Leia agora
A Silveirinha

Universo da obra

A Silveirinha

Capítulo 1 · A Silveirinha

Capítulo I

Petropolit. Noite de fetta em casa do banqueiro Ivan Kortakoff. — Roberto? — Sra. Condessa?... — Quem é aquela morena que está conversando acolá com o Ministro da Itália? — E' a mulher do João Zacarias. O advogado Zacarias; não conhece? — Sim, sim; a ele muito bem; mas supunha-o viuvo, ou casado com alguma jararaca que tivesse pejo de apresentar em publico... E' fantástico como esta pequena Petropolis ainda nos fornece sorprezas! — E' que essa senhora freqüenta pouco. Vive toda voltada para o marido e para os filhos. — Não sei como ha quem possa viver toda a vida voltada para o Zacarias! Roberto riu-se e acrescentou : — Chamara-lhe por aí, Mme Z. tout court. — Ah, éessa a tal Mm' Z!... — Em pessoa. — O Zacarias é rico? — O Zaxarias, como diz o Comendador Brandão — está bem. — Oh, Ia lá! repare para o colar que traz a Ministra da China! e dizer-se que ha tanto colo bonito que nunca sentiu o peso de uma jóia... — Ao menos emquanto a gente olha para os brilhantes... — O marido orgulha-se da sua propriedade! Nesse instante um homem alto, espadaudo, louro, passou rente á Condessa. Era o ministro da Noruega. Como a não tivesse visto ela puxoulhe pela manga da casaca : — Ingrat! 11 y a plus (Pune demi-heure que je vous attends, et voilà que vous passezprès de moi sans me dire un mot? O ministro curvou a cabeça rosada, mal coberta por uma cabeleira curta, còr de palha seca, dividida em duas exíguas pastinhas retorcidas, e murmurou depois de ter roçado o bigode macio pela mão sem luva da condessa : — Pardon, Madaine, mais, croyez-le, óétait à cause de vous-même... Je vous imaginais là-bas, au fond du salon... Et fy aliais, pour vous baiser Ia main, sans même regarder personne... — Flatteur, va!... Eh bien, ou est madame? — La voilà. Olharam. A ministra entrava pelo braço do banqueiro Korsakoff, dono da casa. Ele, sorridente, deixando flutuar as lindas barbas brancas sobre o largo peito bem apresentado; ela, seca, com os longos braços finos bailando dentro de umas altas luvas, e a boca entreaberta num sorriso que lhe mostrava os dentes grandes, brancos como amêndoas descascadas. Logo após, o ministro de Portugal conduzia Madame Baltazar Luz, a serpentina madame Luz, das belas toilettes e dos olhos de esmeralda, a quem Petropolis denominava — Pratinho de arroz doce — por aparecer em toda a parte, como se o arroz doce aparecesse em toda a parte... Vendo-a, a condessa voltou-se para o seu amigo Roberto, arregalando os olhinhos castanhos : — Sem canela. Roberto respondeu com o olhar, que não tinha entendido. Que diabo quereria dizer : sem canela? O ministro norueguez resmungou ainda algumas amabilidades. Quando o viu afastar-se a condessa explicou : — A Balthazar Luz está toda de branco; só leite e assucar. Por milagre parece ter-se esquecido até do carmin. Reparou? Roberto Flores não achou graça á condessa, que sempre que o espirito não lhe vinha naturalmente, o procurava á fina força. Por infelicidade para os outros, nem sempre o encontrava... — No que reparei, respondeu ele, é que lhe vai a matar aquela túnica bordada a prata. Vem luminosa, como o próprio nome. — Sim, ao menos ela sabe vestir-se... e despir-se, porque aquele decote é bem atrevido. Roberto sorriu e observou : — As duas Silveirinhas parece que estão procurando alguma cousa... — Maridos! A mais nova está cada vez mais esganiçada... Será de tanto cantar de soprano. Hontem na Capela do Colégio fiquei arrepiada ao Quvil-a. A Guiomar foi pedida em casamento por um medico velhote, um tal Jordão... — Bem vê que ao menos essa já não preciza procurar marido... Mas, o Jordão não é tal velhote. E' um rapaz de trinta