Terceiro Ato - Cena XI O Noviço · Capítulo 37 de 45
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Terceiro Ato - Cena XI

FLORÊNCIA - Vossa Reverendíssima pode aproximar-se. Queira assentar-se.

(Senta-se.)

AMBRÓSIO, fingindo que tosse - Hum, hum, hum...

(Carlos espreita embaixo da cama.)

FLORÊNCIA - Escrevi para que viesse uma pessoa falar-me e Vossa Reverendíssima quis ter

a bondade de vir.

AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...

CARLOS -

(à parte)

O diabo do frade está endefluxado.

FLORÊNCIA - E era para tratarmos do meu sobrinho Carlos, mas já não é preciso. Aqui

esteve o padre-mestre; sobre isso falamos; está tudo justo e sem dúvida Vossa reverendíssima

já está informado.

AMBRÓSIO, o mesmo - Hum, hum, hum...

FLORÊNCIA - Vossa Reverendíssima está constipado; talvez o frio da noite...

AMBRÓSIO, disfarçando a voz - Sim, sim....

FLORÊNCIA - Muito bem.

CARLOS - Não conheci esta voz no convento...

FLORÊNCIA - Mas para que Vossa Reverendíssima não perdesse de todo o seu tempo, se

quisesse ter a bondade de ouvir-me em confissão...

AMBRÓSIO - Ah!

(Vai feichar as portas.)

FLORÊNCIA - Que faz, senhor? Feicha a porta? Ninguém nos ouve.

CARLOS-

(à parte)

O frade tem más tenções...

AMBRÓSIO -

(disfarçando a voz)

Por cautela.

FLORÊNCIA - Assente-se

(À parte:)

Não gosto muito disso...

(Alto:)

Reverendíssimo, antes de principiarmos a confissão, julgo necessário informar-lhe que fui

casada duas vezes; a primeira, com um santo homem, e a segunda, com um demônio.

AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...

FLORÊNCIA - Um homem sem honra e sem fé em Deus, um malvado. Casou-se comigo

quando ainda tinha mulher viva! Não é verdade, reverendíssimo, que este homem vai

direitinho para o inferno?

AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...

FLORÊNCIA - Oh, mas enquanto não vai para o inferno, há-de pagar nesta vida. Há uma

ordem de prisão contra ele e o malvado não ousa aparecer.

AMBRÓSIO -

(levantando-se e tirando o capuz)

E quem vos disse que ele não ouso aparecer?

FLORÊNCIA -

(fugindo da cama)

Ah!

CARLOS -

(à parte)

O senhor meu tio!

AMBRÓSIO -Podeis gritar, as portas estão feichadas. Preciso de dinheiro e muito dinheiro

para fugir desta cidade, e dar-mo-eis, senão...

FLORÊNCIA - Deixai-me! Eu chamo por socorro!

AMBRÓSIO - Que me importa? Sou criminoso; serei punido. Pois bem, cometerei outro

crime, que me pode salvar. Dar-me-eis tudo quanto possuís: dinheiro, jóias, tudo! E

desgraçada de vós, se não me obedeceis! A morte!...

FLORÊNCIA -

(corre por toda a casa, gritando)

Socorro, socorro! Ladrão, ladrão! Socorro!

(Escuro.)

AMBRÓSIO -

(seguindo-a)

Silêncio, silêncio, mulher!

CARLOS - O caso está sério!

( Vai saindo debaixo da cama no momento que Florência atira com a mesa no chão. Ouve-se

gritos fora: Abra, abra! Florência, achando-se só e no escuro, senta-se no chão, encolhe-se e

cobre-se com uma colcha.)

AMBRÓSIO -

(procurando)

Para onde foi? Nada vejo. Batem nas portas! O que farei?

CARLOS -

(à parte)

A tia calou-se e ele aqui está.

AMBRÓSIO -

(encontra-se com Carlos e agarra-lhe o hábito)

Ah, mulher, estais em meu poder. Estas portas não tardarão a ceder; salvai-me, ou mato-te!

CARLOS -

(dando-lhe uma bofetada)

Tome lá, senhor meu tio!

AMBRÓSIO - Ah!

(Cai no chão.)

CARLOS -

(a parte)

Outra vez para a concha

(Mete-se debaixo da cama.)

AMBRÓSIO -

(levantando-se)

- Que mão! Continuam a bater. Onde esconder-me? Que escuro! Deste lado vi um armário...

Ei-lo!

(Mete-se dentro.)

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