Universo da obra
Universo da obra
Chegaram á Corte em Setembro, alojando-se no quartel do morro de Santo António.
Thadeu, que se resfriara na viagem, queixava-se de dores no peito. Não podia dormir com a tosse angustiosa, passando as noites em claro, apiançado, a rolar na barra, pensando em Maria Bárbara, com saudades de tudo que deixara, não só da chinóca, como da cidade, certos cantinhos, o rio, á beira do qual as mulheres se juntavam batendo roupa, casas conhecidas, o armazém onde passava horas jogando a bisca.
A capital atordoava-o.
Quando sahia, em vez de acompanhar os camaradas nas troças nocturnas, em ruas devassas de meretrício e tavolagem, tomava um bonde de 7 arrabalde oii ia para os jardins, numa necessidade de isolamento e silencio. Sentando-se nos bancos mais eícondidos deixava-se ficar fumando, a recordar os dias felizes, ora em Vassouras, ora em Corumbá, no convivio da familia ou no aconchego amoroso d'aquella casa onde outro, de certo, o substituirá.
Pensava em escrever chamando Maria Barbara. Viveriam juntos, trabalhando, com o filho crescendo entre elles. Logo, porém, medindo os seus recursos, a miséria que tinha como soldado, reconhecia a impossibilidade de realisar aquelle sonho.
Pobresinha! Para que? pensava, para soffrer, como tantas outras que acabavam na rotula, passando de m ão em mão, até rolarem na cadeia ou na Misericórdia, quando não picadas a faca, como uma cearense que conhecera. Não!
Lá, ao menos, a coitada tinha a sua casa; fazia para viver e vivia tranquilla com a sua velha mãi.
Comprava bilhetes de loteria fazendo planos arrojados com a sorte grande. Mandaria, então. buscá-la, com a inidia. e iriam para Vassouras, lá para os lados da Lagoa, numa rocinha e, se a mãi não se oppuzesse, casaria com a chinóca e, juntando-se á famJiia, faria resoirgir o lar antigo, com mais encanto, faltando apenas, para completa ventura, a presença do velho.
Elle, sim! Elle é que havia de querer bem ao MIRAGEM Í9S pequeno, seu primeiro neto! E sorria na sonho.
Mas tudo era sonho... Uma tarde, subindo a rua 7 de Setembro, ouviu toques de clarim e logo avistou os batedores do imperador, que rompiam do Largo do Rocio, a galope, com estridente clangor.
A berlinda aproximava-se, passou pesada, rangendo, com os moços de taboa muito firmes e elle viu, de relance, o velho monarcha dormitando inclinado sobre as barbas brancas. L-embrou-se, então, das conversas que ouvira em Corumbá, das ameaças e dos juramentos dos officiaes e teve jjena do ancião.
Parecia tão bom, coitado ! Qual ! não acreditava que alguém ousasse attentar contra elle. O exercito sahiiia em massa a defendel-o, a marinha, o povo... E, voltando-se e vendo os transeuntes descobrirem-se respeitosamente, sentju-se alliviado. ((Não vê! Não vê que o povo deixa...
Um homem tão bom...»
Á noite, encontrando-se com Fabricio no Passeio Publico, depois de tomarem cerveja, ouvindo a b anda dos allemães, foram para o terraço, debruçaram-se á balaustrada, olhando o mar, cujas ondas chofravam em baixo, esfrolando-se nas pedras.
Referindo-se á impressão que tivera vendo o' imperador, perguntou ao maranhense:
— Você que diz ?
— Ku ? Isso é prosa só, você não vê logo ? Não vê que ha ahi quem se atreva a tocar no imperador? Isso virava tudo duma vez. Então é que se fechava o teiiipo mesmo. Prosa! Olha, eu não tenho partido, nunca tive, netn quero, mas se me mandassem contra elle, não ia, isso não ia mesmo, juro por Deus! Era mais fácil morrer.
O maranhense falava do monarcha com respeito supersticioso, como se se referisse a um ente sobrenatural.
— A primeira vez que eu vi elle, logo que cheguei do N orte, fiquei que você não imagina. Um medo que não te digo nada. Olhei bem, bem, e aquelie velho alto — que elle é alto que é damnado, você já reparou ? — com aquellas barbas de santo, caminhando em passo de procissão... Não sei. Prosa! Você que pensa? Manda o cadete chegar perto delle que você ha de vêr. Valentia de boca não custa, é espuma só. A gente sopra, cahe tudo.
Andaram á gandaia e Fabricio, que conhecia umas raparigas na rua do Regente, arrastou Thadeu ao alcouce, apresentando-o a uma pernambucana, muliíeraça desenvolta, que o recebeu de cigarro á boca, mirando-o d'alto. Mandaram vir cerveja da venda.
