II Opúsculo Humanitário · Capítulo 2 de 62
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II

O Egito, com as suas maravilhosas pirâmides, e todos os admiráveis monumentos, com que o enriqueceram os Faraós, os Ptolomeus, e o seu mais famigerado conquistador Sesóstris, cujas proezas encheram seu século de assombro e os povos de terror, imitou com o resto da África, toda a Ásia na apreciação da mulher. Também o Egito jazeu sempre submergido, apesar da profunda sabedoria de seus sacerdotes, em completa ignorância a respeito da educação que convém à mulher. Seus hieroglíficos, suas curiosas múmias, e todos os fragmentos de sua admirável e extinta grandeza, e conhecimentos, que os sábios arqueólogos modernos com tanta perseverança estudam, não revelam que a inteligência da mulher fosse aí devidamente cultivada. A beleza física, entre esses povos, era o único mérito real da mulher; e ainda assim aquela que a possuía entrava em concorrência com outras, e devorava depois, como nos tempos presentes, torturantes amarguras no fundo dos serralhos e dos haréns! Essa nobre porção da humanidade ainda é hoje, para opróbrio daqueles povos, sujeita à aviltante lei da poligamia! Os Ciros, os Nabucodonosores, os Xerxes, os Alexandres, os Darios etc.2, que tiveram o poder de assolar e subjugar com seus numerosos exércitos tantas nações diversas, não compreendiam em seu furor de conquista que, conservando no embrutecimento o sexo que os alimentara, privavam-se de maior glória do que a que lhes davam suas armas! 1 Débora e Judith são fortes personagens bíblicas; Semíramis é uma rainha das mitologias grega e persa. 2 Reis e imperadores do Oriente entre a Antiguidade e a Idade Média. 19 Na Pérsia a sabedoria dos Magos; na Índia os princípios contidos nos Vedas e explicados por Dyaimine, e depois por Vyasa da 2a escola Mimansa, ou filosofia Vedanta, os Profetas mesmo, anunciando por toda a parte aos homens a palavra de Deus, nada fizeram para melhorar a condição da mulher. Enquanto estes últimos exortavam os reis e os povos a armar-se para castigarem outros reis e outros povos, ou lhes prediziam a destruição dos impérios a fim de abater-lhes o orgulho, olvidavam que a sabedoria do Eterno, na última de suas criações, quando formou a admirável máquina do universo harmonizando todas as suas partes entre si, deu ao par ditoso, que devia ser o tronco do gênero humano, o mesmo sentir, a mesma inteligência, as mesmas prerrogativas. O homem, ainda semisselvagem, arrogou a si a preeminência da força física; e tudo lhe foi submetido, a moral, assim como a inteligência da mulher, que ele quis permanecesse sempre inculta, para que mais facilmente desempenhasse a humilhante missão a que a destinava.

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