Da Terra da Cultura Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém · Capítulo 38 de 82
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Da Terra da Cultura

Da Terra da Cultura

Voei longe demais para dentro do futuro: um horror me assaltou.

E, quando olhei ao redor, vede! o tempo era meu único contemporâneo.

Então fugi para trás, para casa - e cada vez mais apressado: assim cheguei a vós, ó presentes, e à terra da cultura.

Pela primeira vez trouxe um olho para vós, e bom desejo: em verdade, com saudade no coração vim.

Mas que me aconteceu? Por mais angustiado que estivesse - tive de rir! Nunca meu olho vira coisa tão salpicada de cores!

Ri e ri, enquanto meu pé ainda tremia e o coração também: "aqui está, pois, a pátria de todos os potes de tinta!" - disse eu.

Pintados com cinquenta borrões no rosto e nos membros: assim estáveis sentados ali, para meu espanto, ó presentes!

E com cinquenta espelhos ao redor de vós, que adulavam vosso jogo de cores e o repetiam!

Em verdade, não poderíeis usar máscara melhor, ó presentes, do que é vosso próprio rosto! Quem poderia reconhecer-vos!

Cobertos de escrita com os sinais do passado, e também esses sinais repintados com novos sinais: assim vos escondestes bem de todos os intérpretes de sinais!

E ainda que alguém seja examinador de rins: quem ainda acreditaria que tendes rins! Pareceis cozidos de cores e de papeizinhos colados.

Todos os tempos e povos espreitam coloridos de vossos véus; todos os costumes e crenças falam coloridos de vossos gestos.

Quem vos arrancasse véus, mantos, cores e gestos conservaria justamente o bastante para espantar os pássaros.

Em verdade, eu mesmo sou o pássaro assustado que uma vez vos viu nus e sem cor; e voei embora quando o esqueleto me acenou amorosamente.

Preferiria ainda ser diarista no submundo e junto às sombras do outrora! - mais gordos e mais cheios que vós ainda são os habitantes do submundo!

Isto, sim, isto é amargura para minhas entranhas: que eu não vos suporte nem nus nem vestidos, ó presentes!

Tudo o que há de inquietante no futuro, e tudo o que um dia causou pavor a pássaros extraviados, é, em verdade, ainda mais familiar e acolhedor que vossa "realidade".

Pois assim falais: "Reais somos nós inteiramente, e sem fé nem superstição": assim vos pavoneais - ah, ainda por cima sem peito!

Sim, como poderíeis crer, ó salpicados de cores! - vós, que sois pinturas de tudo o que um dia foi crido!

Refutações ambulantes sois vós da própria fé, e quebradores de membros de todos os pensamentos. Inacreditáveis: assim vos chamo, ó reais!

Todos os tempos tagarelam uns contra os outros em vossos espíritos; e os sonhos e tagarelices de todos os tempos foram ainda mais reais do que é vosso estar desperto!

Infecundos sois vós: por isso vos falta fé. Mas quem teve de criar teve sempre também seus sonhos verdadeiros e sinais estelares - e acreditou na fé! -

Portões semiabertos sois vós, junto aos quais esperam coveiros. E esta é vossa realidade: "Tudo vale a pena ir ao fundo."

Ah, como estais diante de mim, ó infecundos, quão magros nas costelas! E muitos de vós talvez já tenham percebido isso por si mesmos.

E disseram: "Terá acaso um deus, enquanto eu dormia, me furtado secretamente alguma coisa? Em verdade, o bastante para formar disso uma mulherzinha!

Admirável é a pobreza de minhas costelas!" assim já falou mais de um presente.

Sim, sois para mim motivo de riso, ó presentes! E especialmente quando vos admirais de vós mesmos!

E ai de mim, se eu não pudesse rir de vossa admiração e tivesse de beber tudo o que é repugnante de vossas tigelas!

Assim, porém, quero levar-vos mais levemente, pois tenho coisas pesadas a carregar; e que me importa se besouros e insetos alados ainda pousam sobre meu fardo!

Em verdade, por isso ele não se tornará mais pesado para mim! E não de vós, ó presentes, há de vir-me o grande cansaço. -

Ah, para onde devo ainda subir com minha saudade! De todos os montes olho em busca de terras paternas e maternas.

Mas pátria não encontrei em parte alguma: inconstante sou em todas as cidades e uma partida em todos os portões.

Estranhos me são, e motivo de escárnio, os presentes, para os quais há pouco meu coração me impelia; e estou expulso das terras paternas e maternas.

Assim amo somente ainda a terra de meus filhos, a não descoberta, no mar mais distante: por ela mando minhas velas procurar e procurar.

Em meus filhos quero reparar o fato de ser filho de meus pais: e em todo o futuro - este presente!

Assim falou Zaratustra.

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