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Capítulo 24 · Miragem

Terceira parte VI

24 de 24 ≈ 15 min de leitura

A luz baça da manihan nevoenta desempastava á paizag"em: as arvoíres appareciam acotonadas de névoa, surgiam muros brancos, telhados, cercas. Aves percorriam enviezadamente o espiço ás tontas. A estrada acordava com a ohiadeira lenta dos carros de bois.

Os dois homens, sentados frente a frente, á medida que clareava, vianvse melhor, analysando-se á socapa. Nazario, queimado das isoalheiras, com a pejle coriacea, crestada em estrias, os cabellos brancos sujos, a barba amarellenta como palha seoca, tinha os olhos torpidos, raiados de sangue como pqrcellana estalada, a boca, esmoendo sem descontinuar, fazia ondular a barba lo-nga. Thadeii livido, mirracio, com a cabeça enterrada nos nombros estreitos, o pescoço folheado a gelhas, respirava cançado, abrindo a boca em ânsia.

O cheiro fresco da terra impregnava doceliiente o ar húmido.

Olhando-se, os dois homens retrahiam-se, disfarçando ai mpressão de tristeza que, reciprocamente, recebiam.

Thadeu accenden um cigarro, tragou a fumaça, bufando-a logo em suffocaçao afflicta, aos arquejos, engasgado, com a tosse a cstrangulal-o.

Levantou-se presto, angustiado, com o peito em fogo, papejando, d' olhos saltados, como em espanto. Engrulon e, súbito, a jorro, o sangue expluiu-lhe da boca, negro e grosso, como se lhe houvesse estourado uma artéria, extravasando a jactos.

O ferrador poz-se de pé atarantado, agarrouIhe a cabeça, attrahiu-o a si encostando-o carinhosamente ao peito, a chamal-o em tom meigo e compassivo :

— ^ó filho... Que é isto? Que é isto? Eu não te dizia? Teimaste... Eu bem te dizia... Ora ahi tens. Valha-te Deus!

Quiz sental-o. Thadeu oppoz-se gemendo angustiado. E o ferrador sentia-o alquebrado, amol • lecido, dobrando-se nos joelhos, com a cabeça . tombada ao peito, o sangue espichando-se-lhe do | canto da boca em fio glúteo. Cuspilhava passando I O braço de raspão nos lábios, aos vagados, rolando languidamente os olhos soffredores.

— Que te dizia eu ? Encosta-te a mim. E o velho mirava-o consternado, sentindo-o acabar e, vendo-o fechar os olhos em delíquio, chamou-o afflicto, sacudindo-o aterrado:

— O'...! O'...! Eh! rapaz...! Que é isso?

Uma voz cantava alegremente na estrada. Quiz bradar a soccorro, mas Thadeu reanimou-se aspirando um hausto largo. Passou, anh?! Sentate. O sol brando rebrilhava nas folhas dos carrapateiros, onde as gottas de orvalho scintillavam diamantinas. Era a luz, a força que renascia.

— Vais melhorar, animou-o o ferrador. Vais melhorar. Está ahi o sol. Aquecendo, melhoras.

Vá, deita-te um pouco; dfescança. Eu disse-te...

Thadeu recostou-se de recovo, com o busto quasi a prumo, as pernas estendidas. Doe-te o peito?

Elle fez um esgar respirando a curto fôlego. Descança. Precisas ter cuidado comtigo, rapaz. Abusas. De novo a tosse violentou-o; novo frouxo golfou exH escoo. O ferrador inclinou-se, dizendo-lhe piedosamente, como em segrede:

— Olha, queres um conselho ? Isto assim não está direito. Não ha aqui nada, nem isto é lugar para doente. O melhor é irmos por ahi devagarinho, até á Misericórdia. Isto, em havendo cuidado, não tem perigo, é como uríi resfriado á tôa que se cura com sabugueiro e lan, mas, aqui assim, ao tempo, não! Ficas lá uns dias, curas-te e estí acalmado O que não podes é continuar assim.

Ollia, eu, quando sinto a machina desarranjaida, não estou com uina nem com duas: vouHme por ahi acima, metto-me lá dentro uns dias e saio lampeiro que é um gosto. Vê lá se podes caminhar. Vamos devagarinho, pões o meu casacão para que se não veja o sangue que te cahiu no peito e está prompto. Vou ao Dr. Lucindo, peçoIhe a ordem e está feito. Então?

Sem responder, Thadeu levantoti-se, apoiando-se ao ferrador, aceitou-lhe o casacão e lá se foram os dois, lentamente, pela estrada cheia de sol.

O céu desviendava-se do nevoeiro apparecendo todo azul e lustroso.

