Primeiro Ato - Cena X O Noviço · Capítulo 11 de 45
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Primeiro Ato - Cena X

Rosa e Carlos.

ROSA - Dá licença?

CARLOS - Entre.

ROSA -

(entrando)

Uma serva de Vossa Reverendíssima.

CARLOS - Com quem tenho o prazer de falar?

ROSA - Eu, Reverendíssimo Senhor, sou uma pobre mulher. Ai, estou muito cansada...

CARLOS - Pois sente-se, senhora.

(À parte:)

Quem será?

ROSA -

(sentando-se)

Eu chamo-me Rosa. Há uma hora que cheguei do Ceará no vapor Paquete do Norte.

CARLOS - Deixou aquilo por lá tranqüilo?

ROSA - Muito tranqüilo, Reverendíssimo. Houve apenas no mês passado vinte e cinco

mortes.

CARLOS - S.Brás! Vinte e cinco mortes! E chama a isso tranqüilidade?

ROSA - Se Vossa Reverendíssima soubesse o que por lá vai, não se admiraria. Mas, meu

senhor, isto são coisas que nos não pertencem; deixe lá morrer quem morre, que ninguém se

importa com isso. Vossa Reverendíssima é cá da casa?

CARLOS - Sim senhora.

ROSA - Então é parente de meu homem?

CARLOS - De seu homem?

ROSA - Sim senhor.

CARLOS - E quem é seu homem?

ROSA - Sr. Ambrósio Nunes.

CARLOS - O Sr. Ambrósio Nunes!...

ROSA - Somos casados há oito anos.

CARLOS - A senhora é casada com o Sr. Ambrósio Nunes, e isto há oito anos?

ROSA- Sim senhor.

CARLOS - Sabe o que está dizendo?

ROSA- Essa é boa

CARLOS - Está em seu perfeito juízo?

ROSA - O Reverendíssimo ofende-me...

CARLOS - Com a fortuna! Conte-me isso, conte-me como se casou, quando, como, em que

lugar?

ROSA - O lugar foi na igreja.

CARLOS- Está visto.

ROSA- Quando, já disse; há oito anos.

CARLOS - Mas onde?

ROSA -

(levanta-se)

Eu digo a Vossa Reverendíssima. Sou filha do Ceará. Tinha eu meus quinze anos quando lá

apareceu, vindo do Maranhão, o Sr. Ambrósio. Foi morar na nossa vizinhança. Vossa

Reverendíssima bem sabe o que são vizinhanças... Eu o via todos os dias, ele também via-me;

eu gostei, ele gostou e nos casamos.

CARLOS - Isso foi anda mão, fia dedo... E tem documentos que provem o que diz?

ROSA - Sim senhor, trago comigo a certidão do vigário que nos casou, assinada pelas

testemunhas, e pedi logo duas, por causa das dúvidas. Podia perder uma...

CARLOS - Continue.

ROSA - Vivi dois anos com meu marido muito bem. Passado esse tempo, morreu minha mãe.

O Sr. Ambrósio tomou conta de nossos bens, vendeu-os e partiu para Montevidéu a fim de

empregar o dinheiro em um negócio, no qual, segundo dizia, havíamos de ganhar muito. Vai

isto para seis anos, mas desde então, Reverendíssimo Senhor, não soube mais notícias dele.

CARLOS - Oh!

ROSA - Escrevi-lhe sempre, mas nada de receber resposta. Muito chorei, porque pensei que

ele havia morrido.

CARLOS - A história vai interessando-me, continue.

ROSA - Eu já estava desenganada, quando um sujeito que foi aqui do Rio disse-me que meu

marido ainda vivia e que habitava na Corte.

CARLOS - E nada mais lhe disse?

ROSA - Vossa Reverendíssima vai espantar-se do que eu disser...

CARLOS - Não me espanto, diga

ROSA - O sujeito acrescentou que meu marido tinha-se casado com outra mulher.

CARLOS - Ah, disse-lhe isso?

ROSA - E muito chorei eu, Reverendíssimo; mas depois pensei que era impossível, pois um

homem pode lá casar-se tendo a mulher viva? Não é verdade, Reverendíssimo?

CARLOS - A bigamia é um grande crime; o Código é muito claro.

ROSA - Mas na dúvida, tirei as certidões do meu casamento, parti para o Rio, e assim que

desembarquei, indaguei onde ele morava. Ensinaram-me e venho eu mesma perguntar-lhe que

histórias são essas de casamentos.

CARLOS - Pobre mulher, Deus se compadeça de ti!

ROSA - Então é verdade?

CARLOS - Filha, a resignação é uma grande virtude. Quer fiar-se em mim, seguir meus

conselhos?

ROSA - Sim senhor, mas que tenho eu a temer? Meu marido está com efeito casado?

CARLOS - Dê-me cá uma das certidões.

ROSA - Mas...

CARLOS - Fia-se ou não em mim?

ROSA - Aqui está.

(Dá-lhe uma das certidões.)

AMBRÓSIO -

(dentro)

- Desçam, desçam, que passam as horas.

CARLOS - Aí vem ele.

ROSA - Meu Deus!

CARLOS - Tomo-a debaixo da minha proteção. Venha cá; entre neste quarto.

ROSA - Mas Reverendíssimo...

CARLOS - Entre, entre, senão abandono-a.

(Rosa entra no quarto à esquerda e Carlos cerra aporta.)

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