Segundo Ato - Cena IX
Ambrósio e Florência.
AMBRÓSIO -
(à parte)
Temos trovoada grossa...
FLORÊNCIA - Quem era a mulher que estava naquele quarto?
AMBRÓSIO - Não sei.
FLORÊNCIA - Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?
AMBRÓSIO - Florência, já te disse, não sei. São cousas de Carlos.
FLORÊNCIA - Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?
AMBRÓSIO - Como queres que eu te diga, Florencinha?
FLORÊNCIA - Ah, não sabe? Pois bem, então explique-me: por que razão mostrou-se tão
espantado, quando Carlos o levou à porta daquele quarto e mostrou-lhe quem estava dentro?
AMBRÓSIO - Pois eu espantei-me?
FLORÊNCIA - A ponto de levar-me quase de rastos para a igreja, sem chapéu, lá deixar-me e
voltar para casa apressado.
AMBRÓSIO - Qual! Foi por...
FLORÊNCIA - Não estude uma mentira, diga depressa.
AMBRÓSIO - Pois bem: direi. Eu conheço essa mulher.
FLORÊNCIA - Ah! E então quem é ela?
AMBRÓSIO - Queres saber quem é ela? É muito justo, mas aí que está o segredo.
FLORÊNCIA - Segredos comigo?
AMBRÓSIO - Oh, contigo não pode haver segredo, é a minha mulherzinha. (Quer abraça-la)
FLORÊNCIA - Tenha-se lá; quem era a mulher?
AMBRÓSIO -
(à parte)
- Não sei o que lhe diga...
FLORÊNCIA - Vamos!
AMBRÓSIO - Essa mulher... Sim, essa mulher que há pouco estava naquele quarto, foi
amada por mim.
FLORÊNCIA - Por ti?
AMBRÓSIO - Mas nota que digo: foi amada, e o que foi, já não é.
FLORÊNCIA - Seu nome?
AMBRÓSIO - Seu nome? Que importa o nome? O nome é uma voz com que se dão a
conhecer as cousas... Nada vale; o indivíduo é tudo... Tratemos do indivíduo.
(À parte:)
Não sei como continuar.
FLORÊNCIA - Então, e que mais?
AMBRÓSIO - Amei a essa mulher. Amei, sim, amei. Essa mulher foi por mim amada, mas
então não te conhecia. Oh, e quem ousará criminar a um homem por embelezar-se de uma
estrela antes de ver a lua, quem? Ela era a estrela, e tu és a lua. Sim, minha Florencinha, tu és
a minha lua cheia e eu sou teu satélite.
FLORÊNCIA - Oh, não me convence assim..
AMBRÓSIO -
(à parte)
- O diabo convença a uma mulher!
(Alto:)
Florencinha, encanto da minha vida, estou diante de ti como diante do confessionário, com
uma mão sobre o coração e com a outra... Onde queres que eu ponha a outra?
FLORÊNCIA - Ponha lá onde quiser...
AMBRÓSIO - Pois bem, com ambas sobre o coração, dir-te-ei: só tu és o meu único amor,
minhas delícias, minha vida ...
(À parte:)
e minha burra!
FLORÊNCIA - Se eu pudesse acreditar!...
AMBRÓSIO - Não podes porque não queres. Basta um bocado de boa vontade. Se fiquei
aterrorizado ao ver essa mulher, foi por prever os desgostos que terias, se aí a visses.
FLORÊNCIA - Se temes que eu a veja, é porque ainda a ama.
AMBRÓSIO - Amá-la eu? Ah, desejava que ela estivesse mais longe de mim do que o
cometa que apareceu no ano passado.
FLORÊNCIA - Oh, meu Deus, se eu pudesse crer!
AMBRÓSIO, à parte - Está meia convencida...
FLORÊNCIA - Se eu o pudesse crer!
(Rosa entra vestida de frade, pelo fundo, pára e observa.)
AMBRÓSIO -
(com animação)
Estes raios brilhantes e aveludados de teus olhos ofuscam o seu olhar acanhado e esgateado.
Esses negros e finos cabelos varrem da minha idéia as suas emaranhadas melenas cor de fogo.
esta mãozinha torneada
(pega-lhe na mão),
este colo gentil, esta cintura flexível e delicada fazem-me esquecer os grosseiros encantos
desta mulher que ...
( Nesse momento dá com os olhos em Rosa; vai recuando pouco a pouco.)
FLORÊNCIA - O que tens? De que te espantas?
ROSA (adiantando-se )- Senhora, este homem pertence-me.
FLORÊNCIA - E quem é vossa Reverendíssima?
ROSA, tirando o chapéu, que faz cair os cabelos - Sua primeira mulher.
FLORÊNCIA - Sua primeira mulher?
ROSA (dando-lhe a certidão) - Leia
(Para Ambrósio:)
Conheceis-me, senhor? Há seis anos que nos não vemos, e quem diria que assim nos
encontraríamos? Nobre foi o vosso proceder!... Oh, para que não enviaste um assassino para
esgotar o sangue destas veias e arrancar a alma deste corpo? Assim devíeis ter feito, porque
então eu não estaria aqui para vingar-me, traidor!
AMBRÓSIO -
(à parte)
O melhor é deitar a fugir.
(Corre para o fundo. Prevenção.)
ROSA - Não o deixem fugir!
(Aparecem à porta meirinhos, os quais prendem Ambrósio)
MEIRINHO - Está preso!
AMBRÓSIO - Ai!
(Corre por toda a casa, etc.
Enquanto isto se passa, Florência tem lido a certidão.)
FLORÊNCIA - Desgraçada de mim, estou traída! Quem me socorre?
(Vai para sair, encontra-se com Rosa.)
Ah, para longe, para longe de mim!
(Recuando.)
ROSA - Senhora, a quem pertencerá ele?
(Execução.)
FIM DO SEGUNDO ATO