Terceiro Ato - Cena XI
FLORÊNCIA - Vossa Reverendíssima pode aproximar-se. Queira assentar-se.
(Senta-se.)
AMBRÓSIO, fingindo que tosse - Hum, hum, hum...
(Carlos espreita embaixo da cama.)
FLORÊNCIA - Escrevi para que viesse uma pessoa falar-me e Vossa Reverendíssima quis ter
a bondade de vir.
AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...
CARLOS -
(à parte)
O diabo do frade está endefluxado.
FLORÊNCIA - E era para tratarmos do meu sobrinho Carlos, mas já não é preciso. Aqui
esteve o padre-mestre; sobre isso falamos; está tudo justo e sem dúvida Vossa reverendíssima
já está informado.
AMBRÓSIO, o mesmo - Hum, hum, hum...
FLORÊNCIA - Vossa Reverendíssima está constipado; talvez o frio da noite...
AMBRÓSIO, disfarçando a voz - Sim, sim....
FLORÊNCIA - Muito bem.
CARLOS - Não conheci esta voz no convento...
FLORÊNCIA - Mas para que Vossa Reverendíssima não perdesse de todo o seu tempo, se
quisesse ter a bondade de ouvir-me em confissão...
AMBRÓSIO - Ah!
(Vai feichar as portas.)
FLORÊNCIA - Que faz, senhor? Feicha a porta? Ninguém nos ouve.
CARLOS-
(à parte)
O frade tem más tenções...
AMBRÓSIO -
(disfarçando a voz)
Por cautela.
FLORÊNCIA - Assente-se
(À parte:)
Não gosto muito disso...
(Alto:)
Reverendíssimo, antes de principiarmos a confissão, julgo necessário informar-lhe que fui
casada duas vezes; a primeira, com um santo homem, e a segunda, com um demônio.
AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...
FLORÊNCIA - Um homem sem honra e sem fé em Deus, um malvado. Casou-se comigo
quando ainda tinha mulher viva! Não é verdade, reverendíssimo, que este homem vai
direitinho para o inferno?
AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...
FLORÊNCIA - Oh, mas enquanto não vai para o inferno, há-de pagar nesta vida. Há uma
ordem de prisão contra ele e o malvado não ousa aparecer.
AMBRÓSIO -
(levantando-se e tirando o capuz)
E quem vos disse que ele não ouso aparecer?
FLORÊNCIA -
(fugindo da cama)
Ah!
CARLOS -
(à parte)
O senhor meu tio!
AMBRÓSIO -Podeis gritar, as portas estão feichadas. Preciso de dinheiro e muito dinheiro
para fugir desta cidade, e dar-mo-eis, senão...
FLORÊNCIA - Deixai-me! Eu chamo por socorro!
AMBRÓSIO - Que me importa? Sou criminoso; serei punido. Pois bem, cometerei outro
crime, que me pode salvar. Dar-me-eis tudo quanto possuís: dinheiro, jóias, tudo! E
desgraçada de vós, se não me obedeceis! A morte!...
FLORÊNCIA -
(corre por toda a casa, gritando)
Socorro, socorro! Ladrão, ladrão! Socorro!
(Escuro.)
AMBRÓSIO -
(seguindo-a)
Silêncio, silêncio, mulher!
CARLOS - O caso está sério!
( Vai saindo debaixo da cama no momento que Florência atira com a mesa no chão. Ouve-se
gritos fora: Abra, abra! Florência, achando-se só e no escuro, senta-se no chão, encolhe-se e
cobre-se com uma colcha.)
AMBRÓSIO -
(procurando)
Para onde foi? Nada vejo. Batem nas portas! O que farei?
CARLOS -
(à parte)
A tia calou-se e ele aqui está.
AMBRÓSIO -
(encontra-se com Carlos e agarra-lhe o hábito)
Ah, mulher, estais em meu poder. Estas portas não tardarão a ceder; salvai-me, ou mato-te!
CARLOS -
(dando-lhe uma bofetada)
Tome lá, senhor meu tio!
AMBRÓSIO - Ah!
(Cai no chão.)
CARLOS -
(a parte)
Outra vez para a concha
(Mete-se debaixo da cama.)
AMBRÓSIO -
(levantando-se)
- Que mão! Continuam a bater. Onde esconder-me? Que escuro! Deste lado vi um armário...
Ei-lo!
(Mete-se dentro.)