Da Castidade Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém · Capítulo 15 de 82
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Da Castidade

Da Castidade

# Primeira Parte

Amo a floresta. Nas cidades é ruim viver: ali há demasiados em cio.

Não é melhor cair nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma mulher em cio?

E vede estes homens: seus olhos o dizem, nada conhecem de melhor sobre a terra do que deitar-se com uma mulher.

Lodo há no fundo de sua alma; e ai deles, se seu lodo ainda por cima tem espírito!

Que ao menos fôsseis perfeitos como animais! Mas ao animal pertence a inocência.

Aconselho-vos a matar vossos sentidos? Aconselho-vos a inocência dos sentidos.

Aconselho-vos a castidade? A castidade é em alguns uma virtude, mas em muitos quase um vício.

Estes se abstêm, é verdade: mas a cadela Sensualidade olha com inveja de tudo o que fazem.

Ainda às alturas de sua virtude, e até dentro do frio espírito, segue-os esse bicho e sua inquietação.

E como sabe mendigar com graça a cadela Sensualidade por um pedaço de espírito, quando lhe é negado um pedaço de carne!

Amais as tragédias e tudo o que parte o coração? Mas sou desconfiado de vossa cadela.

Tendes olhos cruéis demais e olhais com volúpia para os sofredores. Não se terá apenas disfarçado vossa volúpia, chamando-se compaixão?

E também vos dou esta parábola: não poucos que quiseram expulsar seu diabo foram parar, eles próprios, nos porcos.

A quem a castidade é difícil, deve-se desaconselhá-la: para que não se torne o caminho do inferno, isto é, para o lodo e o cio da alma.

Falo de coisas sujas? Isso não é para mim o pior.

Não quando a verdade é suja, mas quando é rasa, é que aquele que conhece entra de má vontade em sua água.

Na verdade, há castos desde o fundo: são mais brandos de coração, riem com mais gosto e mais abundantemente que vós.

Também riem da castidade e perguntam: “que é castidade?

Não é a castidade uma tolice? Mas essa tolice veio a nós, e não nós a ela.

Oferecemos a essa hóspede abrigo e coração: agora ela mora conosco. Que fique quanto tempo quiser!”

Assim falou Zaratustra.

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