordar saudades.

Mal respondia aos que o interrogavam, sempre casmurro, de poucas palavras.

Ás vezes, percebendo passos, fechava os olhos fingindo dormir. Sabia apenas para comer ou caminhar um pouco, desentorpecendo as pernas, a vêr o serváço da gente de bordo ou, encostandose tristemente á amurada, ficava olhando o mar enfarinhado de espumas, correndo a par do navio, como se fosse elle que andasse.

Ao cahir da tarde iam-se-lhe os olhos para o ceu em chammas, com o sol enorme, a arder esbraseado, afogueando rutilantemente o oceano.

Via-o immenso, redondo, como offuscante pupilla felina, fremindo em fogo, vibrando scintillaçÕes que palhetavam as ondas de brasidos, e descer, mergulhar, sumir-se de todo, ficando o ceu pallido, como exangue, o mar lurido, liso, mercuriado, escurecendo, ennegrecendo merencoreamente, aqui, ali, enflocado de espuma.

Por fim a noite lúgubre e, lá em cima, as estrellas tristes. E começava, ,maguadamente, a cantilena a bordo.

Thadeu olhava como se quizesse devassar o além, mas a noite escurecia profmida. O vento refrescava silvando no apparelho e a ar fa gem tornava-se mais forte fazendo ranger a mastreação.

As gáveas enfunadas tufavam-se tatalando. De vez em vez. em súbito cambar do vento, violentos mcrgullux'^ da proa faziam saltar a espuma a altura do gurupés com balofo rumor d'aguas cavadas.

Silvos cortavam o silencio de quando em quando e o canto da soldadesca, vencendo o estuar oceânico e a trepidação' da machina, ficava gemendo no ar doce, sereno e frio da noite como um adeus ás praias já distantes, onde haviam ficado desesperados corações e almas sem esperança.

Thadeu olhava o ceu estrellado, o mar phos- •phorejante de ardentias, mas a visão era, de súbito, obnubilada pela saudade e surgiam-lhe ante os olhos, como se emergissem de ruinas, as recordações em bando, que só esperavam, como as aves agoureiras que amedrontam a noite, a sombra e o silencio.

E elle via, como em diorama, a sua cidade, os amigos, tudo que lhe ficara naquelle cantinho querido, tão longe! aonde, segundo lhe dizia o coração, nunca mais, nunca mais tornaria! E de espaço a espaço, esvahindo-se-lhe um aspecto, como se dissolve a projecção na tela, outro lhe succedia: agora a sua casa, depois uma estrada roceira, com milharaes além das cercas de espinheiros floridos, o rancho de sapé empennachado de fumo, ridente a trabalhar, alegre ; d epois a igreja na praça, a forja, a botica, a estação. De repente, com a idéa do exilio, alumiada pelas descripçÕes do veterano: extensos lençóes de arêa amarellenta, sem vestigio de herva, pântanos, pedregaes, rampas côr de sangue e, longe, em polvadeira de alvoroto, tribus de Índios amotinados em correrias sanguinárias. E a dois passos do melancólico visionário os mais soldados folgavam e divertiam-se.

O mulato, com o cachimbo nos beiços, os pés nús, estirado nas taboas sórdidas, resmungava ouvindo o veterano, sempre gárrulo, que, chafurdando as mãos na marmita de comida, contava episódios cómicos de uma borrasca em mares da Bahia, quando chegara com o seu batalhão para a guerra do sul. O Fabrício, nostálgico, sempre calado, chalrava a propósito do gado que ia a bordo, relatando as arriscadas corridas dos vaqueiros nos campos no Norte, no tempo das vaquejadas.

Elle, sósinho, arredado, meditava diante do mar sereno que vinha babar a amurada, e pelo qual o luar nascente estendia o seu clarão triste qu? alastrava as aguas abertO' em leque, como um istnmo de madrepérola tremula.

O navio vogava serenamente. Quasi todos dormiam. De pé á proa, apprehensivo e medroso, apenas havia o negro Samnel, tambor, sempre macambusio e preoccupado com os naufrágios, quando um mugido quebrou o_ silencio abafado.

Thadeu, que modorrava encolhido, agitou-se em sobresalto; soergueu-se sobre o cotovello, relanceando olhares que mal podiam vêr na sombra. Outro mugido mais longo reboou tristemente. Pôz-se de pé e adiantou-se para a amurada, lançando os olhos á noite como se quizesse descobrir, atravez da escuridão, a terra onde o gado errante chorava. Deviam ser caninos, várzeas verdes e extensas colmadas de rebanhos. Mas a treva densa era impenetrável á vista e além, no horizonte, brilhava o ceu estrellado'. Estrellas...?

Não seriam fogos de vigilia, d'essas fogueiras que os pastores accendem quando pernoitam nos descampados? Não, eram mesmo estrellas, não [Uivia O menor vestigio de terras : aguas e astros somente. Donde viria, pois, esse mugido? pensava, quando ouviu, de novo, mugir bem perto.

