Primeiro Ato - Cena VII O Noviço · Capítulo 8 de 45
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Primeiro Ato - Cena VII

Carlos, com hábito de noviço, entra assustado e fecha a porta.

EMÍLIA -

(assustando-se)

Ah, quem é? Carlos!

CARLOS - Cala-te

EMÍLIA - Meu Deus, o que tens, por que estás tão assustado? O que foi?

CARLOS - Aonde está minha tia, e o teu padrasto?

EMÍLIA - Lá em cima. Mas o que tens?

CARLOS - Fugi do convento, e aí vêm eles atrás de mim.

EMÍLIA - Fugiste? E por que motivo?

CARLOS - Por que motivo? pois faltam motivos para se fugir de um convento? O último foi

o jejum em que vivo há sete dias... Vê como tenho esta barriga, vai a sumir-se. Desde sexta

feira passada que não mastigo pedaço que valha a pena.

EMÍLIA - Coitado!

CARLOS - Hoje, já não podendo, questionei com o D. Abade. Palavras puxam palavras; dize

tu, direi eu, e por fim de contas arrumei-lhe uma cabeçada, que o atirei por esses ares.

EMÍLIA - O que fizestes, louco?

CARLOS - E que culpa tenho eu, se tenho a cabeça esquentada? Para que querem violentar

minhas inclinações? Não nasci para frade, não tenho jeito nenhum para estar horas inteiras no

coro a rezar com os braços encruzados. Não me vai o gosto para aí... Não posso jejuar; tenho,

pelo mesno três vezes ao dia, uma fome de todos os diabos. Militar é que eu quisera ser; para

aí chama-me a inclinação. Bordoadas, espadeiradas, rusgas é que me regalam; esse é o meu

gênio. Gosto de teatro, e de lá ninguém vai ao teatro, à exceção de Frei Maurício, que

freqüenta a platéia de casaca e cabelereira para esconder a coroa.

EMÍLIA - Pobre Carlos, como terás passado estes seis meses de noviciado!

CARLOS - Seis meses de martírio! Não que a vida de frade seja má; boa é ela para quem a

sabe gozar e que para ela nasceu; mas eu, priminha, eu que tenho para tal vidinha negação

completa, não posso!

EMÍLIA - E os nossos parentes quando nos obrigam a seguir uma carreira para a qual não

temos inclinação alguma, dizem que o tempo acostumar-nos-á.

CARLOS - O tempo acostumar! Eis aí porque vemos entre nós tantos absurdos e disparates.

Este tem jeito para sapateiro: pois vá estudar medicina... Excelente médico! Aquele tem

inclinação para cômico: pois não senhor, será político... Ora, ainda isso vá. Estoutro só tem

jeito para caiador ou borrador: nada, é ofício que não presta... Seja diplomata, que borra tudo

quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propensão para a ladroeira; manda o bom senso que

se corrija o sujeitinho, mas isso não se faz; seja tesoureiro de repartição fiscal, e lá se vão os

cofres da nação à garra... Essoutro tem uma grande carga de preguiça e indolência e só

serviria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandrião empregado público,

comendo com as mãos encruzadas sobre a pança o pingue ordenado da nação.

EMÍLIA - Tens muita razão; assim é.

CARLOS - Este nasceu para poeta ou escritor, com uma imaginação fogosa e independente,

capaz de grandes coisas, mas não pode seguir a sua inclinação, porque poetas e escritores

morrem de miséria, no Brasil... E assim o obriga a necessidade a ser o mais ou menos

amanuense em uma repartição pública e a copiar cinco horas por dia os mais soníferos papéis.

O que acontece? Em breve matam-lhe a inteligência e fazem do homem pensante máquina

estúpida, e assim se gasta uma vida? É preciso, é já tempo que alguém olhe para isso, e

alguém que possa.

EMÍLIA - Quem pode nem sempre sabe o que se passa entre nós, para poder remediar; é

preciso falar.

