Primeiro Ato - Cena II O Noviço · Capítulo 3 de 45
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Primeiro Ato - Cena II

(Entra Florência vestida de preto, como quem vai à festa.)

FLORÊNCIA -

Entrando

Ainda despido, Ambrósio?

AMBRÓSIO - É cedo

(Vendo o relógio)

São nove horas e o ofício de Ramos principia às dez e meia.

FLORÊNCIA - É preciso ir mais cedo para tomarmos lugar.

AMBRÓSIO - Para tudo há tempo. Ora, dize-me, minha bela Florência...

FLORÊNCIA - O que, meu Ambrosinho?

AMBRÓSIO - O que pensa tua filha do nosso projeto?

FLORÊNCIA - O que pensa não sei eu, nem disso se me dá; quero eu - e basta. E é seu dever

obedecer.

AMBRÓSIO - Assim é; estimo que tenhas caráter enérgico.

FLORÊNCIA - Energia tenho eu.

AMBRÓSIO - E atrativos, feiticeira...

FLORÊNCIA- Ai, amorzinho!

(à parte: )

Que marido!

AMBRÓSIO - Escuta-me, Florência, e dá-me atenção. Crê que ponho todo o meu pensamento

em fazer-te feliz...

FLORÊNCIA - Toda eu sou atenção.

AMBRÓSIO - Dois filhos te ficaram do teu primeiro matrimônio. Teu marido foi um digno

homem e de muito juízo; deixou-te herdeira de avultado cabedal. Grande mérito é esse...

FLORÊNCIA - Pobre homem!

AMBRÓSIO - Quando eu te vi pela primeira vez não sabia que eras viúva rica.

( à parte: )

Se o sabia!

(Alto: )

Amei-te por simpatia.

FLORÊNCIA - Sei disso, vidinha.

AMBRÓSIO - E não foi o interesse que obrigou-me a casar contigo.

FLORÊNCIA - Foi o amor que nos uniu.

AMBRÓSIO - Foi, foi, mas agora que me acho casado contigo, é de meu dever zelar essa

fortuna que sempre desprezei.

FLORÊNCIA -

( à parte)

Que marido!

AMBRÓSIO-

(à parte)

Que tola!

(Alto:)

Até o presente tens gozado desta fortuna em plena liberdade e a teu bel-prazer; mas daqui em

diante, talvez assim não seja.

FLORÊNCIA - E por quê?

AMBRÓSIO - Tua filha está moça e em estado de casar-se. Casar-se-á, e terás um genro que

exigirá a legítima de sua mulher, e desse dia, principiarão as amofinações para ti, e

intermináveis demandas . Bem sabes que ainda não fizestes inventário.

FLORÊNCIA - Não tenho tido tempo, e custa-me tanto aturar procuradores!

AMBRÓSIO - Teu filho também vai crescer todos os dias e será preciso por fim dar-lhe a sua

legítima... Novas demandas

AMBRÓSIO- É o que eu também digo: mas como prevení-las

FLORÊNCIA - Faze o que entenderes, meu amorzinho.

AMBRÓSIO - Eu já te disse há mais de três meses o que era preciso fazermos para atalhar

esse mal. Amas a tua filha, o que é muito natural, mas amas ainda mais a ti mesma...

FLORÊNCIA - O que também é muito natural...

AMBRÓSIO - Que dúvida! E eu julgo que podes conciliar esses dois pontos, fazendo Emília

professar em um convento. Sim, que seja freira. Não terás nesse caso de dar legítima alguma,

apenas um insignificante dote - e farás ação meritória.

FLORÊNCIA - Coitadinha! Sempre tenho pena dela; o convento é tão triste!

AMBRÓSIO - É essa compaixão mal-entendida! O que é este mundo? Um pélago de enganos

e traições, um escolho em naufragam a felicidade e as doces ilusões da vida. E o que é o

convento? Porto de salvação e ventura, asilo da virtude, único abrigo da inocência e

verdadeira felicidade... E deve uma mãe carinhosa hesitar na escolha entre o mundo e o

convento?

FLORÊNCIA - Não, por certo...

AMBRÓSIO - A mocidade é inexperiente, não sabe o que lhe convém. Tua filha

lamentar-se-á, chorará desesperada, não importa; obriga-a e daí tempo ao tempo. Depois que

estiver no convento e acalmar-se esse primeiro fogo, abençoará o teu nome e, junto ao altar,

no êxtase de sua tranqüilidade e verdadeira felicidade, rogará a Deus por ti.

(À parte:)

E a legítima ficará em casa...

FLORÊNCIA - Tens razão, meu Ambrosinho, ela será freira.

AMBRÓSIO - A respeito de teu filho direi o mesmo. Tem ele nove anos e será prudente

criarmo-lo desde já para frade.

FLORÊNCIA - Já ontem comprei-lhe o hábito com que andará vestido daqui em diante.

AMBRÓSIO - Assim não estranhará quando chegar à idade de entrar no convento; será frade

feliz.

( À parte:)

E a legítima também ficará em casa.

FLORÊNCIA - Que sacrifícios não farei eu para ventura de meus filhos!

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