e poucos anos, e bonitão. Sabe se foi aceito? — Foi. De onde o conhece você? — Nem sei... de toda a parte. — E' de boa família? será da casa Jordão, do Rio Negro ? — Talvez... Sei que é um medico estudioso, e livre-pensador... — Já me disseram. Contaram-me até que, por saber dis30, a Silveirinha, ao ser chamada pelo pai á sala para responder ao pedido do noivo, se apresentou com todas as insignias religiosas que pôde arranjar na ocasião : fita ao pescoço, de Filha de Maria; no peito todas as medalhas de santos e santas da corte celeste ; e, pendente das mãos, um grande rosário de contas grossas como araçás. A SlLVEIRINHA — Historias... — Verdade! E' singular aquela pequena. Para mim, ela está doida... — De amor. Eu acho-a muito interessante. — Bem sei. Por que não se apressou você?... — Por covardia... talvez... — Não duvido. E fez bem. Com idéas tão dissemilhantes viveriam depois num conflito... — Ah, por isso não! A minha lógica desfaria todos os seus preconceitos... — Não creia! Mais facilmente a Silveirinha o converteria, a você. Verá o que vai acontecer ao outro. Olhe, o duelo começou mesmo antes do casamento. — Como assim? — Pois não acabei de lhe contar que ela se apresentou ao noivo coberta de santinhos ? Certamente que não fez aquilo, senão para o avisar : veja bem como eu sou e quais as minhas idéas! — E ele? — Ora, ele naturalmente nem reparou; ou cuidará, como você, que isso não tem importância e que com a sua lógica de ferro demolirá os preconceitos da menina... Muito vaidosos são os homens! O que lhe afirmo é que se fosse minha filha com um ateu não se casaria ela, nem que m'o pedisse de joelhos Mas o Silveira não tem escrúpulos; tomara ele ver-se livre da filha... — Olhe, lá vem a nossa terrível Magdalena! 1. IO A SlLVEIRINHA — Por que a chama assim? — Porque ela é implacável para com toda u gente... Não poupa ninguém, nem o próprio marido, quando se quer rir á custa das fraquezas alheias... Apezar de tudo, eu gosto dela e das suas mordacidades... Diverte-me. Naturalmente procura pretextos para mostrar os dentes, que são lindos... — Vá nessa ilusão indagar porque estarão hoje aqui o Zacarias e a senhora. — Ele é advogado do Consulado russo; talvez essa circumstancia o tivesse aproximado do Korsakoff. Entretanto, condessa, que noticias me dá da sua inseparável amiga D. Clara? — Clara deve estar na outra sala, conversando com o Max, que é de uma fidelidade de molosso... Nesse instante a consuleza da Holanda precipitou-se para a condessa, perguntando-lhe em francês pelo programa da festa. Falava-se numa sorpreza. — Oui, ma chère. Nous allons voir danser Ia maxixe... E a condessa, fixando nas pupilas deslavadas da outra os seus olhinhos castanhos, já sublinhados por um núcleo de pequenas rugas, indagou se isso lhe daria prazer. — Maxixe... peut-être... sais pas... Cest Ia danse nationale, riest-ce pas ? Qui va Ia danser 1 vous? A SlLVEIRINHA I I — Oh, non, par exemple! E logo, arrependendose da sua exclamação : — Mr. Roberto Flores... le connaissez-vous ? — Charmée, Monsieur... A condessa acrescentou maliciosamente : — Je pense que ce será lui, le danseur... — Vraiment/ e a holandeza apertou a mão de Roberto Flores com uma sacudidela de antecipada admiração. — Madame Ia comtesse se moque de moi... confessou ele. — Pas du tout! pas du toul! Riram-se; e Roberto, desculpando-se, afastouse e desapareceu atraz do reposteiro da sala contígua, onde D. Clara palestrava a meia voz com o capitalista Carlos Max, ostentando a brancura artificial do colo gordo. Junto á janela, um casal de americanos moços tecia o seu « flirt » entre o fulgor das lâmpadas elétricas e o piscar das estrelinhas do céu. Vinha da rua um cheiro forte, das magnolias ao relento. Num