Do Filho e do Casamento Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém · Capítulo 22 de 82
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Do Filho e do Casamento

Do Filho e do Casamento

Tenho uma pergunta só para ti, meu irmão: como um prumo lanço esta pergunta em tua alma, para saber quão profunda ela é.

És jovem e desejas filho e casamento. Mas eu te pergunto: és tu um humano que tem o direito de desejar um filho?

És tu o vitorioso, o vencedor de si mesmo, o senhor dos sentidos, o dono de tuas virtudes? Assim te pergunto.

Ou fala, a partir de teu desejo, o animal e a necessidade? Ou o isolamento? Ou a discórdia contigo mesmo?

Quero que tua vitória e tua liberdade anseiem por um filho. Monumentos vivos deves construir para tua vitória e tua libertação.

Para além de ti deves construir. Mas primeiro deves estar tu mesmo construído para mim, em ângulo reto de corpo e alma.

Não apenas adiante deves propagar-te, mas para cima! Que para isso te ajude o jardim do casamento!

Um corpo mais alto deves criar, um primeiro movimento, uma roda que gira a partir de si mesma — um criador deves criar.

Casamento: assim chamo eu a vontade a dois de criar o Um que é mais do que aqueles que o criaram. Reverência um pelo outro chamo eu casamento, como diante dos que querem tal vontade.

Que este seja o sentido e a verdade de teu casamento. Mas aquilo que os muitos-demais chamam casamento, esses supérfluos — ah, como chamo eu isso?

Ah, essa pobreza da alma a dois! Ah, essa sujeira da alma a dois! Ah, esse miserável conforto a dois!

Casamento chamam eles tudo isso; e dizem que seus casamentos foram concluídos no céu.

Pois bem, não gosto dele, desse céu dos supérfluos! Não, não gosto deles, desses animais enredados na rede celeste!

Longe de mim fique também o Deus que vem mancando para abençoar aquilo que ele não juntou!

Não me riais de tais casamentos! Que filho não teria razão para chorar por seus pais?

Digno me parecia este homem e maduro para o sentido da terra: mas, quando vi sua mulher, a terra me pareceu uma casa para insensatos.

Sim, eu quisera que a terra tremesse em convulsões quando um santo e uma gansa se acasalam.

Este partiu como um herói em busca de verdades e por fim capturou para si uma pequena mentira enfeitada. Seu casamento, chama-o ele.

Aquele era áspero no convívio e escolhia com exigência. Mas, de uma só vez, estragou para sempre sua companhia: seu casamento, chama-o ele.

Aquele procurava uma criada com as virtudes de um anjo. Mas, de uma só vez, tornou-se a criada de uma mulher, e agora seria necessário que, por isso, ainda se tornasse anjo.

Cuidadosos encontrei agora todos os compradores, e todos têm olhos astutos. Mas até o mais astuto ainda compra sua mulher em saco fechado.

Muitas breves tolices — isso se chama entre vós amor. E vosso casamento põe fim a muitas breves tolices como uma longa estupidez.

Vosso amor à mulher e o amor da mulher ao homem: ah, que fosse compaixão por deuses sofredores e velados! Mas, na maioria das vezes, dois animais se adivinham um ao outro.

Mas mesmo vosso melhor amor é apenas uma metáfora arrebatada e um ardor doloroso. Uma tocha é ele, que deve iluminar-vos caminhos mais altos.

Para além de vós deveis um dia amar! Assim, aprendei primeiro a amar! E por isso tivestes de beber o cálice amargo de vosso amor.

Amargura há no cálice até do melhor amor: assim ele cria anseio pelo além-do-homem, assim cria sede em ti, o criador!

Sede no criador, flecha e anseio pelo além-do-homem: dize, meu irmão, é esta tua vontade de casamento?

Santa me parece tal vontade e tal casamento.

Assim falou Zaratustra.

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