Terceiro Ato - Cena XVII
Entra Rosa. Já vem de vestido.
ROSA - Dá licença?
FLORÊNCIA - Pode entrar. Queira ter a bondade de sentar-se.
(Senta-se.)
ROSA - Minha senhora, a nossa posição é bem extraordinária...
FLORÊNCIA - E desagradável no ultimo ponto.
ROSA - Ambas casadas com o mesmo homem...
FLORÊNCIA - E ambas com igual direito.
ROSA - Perdoe-me, minha senhora, nossos direitos não são iguais, sendo eu a primeira
mulher...
FLORÊNCIA - Oh, não falo desse direito, não o contesxto. Direito de persegui-lo quero eu
dizer.
ROSA - Nisso estou de acordo.
FLORÊNCIA - Fui vilmente atraiçoada...
ROSA - E eu indigntmente insultada...
FLORÊNCIA - Atormentei meus filhos...
ROSA - Contribui para a morte de minha mãe...
FLORÊNCIA - Estragou grande parte da minha fortuna.
ROSA - Roubou-me todos os meus bens...
FLORÊNCIA - Oh, mas hei-de vingar-me! 3
ROSA -
(levantando-se)
Havemos de vingarmo-nos, senhora, e para isso aqui me acho.
FLORÊNCIA -
(levantando-se)
Explique-se.
ROSA - Ambas fomos traídas pelo mesmo homem, ambas servimos de degrau à sua ambição.
E porventura somos disso culpadas?
FLORÊNCIA - Não.
ROSA - Quando lhe dei eu a minha mão, poderia prever que ele seria um traidor? E vós,
senhora, quando lhe désteis a vossa, que vos uníeis a um infame?
FLORÊNCIA - Oh, não!
ROSA - E nós, suas desgraçadas vítimas, nos odiaremos mutuamente, em vez de ligarmo-nos,
para de comum acordo perseguimos o traidor?
FLORÊNCIA - Senhora, nem eu, nem vós temos culpa do que se tem passado. Quisera viver
longe de vós; vossa presença aviva meus desgostos, porém farei um esforço - aceito o vosso
oferecimento - untmo-nos e mostraremos ao monstro o que podem duas fracas mulheres
quando se querem vingar.
ROSA - Eu contava convosco.
FLORÊNCIA - Agradeço a vossa confiança.
ROSA - Sou provinciana, não possuo talvez a polidez da Corte, mas tenho paixões violentas e
resoluções prontas. Aqui trago uma ordem de prisão contra o pérfido, mas ele se esconde. Os
oficiais de justiça andam em sua procura.
FLORÊNCIA - Aqui esteve há pouco.
ROSA - Quem?
FLORÊNCIA - O traidor.
ROSA - Aqui? Em vossa casa? E não vos assegurásteis dele?
FLORÊNCIA - E como?
ROSA - Ah, se eu aqui estivesse...
FLORÊNCIA - Fugiu, mas levou uma maçada de pau.
ROSA - E onde estará ele agora, onde?
AMBRÓSIO -
(arrebenta uma tábua do armário, põe a cabeça para fora)
Ai, que abafo.
FLORÊNCIA e ROSA -
(assustadas)
É ele!
AMBRÓSIO -
(com a cabeça de fora)
Oh, diabos, cá estão elas!
FLORÊNCIA - É ele! Como te achas aí?
ROSA - Estava espreitando-nos!
AMBRÓSIO - Qual espreitando! Tenham a bondade de levantar este armário.
FLORÊNCIA - Para quê?
AMBRÓSIO - Quero sair... Já não posso... Abafo, morro!
ROSA - Ah, não podes sair? Melhor.
AMBRÓSIO - Melhor?
ROSA - Sim, melhor, porque estás em nosso poder.
FLORÊNCIA - Sabes que estávamos ajustando o meio de nos vingarmos de ti, maroto?
ROSA - E tu mesmo te entregaste... Mas como?...
FLORÊNCIA - Agora já te adevinho. Bem dizia Emília; foi Carlos quem levou as bordoadas.
Ah, patife. mais essa!.
ROSA - Pagará por tudo junto.