Só então lembrou-se do gado que ia a bordo, em jaulas. i£ra elle que gemia, saudoso das terras que deixara, da campina viçosa onde as manadas corriam fustigadas pelo sol, ou das planícies rasas, dos Íngremes outeiros, das margens dos rios frescas e sussurrantes.

Accendeu-se-lhe nalma o desejo bizarro de communicar com os animaes tristonhos, de levarIhes consolo ás prisões em que jaziam, olhando atravez das grades a negrura da proa, tão differente da vastidão em que haviam nascido, aspirando ab risa marinha, salitrada e áspera, sem o aroma que as silvas e as açucenas emprestam á viração das veigas.

Tentou alguns passos, mas havia tanta gente estirada pelo convez que, receando pisar alguém, deixou-se estar onde estava.

Por fim, cançado e influenciado, talvez, pelo contagio do somno de toda aquella multidão que dormia em pilhas, ali perto, uns com a cabeça sobre o peito de outros, cabidos desordenamente como mortos, encaminhou-se para a sua rede e deitouse. Ao mais leve rumor abria os olhos e ficava a ouvir o bufido dos bois insomnes que estendiam os focinhos, roçando as grades, farejando sôfregos o ar fresco da noite.

Quando surgiam em algum porto apinhavamse todos nas amuradas, olhando curiosos para a cidade longinqua, para as pequenas embarcações que deslisavam em torno do paquete, tripoladas por homens que falavam linguagem estranha, acenando, offerecendo frutos. E além a alvura do casario em amphitheatro ou em panorama raso, a perder de vista. E paquetes sahindo, outros entrando lentos, negros, cheios de gente, arquejando como se viessem cançados de longas travessias.

Mas quando começaram a subir as aguas do Paraná, por entre barrancas eriçadas de herva, d'onde saltavam, aos galões, maracajás que se arrojavam ao rio atravessando-o sob saraivadas de balas, e jacarés pasmados, sésteando ao sol, olhavam meneando as caudas, fug-indo logo que percebiam movimento a bordo, a tristeza foi desapparecendo vencida pelas surpresas e pelas narrativas do v eterano, em tomo do qual a soldadesca formigava, ouvindo-o falar da campanha.

Elle conhecia todos os sítios, e em cada um punha um episodio mais ou menos colorido pela sua imaginação de meridional. O forte Coimbra, Corrientes. . .

As barrancas vermelhas, que iam vendo, pareciam ainda ensopadas de sangue; a vegetação rara, tosquiada pela metralha esterilisadora, mirrada e t riste, levantava os galhos nus para o céu fulvo. Duas mulheres, de branco, com as cabeças cobertas, de pé na barranca, olhavam e gesticulavam. Tudo era triste e calado, apenas o chofrar das rodas do vapor, na agua adormecida do grande rio, quebrava a calma melancólica dessa quietude de eremiterio'. O veterano explicava.

Thadeu, posto que afastado, ouvia-lhe as palavras e, s em desviar os olhos da paizagem, viu imaginariamente todo o espectáculo da guerra:

Regimentos velozes precipitavam-se aeréamente, corriam entreverados e, súbito, diluiam-se como se se desfizessem no ar ; o utros vinham, bandeiras ao vento, em columnas cerradas e sumiam-se. O cén ensangnentava-se, a terra jorrava sangue.

Soaram cornetas. Thadeu voltou-se de repente. Os soldados ag^glomeravam-se, olhando ao longe, apontando. Casas de palha appareciam por entre a vegetação tolhiça das barrancas.

A tarde morria em crepúsculo de ouro. O occidente, purpurino e rútilo, era como immenso panno de xairel destacando-se vivamente do esmaecido azul já taxeado de estrellas, quando surgiu ao longe, no alto de um cerro, a torre esboroada de v elha igreja e mais em baixo, na rampa, entre capoeirÕes de matto hispido, appareceram lascas de muralhas, blocos enormes de granito rolados e c heios de limo e de hervas. O veterano acenou afflicto e uma onda de homens affluiu precipitadamente á proa :

— Olhem...! Estão vendo lá em cima aquella torre velha? é Humaytá.

— Humaytá ! sussurraram vozes e pairou silencioso pasmo. Persistia apenas o ruido das rodas do vapor que subia as aguas tranquillas entre margens selváticas, passando, ás vezes, junto de ilhas fluctuantes que desciam lentas, rolando, desag-gregada? da terra como se aquellas zonas, desfeitas e m utiladas pela guerra, fossem, pouco a pouco, apodrecendo e cahindo, até que, de todo , desapparecesse a pátria barbara e vencida.

