Terceiro Ato - Cena I O Noviço · Capítulo 27 de 45
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Terceiro Ato - Cena I

Quarto em casa de Florência: mesa, cadeiras, etc., etc., armário, uma cama grande com

cortinados, uma mesa pequena com um castiçal com vela acesa. É noite. Florência deitada,

Emília sentada junto dela, Juca vestido de calça, brincando com um carrinho pela sala.

FLORÊNCIA - Meu Deus, meu Deus, que bulha faz esse menino!

EMÍLIA - Maninho, estais fazendo muita bulha a mamãe...

FLORÊNCIA - Minha cabeça! Vai correr lá para dentro...

EMÍLIA - Anda, vai para dentro, vai para o quintal.

(Juca sai com o carrinho.)

FLORÊNCIA - Parece que me estala a cabeça... São umas marteladas aqui nas fontes. Ai, que

não posso! Morro desta!...

EMÍLIA - Minha mãe, não diga isso, seu incômodo passará.

FLORÊNCIA - Passará? Morro, morro...

(Chorando:)

Hi.... (Etc.)

EMÍLIA - Minha mãe!

FLORÊNCIA -

(chorando)

Ser assim traída, enganada! Meu Deus, quem pode resistir? Hi, hi!

EMÍLIA - Para que tanto se aflige? Que remédio? Ter paciência e resignação.

FLORÊNCIA - Um homem em quem havia posto toda a minha confiança, que eu tanto

amava... Emília, eu o amava muito!

EMÍLIA - Coitada!

FLORÊNCIA - Enganar-me deste modo! Tão indigntmente, casado com outra mulher. Ah,

não sei como não arrebento...

EMÍLIA - Tranqüilize-se, minha mãe.

FLORÊNCIA - Que eu supunha desinteressado... Entregar-lhe todos os meus bens, assim

iludir-me... Que malvado, que malvado!.

EMÍLIA - São horas de tomar o remédio.

(Toma uma garrafa de remédio, deita-o em uma xícara e dá a Florência.)

FLORÊNCIA - Como os homens são falsos! Uma mulher não era capaz de cometer ação tão

indigna. O que é isso?

EMÍLIA - O cozimento que o doutor receitou.

FLORÊNCIA - Dá cá.

(Bebe.)

Ora, de que servem estes remédios? Não fico boa; a ferida é no coração...

EMÍLIA - Há de curar-se.

FLORÊNCIA - Ora, filha, quando eu vi diante de mim essa mulher, senti uma revolução que

te não sei explicar... um atordoamento, uma zoada, que há de oito dias me tem pregado nesta

cama.

EMÍLIA - Eu estava no meu quarto quando ouvi gritos na sala. Saí apressada e no corredor

encontrei-me com meu padrasto...

FLORÊNCIA - Teu padrasto?

EMÍLIA - ... que passando como uma flecha por diante de mim, dirigiu-se para o quintal e

saltando o muro, desapareceu. Corri para a sala...

FLORÊNCIA - E aí encontraste-me banhada em lágrimas. Ela já tinha saído, depois de

ameaçar-me. Ah, mas eu hei-de ficar boa para vingar-me!

EMÍLIA - Sim, é preciso ficar boa, para vingar-se.

FLORÊNCIA - Hei-de ficar. Não vale a pena morrer por um traste daquele!

EMÍLIA - Que dúvida!

FLORÊNCIA - O meu procurador disse-me que o tratante está escondido, mas que já há

mandato de prisão contra ele. Deixa estar. Enganar-me, obrigar-me a que te fizesse freira,

constranger a inclinação de Carlos...

EMÍLIA - Oh, minha mãe, tenha pena do primo. O que não terá ele sofrido, coitado!

FLORÊNCIA - Já esta manhã mandei falar ao D. Abade por pessoa de consideração, e além

disso, tenho uma carta que lhe quero remeter, pedindo-lhe que me faça o obséquio de aqui

mandar um frade respeitável para de viva voz tratar comigo este negócio.

EMÍLIA - Sim, minha boa mãezinha.

FLORÊNCIA - Chama o José.

EMÍLIA - José? José? E a mamãe julga que o primo poderá estar em casa hoje?

FLORÊNCIA - És muito impaciente... Chama o José.

EMÍLIA - José?

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