Terceiro Ato - Cena VI
Entra Emília com o Padre-Mestre
EMÍLIA - Minha mãe, é o Sr. Padre-Mestre.
(À parte:)
Ave de agouro.
FLORÊNCIA - Ah!
MESTRE - Desculpe-me, minha senhora.
FLORÊNCIA - O Padre-Mestre é que me há-de desculpar se assim o recebo
(Senta-se na cama.)
MESTRE - Oh, esteja a seu gosto. Já por lá sabe-se dos seus incômodos. Toda cidade o sabe.
Tribulações deste mundo...
FLORÊNCIA - Emília, oferece uma cadeira ao Reverendíssimo.
MESTRE - Sem incômodo.
(Senta-se.)
FLORÊNCIA - O Padre-Mestre veio falar comigo por mandado do Sr. D. Abade?
MESTRE - Não, minha senhora.
FLORÊNCIA - Não? Pois eu lhe escrevi.
MESTRE - Aqui venho pelo mesmo motivo que já vim duas vezes.
FLORÊNCIA - Como assim?
MESTRE - Em procura do noviço Carlos. Ah, que rapaz!
FLORÊNCIA - Pois tornou a fugir?
MESTRE -- Se tornou! É indomável! Foi metido no cárcere a pão e águia.
EMÍLIA - Desgraçado!
MESTRE - Ah, a menina lastima-o? Já me não admira que ele faça o que faz.
FLORÊNCIA - O Padre-Mestre dizia...
MESTRE - Que estava no cárcere a pão e água, mas o endemoninhado arrombou as grades,
saltou na horta, vingou o muro da cerca que deita para a rua e pôs-se a panos.
FLORÊNCIA - Que doido! E para onde foi?
MESTRE - Não sabemos, mas julgamos que para aqui se dirigiu.
FLORÊNCIA - Posso afiançar a Vossa Reverendíssima que por cá ainda não apareceu.
(Carlos bota a cabeça de fora e puxa pelo vestido de Emília.)
EMÍLIA -
(assustando-se)
Ai!
FLORÊNCIA - O que é, menina?
MESTRE -
(levantando-se)
O que foi?
EMÍLIA -
(vendo Carlos)
Não foi nada, não senhora... Um jeito que dei no pé.
FLORÊNCIA - Tem cuidado. Assente-se, Reverendíssimo. Mas como lhe dizia, o meu
sobrinho cá não apareceu; desde o dia em que o Padre-Mestre o levou preso ainda não o vi.
Não sou capaz de faltar a verdade.
MESTRE - Oh, nem tal suponho. E demais, Vossa Senhoria, como boa parenta que é, deve
contribuir para sua correção. Esse moço tem revolucionado todo o convento, e é preciso um
castigo exemplar.
FLORÊNCIA - Tem muita razão; mas eu já mandei falar ao Sr. D. Abade para que meu
sobrinho saísse do convento.
MESTRE - E o D. Abade está a isso resolvido. Nós todos nos temos empenhado. O Sr. Carlos
fFaz-nos loucos... Sairá do convento; porém antes será castigado.
CARLOS - Veremos...
FLORÊNCIA -
(para Emília)
O que é?
EMÍLIA - Nada, não senhora.
MESTRE - Não por ele, que estou certo que não se emendará, mas para exemplo dos que lá
ficam. Do contrário, todo o convento abalava.
FLORÊNCIA - Como estão resolvidos a despedir meu sobrinho do convento, e o castigo que
lhe querem impor é tão somente exemplar, e ele precisa um pouco, dou minha palavra a
Vossa Reverendíssima que assim que ele aqui aparecer, mandarei agarrá-lo e levar para o
convento.
CARLOS - Isso tem mais que se lhe diga...
MESTRE -
(levantando-se)
Mil graças, minha senhora.
FLORÊNCIA - Isto mesmo terá a bondade de dizer ao Sr. D. Abade, a cujas orações me
recomendo.
MESTRE - Serei fiel cumpridor . Dê-me as suas determinações.
FLORÊNCIA - Emília, conduz o Padre-Mestre.
MESTRE, para Emília - Minha menina, muito cuidado com o senhor seu primo. Não se fie
nele; julgo capaz de tudo.
(Sai)
EMÍLIA -
(voltando)
Vá encomendar defuntos!