A Criança com o Espelho Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém · Capítulo 25 de 82
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A Criança com o Espelho

A Criança com o Espelho

Depois disso, Zaratustra voltou novamente para a montanha e para a solidão de sua caverna, e se retirou dos humanos: esperando como um semeador que lançou sua semente. Sua alma, porém, tornou-se cheia de impaciência e desejo por aqueles que amava: pois ainda tinha muito a lhes dar. Pois isto é o mais difícil: por amor, fechar a mão aberta e, como dadivoso, preservar a vergonha.

Assim passaram luas e anos para o solitário; sua sabedoria, porém, cresceu e lhe causou dores por sua plenitude.

Mas certa manhã ele despertou antes da aurora, refletiu longamente em seu leito e por fim falou a seu coração:

Por que me assustei tanto em meu sonho, a ponto de acordar? Não se aproximou de mim uma criança, carregando um espelho?

"Ó Zaratustra — falou-me a criança — olha-te no espelho!"

Mas quando olhei no espelho, então gritei, e meu coração foi abalado: pois não vi nele a mim mesmo, mas a careta e o riso escarninho de um demônio.

Em verdade, compreendo demasiado bem o sinal e a advertência do sonho: minha doutrina está em perigo, joio quer chamar-se trigo!

Meus inimigos tornaram-se poderosos e desfiguraram a imagem de minha doutrina, de tal modo que meus amados precisam envergonhar-se dos presentes que lhes dei.

Perdidos ficaram meus amigos; chegou-me a hora de procurar meus perdidos!

Com estas palavras, Zaratustra saltou de pé, mas não como um assustado que procura ar, e sim antes como um vidente e cantor assaltado pelo espírito. Admirados, sua águia e sua serpente olharam para ele: pois, como a aurora, uma felicidade vindoura jazia sobre seu rosto.

Que me aconteceu, meus animais? — disse Zaratustra. Não estou transformado? Não me veio a bem-aventurança como um vendaval?

Tola é minha felicidade, e tolices falará: ainda é jovem demais — tende, pois, paciência com ela!

Ferido estou por minha felicidade: que todos os sofredores sejam meus médicos!

A meus amigos posso descer outra vez, e também a meus inimigos! Zaratustra pode novamente falar e dar, e fazer aos amados o que há de mais amado!

Meu amor impaciente transborda em torrentes, para baixo, rumo ao nascente e ao poente. De montanhas silenciosas e tempestades de dor, minha alma ruge para os vales.

Por tempo demais ansiei e olhei ao longe. Por tempo demais pertenci à solidão: assim desaprendi o silêncio.

Boca me tornei, inteiramente, e bramido de um riacho vindo de altos rochedos: para baixo quero precipitar minha fala nos vales.

E que minha torrente de amor despenque no intransitável! Como não haveria uma torrente, por fim, de encontrar o caminho para o mar!

Há, sem dúvida, um lago em mim, eremítico, satisfeito consigo mesmo; mas minha torrente de amor o arrasta consigo para baixo — para o mar!

Novos caminhos sigo, uma nova fala me vem; cansei-me, como todos os criadores, das velhas línguas. Meu espírito já não quer caminhar sobre solas gastas.

Devagar demais corre para mim toda fala: — em teu carro salto eu, tempestade! E também a ti ainda quero açoitar com minha maldade!

Como um grito e um júbilo quero atravessar vastos mares, até encontrar as ilhas bem-aventuradas onde moram meus amigos:

E meus inimigos entre eles! Como amo agora cada um a quem apenas posso falar! Também meus inimigos pertencem à minha bem-aventurança.

E quando quero montar meu cavalo mais selvagem, minha lança é sempre o que melhor me ajuda a subir: ela é a serva de meu pé, sempre pronta:

A lança que arremesso contra meus inimigos! Como agradeço a meus inimigos por finalmente poder arremessá-la!

Grande demais era a tensão de minha nuvem: entre risos de relâmpagos, quero lançar chuvas de granizo nas profundezas.

Poderosamente se erguerá então meu peito, poderosamente soprará sua tempestade sobre as montanhas: assim lhe vem alívio.

Em verdade, como uma tempestade vem minha felicidade e minha liberdade! Mas meus inimigos deverão acreditar que o Maligno ruge sobre suas cabeças.

Sim, também vós ficareis assustados, meus amigos, diante de minha sabedoria selvagem; e talvez fujais junto com meus inimigos.

Ah, se eu soubesse atrair-vos de volta com flautas de pastor! Ah, se minha leoa Sabedoria aprendesse a rugir ternamente! E muito já aprendemos juntos!

Minha sabedoria selvagem ficou prenhe em montanhas solitárias; sobre pedras ásperas deu à luz seu filhote, seu caçula.

Agora corre loucamente pelo duro deserto e procura, procura por relva macia — minha velha sabedoria selvagem!

Sobre a relva macia de vossos corações, meus amigos! — sobre vosso amor ela gostaria de deitar seu mais amado!

Assim falou Zaratustra.

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