A Outra Canção da Dança Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém · Capítulo 61 de 82
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A Outra Canção da Dança

A Outra Canção da Dança

#### 1.

"Em teu olho olhei há pouco, ó Vida: ouro vi cintilar em teu olho noturno -

meu coração ficou parado diante dessa volúpia:

- uma barca dourada vi cintilar sobre águas poderosas, uma

barca-balouço dourada, afundando, bebendo, acenando de novo!

Para meu pé, o enlouquecido de dança, lançaste um olhar, um olhar-balouço

ridente, interrogativo, derretedor:

Apenas duas vezes agitaste teu guizo com pequenas mãos - e já balançava

meu pé em loucura de dança. -

Meus calcanhares empinavam-se, meus dedos escutavam para te compreender: pois

o dançarino traz seu ouvido - nos dedos dos pés!

Saltei para ti: então fugiste para trás diante de meu salto; e contra mim

serpeou a língua de teus cabelos fugitivos e voadores!

Saltei para longe de ti e de tuas serpentes: então já estavas ali,

meio virada, o olho cheio de desejo.

Com olhares curvos - ensinas-me caminhos curvos; em caminhos curvos

meu pé aprende - astúcias!

Temo-te perto, amo-te longe; tua fuga me atrai, tua

busca me detém: - sofro, mas que não sofri por ti de bom grado!

Tu, cuja frieza acende, cujo ódio seduz, cuja fuga prende, cujo

escárnio - comove:

- quem não te odiaria, grande ligadora, enredadora, tentadora,

buscadora, achadora! Quem não te amaria, inocente, impaciente,

venturosa ao vento, pecadora de olhos infantis!

Para onde me puxas agora, tu, flor e desmedida? E agora foges de mim

de novo, doce criatura selvagem e ingrata!

Danço atrás de ti, sigo-te até sobre rastro mínimo. Onde estás? Dá-me

a mão! Ou apenas um dedo!

Aqui há cavernas e matagais: vamos nos perder! - Alto! Fica

quieta! Não vês corujas e morcegos esvoaçando?

Tu, coruja! Tu, morcego! Queres zombar de mim? Onde estamos? Dos cães

aprendeste esse uivar e ladrar.

Mostras-me amavelmente os dentinhos brancos, teus olhos maus saltam

contra mim de uma crinazinha encaracolada!

Esta é uma dança por paus e pedras: eu sou o caçador - queres ser meu

cão ou minha camurça?

Agora ao meu lado! E depressa, maliciosa saltadora! Agora para cima! E

para lá! - Ai! Lá caí eu mesmo no salto!

Ó vê-me deitado, tu, arrogância, e suplicando graça! De bom grado eu gostaria contigo

- de trilhar caminhos mais amáveis!

- caminhos de amor por arbustos quietos e coloridos! Ou ali ao longo do lago:

ali nadam e dançam peixes dourados!

Estás agora cansada? Lá adiante há ovelhas e crepúsculos: não é belo

dormir quando pastores tocam flauta?

Estás tão terrivelmente cansada? Eu te levo para lá, deixa apenas os braços caírem! E se tens

sede - eu bem teria algo, mas tua boca não quer bebê-lo! -

- Ó esta maldita serpente ligeira e flexível, bruxa de esconderijos! Para onde foste

embora? Mas no rosto sinto de tua mão duas manchas e borrões vermelhos!

Estou verdadeiramente cansado de ser sempre teu pastor ovino! Bruxa, até agora

cantei para ti, agora deves - gritar para mim!

Ao compasso de meu chicote deves dançar e gritar para mim! Acaso esqueci

o chicote? - Não!" -

#### 2.

Então a Vida me respondeu assim, tapando ao mesmo tempo os delicados ouvidos:

"Ó Zaratustra! Não estales tão terrivelmente teu chicote! Tu

bem sabes: ruído assassina pensamentos - e justamente me vêm pensamentos tão ternos.

Nós dois somos dois verdadeiros faz-nada e faz-mal-nenhum. Para além de Bem e

Mal encontramos nossa ilha e nosso verde prado - nós dois sozinhos! Por isso

já devemos ser bons um para o outro!

E mesmo que não nos amemos desde o fundo - deve-se acaso guardar rancor

quando não se ama desde o fundo?

E que sou boa contigo e muitas vezes boa demais, isso sabes: e a razão é que

tenho ciúme de tua sabedoria. Ah, essa louca velha tola da

Sabedoria!

Se tua sabedoria um dia fugisse de ti, ah! então também meu

amor logo fugiria de ti." -

Então a Vida olhou pensativa para trás de si e ao redor de si e disse baixinho:

"Ó Zaratustra, não me és fiel o bastante!

Não me amas de longe tanto quanto falas; eu sei, pensas nisso:

que queres me deixar em breve.

Há um velho, pesado, pesado sino zumbidor: ele zumbe à noite até

tua caverna lá em cima: -

- quando ouves esse sino bater a hora da meia-noite, pensas

entre uma e doze nisso -

- pensas nisso, ó Zaratustra, eu sei, que queres me deixar

em breve!" -

"Sim", respondi hesitando, "mas tu também o sabes -" E eu lhe disse

algo ao ouvido, bem no meio de suas confusas, amarelas e tolas

mechas de cabelo.

Tu sabes isso, ó Zaratustra? Isso ninguém sabe. -

E olhamo-nos e olhamos para o verde prado, sobre o qual justamente corria

a tarde fresca, e choramos juntos. - Naquele momento, porém, a Vida me era

mais cara do que jamais toda a minha sabedoria. -

Assim falou Zaratustra.

#### 3.

Um!

Ó homem! Presta atenção!

Dois!

Que diz a profunda meia-noite?

Três!

"Eu dormia, eu dormia -,"

Quatro!

"De profundo sonho despertei: -"

Cinco!

"O mundo é profundo,"

Seis!

"E mais profundo do que o dia pensou."

Sete!

"Profunda é sua dor -,"

Oito!

"Prazer - mais profundo ainda que a aflição do coração:"

Nove!

"A dor diz: passa!"

Dez!

"Mas todo prazer quer eternidade -,"

Onze!

"- quer profunda, profunda eternidade!"

Doze!

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