Havia na serenidade da paizagem inexprimivel melancolia. Alto, no céu, lentos corvos circulavam ;n as margens piavam pássaros e ouvia-se uma voz longínqua que, de espaço a espaço, bradava na soledade. Uma cabana baixa, rente d'a,s;tia e diante d'ella esguia piroga repousava estirada na arêa.

Duas mulheres acocoradas, escondidas em chalés hrancos, como duas garças tristes, friorentas, olhavam o fluir constante da corrente. Um pequenote nú brandia uma vara e gritava. ■ — Paraguayòs . . . disse alguém.

As mulheres levantaram as cabeças embiocadas. Subitamente puzeram-se de pé e, descobrindo-se, sacudiram os chalés como grandes azas, acenando. De bordo corresponderam festivamente e gritos troaram das amuradas para a terra triste.

O rio torcia-se em curva. Viam-se distinctamente as margens desoladas, a costa do albardão de Andai vestida de matto e, em frente, a ruina da terrivel trincheira de Humaytá, outr'ora defendida ix>r mais de duzentos canhões, além das inaccfssiveis linhas de abatizes e de bocas de lobo. .

Dormiam em silencio á borda d'agua os escombros colossaes. A terra aluida, vincada, como se mostrasse as suas feridas, estendia-se muda e em sombras. Brocas enormes, como grandes cicatrizes no solo, afundavam-se muito negras. A vegetação rasa parecia polvilhada de cinza.

Ali fizera a sua concentração a flor do^ exercito de Lopes, no intuito de fechar a passagem ás forças brasileiras; d'ali, daquellas barrancas, a artilharia despejara sobre os navios que subiam as aguas a sua surriada continua. Aquellas voltas fluviaes, tão serenas então, haviam guardado insidias de torpedos; e correntes estendidas de margem a margem haviam tentado' em vão sustar a marcha triumphal da esquadra; a victoria levara-a aguas acima, apesar do ladrido reboante da matilha de bronze do dictador terrivel. E a essa hora nem viv'alma. A velha igreja desmantelada era o único indicio de vida, espécie de maroO' religioso deixado na melancolia e no ermo, para attestar a passagem de uma era de civilisação e de ízrnatismo, por esses lugares tomados pelas parietalias e pelas intrincadas moutas que avassalavam tudo, fechando as bocas das baterias, sepultando todo o heroismo extincto sob as folhas que os ventos espalhavam.

A noite cabia e o luar alumiou a solidão estendendo-se por ella como uma infinita mortalha.

A bordo, as cornetas soaram a Trinidades. Os ecos foram repetindo pela. solidão as notas melancólicas. Alguns soldados olharam instinctivamente para a velha igreja. Ella lá estava, muda e morta, em ossada branca, ao luar.

Desde quando emmudecera no campanário ennegrecido o sino que chamava á prece as povoações de r edor? Desde quando?! Calara-se no dia em que, junto dos seus muros, acamparam os soldados ferozes. A campana mystica voara em pedaços, soando no ar, como se gemesse, alcançada pela primeira bala.

E nunca mais se ouviu a voz santa da igreja, ali assim esquecida, de pé entre ruinas, morta com a serenidade extática de martyr.

Uma luzinha oscillou além e logo os soldados supersticiosos viram, naquella charnma peregrina, a alma errante de algum guerreiro antigo que procurava o eremitério do templo e mostravamna. Braços estendiam-se em direcção ao lume.

Passavam em frente á trincheira e, como se se tivesse communicado a todos a pesada tristeza do sitio, calaram-se e só ficou o barulho do vapor que subi?, cortando as aguas do rio chamalotado de luz.

E vieram as longas margens negras, abstrusas, cerradas. De vez em vez, verde e florido camalote passava ao sabor da corrente e mais nada, a não ser o eterno choro d' agua roçando pelas raizes das arvores ribeirinhas.

A soldadesca, sem mais curiosidade, logo que se perdeu na curva do rio a barranca de Humaytá, deixou as amuradas desertas. Ficaram Thadeu e Fa]>ricio olhando entretidamente.

— Não ha gente nesta terra... Parece que a guerra comeu tudo, observou Fa])ricio. Uma cabana aqui, outra além e matto. Matto que Deus manda!

— É triste!

— E o lugar onde morreu o Lopes? Onde é?

— Não sei ; por ahi ! E Thadeu mostrou a vastidão profunda das terras além, brancas de névoa, ao luar.

— Iche! Que tapera! exclamou Fabricio retirando-se e, em assomo de patriotismo, sacudindo a cabeça, ajuntou com ironia: Ahn! quem mandou ? Quem não pode co'o tempo' não inventa moda... Buliram... Tá hi.

Mas Thadeu, como se resumisse nalma toda a piedade e toda a misericórdia pelos vencidos, exprobrou O' camarada:

— Ah ! Fabricio, não fales assim. Coitados !

Deixa lá !... 'jup

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Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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