Do Amor ao Próximo Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém · Capítulo 18 de 82
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Do Amor ao Próximo

Do Amor ao Próximo

Vós vos apertais em torno do próximo e tendes belas palavras para isso. Mas eu vos digo: vosso amor ao próximo é vosso mau amor a vós mesmos.

Fugis para o próximo, fugindo de vós mesmos, e gostaríeis de fazer disso uma virtude: mas eu atravesso com o olhar o vosso "desinteresse".

O Tu é mais antigo que o Eu; o Tu foi declarado santo, mas ainda não o Eu: assim o humano se empurra para junto do próximo.

Aconselho-vos eu o amor ao próximo? Antes ainda vos aconselho a fuga do próximo e o amor ao mais-distante!

Mais alto que o amor ao próximo é o amor ao mais-distante e vindouro; mais alto ainda que o amor aos humanos é o amor às coisas e aos fantasmas.

Este fantasma, que corre adiante de ti, meu irmão, é mais belo que tu; por que não lhe dás tua carne e teus ossos? Mas tu tens medo e corres para o teu próximo.

Não suportais estar convosco mesmos e não vos amais o bastante: então quereis seduzir o próximo ao amor e dourar-vos com o erro dele.

Eu quisera que não suportásseis estar com toda sorte de próximos e seus vizinhos; assim teríeis de criar, a partir de vós mesmos, vosso amigo e seu coração transbordante.

Convidais uma testemunha quando quereis falar bem de vós; e quando a seduzistes a pensar bem de vós, vós mesmos pensais bem de vós.

Não mente apenas aquele que fala contra seu saber, mas ainda mais aquele que fala contra seu não-saber. E assim falais de vós no convívio e, convosco, enganais o vizinho.

Assim fala o tolo: "o trato com humanos corrompe o caráter, sobretudo quando não se tem nenhum."

Um vai ao próximo porque se procura, e outro porque gostaria de perder-se. Vosso mau amor a vós mesmos faz da solidão uma prisão para vós.

São os mais-distantes que pagam por vosso amor ao próximo; e já quando estais cinco juntos, sempre um sexto deve morrer.

Também não amo vossas festas: encontrei nelas atores demais, e também os espectadores muitas vezes se comportavam como atores.

Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Que o amigo vos seja a festa da terra e um pressentimento do além-do-homem.

Eu vos ensino o amigo e seu coração demasiado cheio. Mas é preciso saber ser uma esponja quando se quer ser amado por corações demasiado cheios.

Eu vos ensino o amigo, no qual o mundo se apresenta acabado, uma taça do bem, o amigo criador, que sempre tem um mundo acabado para oferecer.

E assim como o mundo se desenrolou para ele, assim volta a enrolar-se para ele em anéis, como o devir do bem através do mal, como o devir dos fins a partir do acaso.

Que o futuro e o mais-distante sejam para ti a causa de teu hoje: em teu amigo deves amar o além-do-homem como tua causa.

Meus irmãos, não vos aconselho o amor ao próximo: aconselho-vos o amor ao mais-distante.

Assim falou Zaratustra.

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