Segundo Ato - Cena V
O mesmo e Ambrósio
AMBRÓSIO -
(entrando)
Estou perdido!
CARLOS - Não achou?
AMBRÓSIO - O que será de mim?
CARLOS - Talvez se escondesse em algum buraquinho de rato.
AMBRÓSIO -
(caindo sentado)
Estou perdido, perdido! Em um momento tudo se transtornou. Perdido para sempre!
CARLOS - Ainda não, porque eu posso salvá-lo.
AMBRÓSIO - Tu?
CARLOS - Eu, sim
AMBRÓSIO - Carlinho!
CARLOS - Já?
AMBRÓSIO - Carlinho!
CARLOS - Ora vejam como está terno!
AMBRÓSIO - Por tua vida, salvai-me!
CARLOS - Eu salvarei, mas debaixo de certas condições...
AMBRÓSIO - E quais são elas?
CARLOS - Nem eu nem o primo Juca queremos ser frades...
AMBRÓSIO- Não serão.
CARLOS - Quero casar-me com minha prima...
AMBRÓSIO - Casarás.
CARLOS - Quero a minha legítima...
AMBRÓSIO - Terás a tua legitima.
CARLOS - Muito bem.
AMBRÓSIO - E tu me prometes que nada dirás a tua tia do que sabes?
CARLOS - Quanto a isso pode estar certo.
(À parte:)
Veremos...
AMBRÓSIO - Agora dize-me, onde ela está?
CARLOS - Não posso, o segredo não é meu.
AMBRÓSIO - Mas dá-me sua palavra de honra que ela saiu desta casa?
CARLOS - Já saiu, palavra de mulher honrada.
AMBRÓSIO - E que nunca mais voltará?
CARLOS - Nunca mais.
(À parte:)
Isto é, se quiserem ficar com ela lá no convento, em meu lugar.
AMBRÓSIO - Agora dá-me esse papel.
CARLOS - Espera lá, o negócio não vai assim. Primeiro hão de cumprir-se as condições.
AMBRÓSIO - Carlinho, dá-me esse papel!
CARLOS - Não pode ser.
AMBRÓSIO - Dá-mo, por quem és!
CARLOS - Pior é a seca.
AMBRÓSIO - Eis-me a teus pés.
(Ajoelha-se; neste mesmo tempo aparece à porta Florência e Emília, as quais caminham para
ele pé ante pé.)
CARLOS - Isso é teima; levante-se!
AMBRÓSIO - Não me levantarei enquanto não mo deres. Para que o queres tu? Farei tudo
quanto quiseres, nada me custará para servir-te. Minha mulher fará tudo quanto ordenares;
dispõe dela.
FLORÊNCIA - A senhora pode dispor de mim, pois não...
AMBRÓSIO - Ah!
(Levanta-se espavorido.)
CARLOS, à parte - Temo-la!...
FLORÊNCIA -
(para Ambrósio)
Que patifaria é essa? Em minha casa e às minhas barbas, aos pés de uma mulher! Muito bem!
AMBRÓSIO - Florência!
FLORÊNCIA - Um dardo que te parta!
(Voltando-se para Carlos:)
E quem é a senhora?
CARLOS -
(com a cara baixa)
Sou uma desgraçada!
FLORÊNCIA - Ah, é uma desgraçada... Seduzindo um homem casado! Não sabe que...
(Carlos que encara com ela, que rapidamente tem suspendido a palavra e, como assombrada,
principia a olhar para ele, que ri-se.)
Carlos! Meu sobrinho!
EMÍLIA - O primo.
CARLOS - Sim, tiazinha, sim, priminha.
FLORÊNCIA - Que mascarada é essa?
CARLOS - É uma comédia que ensaiávamos para sábado de Aleluia.
FLORÊNCIA - Uma comédia?
AMBRÓSIO - Sim, era uma comédia, um divertimento, uma surpresa. Eu e o sobrinho
arranjávamos isso... Bagatela, não é assim, Carlinho? Mas então vocês não ouviram o ofício
até o fim? Quem pregou?
FLORÊNCIA -
(à parte)
Isto não é natural... Aqui há coisa.
AMBRÓSIO - A nossa comédia era mesmo sobre isso.
FLORÊNCIA - O que está o senhor a dizer?
CARLOS -
(à parte)
Perdeu a cabeça
( Para Florência:)
Tia, basta que saiba que era uma comédia. E antes de principiar o ensaio o tio deu-me a sua
palavra que eu não seria frade. Não é verdade, tio?
AMBRÓSIO - É verdade. O rapaz não tem inclinação, e para que obrigá-lo? Seria crueldade.
FLORÊNCIA - Ah!
CARLOS - E que a prima não seria também freira, e que se casaria comigo.
FLORÊNCIA - É verdade, Sr. Ambrósio?
