Primeiro Ato - Cena XII
Entra Ambrósio de casaca seguido de Florência e Emília, ambas de véu de renda preta sobre a
cabeça.
AMBRÓSIO -
(entrando)
Andem, andem! Irra, essas mulheres a vestirem-se fazem perder a paciência!
FLORÊNCIA, - Estamos prontas.
AMBRÓSIO -
(vendo Carlos)
Oh, que fazes aqui?
CARLOS
(principia a passear pela sala de um para outro lado)
Não vê? Estou passeando; divirto-me. AMBRÓSIO - Como é lá isso?
CARLOS -
(do mesmo modo)
Não é da sua conta.
FLORÊNCIA - Carlos, que modos são esses?
CARLOS - Que modos são? São os meus.
EMÍLIA -
(à parte)
Ele se perde!
FLORÊNCIA - Estás doido?
CARLOS - Doido estava alguém quando... Não me faça falar...
FLORÊNCIA - Hem?
AMBRÓSIO - Deixe-o comigo.
(Para Carlos:)
Por que saíste do convento?
CARLOS - Porque quis. Então não tenho vontade?
AMBRÓSIO - Isso veremos. Já para o convento!
CARLOS -
(rindo-se com força)
Ah, ah, ah !
AMBRÓSIO - Ri-se?
FLORÊNCIA -
(ao mesmo tempo)
Carlos!
EMÍLIA - Primo!
CARLOS - Ah, ah, ah!
AMBRÓSIO -
(enfurecido)
Ainda uma vez, obedece-me, ou...
CARLOS - Que cara! Ah, ah!
(Ambrósio corre para cima de Carlos.)
FLORÊNCIA -
(metendo-se no meio)
Ambrosinho!
AMBRÓSIO - Deixe-me ensinar a este malcriado.
CARLOS - Largue-o, tia, não tenha medo.
EMÍLIA - Carlos!
FLORÊNCIA - Sobrinho, o que é isso?
CARLOS - Está bom, não se amofinem tanto, voltarei para o convento.
AMBRÓSIO - Ah, já?
CARLOS - Já, sim senhor, quero mostrar a minha obediência.
AMBRÓSIO - E que não fosse.
CARLOS - Incorreria no seu desagrado? Forte desgraça!...
FLORÊNCIA - Principias?
CARLOS - Não senhora, quero dar uma prova de submissão ao senhor meu tio... É, meu tio,
é... Casado com minha tia segunda vez... Quero dizer, minha tia é que se casou segunda vez.
AMBRÓSIO -
(assustando-se, à parte)
O que diz ele?
CARLOS -
(que o observa)
Não há duvida...
FLORÊNCIA -
(para Emília)
O que tem hoje este rapaz?
CARLOS - Não é assim, senhor meu tio? Venha cá, faça-me o favor, senhor meu rio.
(Travando-lhe do braço.)
AMBRÓSIO -Tira as mãos.
CARLOS - Ora,faça-me o favor, senhor meu tio, quero-lhe mostrar uma coisa; depois farei o
que quiser.
(Levando-o para a porta do quarto.)
FLORÊNCIA - O que é isto?
AMBRÓSIO - Deixa-me!
CARLOS - Um instante.
(Retendo Ambrósio com uma mão, com a outra empurra a porta e aponta para dentro,
dizendo:)
Vê!
AMBRÓSIO -
(afirmando a vista)
- Oh!
(Volta para junto de Florência e de Emília, e as toma convulsivo pelo braço.)
Vamos, vamos, são horas!
FLORÊNCIA - O que é?
AMBRÓSIO -
(forcejando por sair e levá-las consigo)
Vamos, vamos!
FLORÊNCIA - Sem chapéu?
AMBRÓSIO - Vamos, vamos!
(Sai, levando-as.)
C A R L O S -Então, senhor meu tio? Já não quer que eu vá para o convento?
(Depois que ele sai.)
Senhor meu tio, senhor meu tio?
(Vai a porta, gritando.)