A casa tresandava aborrecidamente á herva, e, volta e meia, rinchavelhavam cachinadas nos fundos e vozes alegres galravam em calaçaria. A pernambucana chamou esganiçadamente: «Ignez!» e, instantes depois, appareceu na sala. em mangas de camisa e saia branca, arrastando chinelas, uma cabrocha escanifrada, meio ébria, falando salivosamente, com uma ponta de cigarro nos beiços molles. Fabricio atirou-lhe uma palmada á ilharga, ella desnalgou-se em meneios de caix>eira e, apontando-lhe a mão ao rosto, atiroulhe, em negaça, um golpe aO' ventre, que o maranhense rebateu, saltando. Riram.
Thadeu sentia-se mal, vexado e, apanhando o boné, desípediu-se. A pernambuca,na olhou-o com descaso, e, dizendo uma obscenidade, escancellouse em gargalhada cynica.. EUe sahiu, apezar da insinuação de Fabricio : aQue aquillo era fazer feio.»
Toda a rua era uma alcoceifa. Mulheres, debruçadas ás r otulas, conversavam com a malandragem frasearia; outras corriam pela calçada, com risos estridentes estralando chinellas. Via-se o interior das casas alumiadas a kerozene, onde as marafonas, muito descomipostas, cantavam derreadas nos sofás pannejados de crochet ou embalavam-se mollemente, em cadeiras de balanço, mostrando as pernas. Um violão soava melancólico. ..:. fçA Thadeu atravessou a rua, sem voltar-se ao chamado das mulheres que estendiam a mão para agarral-o, e foi-se para o quartel, enojado do que vira e saudoso da que deixara lá longe, tão linda ! tão meiga! tão differente d'aquellas biraias. . H avia alguma coisa no ar. Fervilliavam boatos os mais absuriios, corriam as mais extravagantes atoardas. Dizia-se, á boca pequena, que no Arsenal de Guerra, accumulavam-se munições, que toda a esquadra, de fogos abafados, estava apercebida para operar á primeira ordem.
Volta e meia surgia um consta, a principio cochichado a m edo, logo depois commeiítado ás escancaras, com aífirmaçÔes seguras — movimentos de insubordinação nas provincias: revolta de bataliiões que, depois de haverem incendiado os quartéis, assassinado os ofíiciaes, sabiam amotinadamente para as ruas atirando a esmo; prisões de generaes e de políticos suspeitO'S á coroa; vareiamentO' de casas...
Os sargentos confabulavam pelos cantos, liam joinaes sediciosos.
De repente rompeu no quartel a noticia de que o batalhão ia embarcar para o Norte. Foi um alvoroço indignado. Os mais exaltados protestaram contra a «torpe vingança». Coivardia! bradavam. Governo de covardes! Os tímidos, encostados ás paredes, aos dois e aos três, suspiravam resignados. «Que haviam de fazer?!» Á tarde já se affirmava que o governo mandara aprestar um paquete para transportar as tropas.
O sargento Saboya, sempre informado e palreiro, attribuia a infâmia á denuncia mandada ao miragdm 199 Ministro da Guerra por certo negociante de Corumbá :
— Quando eu dizia que tivessem cuidado com aquelle canalha... Aquillo é boi sonso. A mim elle nunca encanou. Mas essa gente, não! dizia tudo diante delle. tudo! Está ahi. É bem feito!
Agora é que vocês vão ver o bonito. Amazonas não é Matto-Grosso. Ali é no duro! Eu dizia...
E recordava factos : V ocês não se lembram quando o T anajura pegou o boliviano? Quem denunciou? o «boi sonso». Pois foi elle mesmo que escreveu ao M inistro da Guerra contando as conversas d'esses bobos. Um a um iam tod'os fugindo á r esponsabilidade da indiscrição.
— Olhe, da minha boca elle nunca ouviu palavra.
— Nem de mim.
— D€ mim é que elle não tem que dizer, porque nunca puz pá naquella quitanda. Embirrava até com o diabo, maJ encarado, cheio de empáfia... »
A noite, no alojamento, a discussão acaloravase, era necessário que o «plantão» interviesse para impor silencio.
Uma tarde Fabricio chamou Thadeu mysteriosamente pedindo que lhe dissesse «que havia de verdade naquillo tudo.»
— Sei lá!
— Não, rapaz. Ahi anda coisa... e coisa séria...!
— Porque?
— Já me falaram. Eu estava, outro dia, ali fora, matutando na minha vida, quando o cadete Fernandes, com aquelles modos estabanados que elle tem, que até parece mulúco, me perguntou «se eu sabia da coisa?» «Que coisa, seu cadete?» «Essa historia que anda por ahi...» Eu disse que não. Elle me olhou duro, roendo as unhas e, niima fúria de fazer medo, contou tudo. Olha, Thadeu, parece que elles querem mesmo dar cabo do imperador. Tem g-ente grande mettida no negocio. Não é coisa de piagagern, não; não pense você. O caso é sério! Eu não sei... estou assim...