AMBRÓSIO - Mulheres, vejam lá o que fazem!
FLORÊNCIA - Não me metes medo, grandíssimo mariola!
ROSA - Sabes que papel é este? É uma ordem de prisão contra ti que vai ser executada. Foge
agora!
AMBRÓSIO - Minha Rosinha, tira-me daqui!
FLORÊNCIA - O que é lá?
AMBRÓSIO - Florencinha, tem compaixão de mim!
ROSA - Ainda falas, patife?
AMBRÓSIO - Ai, que grito! Ai, ai!!
FLORÊNCIA - Podes gritar. Espera um bocado.
(Sai.)
ROSA - A justiça de Deus te castiga.
AMBRÓSIO - Escuta-me, Rosinha, enquanto aquele diabo está lá dentro: tu és a minha cara
mulher; tira-me daqui que eu te prometo...
ROSA - Promessas tuas? Queres que eu acredite nelas?
(Entra Florência trazendo um pau de vassoura.)
AMBRÓSIO - Mas eu juro que desta vez...
ROSA - Juras? E tu tens fé em Deus para jurares?
AMBRÓSIO - Rosinha de minha vida, olha que...
FLORÊNCIA -
(levanta o pau e dá-lhe na cabeça)
Toma maroto!
AMBRÓSIO -
(escondendo a cabeça)
Ai!
ROSA -
(rindo-se)
Ah, ah, ah!
FLORÊNCIA - Ah, pensavas que o caso havia de ficar assim? Anda, bota a cabeça de fora!
AMBRÓSIO -
(principia a gritar)
Ai! (Etc.)
ROSA, procura pela casa um pau - Não acho também um pau...
FLORÊNCIA - Grita, grita, que eu já chorei muito. Mas agora hei-de arrebentar-te esta
cabeça. Bota essa cara sem vergonha.
ROSA -
(tira o travesseiro da cama)
- Isto serve?
FLORÊNCIA - Patife! Homem desalmado!
ROSA - Zombaste, agora pagarás.
AMBRÓSIO -
(botando a cabeça de fora)
Ai, que morro!
(Dão-lhe.)
ROSA - Toma lá!
AMBRÓSIO_
(escondendo a cabeça)
Diabos!
ROSA - Chegou a nossa vez.
FLORÊNCIA - Verás como se vingam duas mulheres...
ROSA - Traídas ...
FLORÊNCIA -Enganadas...
ROSA - Por um tratante...
FLORÊNCIA - Digno de forca.
ROSA - Anda, bota a cabeça de fora!
FLORÊNCIA - Pensavas que havíamos de chorar sempre?
AMBRÓSIO -
(bota a cabeça de fora)
Já não posso
(Dão-lhe.)
Ai, que me matam!
(Esconde-se.)
ROSA - É para teu ensino,
FLORÊNCIA -
(fazendo sinais para Rosa)
- Está bem, basta, deixá-lo. Vamos chamar os oficiais de justiça.
ROSA - Nada! Primeiro hei-de lhe arrebentar a cabeça. Bota a cabeça de fora. Não queres?
FLORÊNCIA -
(fazendo sinais)
Não, minha amiga, por nossas mãos já nos vingamos. Agora, a justiça.
ROSA - Pois vamos. Um instantinho, meu olho, já voltamos.
FLORÊNCIA - Se quiser, pode sair e passear. Podemos sair, que ele não foge.
(Colocam-se juntas do armário, silenciosas.)
AMBRÓSIO -
(botando a cabeça de fora)
As fúrias já se foram. Escangalharam-me a cabeça! Se eu pudesse fugir...
(Florência e Rosa dão-lhe.)
FLORÊNCIA - Por que não foges?
ROSA - Pode muito bem.
AMBRÓSIO - Demônios
(Esconde-se.)
FLORÊNCIA - Só assim teria vontade de rir. Ah, ah!
ROSA - Há seis anos que não me rio de tão boa vontade!
FLORÊNCIA - Então, maridinho!
ROSA - Vidinha, não queres ver tua mulher?
AMBRÓSIO -
(dentro) (Gritando sempre.)