AMBRÓSIO - Sim, para que constranger estas duas almas? Nasceram um para o outro;
amam-se. É tão bonito ver um tão lindo par!
FLORÊNCIA - Mas, Sr. Ambrósio, e o mundo que o senhor dizia que era um pélago, um
sorvedouro e não sei o que mais?
AMBRÓSIO - Oh, então eu não sabia que estes dous pombinhos se amavam, mas agora que o
sei, seria horrível barbaridade. Quando se fecham as portas de um convento sobre um homem,
ou sobre uma mulher que leva dentro do peito uma paixão como ressentem estes dous
inocentes, torna-se o convento abismo incomensurável de acerbos males, fonte perene de
horríssonas desgraças, perdição do corpo e da alma; e o mundo, se nele ficassem, jardim
ameno, suave encanto da vida, tranqüila paz da inocência, paraíso terrestre. E assim sendo,
mulher, queria tu que sacrificasse tua filha e teu sobrinho?
FLORÊNCIA - Oh, não, não.
CARLOS -
(à parte)
Que grande patife!
AMBRÓSIO - Tua filha, que faz parte de ti?
FLORÊNCIA - Não falemos mais nisso. O que fizeste está muito bem feito.
CARLOS - E em reconhecimento de tanta bondade, faço cessão de metade dos meus bens em
favor do meu tio e aqui lhe dou a escritura .
(Dá-lhe a certidão de Rosa).
AMBRÓSIO
(saltando para tomar a certidão)
- Caro sobrinho!
(Abraça-o.)
E eu, para mostrar o meu desinteresse, rasgo esta escritura.
(Rasga, e, à parte:)
Respiro!
FLORÊNCIA - Homem generoso!
(Abraça-o)
AMBRÓSIO -
(abraçando-a e à parte:)
Mulher toleirona!
CARLOS -
(abraçando Emília)
Isto vai de roda...
EMÍLIA - Primo!
CARLOS - Priminha, seremos felizes!
FLORÊNCIA - Abençoada seja a hora em que eu te escolhi para meu esposo! Meus caros
filhos, aprendei comigo a guiar-vos com prudência na vida. Dous anos estive viúva e não me
faltaram pretendentes. Viúva rica... Ah, são vinte cães a um osso. Mas eu tive juízo e critério;
soube distinguir o amante interesseiro do amante sincero. Meu coração falou por este homem
honrado e probo.
CARLOS - Acertadíssima escolha!
FLORÊNCIA - Chega-te para cá, Ambrosinho, não te envergonhes; mereces os elogios que te
faço.
AMBRÓSIO -
(à parte)
Estou em brasas...
CARLOS - Não se envergonhe, tio. Os elogios são merecidos.
(À parte:)
Está em talas...
FLORÊNCIA - Ouves o que diz o sobrinho? Tens modéstia? É mais uma qualidade. Como
sou feliz!
AMBRÓSIO - Acabemos com isso. Os elogios assim à queima roupa perturbam-me.
FLORÊNCIA - Se os merece...
AMBRÓSIO - Embora.
CARLOS - Oh, o tio os merece, pois não. Olhe, tia, aposto eu que o tio Ambrosinho em toda
a sua via só tem amado a tia...
AMBRÓSIO - Decerto!
(À parte:)
Quer fazer-me alguma.
FLORÊNCIA - Ai, vida da minha alma!
AMBRÓSIO -
(à parte)
- O patife é muito capaz...
CARLOS - Mas nós, os homens, somos tão falsos - assim dizem as mulheres -, que não
admira que o tio...
AMBRÓSIO -
(interrompendo-o)
Carlos, tratemos da promessa que te fiz.
CARLOS - É verdade; tratemos da promessa.
(À parte:)
Tem medo, que se pela!
AMBRÓSIO - Irei hoje mesmo ao convento falar ao D. Abade, e dir-lhe-ei que temos
mudado de resolução a teu respeito. E de hoje em quinze dias, senhora, espero ver esta sala
brilhantemente iluminada e cheia de alegres convidados para celebrarem o casamento de
nosso sobrinho Carlos com minha cara enteada.
( Aqui entra pelo fundo o mestre dos noviços, seguidos dos meirinhos e permanentes,
encaminhando-se para a frente do teatro.)
CARLOS - Enquanto assim praticardes, tereis em mim um amigo.
EMÍLIA - Senhor, ainda que não possa explicar a razão de tão súbita mudança, aceito a
felicidade que me propondes, sem raciocinar. Darei a minha mão a Carlos, não só para
obedecer a minha mãe, como porque muito o amo.
CARLOS - Cara priminha, quem será capaz agora de arrancar-me de teus braços?
MESTRE, batendo-lhe no ombro - Estais preso. (Espanto dos que estão em cena)