CARLOS - O respeito e a modéstia prendem muitas línguas, mas lá vem um dia que a voz da

razão se faz ouvir, e tanto mais forte quanto mais comprimida.

EMÍLIA - Mas Carlos, hoje te estou desconhecendo...

CARLOS - A contradição em que vivo tem-me exasperado! E como queres tu que eu não fale

quando vejo, aqui, um péssimo cirurgião que poderia ser bom alveitar; ali um ignorante

general que poderia ser excelente enfermeiro; acolá, um periodiqueiro que só serviria para

arrieiro, tão desbocado e insolente é, etc., etc. Tudo está fora de seus eixos.

EMÍLIA - Mas que queres tu que se faça?

CARLOS - Que não se constranja ninguém, que se estudem os homens e que haja uma bem

entendida e esclarecida proteção, e que, sobretudo, se despreze o patronato, que assenta o

jumento nas bancas das academias e amarra o homem de talento à manjedoura. Eu, que

quisera viver com uma espada à cinta e à frente do meu batalhão, conduzi-lo ao inimigo

através da metralha, bradando: "Marcha...

(Manobrando pela sala, entusiasmado:)

Camaradas, coragem, calar baionetas! Marche, marche! Firmeza, avança! O inimigo

fraqueia...

(Seguindo Emília, que recua, espantada:)

Avança!"

EMÍLIA - Primo, primo, que é isso? Fique quieto!

CARLOS -

(entusiasmado)

"Avança, bravos companheiros, viva a Pátria Viva!" - e voltar vitorioso, coberto de sangue e

poeira... Em vez desta vida de agitação e glória, hei-de ser frade, revestir-me de paciência e

humildade, encomendar defuntos...

(Cantando:)

Requiescat in pace... a porta inferi! amen...

O que seguirá disto? O ser eu péssimo frade, descrédito do convento e vergonha do hábito que

visto. Falta-me a paciência.

EMÍLIA - Paciência, Carlos, preciso eu também ter, e muita. Minha mãe declarou-me

positivamente que eu hei-de ser freira.

CARLOS - Tu, freira? Também te perseguem?

EMÍLIA - E meu padrasto ameaça-me.

CARLOS - Emília, aos cinco anos estava eu órfão, e tua mãe, minha tia, foi nomeada por meu

pai sua testamenteira e minha tutora. Contigo cresci nesta casa e à amizade de criança

seguiu-se inclinação mais forte... Eu te amei, Emília, e tu também me amaste.

EMÍLIA - Carlos!

CARLOS - Vivíamos felizes esperando que um dia nos uniríamos. Nesses planos estávamos

quando apareceu este homem, não sei donde, e que soube a tal ponto iludir tua mãe, que a fez

esquecer-se de seus filhos que tanto amava, de seus interesses e contrair segundas núpcias.

EMÍLIA - Desde então nossa vida tem sido tormentosa...

CARLOS - Obrigaram-me a ser noviço, e não contentes com isso, querem-te fazer freira.

Emília, há muito tempo que eu observo este teu padrasto. E sabes qual tem sido o resultado

das minhas observações?

EMÍLIA - Não.

CARLOS - Que ele é um rematadíssimo velhaco.

EMÍLIA - Oh, estás bem certo disso?

CARLOS - Certíssimo! Esta resolução que tomaram, de fazerem-te freira, confirma a minha

opinião.

EMÍLIA - Explica-te

CARLOS - Teu padrasto persuadia a minha tia que me obrigasse a ser frade para assim

roubar-me, impunemente , a herança que meu pai deixou-me. Um frade não põe demandas...

EMÍLIA - É possível?

CARLOS - Ainda mais; querem que tu sejas freira para não te darem dote, se te casares.

EMÍLIA - Carlos, quem te disso isso? Minha mãe não é capaz!

CARLOS - Tua mãe vive iludida. Oh, que não possa eu desmascarar este tratante!...

EMÍLIA - Fala baixo!

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