Terceiro Ato - Cena XVII O Noviço · Capítulo 43 de 45
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Terceiro Ato - Cena XVII

Entra Rosa. Já vem de vestido.

ROSA - Dá licença?

FLORÊNCIA - Pode entrar. Queira ter a bondade de sentar-se.

(Senta-se.)

ROSA - Minha senhora, a nossa posição é bem extraordinária...

FLORÊNCIA - E desagradável no ultimo ponto.

ROSA - Ambas casadas com o mesmo homem...

FLORÊNCIA - E ambas com igual direito.

ROSA - Perdoe-me, minha senhora, nossos direitos não são iguais, sendo eu a primeira

mulher...

FLORÊNCIA - Oh, não falo desse direito, não o contesxto. Direito de persegui-lo quero eu

dizer.

ROSA - Nisso estou de acordo.

FLORÊNCIA - Fui vilmente atraiçoada...

ROSA - E eu indigntmente insultada...

FLORÊNCIA - Atormentei meus filhos...

ROSA - Contribui para a morte de minha mãe...

FLORÊNCIA - Estragou grande parte da minha fortuna.

ROSA - Roubou-me todos os meus bens...

FLORÊNCIA - Oh, mas hei-de vingar-me! 3

ROSA -

(levantando-se)

Havemos de vingarmo-nos, senhora, e para isso aqui me acho.

FLORÊNCIA -

(levantando-se)

Explique-se.

ROSA - Ambas fomos traídas pelo mesmo homem, ambas servimos de degrau à sua ambição.

E porventura somos disso culpadas?

FLORÊNCIA - Não.

ROSA - Quando lhe dei eu a minha mão, poderia prever que ele seria um traidor? E vós,

senhora, quando lhe désteis a vossa, que vos uníeis a um infame?

FLORÊNCIA - Oh, não!

ROSA - E nós, suas desgraçadas vítimas, nos odiaremos mutuamente, em vez de ligarmo-nos,

para de comum acordo perseguimos o traidor?

FLORÊNCIA - Senhora, nem eu, nem vós temos culpa do que se tem passado. Quisera viver

longe de vós; vossa presença aviva meus desgostos, porém farei um esforço - aceito o vosso

oferecimento - untmo-nos e mostraremos ao monstro o que podem duas fracas mulheres

quando se querem vingar.

ROSA - Eu contava convosco.

FLORÊNCIA - Agradeço a vossa confiança.

ROSA - Sou provinciana, não possuo talvez a polidez da Corte, mas tenho paixões violentas e

resoluções prontas. Aqui trago uma ordem de prisão contra o pérfido, mas ele se esconde. Os

oficiais de justiça andam em sua procura.

FLORÊNCIA - Aqui esteve há pouco.

ROSA - Quem?

FLORÊNCIA - O traidor.

ROSA - Aqui? Em vossa casa? E não vos assegurásteis dele?

FLORÊNCIA - E como?

ROSA - Ah, se eu aqui estivesse...

FLORÊNCIA - Fugiu, mas levou uma maçada de pau.

ROSA - E onde estará ele agora, onde?

AMBRÓSIO -

(arrebenta uma tábua do armário, põe a cabeça para fora)

Ai, que abafo.

FLORÊNCIA e ROSA -

(assustadas)

É ele!

AMBRÓSIO -

(com a cabeça de fora)

Oh, diabos, cá estão elas!

FLORÊNCIA - É ele! Como te achas aí?

ROSA - Estava espreitando-nos!

AMBRÓSIO - Qual espreitando! Tenham a bondade de levantar este armário.

FLORÊNCIA - Para quê?

AMBRÓSIO - Quero sair... Já não posso... Abafo, morro!

ROSA - Ah, não podes sair? Melhor.

AMBRÓSIO - Melhor?

ROSA - Sim, melhor, porque estás em nosso poder.

FLORÊNCIA - Sabes que estávamos ajustando o meio de nos vingarmos de ti, maroto?

ROSA - E tu mesmo te entregaste... Mas como?...

FLORÊNCIA - Agora já te adevinho. Bem dizia Emília; foi Carlos quem levou as bordoadas.

Ah, patife. mais essa!.

