Terceiro Ato - Cena VI O Noviço · Capítulo 32 de 45
Obra Menu

Terceiro Ato - Cena VI

Entra Emília com o Padre-Mestre

EMÍLIA - Minha mãe, é o Sr. Padre-Mestre.

(À parte:)

Ave de agouro.

FLORÊNCIA - Ah!

MESTRE - Desculpe-me, minha senhora.

FLORÊNCIA - O Padre-Mestre é que me há-de desculpar se assim o recebo

(Senta-se na cama.)

MESTRE - Oh, esteja a seu gosto. Já por lá sabe-se dos seus incômodos. Toda cidade o sabe.

Tribulações deste mundo...

FLORÊNCIA - Emília, oferece uma cadeira ao Reverendíssimo.

MESTRE - Sem incômodo.

(Senta-se.)

FLORÊNCIA - O Padre-Mestre veio falar comigo por mandado do Sr. D. Abade?

MESTRE - Não, minha senhora.

FLORÊNCIA - Não? Pois eu lhe escrevi.

MESTRE - Aqui venho pelo mesmo motivo que já vim duas vezes.

FLORÊNCIA - Como assim?

MESTRE - Em procura do noviço Carlos. Ah, que rapaz!

FLORÊNCIA - Pois tornou a fugir?

MESTRE -- Se tornou! É indomável! Foi metido no cárcere a pão e águia.

EMÍLIA - Desgraçado!

MESTRE - Ah, a menina lastima-o? Já me não admira que ele faça o que faz.

FLORÊNCIA - O Padre-Mestre dizia...

MESTRE - Que estava no cárcere a pão e água, mas o endemoninhado arrombou as grades,

saltou na horta, vingou o muro da cerca que deita para a rua e pôs-se a panos.

FLORÊNCIA - Que doido! E para onde foi?

MESTRE - Não sabemos, mas julgamos que para aqui se dirigiu.

FLORÊNCIA - Posso afiançar a Vossa Reverendíssima que por cá ainda não apareceu.

(Carlos bota a cabeça de fora e puxa pelo vestido de Emília.)

EMÍLIA -

(assustando-se)

Ai!

FLORÊNCIA - O que é, menina?

MESTRE -

(levantando-se)

O que foi?

EMÍLIA -

(vendo Carlos)

Não foi nada, não senhora... Um jeito que dei no pé.

FLORÊNCIA - Tem cuidado. Assente-se, Reverendíssimo. Mas como lhe dizia, o meu

sobrinho cá não apareceu; desde o dia em que o Padre-Mestre o levou preso ainda não o vi.

Não sou capaz de faltar a verdade.

MESTRE - Oh, nem tal suponho. E demais, Vossa Senhoria, como boa parenta que é, deve

contribuir para sua correção. Esse moço tem revolucionado todo o convento, e é preciso um

castigo exemplar.

FLORÊNCIA - Tem muita razão; mas eu já mandei falar ao Sr. D. Abade para que meu

sobrinho saísse do convento.

MESTRE - E o D. Abade está a isso resolvido. Nós todos nos temos empenhado. O Sr. Carlos

fFaz-nos loucos... Sairá do convento; porém antes será castigado.

CARLOS - Veremos...

FLORÊNCIA -

(para Emília)

O que é?

EMÍLIA - Nada, não senhora.

MESTRE - Não por ele, que estou certo que não se emendará, mas para exemplo dos que lá

ficam. Do contrário, todo o convento abalava.

FLORÊNCIA - Como estão resolvidos a despedir meu sobrinho do convento, e o castigo que

lhe querem impor é tão somente exemplar, e ele precisa um pouco, dou minha palavra a

Vossa Reverendíssima que assim que ele aqui aparecer, mandarei agarrá-lo e levar para o

convento.

CARLOS - Isso tem mais que se lhe diga...

MESTRE -

(levantando-se)

Mil graças, minha senhora.

FLORÊNCIA - Isto mesmo terá a bondade de dizer ao Sr. D. Abade, a cujas orações me

recomendo.

MESTRE - Serei fiel cumpridor . Dê-me as suas determinações.

FLORÊNCIA - Emília, conduz o Padre-Mestre.

MESTRE, para Emília - Minha menina, muito cuidado com o senhor seu primo. Não se fie

nele; julgo capaz de tudo.

(Sai)

EMÍLIA -

(voltando)

Vá encomendar defuntos!

1/1
Menu

Fazer anotação