angulo da sala, o dr. Zacarias conversava com o Gastão Soares, um rapaz adido á Legação brazileira junto ao Vaticano, e que estava agora em viligiatura em Petropolis, depois de oito anos de ausência da pátria. Roberto aproximou-se. — Então ? perguntou-lhe Gastão Soares. — E* sempre a mesma cousa. Todas as festas I a A SlLVEIRINHA iguais. E esboçou um gesto de enfado. Estupidamente iguais. — Não senhor, protesto. Hoje teremos uma novidade sensacional. — O maxixe ?! Ora adeus ! Ha muita gente aí indignada com semelhante idéa... E' exquisito, realmente, fazer-se dansar o maxixe por negros num salão aristocrático, como apresentação do que ha no paiz de curioso e interessante... — Os estrangeiros gostam ! — Se é de assuntos nacionais que se trata, poderiam ler de preferencia convidado alguma mocinha de família para tocar violão e cantar modinhas. A filha do tabelião Reis, por exemplo... Afinal, isso sempre seria outra cousa... — Certamente que seria outra cousa, respondeu Gastão; mas outra cousa muito menos pitoresca. A civilização aprecia contrastes, tem os nervos gastos, preciza de estimulantes, e, para esse efeito, — quanto peor, melhor. Acredite, os europeus estão fartos até ás copas dos chapéus de cançonetas de salão, cantadas por moças de família. E eu também. Que venham os negros de beiço grosso, cheirando a almiscar; quanto mais exóticos íorem, tanto mais apreciáveis' serão. Quando daqui a pouco os nossos creoulos se derrearem nos volteios e requebros da sua dança, verá você como estes norueguezes e montenegrinos se babam de gozo e pedem bis! A SlLVEIRINHA l 3 — Antes disso, musco-me! confessou o Zacarias, abandonando os dous amigos, que por sua vez se dirigiram para a porta do salão. — Deixe lá a opinião dos europeus, insistiu Roberto Flores; a que eu quero conhecer é a sua. — A minha, é que venham os negros. — Decididamente, a distancia em que você tem vivido do Brazil, amoleceu-lhe a fibra patriótica... — Declaro-lhe, meu amigo, que é de supremo mau gosto falar nessa cousa num salão. Deixe a fibra patriótica para os « meetings » da praça publica e diga-me quem é aquela rapariguinha de côr de rosa, que parece querer esconder-se toda atráz das sobrancelhas. Que peluda! — E' a cunhada das Guimarães e irmã do Oscar e do Raul... um bom partido. — Se me quizesse por pretendente, teria de mandar desbastar os supercilios... E aquela senhora pisca-pisca, com quem você tem estado a conversar, quem é? — Ah, essa é a Condessa Penha-rosa! Viuva do Dr. Penha-rosa, um pernambucano dado á literatura; conheceu? — Não. Titulo do papa? — Benza-o Deus. — E pensem lá nunca em suprimir a legação brazileira junto ao Vaticano... E' inteligente? — E muito curiosa. Imagine você que me l 4 A SlLVEIRINHA incumbiu de indagar porque estará hoje aqui a Madame Z.! — Se quizer, poderei adiantar alguma cousa nesse sentido. Madame Z. saiu hoje da toca, por ter conseguido do Ivan Korsakoff um convite para um advogado da roça, a quem ela protege, e que se sentiria«gaúche » numa sociedade inteiramente desconhecida. 0 rapaz é timido e ela não quiz confiar ao marido o encargo de o aproximar das damas elegantes. Olhe, lá está ela a apresental-o á Baltazar Luz. — Quer queimal-o... — Não sei quais foram as circumstancias que o aproximaram do Zacarias; mas devem ter sido poderosas. Parece que o tal provinciano é ambicioso. — E feio, mas teve sorte. Como se chama? — Não sei quê... Dias. — Outra cousa; você é amigo dessa gente, deve saber : por que chamarão á mulher do Zacarias Madame Z..' — Ela é Zélia. Por abreviatura, e por pieguice, chamavam-lhe em pequena Z. como lhe poderiam chamar T. ou Têté ou Lulú... Cresceu, mas ninguém se desacostumou de a tratar desse modo. Aconteceu casar-se com um homem