— Has-de ir buscar o meu bahu ao hotel, disse Thadeu a Nazario. Não sei quanto devo. Toma, tem paciência, e deu-lhe uma nota. O ferrador sentiu-se humilliado e, esmagando a cédula, com vexame, (rescul[X)'U-se atarantado:

— Olha, filho, se eu estivesse ganhando... em fim. Vou, podes ficar tranquillo'. Se te aceito o dinheiro é... tu sabes... Não tenho, ando assim, e, atafulhando as mãos nos bolsos, sacou-lhes os forros rotos, mostrando-os. Se eu tivesse...

— O ra, Nazario . . . !

— Pois é... Descança. O bahú lá irá ter com o mais. O principal agora é a saúde.

Quando chegaram ao largo a locomotiva da Vassourense manobrava reboando soturna. O foguista, um crioulo, reconhecendo Nazario, agachou-se entre a leniha, no tender, bradando: «Pelegiiêto!» O ferrador sorriu, dizendo a Thadeii:

— Estás ouvindo o moleque? É oommigo. É como agora me chamam.

— Que quer dizer?

— Sei lá! Outros gritos partiram da estação: «Peleguêto! Pau d' agua!»

— É tudo, até as meninas, quando me vêm. Eu acho-lhes graça, coitadinhas. Sabem lá o que dizem! Não é por mal. Gritam,-me o tal nome e acabam offeirecendo-me comida e roupa. Sabem lá o que dizem!

Mas uma i>edra cahiu entre os dois, levantando poeira e um piequenito, em fraldas de camisa, descalço, fugiu mettendo-se no corredor de uma casa, a gritar: «Pelegiuê... !»

— Olha o pirralho, nem falar sabe... Da porta de uwia venda um typo gordalhufo acenou de cabeça ao ferrador.

— Bom dia I respondeu Nazario e, baixinho, a Thadeu: Lembras-te? É o Máximo. Dizem que está rico. Como foi isso, não sei. Milagre...

Iam chegando á ma Bonita quando Thadeu estacou de repente levando a mão á boca sem, todavia, conter a tosse, que espoucou violenta, rouca, engrolada. Nazario susteve-o, vendo-lhe, porém, os lábios ensanguentados, meneou com a cabeça desanimado, os olhos rasos d'agua, e, em voz tremula, murmurou:

— Vamos. Falta pouco. Eu bem te disse...

Teimaste. Anda, encosta-te a mim. E foram ladeira acima.

Abriam as janellas da Camará. No jardim fronteiro, chilreante de passarinhos, brincavam crianças. Por toda a p,arte estridulava a chiadeira das cigarras.

Um velho, em mangas de camisa, olhos empapuçados de somno, bocejava refestelado no banco, á entrada da Misericórdia. Nazario tirou-o da preguiça:

— Bom dia, senhor Sylvestre. O Dr. Lucindo já está?

— O Dr. Lucindo a esta hora? Onde tens tu a cabeça? Já a deixaste por ahi em alguma, venda ?

O ferrador sorriu, explicando :

— Não, senhor. E baixinho : É que este rapaz está a deitar sangue pela boca. Peço-lhe que o deixe ficar aqui um instante emquanto vou ao Dr. Lucindo buscar a ordem. EUe mal se aguenta em pé, Sylvestre lançou um olhar indif ferente a Thadeu e, encolhendo os hombros :

— Pois que espere.

— Vou num pulo ! d isse Nazario e partiu, a largas pernadas, ladeira abaixo.

— Sente-se, homem, tem ahi banco, disse Sylvestre aT hadeu. O rapaz sentou-se na soleira da porta, arquejando.

— Você não é d'aqui, hein ? Thadeu acenou de cabeça affii*mativamente.

— De onde ?

Não respondeu. Descahindo sobre a ombreira quedou immovel, d'olhos no ceu radioso. Nazario reappareceu pouco depois esbaforido, suado, corn a ordfm do medico^ dando-a a Sylvestre, que a examinou, perguntando :

— Como se chama ?

— Thadeu Fogaça, respondeu Nazario. Ê filho do Manuel do Madruga. Lembra-se? Aquelít que morreu do desastre.

Sylvestre arregalou os olhos espantado:

— Mas não era soldado ? !

— Deu baixa.

— Ah ! exclamou o velhote e, levantando-se, balordo, convidou :

— Vamos.

— O pai fez muito aqui pela casa, disse Nazario ajudando Thadeu a levantar-se; e animott-o:

Agora estás bem. Isto é coisa para uns dias. E rindo, encarado em Sylvestre: Eu cá, já se sabe: quando as coisas, cá por dentro, me sahem dos eixos, metto-me aqui e engordo que é um goòto.

