Primeiro Ato - Cena II
(Entra Florência vestida de preto, como quem vai à festa.)
FLORÊNCIA -
Entrando
Ainda despido, Ambrósio?
AMBRÓSIO - É cedo
(Vendo o relógio)
São nove horas e o ofício de Ramos principia às dez e meia.
FLORÊNCIA - É preciso ir mais cedo para tomarmos lugar.
AMBRÓSIO - Para tudo há tempo. Ora, dize-me, minha bela Florência...
FLORÊNCIA - O que, meu Ambrosinho?
AMBRÓSIO - O que pensa tua filha do nosso projeto?
FLORÊNCIA - O que pensa não sei eu, nem disso se me dá; quero eu - e basta. E é seu dever
obedecer.
AMBRÓSIO - Assim é; estimo que tenhas caráter enérgico.
FLORÊNCIA - Energia tenho eu.
AMBRÓSIO - E atrativos, feiticeira...
FLORÊNCIA- Ai, amorzinho!
(à parte: )
Que marido!
AMBRÓSIO - Escuta-me, Florência, e dá-me atenção. Crê que ponho todo o meu pensamento
em fazer-te feliz...
FLORÊNCIA - Toda eu sou atenção.
AMBRÓSIO - Dois filhos te ficaram do teu primeiro matrimônio. Teu marido foi um digno
homem e de muito juízo; deixou-te herdeira de avultado cabedal. Grande mérito é esse...
FLORÊNCIA - Pobre homem!
AMBRÓSIO - Quando eu te vi pela primeira vez não sabia que eras viúva rica.
( à parte: )
Se o sabia!
(Alto: )
Amei-te por simpatia.
FLORÊNCIA - Sei disso, vidinha.
AMBRÓSIO - E não foi o interesse que obrigou-me a casar contigo.
FLORÊNCIA - Foi o amor que nos uniu.
AMBRÓSIO - Foi, foi, mas agora que me acho casado contigo, é de meu dever zelar essa
fortuna que sempre desprezei.
FLORÊNCIA -
( à parte)
Que marido!
AMBRÓSIO-
(à parte)
Que tola!
(Alto:)
Até o presente tens gozado desta fortuna em plena liberdade e a teu bel-prazer; mas daqui em
diante, talvez assim não seja.
FLORÊNCIA - E por quê?
AMBRÓSIO - Tua filha está moça e em estado de casar-se. Casar-se-á, e terás um genro que
exigirá a legítima de sua mulher, e desse dia, principiarão as amofinações para ti, e
intermináveis demandas . Bem sabes que ainda não fizestes inventário.
FLORÊNCIA - Não tenho tido tempo, e custa-me tanto aturar procuradores!
AMBRÓSIO - Teu filho também vai crescer todos os dias e será preciso por fim dar-lhe a sua
legítima... Novas demandas
AMBRÓSIO- É o que eu também digo: mas como prevení-las
FLORÊNCIA - Faze o que entenderes, meu amorzinho.
AMBRÓSIO - Eu já te disse há mais de três meses o que era preciso fazermos para atalhar
esse mal. Amas a tua filha, o que é muito natural, mas amas ainda mais a ti mesma...
FLORÊNCIA - O que também é muito natural...
AMBRÓSIO - Que dúvida! E eu julgo que podes conciliar esses dois pontos, fazendo Emília
professar em um convento. Sim, que seja freira. Não terás nesse caso de dar legítima alguma,
apenas um insignificante dote - e farás ação meritória.
FLORÊNCIA - Coitadinha! Sempre tenho pena dela; o convento é tão triste!
AMBRÓSIO - É essa compaixão mal-entendida! O que é este mundo? Um pélago de enganos
e traições, um escolho em naufragam a felicidade e as doces ilusões da vida. E o que é o
convento? Porto de salvação e ventura, asilo da virtude, único abrigo da inocência e
verdadeira felicidade... E deve uma mãe carinhosa hesitar na escolha entre o mundo e o
convento?
FLORÊNCIA - Não, por certo...
AMBRÓSIO - A mocidade é inexperiente, não sabe o que lhe convém. Tua filha
lamentar-se-á, chorará desesperada, não importa; obriga-a e daí tempo ao tempo. Depois que
estiver no convento e acalmar-se esse primeiro fogo, abençoará o teu nome e, junto ao altar,
no êxtase de sua tranqüilidade e verdadeira felicidade, rogará a Deus por ti.
(À parte:)
E a legítima ficará em casa...
FLORÊNCIA - Tens razão, meu Ambrosinho, ela será freira.
AMBRÓSIO - A respeito de teu filho direi o mesmo. Tem ele nove anos e será prudente
criarmo-lo desde já para frade.
FLORÊNCIA - Já ontem comprei-lhe o hábito com que andará vestido daqui em diante.
AMBRÓSIO - Assim não estranhará quando chegar à idade de entrar no convento; será frade
feliz.
( À parte:)
E a legítima também ficará em casa.
FLORÊNCIA - Que sacrifícios não farei eu para ventura de meus filhos!