ROSA - Pagará por tudo junto.

AMBRÓSIO - Mulheres, vejam lá o que fazem!

FLORÊNCIA - Não me metes medo, grandíssimo mariola!

ROSA - Sabes que papel é este? É uma ordem de prisão contra ti que vai ser executada. Foge

agora!

AMBRÓSIO - Minha Rosinha, tira-me daqui!

FLORÊNCIA - O que é lá?

AMBRÓSIO - Florencinha, tem compaixão de mim!

ROSA - Ainda falas, patife?

AMBRÓSIO - Ai, que grito! Ai, ai!!

FLORÊNCIA - Podes gritar. Espera um bocado.

(Sai.)

ROSA - A justiça de Deus te castiga.

AMBRÓSIO - Escuta-me, Rosinha, enquanto aquele diabo está lá dentro: tu és a minha cara

mulher; tira-me daqui que eu te prometo...

ROSA - Promessas tuas? Queres que eu acredite nelas?

(Entra Florência trazendo um pau de vassoura.)

AMBRÓSIO - Mas eu juro que desta vez...

ROSA - Juras? E tu tens fé em Deus para jurares?

AMBRÓSIO - Rosinha de minha vida, olha que...

FLORÊNCIA -

(levanta o pau e dá-lhe na cabeça)

Toma maroto!

AMBRÓSIO -

(escondendo a cabeça)

Ai!

ROSA -

(rindo-se)

Ah, ah, ah!

FLORÊNCIA - Ah, pensavas que o caso havia de ficar assim? Anda, bota a cabeça de fora!

AMBRÓSIO -

(principia a gritar)

Ai! (Etc.)

ROSA, procura pela casa um pau - Não acho também um pau...

FLORÊNCIA - Grita, grita, que eu já chorei muito. Mas agora hei-de arrebentar-te esta

cabeça. Bota essa cara sem vergonha.

ROSA -

(tira o travesseiro da cama)

- Isto serve?

FLORÊNCIA - Patife! Homem desalmado!

ROSA - Zombaste, agora pagarás.

AMBRÓSIO -

(botando a cabeça de fora)

Ai, que morro!

(Dão-lhe.)

ROSA - Toma lá!

AMBRÓSIO_

(escondendo a cabeça)

Diabos!

ROSA - Chegou a nossa vez.

FLORÊNCIA - Verás como se vingam duas mulheres...

ROSA - Traídas ...

FLORÊNCIA -Enganadas...

ROSA - Por um tratante...

FLORÊNCIA - Digno de forca.

ROSA - Anda, bota a cabeça de fora!

FLORÊNCIA - Pensavas que havíamos de chorar sempre?

AMBRÓSIO -

(bota a cabeça de fora)

Já não posso

(Dão-lhe.)

Ai, que me matam!

(Esconde-se.)

ROSA - É para teu ensino,

FLORÊNCIA -

(fazendo sinais para Rosa)

- Está bem, basta, deixá-lo. Vamos chamar os oficiais de justiça.

ROSA - Nada! Primeiro hei-de lhe arrebentar a cabeça. Bota a cabeça de fora. Não queres?

FLORÊNCIA -

(fazendo sinais)

Não, minha amiga, por nossas mãos já nos vingamos. Agora, a justiça.

ROSA - Pois vamos. Um instantinho, meu olho, já voltamos.

FLORÊNCIA - Se quiser, pode sair e passear. Podemos sair, que ele não foge.

(Colocam-se juntas do armário, silenciosas.)

AMBRÓSIO -

(botando a cabeça de fora)

As fúrias já se foram. Escangalharam-me a cabeça! Se eu pudesse fugir...

(Florência e Rosa dão-lhe.)

FLORÊNCIA - Por que não foges?

ROSA - Pode muito bem.

AMBRÓSIO - Demônios

(Esconde-se.)

FLORÊNCIA - Só assim teria vontade de rir. Ah, ah!

ROSA - Há seis anos que não me rio de tão boa vontade!

FLORÊNCIA - Então, maridinho!

ROSA - Vidinha, não queres ver tua mulher?

AMBRÓSIO -

(dentro) (Gritando sempre.)

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