cujo nome principia também por Z. As amigas começaram então, por brincadeira, a designal-a por Madame Z. E o costume pegou. A SlLVEIRINHA l 5 — Parece um nome de opereta. — E é o de uma senhora absolutamente séria. A propósito : sabe que a Silveirinha está noiva? — Sei; do Dr. Jordão. — Um belo rapaz. Por seu lado ela é original. — Delicada, mas um pouco taboa... — Tem a palidez das estericas. Mas o que eu mais aprecio nela são os olhos. Repare. Não são reveladores de uma alma inconfundível? — Bem; deixe-me agora ir cumprimentar a senhora ministra da Inglaterra. Havia borborinho na sala. Conversava-se alto e alegremente, emquanto um pianista gordo expandia lirismo num noturno de Chopin. Serviram-se sorvetes e ainda uma menina loura teve a coragem de tocar uma fantazia italiana, numa harpa mandada ir para esse efeito, propositadamente, do Rio, com muita despeza e maior maçada. Mas ninguém fazia caso da harpa nem da menina loura, para quem só os pais voltavam olhos de desmedida atenção. O sussurro diminuiu quando a Madame Korsakoff, atravessando a sala com o seu passo incerto de coxa, declarou alto que a Silveirinha ia recitar, a seu pedido, um poema de François Coppée. — Un beau poème, plein de tendresse et d'amour! Alta e esguia, de uma tez enluarada, a Silveirinha linha nos olhos castanhos e rasgados um l 6 .V SILVEIRINHA brilho forte, denunciador de qualidades excepcionais. Antes de começar a recitar, declarou á Sra. Korsakoff que seria essa a ultima vez que se exibia em publico, porque se ia casar dias depois e não achava que a uma senhora casada ficassem bem essas cousas... A Sra. Korsakoff mostrou-se lisonjeada por aquela despedida e comunicou-a aos amigos. Vendo a Silveirinha de pé, com a mãosinha pronta para o gesto airoso, o Dr. Zacarias, homem impenitente, arrastou outra vez para o salão de fumantes o seu querido amigo Gastão Soares, e, refestelando-se numa larga poltrona de marroquim verde, suspirou alto : — Não posso! é superior ás minhas forças. Essas longas poesias francesas, declamadas pelas meninas de salão, causam-me um mal estar indifinido, exquisito, assim como que uma espécie de indigestão de sorvetes de creme... — Mas a Silveirinha recita bem. Um pouco exagerada, sobretudo na pronuncia, mas emfim tem sentimento... Muito sentimento! — Então vá ouvil-a, meu amigo, vá... — Prefiro fumar. — Ora graças! Pois em mim não sei se é neurastenia, mas já não suporto prendas de salão. Tudo que não fôr conversar, adeusinho! 1J — Quer isso dizer que você amanhã não vai ao festival do Epaminondas. — Nunca, senhor! — Mas fala o Navarro. — E' que também abomino os discursos, meu amigo. Tanto mais que poderei dizer antecipadamente no que consistirá amanhã a oração do ilustre homem de letras... Verá se me engano. Na sua dição confusa, empastada, sem distinção, exclamará que não ha em todo o mundo um céu tão lindo como o nosso, nem astros cuja rutilação se possa comparar á do Cruzeiro do Sul. Esquecido de que a maior parte das pessoas que o ouvem já viram, pelo menos uma vez, em qualquer dos nossos cinematografos, as quedas do Niagara e as montanhas alpinas, afirmará ainda em ribombos de patriotada ôca, que não ha montanhas tão alcandoradas em todo o Universo como as da nossa terra, nem cachoeiras mais precipitadas do que as nossas... como se tudo isso tivesse sido feito por nós! E' bôa! — Você está exagerando... — Não estou; se não, você verá amanhã se, em contraste com os fragores das cascatas e a bruteza das rochas duras, ele não tecerá capítulos líricos, descrevendo a graça das nossas caboclinhas, saltitando descalças pelas orlas floridas de riachos em cuja água pura se reflete a sua imagem deliciosa... Os nossos oradores acham sempre l 8 geito de lisonjear