Se a gente diz que sim e a coisa dá em droga, fica um homem nas embiras para o resto da vida. Se diz que não, é o diabo ! Você que acha, hein?
— Sei lá ! Pensou um momento e disse, por fim, com segurança: Eu, contra o imperador não atiro, isso nem que me matem.
— Nem. eu ! c oncordou o maranhense. Deus me livre !
— Pois então?! Fabrício ficou enleado, rascando nervosamente a nuca, a unhadas, repuxando o b eiço, pensativo. De repente em rompante, encarando o amigo, declarou:
— Olha, você quer saber imia coisa? Eu, se vir essa historia mal parada, ganho o mundo, aconteça o que acontecer. Besta é quem se mette em embrulhos d'esses. Puzeram-se a andar pelo MIRAGKM aOI morro. A tarde enlanguecia. A cidade, em baixo, com o casario apinhado, coruscava em scintillações diamantinas ao radiar do sol nas vidraças e clara-boias.
Pelas ruas estreitas deslisavam surdamente miniaturas de vehiculos e vultos tacanhos, morosos como pequeninos autómatos. Nos quintaes murados peças de roupa pannejavam em cordas ou forravam o chão em manchas, como de luar.
Aqui, ali tufavam verduras densas e altas por entre as quaes, sinuosamente, reticulavam trilhos.
Torres hirtas espetavam o ceu e, ao longe, largo e liso, o mar, ainda incendido, era imia lamina espelhante.
Ladeira acima, lentamente, erectas como figuras bíblicas, caminhavam mulheres maltrapilhas, com latas de kerozene á cabeça das quaes, ás vezes, golfavam esparrimos d'agua que ellas sacudiam das mãos.
Um.a crioula tronchuda, toda em refegos de banha flaccida, espapava-se á porta d' um casebre de taboas, coberto de zinco, descascando amendoim numa peneira que tinha ao collo. Perto uma cabra, com uma forquilha ao pescoço, arrancava aos berros, tentando escapar á corda que a prendia.
Os rumores contínuos da cidade, coados pela distancia, chegavam á altura em marulho cavo como a resonancia sotuiTia de enorme concha.
Fabrício parou á beira da barranca, accendcti um cigarro e, falando intercadentemente, a puxar fumaças, disse ao companheiro : L á na minha terra, rapaz, no meu Norte, não ha caboclo que não queira bem ao imperador, A primeira vez que eu vi o^ retrato delle foi no sitio de um tio meu e sabe onde? no meio dos santos. Todo o mundo fala bem delle. E aqui é assim... Eu até tenho medo de pensar, palavra!... Se, por minha desgraça, eu losse obrigado a fazer aigiima coisa a esse homem... icha!
— E você acredita que haja alguém capaz de atirar no imperador?
— iiomem, eu sei!? Politica é o diabo! Mas olha aqui uma coisa, Thadeu. EUe devia ser mais duro, você não acha? é perrengue de mais. Dizem que não faz nada, que vive lendo. Quem faz tudo é a princesa. Será mesmo ? S e não é, p arece. E, revoltado, vibrante: Pois então elle não tem força para dizer «não!» a essa cambada? Não é elle que manda ? Se os taes fazem essas coisas é porque elle deixa. Pois se é assim, meu amigo, que aguente. Também não é só atirar um infeliz, como eu e você, por esse mundo de Deus, aos trambolhões, hoje a qui, ámanhan ali. Não é direito, não, isso não! tenha santa paciência...
— Está velho, coitado ! lamentou Thadeu compassivamente.
— Qual velho, qual nada ! Pois se está velho vá-se embora e chame outro para governar. Thadeu encarou o maranhense e disse sorrindo:
— Homem, você é um virafolha. Fabrício, ora diz uma coisa, ora outra...
— Virafolha, não. Digo o que é. Fazer mal a elle. isso não faço, mas asrora acompanhar o Terço desses que andam por ahi enchendo a boca com baboseiras : «Que nâo ha outro como elle, que é o primeiro imperador do mundo, pai da pobreza» e não sei que mais, isso não ! Matto Grosso ainda está aqui, sabe? não passa assim: está aqui! e esmurraçoti o peito.
Um dobre languido ondulou morosamente no ar', outro respondeu mais perto, sonoro e jurava.
Eram os sinos das torres, vio-ilias da cidade, que mandavam, em vozes relig^iosas, o adeus saudoso ao dia. Soaram cornetas, rufaram tambores. A luz tomava-se branda, diluída como olhar velado de somno. Pombos atravessavam os ares ennevoados.
De repente todo o ceu empallideceu ; nuvens estriadas de ouro, que ainda rutilavam, foram desm.aíando. Descia a noite calada. Aqui, ali, na confusão da cidade escurecida, explodiam bolhas de luz.
Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.