Isto é a minha ceva. Vai. Vou vêr o bahú. VI lá se queres mais alguma coisa.

— Vem vêr-me...

— Hei de vir, como não ? Vai com Deus. R fuma pouco, han! O cigarro é que te provoca St tosse. E dirigindo-se ao velho, já impaciente: Pas- 33^ MIRAGEM SOU toda a noite ao relento e res£riou-se. Resfriado é q uie elle está. Vai.

Thadeu abraçou-o, dÍ2:endo-lhe em segredo:

— Se ^àres mamai dize-lhe que estou aqui.

— Queres ?

— Sim, para que me abençoe, ao menos, antes de morrer.

— Morrer! Qual morrer! Deixa-te d'isso. Se fosse a primeira vez... Foste sempre assim, desdje pequeno. Isso em ti é como o .rheumatismo em mim . . .

— Bem, vamos! disse Sylvestne. Abraçaramse. E Thadeu seguiu, ainda voltou-se da porta e deisappareceu. Nazario ouviu-lhe a tosse caivernosa e murmurou com pena :

— Pobre rapaz! Qual...! E, enrolando um cigarro, sahiu preoccupado, desceu lentamente a ladeira, ao sol, gesticulando á tôa. «Peleguêto!» gritaram por traz da janella de um sobrado. E elle, sem levantar a cabeça, resmungou :

— Ah! Peleguêto...! Tivessem vocês o coração como eu tenho o meu e não estariam ahi a gritar baboseiras. Peleguêto...

O largo da Matriz rumorejava, á laia de feira, com taboleiros de doces illuminados a lanternas, cestos de frutas, bandejas de cálices de geléas, ligellinhas e pires de arroz doce é cangiquinha.

Quitandeiras conihecidas não se fatigavam em a/pregfoar aguardando a fregiiezia certa, sentadas em tamlx)retes, cavaqueando tranquillamente ; o iu tras, de quando em quando, lançavam giiinclios de chamariz nomeando famílias celebres nisto ou naquillo: umas pelos bons bocados e queijadinhas, outras pelo manjar ou pelas balas de ovo.

Negrinhas, de cabellos refoufinhos, pichosas no trajo, de avental e chinellas de bico, rondavam o adro com bandejas enfeitadas de rendas, mais preoccupadas com a pacholice do que com a merca qiue levavam. E um negralhao, curvado sobre ton tambor entalado lentre as pernas, batuca va-o d'espalnio, cantarolando em vozes barbaras, a attrahir gente para o seu taboleiro.

Affluiam levas: famílias galeando á moda, faiscando em jóias; grupos die roceiros ás cascalhadas ou em falario alegre, muito novelleiros e indagadores da vida uns dos outros. Abraços aqui, apertos de mão acolá, chacotas, pimponioes.

Homens, em mangas de camisa, paletó ao hombro, cajado em punho, velhas de bioco, pobres esmolando. Crianças corriam com alarido, ás negaças no tempo será ou pasmando diante dais guloseimas, de d edo na boca, em adoração basbaque.

O sino começou a dobrar festivo. A multidão correu tumultuosamente para a igreja quando appareceram, todas de branco, duas a duas, as meninas do Collegio Patrocínio, que cantavam no coro e, logo em seguida, os alumnos do Collagio Alberto Brandão, marchando aos chaque-chaques, com os inspectores ao lado, rígidos.

O luar abria-se devagarinho prateando as figueiras que se estendiam em alameda até o cemitério. Docemente soaram os primeiros accordes do harmonium e vozes frescas timbraram o cântico hyperdu/lico. Cessou instantaneamente o rumor no largo.

Ladeira acima, vag^aroso, macambusio, Nazario caminhava ver^ando-se sobre os joelhos, indifferente á molecada que o perseguia: «Pèléguêto ! P au d'agua !» Ao defrontar a Matriz tirou o chapéu, detendo-se um instante, a olhar devotamente a p ortaria juncada de folhagem. Persignou-se dobrando-se em mesura e proseguiu a passo lento.

Á medida que se aproximava da Misericórdia o coração apertava-se-lhe, enchia-se-lhe de presagios. Em um dos bancos do vestíbulo, escassamente alumiado, dois convalescentes, de lenço á cabeça, conversavam baixinho. Nazario passou por dles como se os não visse, foi direito á porta e bateu.

Pigarrearam dentro e o velho Sylvestre appareceu de gorro, abotoando a gola do casacão de saragoça, perguntando die mau humor:

— Quem é ?

— Sou eu, senhor Sylvestre. Nazario.

— Ahn ! Q ue ha ?

— Vinha saber do rapaz...