a mulher. A beleza das Brazileiras! A graça das Brazileiras! O heroísmo das Brazileiras! e outras cantigas. Ora, eu já sei esta musica de cór; não direi que esteja em desacordo com ela; mas estou cansado. Meu estômago já não aceita acepipes que tenham só tempero; requer alimento são e saudável. Pensamentos em frases claras e curtas e, sobretudo, — a verdade. — A verdade! Onde a encontraremos nós! sus pirou, sorrindo, Gastão. — Nos nossos chinelos, á beira da nossa cama. — Ainda é bom quando a encontramos na intimidade; mas nem sempre isso acontece. — Nem sempre. Infelizmente a nossa sociedade está muito pervertida. Olhe, ainda ha pouco se dizia, ali na sala, que quem dá o luxo á Baltazar Luz é o Dr. Aragão! — Seria demais que o marido lhe desse isso também, além de lhe dar o nome! Em todo o caso, meu caro, não acho que a nossa sociedade seja tão pervertida como você pensa e diz... Venho de grandes centros civilizados, onde fervilha, na vida mundana, toda a sorte de escândalos e de intrigas. E' fatal. Suponho que, entre nós, ha mais aparência do que mesmo verdade em muitos dos casos que se propalam e se comentam por aí. Somos impacientes, de índole muito pouco reservada e irrequieta; mal qualquer suspeita nos passa pela cabeça, temos logo pressa de a soprar aos visinhos! Para mim, o defeito capital da nossa sociedade ó ser muito pouco culta; isso sim. — Não estou de acordo. — Como não?! — Todo o mundo sabe que o Brazil é o paiz mais intelectual da America do Sul. — E' um argumento ousado. — Incontestável. Nenhum outro tem uma produção cientifica e literária da importância da nossa. Você sabe que eu sou o homem das estatísticas. E para exemplo basta-nos ver... — Como os nossos literatos vivem bem! — Isso é outra cousa. — Como assim? Numa terra em que se lê, os literatos de talento enriquecem. Não precizam apegar-se, para viver, a funções depauperantes do jornalismo ou a empregos públicos. Num pais culto, um homem como o Baltazar Luz, que é deputado, não compra para o seu salão, como ele comprou hontem á minha vista uma tela quasi ridícula de mal feita, entre tantas outras de uma grande exposição, onde havia belos trabalhos de mestres, a escolher! — Oh, isso também é outra cousa! — Lá vem você! — Certamente. Falo-lhe em moral e você responde com intelectualidades! Por ser deputado, que obrigação tem o Baltazar de entender de pintura ? Tomara-nos nós que ele entenda — o UO que duvido um pouco — de economia política, das verbas orçamentarias e dos projetos que discute! Ao contrario : o prejuízo do brazileiro é exatamente o querer ser enciclopédico. O conveniente seria cada um aprimorar-se na sua profissão e não querer saber das outras nem entender de mais nada. Olhe, eu só leio livros de direito. — Nesse caso, os artistas só poderiam ser com preendidos e estimados por artistas! — Pois então?Poetas por poetas sejam lidos... Gastão ia replicar, quando D. Clara se aproximou, pelo braço do Carlos Max, a entreter um minuto de palestra com o Dr. Zacarias. Também eles fugiam dos versos de Coppée. E era infindável aquele conto em verso, tanto que a Sra. Korsakoff já adormecera no sofá! — Ela fecha os olhos para se concentrar. — Mas porquê abre a boca?! — Isso é que não sei! — E' falso! acudiu, rindo, D. Clara. Madame Korsakoff está atenta... está entusiasmada! Continuemos no nosso passeio, Max, antes que o senhor invente outra qualquer barbaridade... Quando os dois sairam, Gastão Soares voltou-se para o amigo : — Perguntaram-me ha pouco o nome de um rapaz moreno, que sua senhora tem apresentado hoje aqui, e eu não soube responder. Como se chama ele? — Ludgero Dias. — Provinciano... — Sim. Veio do Norte com uma carta de apresentação de uma tia de minha mulher, que