Primeiro Ato - Cena XIII
Carlos, só e depois Rosa
CARLOS -
(rindo-se)
Ah, ah, ah, agora veremos, e me pagaras... E minha tia também há-de pagá-lo, para não se
casar na sua idade e ser tão assanhada. E o menino, que não se contentava com uma!...
ROSA -
(entrando)
Então, Reverendíssimo?
CARLOS - Então?
ROSA - Eu vi meu marido um instante e fugiu. Ouvi vozes de mulheres...
CARLOS - Ah, ouviu? Muito estimo. E sabe de quem eram essas vozes?
ROSA - Eu tremo de adivinhar...
CARLOS - Pois adivinhe logo de uma assentada... Eram da mulher de seu marido.
ROSA - E então verdade? Pérfido, traidor! Ah, desgraçada!
(Vai a cair desmaiada e Carlos a sustém nos braços.)
CARLOS - Desmaiada! Sr.a D. Rosa? Fi-la bonita! Esta é mesmo de frade... Senhora, torne a
si, deixe desses faniquitos Olhe que aqui não ha quem a socorra. Nada! E esta? Ó Juquinha?
Juquinha?
(Juca entra, trazendo em uma mão um assobio de palha e tocando em outro.)
Deixa esses assobios sobre a mesa e vai lá dentro buscar alguma coisa para esta moça cheirar.
JUCA - Mas o quê, primo?
CARLOS - A primeira coisa que encontrares.
(Juca larga os assobios na mesa e sai correndo.)
Isto está muito bonito! Um frade com uma moça desmaiada nos braços. Valha-me Santo
Antônio! O que diriam, se assim me vissem?
(Gritando-lhe ao ouvido:)
Olá! - Nada.
JUCA -
(entra montado a cavalo em um arco de pipa, trazendo um galheteiro)
Vim a cavalo para chegar mais depressa. Está o que achei.
CARLOS - Um galheteiro, menino?
JUCA - Não achei mais nada.
CARLOS - Está bom, dá cá o vinagre.
(Toma o vinagre e o chega ao nariz de Rosa.)
Não serve; está na mesma. Toma...Vejamos se o azeite faz mais efeito. Isto parece-me
salada... Azeite e vinagre. Ainda está mal temperada; venha a pimenta da Índia. Agora creio
que não falta nada. Pior é essa; a salada ainda não está boa! Ai, que não tem sal. Bravo, está
temperada! Venha mais sal... Agora sim.
ROSA, tomando a si- Onde estou eu?
CARLOS - Nos meus braços.
ROSA, afastando-se - Ah, Reverendíssimo!
CARLOS - - Não se assuste.
(Para Juca:)
Vai para dentro
(Juca sai)
ROSA - Agora me recordo... Pérfido, ingrato!
CARLOS - Não torne a desmaiar, que já não posso.
ROSA - Assim enganar-me! Não há leis, não há justiça?...
CARLOS - Há tudo isso, e de sobra. O que não há é quem as execute.
(Rumor na rua)
ROSA -
(assustando-se)
Ah!
CARLOS - O que será isto?
(Vai à janela.)
Ah, com S. Pedro!
(À parte:)
O mestre de noviços seguido de meirinhos que me procuram... Não escapo...
ROSA - O que é, Reverendíssimo? De que se assusta?
CARLOS - Não é nada.
(À parte:)
Estou arranjado!
(Chega à janela.)
Estão indagando na vizinhança... O que farei?
ROSA - Mas o que é? O quê?
CARLOS -
(batendo na testa)
Oh, só assim...
(Para Rosa:)
Sabe o que é isto?
ROSA - Diga.
CARLOS - E um poder de soldados e meirinhos que vem prendê-la por ordem de seu marido.
ROSA - Jesus! Salve-me, salve-me!
CARLOS - Hei-de salvá-la; mas faça o que eu lhe disser.
ROSA - Estou pronta
CARLOS - Os meirinhos entrarão aqui e hão-de levar por força alguma coisa - esse é o seu
costume. O que é preciso é enganá-los.
ROSA - E como?
CARLOS - Vestindo a senhora o meu hábito, e eu o seu vestido.
ROSA - Oh!
CARLOS - Levar-me-ão preso; terá a senhora tempo de fugir.
ROSA - Mas...
CARLOS - Ta, ta, ta... Ande, deixe-me fazer uma obra de caridade; para isso é que somos
frades. Entre para este quarto, dispa lá o seu vestido e mande-me, assim como a toca e xale. Ó
Juca? Juca?
(Empurrando Rosa:)
Não se demore.
(Entra Juca.)
Juca, acompanha esta senhora e faze o que ela te mandar. Ande, senhora, com mil diabos!
(Rosa entra no quarto a esquerda, empurrada por Carlos.)