— Ah! o rapaz... Já o trouxeste morto e ainda perguntas...

— Como morto ! exclamou o ferrador aturdido.

— Como! Ora essa... Aquillo estava que nem pipa sem torno, a vasar sangue que não havia terIhe mão. Veiu uma golfada maior... Nem teve tempo de esquentar a cama. Thysico. O Doutor, mal o viu, disse logo que elle não chegava á noite.

A farda comeu-lhe os pulmões, a farda ou lá o que foi.

Nazario olhava emparvecido. De repente, lembrando-se :

— E o bahú que eu cá trouxe, e o mais...?

— O bahú?! O bahú e um dinheiro...? Não os viu. Já tinha acabado quando cá chegaram.

Está tudo ahi...

— E elle não disse nada, senhor Sylvestre?

— A mim ? Não. E elle podia lá falar com aquella sangueira... ! Nazario baixou a cabeça, ficou um momento calado, a anediar a barba; por fim disse em voz tremula, baixinho:

— Se o senhor desse licença... Era um instantinho... só v êl-o, coitado!

— Agora ? Agora não é possivel. Amanhan. ;-. V êl-o para que? Nunca viste um defunto? Tudo [i^é um... E, com olhar malicioso, em tom gaiato, commentou risoho : U hm ! Q uerem vêr, maganão, que já andavas lá pela casa antes do Carrilho?!

Que diabo de interesse tens tu por esse rapaz?

Isso só de pai p'ra filho, só apego de carne e sangue...

— Não, senhor, contraiveiu ^gravemente o ferrador, VÍ!-o pequeno, criou-se com o meu. Eu era muito do pai. Éramos -da mesma gándara, senhor Syl^^estre. Rapazitos, comemos juntos a broa e o queijo, levávamos o gado ao mesmo monte, recolhiamol-o á mesma curriça. Amigos, mas amigos! senhor Sylvestre... amigos como já os não ha, entende o senhor? Como já os não ha...

O velhote commoveu-se com as palavras simples do ferrador e, batenido41ie no hombro, disse-lhe :

— Pois Siim . . . Mas eu não posso ir contra as ordens. Tu conheces a casa. Amanhan.

— Sim, senhor. Cá estarei. E obrigado, senhor Sylvestre. Deus lhe dê bôa noite.

Sahiu acabrunhado. Pesavam-lhe os pés e todo O' corpo como que se desfazia fundido em aingT-istia. Por vezes, tremulamente, os joelhos se lhe vergavam, flácidos. Aprumou o busto, respirou largo, olhando o ceu luminoso. Ao chegar diante da Matriz o cântico attrahiu-o. As vozes pareciam vir brandamente do ceu, como o luar: eram o som beato da luz, o hymno da noite cantdida consagrada a Maria Virgem.

Subiu timido os degraus e penetrou na harmonia mystica. Chegou-se á pia, mOlhou, de leve, os dedos negros, aspergiu^se, mas os joelhos dobraranvse-lhe de repente e teve de amparar-se para não cahir.

O cântico crescia em triumpho enchendo a igreja, rompendo' gloriosamente para a noite clara. Os sinos repicaram.

Elle passou o paravento achando-se em plena nave, vendo o altar-mór ao fundo, florido e craAejado de luzes e todos os outros resplandecendo na exaltação da Virgem.

Vivo clarão de raio passou-lhe fulguro nos olhos; o coração cresceu4he enorme no peito, sentiu-o de&raigar-se, subir-lhe á boca... Faltou-lhe de todo o ar. Cahiu de joelhos, pasmado, d'olhos muito abertos, fitos no altar que deslumbrava. Queria rezar c airava oppresso, em angustia. Súbito abriu-se-lhe larga a respiração ansiosa e tudo, instantaneamente, lhe pareceu mais amplo e i lluminado, refulgindo em esplendor alvo, como o luar e, dentro da luz, radiosamente, a imagem da Virgem sorria-lhe, viva, entre nuvens que lhe ondulavam aos pés, cercada de pequeninos anjos esvoaçantes. E eram elles que enchiam a igreja d'aquella musica e d'aquelle perfume celestial.

Olhava absorto e pareceu^lhe vêr, pairando no ar, os dois mortos: Damião e Thadeu. Poz-se a tremer, esgazeado, a balbuciar. De repente atirou-se de joelhos, mãos postas com fervor devoto, lagrimas rolando-lhe em fios pelo rosto.

Uma velha beata, ao vêl-o naquella attitude, a resmungar por entre soluços, revoltou-se contra a impiedade, afastando-se escrupulosamente, com asco, do imn.undo que profanava, cora tamanha bebedeira, a Casa do Senhor.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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