muito o recomendou á sobrinha e a mim. Zelia trata, a conselho meu, de o introduzir na sociedade, ao mesmo tempo que eu o auxilio como posso na sua profissão. Ele não é águia; não chega mesmo a ter talento, mas é ambicioso e esperto... E como a esperteza é a qualidade primordial dos tempos que vão correndo, é bem possível que ainda chegue a deputado ou mesmo a ministro... — Talvez prefira chegar a rico, que é sempre melhor. — Talvez; mas olhe que a política tem para nós, brazileiros, seduções muito fortes! Sacrificamos-lhe tudo. Não sei se ela não será para todos nós ainda mais irresistível do que a fortuna... — Está aí você, que ainda não pensou em ser deputado! — Pensarei, pensarei, quando estiver rico a ponto de poder dispensar o meu tempo á política. Não pense que não esteja isso no meu programa... Ouviram nesse momento um som frouxo de palmas. — Vamos para o salão, que a poesia acabou... e vai começar o maxixe. O Dr. Zacarias levantou-se e murmurou baixo, por entre dentes : 2 2 — Canalhas... — Que quer? são as originalidades da Sra. Korsakoff... as russas têm tanta imaginação! — disse Gastão Soares, dando um puxão ao colete e seguindo com o amigo para a sala principal. — Vamos lá a ver isso... Todas as cadeiras, alinhadas aperladamente de encontro ás paredes, estavam ocupadas por homens e senhoras, cujas fisionomias denotavam a maior curiosidade. A condessa assestou para Roberto Flores o seu impertinente face-à-main, ligeiramente inclinada para a amiga D. Clara, de colo opulento e braços gordos. Madame Z., toda de cinzento, parecia considerar as cousas com soberana frieza, contrastando com a expressão ardente da alfa e esbelta Baltazar Luz, que, em pé, a seu lado, resplandecia nos brilhantes que lhe adornavam o peito chato de mulher magra, rindo das graças que lhe dizia atraz da nuca, o comendador Brandão, velho pintado e conquistador. Tinha-se feito silencio. Havia no ar como que um desses frêmitos anunciando os grandes acontecimentos. Assim, quando a voz do grande e grave piano de Pleyel, habituado ás solenidades dos cantos alemães, irrompeu nos primeiros compassos do maxixe irreverente, estava já toda a gente de pescoço estendido e olhar aguçado para a porta por onde devia entrar o par de dansadores. E quando a3 ele entrou com desembaraço, a dama com laçarotes azues na carapinha topetuda, o cavalheiro com uma casaca de aluguel, ambos pretos, ambos fortes e beiçudos, muitas senhoras não puderam conter o riso, como se tivessem visto naquele casal de homens, dous specimens de animais extranhos e irracionais. A mulher do secretario da legação da Holanda fez um gesto de susto tão brusco, que a cadeira recuou rangendo no assoalho. — Oh! murmurou ela, faurais eu peur si je les avais rencontrés pendant Ia nuit, toute seule! — Ils ne sont pas méchants, soyez süre. Tout de même, qu'ils sont drôles les Brésiliens, hein ? — Oh, oui! sibilou a outra. A dança começou. O pianista, inflamado pelo ardor da musica e da ocasião, vibrava as teclas numa volúpia de fauno. No meio da sala, os dois pretos contemplavamse de face, muito sérios, como se meditassem em cousas graves. Pouco a pouco, porém, se foram aproximando um do outro, num deslizar sereno, como que levados pelas notas da musica; depois estenderam os braços, enlaçaram-se, e começou o maxixe. Ao principio os seus meneios eram brandos, quasi delicados; mas não tardou que se acentuasse o caráter da dança na mais desabrida intrepidez. Ao influxo dos olhares ardentes de tantos bran- <J4 cos requintados, da mais fina elegância, os pretos como que se sentiam transportados ao sétimo céu das delicias. E iam e vinham sobre o chão encerado, apertadamente unidos um ao outro, arfando de gozo e de cansaço, de olhos