Segundo Ato - Cena IX O Noviço · Capítulo 26 de 45
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Segundo Ato - Cena IX

Ambrósio e Florência.

AMBRÓSIO -

(à parte)

Temos trovoada grossa...

FLORÊNCIA - Quem era a mulher que estava naquele quarto?

AMBRÓSIO - Não sei.

FLORÊNCIA - Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?

AMBRÓSIO - Florência, já te disse, não sei. São cousas de Carlos.

FLORÊNCIA - Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?

AMBRÓSIO - Como queres que eu te diga, Florencinha?

FLORÊNCIA - Ah, não sabe? Pois bem, então explique-me: por que razão mostrou-se tão

espantado, quando Carlos o levou à porta daquele quarto e mostrou-lhe quem estava dentro?

AMBRÓSIO - Pois eu espantei-me?

FLORÊNCIA - A ponto de levar-me quase de rastos para a igreja, sem chapéu, lá deixar-me e

voltar para casa apressado.

AMBRÓSIO - Qual! Foi por...

FLORÊNCIA - Não estude uma mentira, diga depressa.

AMBRÓSIO - Pois bem: direi. Eu conheço essa mulher.

FLORÊNCIA - Ah! E então quem é ela?

AMBRÓSIO - Queres saber quem é ela? É muito justo, mas aí que está o segredo.

FLORÊNCIA - Segredos comigo?

AMBRÓSIO - Oh, contigo não pode haver segredo, é a minha mulherzinha. (Quer abraça-la)

FLORÊNCIA - Tenha-se lá; quem era a mulher?

AMBRÓSIO -

(à parte)

- Não sei o que lhe diga...

FLORÊNCIA - Vamos!

AMBRÓSIO - Essa mulher... Sim, essa mulher que há pouco estava naquele quarto, foi

amada por mim.

FLORÊNCIA - Por ti?

AMBRÓSIO - Mas nota que digo: foi amada, e o que foi, já não é.

FLORÊNCIA - Seu nome?

AMBRÓSIO - Seu nome? Que importa o nome? O nome é uma voz com que se dão a

conhecer as cousas... Nada vale; o indivíduo é tudo... Tratemos do indivíduo.

(À parte:)

Não sei como continuar.

FLORÊNCIA - Então, e que mais?

AMBRÓSIO - Amei a essa mulher. Amei, sim, amei. Essa mulher foi por mim amada, mas

então não te conhecia. Oh, e quem ousará criminar a um homem por embelezar-se de uma

estrela antes de ver a lua, quem? Ela era a estrela, e tu és a lua. Sim, minha Florencinha, tu és

a minha lua cheia e eu sou teu satélite.

FLORÊNCIA - Oh, não me convence assim..

AMBRÓSIO -

(à parte)

- O diabo convença a uma mulher!

(Alto:)

Florencinha, encanto da minha vida, estou diante de ti como diante do confessionário, com

uma mão sobre o coração e com a outra... Onde queres que eu ponha a outra?

FLORÊNCIA - Ponha lá onde quiser...

AMBRÓSIO - Pois bem, com ambas sobre o coração, dir-te-ei: só tu és o meu único amor,

minhas delícias, minha vida ...

(À parte:)

e minha burra!

FLORÊNCIA - Se eu pudesse acreditar!...

AMBRÓSIO - Não podes porque não queres. Basta um bocado de boa vontade. Se fiquei

aterrorizado ao ver essa mulher, foi por prever os desgostos que terias, se aí a visses.

FLORÊNCIA - Se temes que eu a veja, é porque ainda a ama.

AMBRÓSIO - Amá-la eu? Ah, desejava que ela estivesse mais longe de mim do que o

cometa que apareceu no ano passado.

FLORÊNCIA - Oh, meu Deus, se eu pudesse crer!

AMBRÓSIO, à parte - Está meia convencida...

FLORÊNCIA - Se eu o pudesse crer!

(Rosa entra vestida de frade, pelo fundo, pára e observa.)

AMBRÓSIO -

(com animação)

Estes raios brilhantes e aveludados de teus olhos ofuscam o seu olhar acanhado e esgateado.

Esses negros e finos cabelos varrem da minha idéia as suas emaranhadas melenas cor de fogo.

esta mãozinha torneada

(pega-lhe na mão),

este colo gentil, esta cintura flexível e delicada fazem-me esquecer os grosseiros encantos

desta mulher que ...

( Nesse momento dá com os olhos em Rosa; vai recuando pouco a pouco.)

FLORÊNCIA - O que tens? De que te espantas?

ROSA (adiantando-se )- Senhora, este homem pertence-me.

FLORÊNCIA - E quem é vossa Reverendíssima?

ROSA, tirando o chapéu, que faz cair os cabelos - Sua primeira mulher.

FLORÊNCIA - Sua primeira mulher?

ROSA (dando-lhe a certidão) - Leia

(Para Ambrósio:)

Conheceis-me, senhor? Há seis anos que nos não vemos, e quem diria que assim nos

encontraríamos? Nobre foi o vosso proceder!... Oh, para que não enviaste um assassino para

esgotar o sangue destas veias e arrancar a alma deste corpo? Assim devíeis ter feito, porque

então eu não estaria aqui para vingar-me, traidor!

AMBRÓSIO -

(à parte)

O melhor é deitar a fugir.

(Corre para o fundo. Prevenção.)

ROSA - Não o deixem fugir!

(Aparecem à porta meirinhos, os quais prendem Ambrósio)

MEIRINHO - Está preso!

AMBRÓSIO - Ai!

(Corre por toda a casa, etc.

Enquanto isto se passa, Florência tem lido a certidão.)

FLORÊNCIA - Desgraçada de mim, estou traída! Quem me socorre?

(Vai para sair, encontra-se com Rosa.)

Ah, para longe, para longe de mim!

(Recuando.)

ROSA - Senhora, a quem pertencerá ele?

(Execução.)

FIM DO SEGUNDO ATO

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