Segundo Ato - Cena III
Entra Carlos cobrindo o rosto com um lenço. Ambrósio encaminha-se para o meio da sala,
sem olhar para ele, e assim lhe fala.
AMBRÓSIO - Senhora, muito bem conheço as vossas intenções; porém previno-vos que
muito vos enganásteis.
CARLOS - Ai, ai!
AMBRÓSIO - Há seis anos que vos deixei; tive para isso motivos muito poderosos...
CARLOS -
(à parte)
Que tratante!
AMBRÓSIO - E o meu silêncio depois deste tempo, devia ter-vos feito conhecer que nada
mais existe de comum entre nós.
CARLOS -
(fingindo que chora)
Hi, hi, hi ...
AMBRÓSIO - O pranto não me comove. Jamais podemos viver juntos... Fomos casados, é
verdade, mas que importa?
CARLOS -
(no mesmo)
Hi, hi, hi...
AMBRÓSIO - Estou resolvido a viver separado de vós.
CARLOS -
(à parte)
E eu também...
AMBRÓSIO- E para esse fim empreguei todos os meios, todos, entendeis-me?
(Carlos cai de joelhos aos pés de Ambrósio, e agarra-se às pernas dele, chorando.)
Não valem súplicas. Hoje mesmo deixareis esta cidade; senão, serei capaz de um grande
crime. O sangue não me aterra, e ai de quem me resiste! Levantai-vos e parti.
( Carlos puxa as pernas de Ambrósio, dá com ele no chão e levanta-se, rindo-se.)
Ai!
CARLOS - Ah, ah, ah!
AMBRÓSIO -
(levanta-se muito devagar, olhando muito admirado para Carlos, que se ri)
Carlos! Carlos!
CARLOS - Senhor meu tio! Ah, ah, ah!
AMBRÓSIO - Mas então o que é isto?
CARLOS - Ah, ah, ah!
AMBRÓSIO - Como te achas aqui assim vestido?
CARLOS - Este vestido, senhor meu tio... Ah, ah!
AMBRÓSIO - Maroto!
CARLOS - Tenha-se lá! Olhe que eu chamo por ela.
AMBRÓSIO - Ela quem, brejeiro?
CARLOS - Sua primeira mulher.
AMBRÓSIO - Minha primeira mulher. É falso...
CARLOS - É falso?
AMBRÓSIO - É.
CARLOS - E será também falsa esta certidão do vigário da freguesia de ...
(olhando para a certidão:)
Maranguape, no Ceará, em que se prova que o senhor meu tio recebeu-se...
(lendo:)
em santo matrimônio, à face da Igreja, com D. Rosa Escolástica, filha de Antônio Lemos, etc.,
etc.? Sendo testemunhas, etc.
AMBRÓSIO - Dá-me esse papel!
CARLOS - Devagar...
AMBRÓSIO - Dá-me esse papel!
CARLOS - Ah, o senhor meu tio encrespa-se. Olhe que a tia não está em casa, e eu sou capaz
de lhe fazer o mesmo que fiz ao D. Abade.
AMBRÓSIO - Onde está ela?
CARLOS - Em lugar que aparecerá quando eu ordenar.
AMBRÓSIO - Ainda está naquele quarto; não teve tempo de sair.
CARLOS - Pois vá ver.
(Ambrósio sai apressado)