semi-cerrados, beiços pendentes, corpos dobrados ou torcidos, em requebros e bamboleios lubricos. Fremiam-lhes as narinas chatas, e a pele reluzia-lhe como se se tivessem untado de olio. No anel humano que os circumdava havia uma intensa expressão de bestialidade. Das pupilas deslavadas dos europeus do norte, diplomatas serenos, de atitudes rígidas, irrompiam fogachos de curiosidade e lascívia. Algumas brazileiras tinham o olhar ofendido; mas as extrangeiras babavam-se de gozo. E no meio da sala os pretos redobravam de furor, corpos colados, cabeças pendentes, num derretimento impudico, com exalações de suor morrinhento, que a pouco e pouco ia abafando a sala. — Oh, ces Brésiliens! exclamou rindo imprudentemente uma extrangeira esgalgada, de nariz curto. Como a voz lhe tivesse saido por entre as varetas do leque e chegasse aos ouvidos da Baltazar Luz, esta voltou-se rapidamente para ela, com ar de assombro e desafio. Ao lado, o peitilho reluzente do severo Mr. Brighton palpitava de gosto. O mesmo acontecia ao linho de outras camisas diplomáticas. A's vezes parecia que os dansadores iam finala5 mente cair ao chão, tanto se vergavam para traz ou para a frente; mas, como se fossem feitos de borracha, logo se endireitavam, rolando os olhos nas orbitas. E era tão vivo o entusiasmo dos espectadores que, ao verem terminar a dança, pediram bis : Queriam mais! E o maxixe recomeçou, com tresdobrada volúpia. Não podia haver indecisões nem escrúpulos. Os pretos sentiam em roda o circulo de fogo em que os assistentes os envolviam; e querendo impôrse definitivamemte á admiração da sala, dançavam . A cada uma das « quebras », em que os laçarotes do topete da creoula roçavam pelo chão, irrompia de um canto da sala um uivo de incontido deleite, saído da larga boca do transvaliano Goldenberg, velho ricaço vindo á America do Sul no doce intuito de bem empregar os seus capitais abundantes. Acompanhava-o a filha, a quem Petropolis puzera a alcunha de Miss Looking-glass, porque se mirava a miude no espelhinho que trazia suspenso do pescoço por um cordão de pequeninas pérolas, e que era de um estouvamento especial e arriscado. Em vez de olhar para a dança, que a enojava, a condessa da Penha-rosa passeou as lentes do seu face-à-main por toda a galeria dos espectadores, impelida por uma curiosidade mais fina. Em uma dessas inspeções os seus olhos se ena6 contraram com os de Madame Z. e trocaram inconcientemente uma expressão de solidariedade e tristeza. As Silveirinhas tinham fugido para o vão de uma janela, voltadas para a doçura veludosa da noite perfumada ; a Baltazar Luz ardia de impaciência, abrindo e fechando consecutivamente o seu leque de rendas. E os pretos dançavam... dançavam sempre. Desviando a vista do face-à-main da condessa, Madame Z. procurou observar as impressões do seu protegido, o advogado Ludgero Dias. Vi-o encostado ao umbral de uma porta, escorrido na sua casaca nova, com o colarinho alto e o cabelo muito negro e muito liso, penteado para traz, desensombrando-lhe a testa curta, achatada nas têmporas. Ele cofiava com os dedos magros e trigueiros o bigode luzidio, de fios grossos ; e o seu rosto tinha a impenetrabilidade de uma mascara de bronze.

A Silveirinha

Sinopse

Leia gratuitamente A Silveirinha: Crônica de um verão, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 20 capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

A Silveirinha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Silveirinha

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Silveirinha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de A Silveirinha

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Sinopse do universo · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo